DIA MUNDIAL DO AMBIENTE EM AVEIRO
2024-06-17 06:01:04

Em 2022, António Guterres, no seu discurso de abertura da COP27, começou por dizer que «estamos numa autoestrada para o inferno climático com o pé no acelerador». Esta é, talvez, a frase que mais representa as novas gerações. Como referiu no seu discurso, estamos, de facto, a lutar pelas nossas vidas. É uma batalha que estamos a perder (!) a todos os níveis. As emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar. As temperaturas globais continuam a aumentar. O nosso planeta aproxima-se rapidamente de pontos de rutura climáticos irreversíveis. Esta é uma batalha que não reconhece fronteiras, países desenvolvidos ou países emergentes. O combate às alterações climáticas faz-se com todos e a vários níveis. A União Europeia lançou o repto para atingirmos a neutralidade carbónica até 2050, e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 55 por cento até 2030. Portugal quis dar o exemplo e foi o primeiro país no mundo a definir um roteiro para neutralidade carbónica, e aprovou a Lei de Bases do Clima, em 2021. E, convém lembrar, que foi graças a esta lei que se forçou os municípios a aprovarem, em assembleia municipal, um plano municipal de ação climática. O combate às alterações climáticas começa, precisamente, nas autarquias locais. Em Aveiro, o plano de ação climática já foi aprovado. Num documento bastante completo e informativo, ficaríamos todos agradados se aquele documento fosse, de facto, aplicado. Todavia, não deixa de ser irónico que o documento que é apresentado pelo executivo aveirense seja completamente antagónico às políticas que têm sido implementadas pelo PSD/CDS. No fundo, são os próprios que reconhecem que erraram ao longo destes anos. Desde logo, na sensibilização e na formação dos munícipes - de todas as idades - para a importância do combate às alterações climáticas - porque este combate faz-se com todos, não só com os mais novos. Fica difícil fazer esta sensibilização quando se cortam árvores indiscriminadamente, sem acautelar os seus impactos para o ambiente e para as pessoas. Também nos espaços verdes e permeáveis, este executivo admite que pouco ou nada fez, uma vez que o plano de ação climática prevê o «aumento da área permeável» e a «utilização de materiais sustentáveis». É de lamentar que, ao longo de 11 anos, não tenha sido criado de raiz um único parque verde. Infelizmente, relativamente à mobilidade, o cenário é ainda mais negativo. Apesar de ter havido um reforço dos transportes públicos (muito à custa dos transportes intermunicipais), esta aposta requer a sensibilização e divulgação necessária junto das escolas, universidade, empresas e freguesias. Isto porque não existe uma estratégia de mobilidade que estabeleça filtros modais e condicione o uso do automóvel. Pelo contrário, adotou-se uma ideia de convergir o automóvel para o centro da cidade, uma vez que várias ruas perpendiculares à Avenida Dr. Lourenço Peixinho passaram ou passarão a ter circulação nos dois sentidos, trazendo ainda mais carros e mais poluição para o centro da cidade. Devemos ser a única cidade no mundo onde o transporte público cede passagem ao particular! Ao nível da mobilidade suave, Aveiro é uma cidade parada na década de 1980. Enquanto cidades como Barcelona e Paris fecham as ruas ao trânsito e criam espaços verdes com ciclovias para usufruição pública, em Aveiro, a cidade da BUGA, rasgamos estradas e colocamos os carros em frente às portas da escola dos mais novos e mais vulneráveis. Somos pioneiros em criar uma faixa de “tomada e largada” de estudantes, promovendo de forma errática a utilização do transporte particular. No município de Aveiro, após várias obras recentes, continua a ser impossível um estudante deslocar-se de bicicleta desde a Estação de Comboios a uma (qualquer) escola secundária do município, utilizando uma ciclovia dedicada. Tardamos em perceber que, como fez os Países Baixos (e outros) na década de 70/80, primeiro criam-se as infraestruturas para, posteriormente, atrair os utilizadores, utilizando a política como um condutor de promoção do melhoramento de hábitos e qualidade de vida das pessoas. Sim, o combate das alterações climáticas faz--se também a nível municipal. Contudo, faz-se com as pessoas. Auscultando e sensibilizando todos os munícipes, todas as freguesias, todas as escolas, com a universidade e com as empresas. Só seremos capazes de travar esta batalha, se todos tivermos consciência do que está em causa e as consequências que as alterações climáticas podem ter na saúde e biodiversidade de tudo o que está à nossa volta. A solução passa por nós, só precisamos de melhorar os nossos hábitos. | * Licenciado em Contabilidade (ISCA-UA); Mestrando em Gestão (Universidade Portucalense); Presidente da concelhia da Juventude Socialista de Aveiro Só seremos capazes de travar esta batalha, se todos tivermos consciência do que está em causa e quais as consequências das alterações climáticas João Sarmento