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É DESTA QUE HÁ CESSAR-FOGO EM GAZA? ANALISTAS DUVIDAM DO ACORDO DE ISRAEL, PORQUE NETANYAHU ESTÁ REFÉM DA EXTREMA-DIREITA

Expresso Online

2024-06-12 21:15:51

Hélio Carvalho Jornalista A iniciativa diplomática dos EUA, aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, recebeu o ok do Hamas. Falta conhecer a posição de Israel, mas os ministros de extrema-direita podem deitar por terra mais uma tentativa de paz. Pode a resolução resultar num cessar-fogo permanente? Dois especialistas explicam ao Expresso que estão pouco confiantes, dada a instabilidade no Governo de Telavive Quase 250 dias depois do início da guerra na Faixa de Gaza, o Conselho de Segurança das Nações Unidas deu luz verde a um plano de cessar-fogo permanente no enclave palestiniano. A proposta, apresentada pelos Estados Unidos da América e aprovada esta segunda-feira por 14 dos 15 países do Conselho, é um mero parecer positivo ao plano de três fases de Joe Biden para Gaza, já que falta o sim de Israel, que pode não chegar. No final de maio, Biden apresentou um “roteiro” que propõe um cessar-fogo de seis semanas na Faixa de Gaza e a libertação de todos os reféns ainda vivos, além da retirada de tropas israelitas das “áreas povoadas” do enclave e a libertação de “centenas de prisioneiros palestinianos” que se encontram detidos por Israel na Cisjordânia ocupada. O Hamas confirmou esta terça-feira que está disponível para aceitar o plano, que abre a porta à paz para os cerca de dois milhões de palestinianos a viver em situação extrema, mas o governo de Benjamin Netanyahu, que perdeu um dos últimos membros moderados, parece pouco disponível a fazer o mesmo. 1. O que foi aprovado? Depois de uma série de vetos a sucessivas resoluções de cessar-fogo no Conselho de Segurança, os EUA finalmente apresentaram o seu próprio plano para uma pausa nas hostilidades. A primeira fase da proposta de Joe Biden passa por um “cessar-fogo total e completo”, a saída de forças israelitas de “todas as áreas povoadas de Gaza” e a libertação de “um número de reféns” por “centenas de prisioneiros palestinianos” na Cisjordânia. Esta fase deve durar seis semanas. O final do plano passa pela “grande reconstrução” de Gaza e a entrega de restos mortais de reféns às respetivas famílias, após um cessar-fogo mais permanente. E exclui qualquer ocupação israelita, militar ou através de colonatos, na região. No texto aprovado, o órgão da ONU fala numa proposta “abrangente”, e “pede tanto a Israel como ao Hamas para o implementarem por inteiro e sem atrasos ou condições”. Dos 15 países no Conselho de Segurança, 14 votaram a favor. A Rússia optou por se abster, criticando a “falta de clareza” dos EUA em alguns pontos, mas deixou que a resolução passasse, com o seu embaixador a justificar-se com o apoio do mundo árabe. A China também argumentou que o documento é “ambíguo em muitos aspetos”, mas acabou por votar a favor devido à necessidade de pôr termo à catástrofe humanitária na Faixa de Gaza. Para Tiago André Alves, professor na Universidade Portucalense e especialista em assuntos internacionais, a proposta dos EUA tenta “salvaguardar os direitos de Israel” e, por isso, teve o aval dos próprios norte-americanos, que têm sido relutantes em reconhecer a agressividade da ofensiva israelita. “Ela passa porque é proposta pelos EUA, e obviamente que há pretensão. É curioso que não há veto, apesar do desconforto sinalizado, quer da Rússia, quer da China, quer da Argélia, e não é bloqueada porque a Rússia não quer dar a ideia de que é obstrutiva ao processo, quer capitalizar mais à frente, dizendo que são os EUA que dão respaldo diplomático permanente a Israel e não o contrário”, explicou o docente e comentador na CNN Portugal. 2. Hamas disposto a aceitar? Esta terça-feira, o grupo radical que governa a Faixa de Gaza mostrou-se disponível para negociar a proposta norte-americana, deixando claro que um fracasso em aceitar a resolução será inteiramente da culpa de Telavive. À agência Reuters, um dos líderes do Hamas a viver fora de Gaza, Sami Abu Zuhri, disse que o grupo está pronto a aceitar o acordo de cessar-fogo, mas cabe aos EUA garantir que Israel concorda. “A administração norte-americana enfrenta um teste aos seus compromissos, ao ter de convencer os invasores a acabarem imediatamente com a guerra, através da implementação da resolução”, afirmou Abu Zuhri. Outros grupos palestinianos, dos mais moderados aos mais radicais, viram com bons olhos a possibilidade de um cessar-fogo. A Autoridade Palestiniana, que governa a Cisjordânia a partir de Ramallah (apesar da ocupação israelita), disse concordar com “qualquer resolução que exija um cessar-fogo imediato e preserve a terra palestiniana”. Já a Jihad Islâmica, um grupo extremista que atua fora de Gaza, considerou “positivo” o avanço diplomático. Pouco depois do ok dos grupos palestinianos, Antony Blinken aterrou em Telavive, de onde partiu para a Jordânia para uma nova ronda de negociações, mas sublinhando aos jornalistas que, apesar do “sinal de esperança” de Abu Zuhri, falta “o que realmente conta”, que é a aprovação do Hamas que está no terreno. Ontem, os Estados Unidos disseram que estão a analisar a resposta do Hamas à proposta: "Não vou fornecer qualquer contexto ou detalhes sobre a resposta que acaba de chegar e que a nossa equipa está atualmente a avaliar, tal como os nossos amigos no Catar e no Egito", disse o porta-voz da Casa Branca John Kirby. 3. O que pensa Israel? Em Telavive, o plano de cessar-fogo de Joe Biden foi menos aplaudido. A representante de Israel nas Nações Unidas, Reut Shapir Ben-Naftaly, reagiu à aprovação da resolução afirmando que a guerra só acaba quando o Hamas for “desmantelado”, gerando dúvidas sobre o compromisso israelita com o documento. Apesar de os EUA anunciarem que a iniciativa de propor um cessar-fogo partiu de Israel, a verdade é que o Governo de Netanyahu mostra pouca vontade em chegar a um acordo. Recentemente, o executivo, que é dominado por Itamar Ben Gvir e Bezalel Smotrich, dois ministros ultraortodoxos e de extrema-direita que criticaram abertamente a proposta norte-americana, viu sair o seu rosto mais moderado, Benny Gantz, após uma demissão por divergências sobre a ofensiva em Gaza. Maria João Tomás, professora no ISCTE-IUL para as áreas de negócios internacionais e economia global, tem “muitas dúvidas” que a resolução possa ter efeitos práticos, apontando para a intransigência da extrema-direita israelita em negociar. “Netanyahu está refém da extrema-direita do seu governo porque, se não fizer o que a extrema-direita do seu governo quer, eles saem. E se eles saírem, o governo cai e Netanyahu provavelmente será julgado. O que está em causa é sobretudo a própria sobrevivência política e a sua agenda pessoal, que se está a sobrepor à vida de milhares de palestinos e ao próprio destino de Israel. E isto está a isolar Israel perante a comunidade internacional”, conclui a docente. Além disso, perspetivam-se eleições antecipadas, após a saída do moderado Benny Gantz. O atual primeiro-ministro israelita poderá também tentar jogar com as eleições presidenciais nos EUA. Donald Trump, explica Maria João Tomás, opõe-se à solução de dois Estados e seria muito mais favorável a Israel, e Netanyahu pode tentar aguentar até ter um apoio de uma Casa Branca mais republicana e pró-Israel. Tiago André Lopes aponta ainda para a dimensão ultraortodoxa no executivo de Israel, que também limita muito o sucesso de uma solução diplomática. “Quer para Smotrich, quer para Ben-Giv, quer para Amihai Eliyahu [ministro do Património], esta é uma questão teológica. Há o direito bíblico àquele território. Portanto, não podemos estar à espera de argumentos racionais e de uma lógica diplomática quando a visão que paira sobre este conflito é bíblica e teológica”, sublinhou o investigador, que acrescenta que “é muito claro que o Governo de Israel não está disponível para aceitar” um acordo. 4. EUA a mudar de discurso? Os norte-americanos têm defendido a ofensiva de Israel na Faixa de Gaza, mesmo depois de vários bombardeamentos em Rafah. John Kirby e Jake Sullivan, membros do Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, têm repetidamente recusado admitir que existe ação militar de Israel em Gaza, mesmo quando o próprio Governo israelita admitia avanços. Agora, a pressão da comunidade internacional está a colocar Biden “numa posição difícil” e, segundo Maria João Tomás, a resolução é “uma tentativa dos Estados Unidos tentarem fica bem na fotografia". "No fundo estão a vender armas para Israel - entretanto suspenderam -, mas durante muito tempo venderam armas que foram utilizadas para matar palestinos”. Tiago André Lopes refere que a postura norte-americana, protagonizada por Kirby, Sullivan e outros membros do executivo, constitui “uma narrativa que o mundo não está a aceitar”. “A surpresa para os Estados Unidos é que, desta vez, o mundo não agarra a narrativa de que Israel é pela paz, de que é pelos direitos humanos, de que é poder internacional e que está apenas a defender-se”, indica. Sobre o secretário de Estado, Antony Blinken, que voltou esta terça-feira a visitar o Médio Oriente para procurar vender a proposta de cessar-fogo, o professor na Universidade Portucalense considera que as visitas “foram até agora terrivelmente ineficazes”. “Vamos ver Blinken a fazer uma série de promessas vazias, a reiterar o apoio norte-americano à administração de Israel, a reiterar o direito que Israel tem de resgatar os reféns, e que os atos do dia 7 de outubro foram bárbaros. Mas depois vamos ter uma série de falsas linhas vermelhas impostas a Israel, que vão esvaziar em nada. Esta negação da realidade vai continuar, infelizmente”, analisa Tiago André Lopes.