PRESIDENCIAIS NO IRÃO: REGIME DOS AYATOLLAHS ACEITA UM CANDIDATO REFORMISTA (ALÉM DE CINCO CONSERVADORES) PARA ATRAIR VOTOS
2024-06-18 19:26:03

Margarida Mota Jornalista Os iranianos vão a votos a 28 de junho para escolher o sucessor de Ebrahim Raisi, morto num desastre de aviação. Com alguma surpresa, o regime autorizou a participação de um candidato reformista. Depois de, nas últimas presidenciais, a taxa de afluência ter ficado abaixo dos 50% pela primeira vez na história da Revolução Islâmica, “aumentar a taxa de participação para 50-55% seria considerado uma forma de legitimação do sistema político, após os protestos” decorrentes do caso Mahsa Amini, defende um analista iraniano. Estes são os perfis dos seis candidatos A morte do Presidente do Irão, Ebrahim Raisi, há quase um mês, num acidente de aviação, antecipou em um ano a 14.ª eleição presidencial desde a Revolução Islâmica de 1979. A ida as urnas está marcada para 28 de junho. O Conselho de Guardiães teve mão pesada e, dos 80 nomes que se registaram para ir a votos, aprovou apenas meia dúzia. Composto por seis teólogos nomeados pelo Líder Supremo e por seis juristas designados pelo chefe do sistema judicial, este Conselho é o órgão mais influente da estrutura de poder no Irão. Além dos candidatos à presidência, aprova também os deputados e membros da Assembleia de Peritos, que nomeia o Líder Supremo. Dos seis nomes que passaram no crivo para as eleições de dia 28, cinco são conservadores e um está identificado com a ala reformista, o que é novidade em relação às últimas presidenciais, nas quais não houve reformistas a ir a votos. A autorização da candidatura de Masoud Pezeshkian - antigo ministro que, não raras vezes, aponta o dedo ao regime - provocou alguma surpresa, mas há uma razão maior do que todas as outras para que o seu nome seja opção “Nas últimas três eleições - presidenciais [2021] e duas legislativas [2020 e 2024] -, a taxa de afluência às urnas foi muito baixa. Pela primeira vez, numas presidenciais após a revolução de 1979, a taxa de participação foi inferior a 50%”, recorda ao Expresso Javad Heiran-Nia, diretor do Centro de Investigação Científica e Estudos Estratégicos do Médio Oriente, de Teerão. “Isso foi muito importante para o governo iraniano, especialmente depois dos protestos em torno do caso de Mahsa Amini [jovem iraniana morta pela polícia da moralidade por não levar o lenço na cabeça corretamente colocado]. A diminuição da taxa de participação foi avaliada como a ilegitimidade do sistema político.” “Aumentar a taxa de participação é muito importante para o Governo iraniano. E a certificação de Massoud Pezeshkian serve dois propósitos”, continua o perito iraniano. “Um deles é aumentar a participação para 50-55%, o que seria considerado uma forma de legitimação do sistema político, após os protestos. Por outro lado, este nível de participação não permitirá aos reformistas, nomeadamente Pezeshkian, ter os votos necessários para vencer as eleições. A primeira opção considerada pelo sistema político é Mohammad Baqer Qalibaf.” Neste sentido, quem são, então, os seis candidatos escolhidos pelo regime para atrair eleitores às urnas? MOHAMMAD BAQER QALIBAF 62 anos Atual presidente do Parlamento Conservador É o atual presidente do Parlamento do Irão (Majlis). Foi escolhido para o cargo em 2020, na sequência de eleições legislativas que deram a maioria na assembleia a deputados da corrente principialista. “Os principialistas defendem que há que proteger os princípios, ou seja, o modo de vida no Irão em 1979. A ideia é congelar o momento da revolução. É o fundamentalismo histórico”, explica ao Expresso Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense. “Defendem que o Irão está numa espécie de bolha temporal, em que os princípios ideológicos não podem acompanhar a evolução dos tempos, porque são imutáveis. Por isso, os principialistas são vistos, geralmente, como conservadores.” Mohammad Baqer Qalibaf tem 62 anos e nasceu em Torqabeh, na província de Razavi Khorasan (nordeste). Filho de mãe persa e pai curdo, é doutorado em Geografia Política pela Universidade Tarbiat Modares, em Teerão. Começou a carreira militar na guerra Irão-Iraque (1980-88). Para os iranianos, “esta guerra é sagrada, porque o Irão defendeu-se. Muitos países apoiaram o Iraque, que tinha um regime ditatorial”, recorda ao Expresso o iraniano Mohsen Ghasemi, nascido na cidade de Dezful, perto da fronteira com o Iraque, em 1985, durante aquela guerra. “É uma coisa que está sempre na memória dos iranianos. Cada casa, cada família tem um mártir ou veteranos da guerra.” Em 1997, Qalibaf assumiu o comando da Força Aérea da Guarda Revolucionária, onde se manteve até ao ano 2000. Neste cargo, em julho de 1999, foi um dos 24 comandantes signatários de uma carta enviada ao Presidente Mohammad Khatami (reformista), ameaçando intervir por iniciativa própria se ele permitisse que os protestos estudantis continuassem. “A nossa paciência acabou. Não podemos mais tolerar esta situação se não for tratada.” Após esses históricos protestos, o Líder Supremo nomeou Qalibaf para chefe das forças policiais, onde ficou entre 2000 e 2005. Abandonou o posto para se candidatar à presidência da Câmara de Teerão, sucedendo a Mahmud Ahmadinejad, que transitou para a presidência do país. Qalibaf foi autarca de Teerão até 2017. Nessa qualidade, em 2008, participou no exclusivo Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça. Ali concedeu uma entrevista ao jornal americano “The New York Times” onde defendeu que o Irão “não precisa de armas atómicas nem de armas não convencionais” e que “se os Estados Unidos puderem mudar a sua abordagem unilateral e substituí-la por uma abordagem bilateral, então poderemos ter diálogo”. Nos últimos 20 anos, Qalibaf disputou as presidenciais três vezes. Em 2005, foi o quarto mais votado na primeira volta, com 14,5%. Em 2013, foi o segundo mais votado, com 16,5%, numas eleições em que o moderado Hassan Rouhani foi eleito Presidente à primeira volta. E em 2017 retirou-se da corrida a favor de Ebrahim Raisi, que perdeu a corrida para Rouhani, que assim foi reeleito. MASSOUD PEZESHKIAN 69 anos Ex-ministro da Saúde Reformista Médico cardiologista, foi ministro da Saúde durante a presidência do reformista Khatami (2001-05). E foi precisamente um problema de saúde pública - a pandemia de covid-19 - que o levou a apontar o dedo às autoridades. Disse que os números reportados pelo Ministério da Saúde “não são verdadeiros” e que se fosse responsável, “Qom teria ficado em quarentena desde o primeiro dia e ninguém teria sido autorizado a sair da cidade”. Essa cidade santa xiita era então o epicentro do surto de covid-19 no país. Mais recentemente, Pezeshkian repetiu críticas ao Governo sobre a imposição do hijab, que motivou grandes manifestações populares após o caso Mahsa Amini. “É nossa culpa. Queremos implantar a fé religiosa através do uso da força. Cientificamente, é impossível”, disse numa entrevista. “Queremos que os nossos filhos sejam modestos, mas se o nosso comportamento os faz odiar a nossa religião, deveríamos pelo menos abster-nos de continuar com este método.” “Durante os protestos sobre o caso Mahsa Amini, Pezeshkian foi dos poucos deputados a falar contra o regime, a dizer que a culpa do que acontecera era do regime, e não dela. Ele sempre pôs o ónus da culpa no excesso de vigilância da polícia moral. E isso, à luz do padrão iraniano, torna-o um reformista”, comenta Tiago André Lopes. “Além disso, defende o ensino bilingue e a introdução da língua azeri no ensino público, por causa da sua origem étnica.” Nascido em 1954, em Mahabad, na província Azerbaijão Ocidental (ocidente do Irão), o pai do candidato era azeri e a mãe curda. “Pezeshkian pode tornar-se um fenómeno, por exemplo, se os curdos e os azeris lhe derem apoio. Corre o sério risco de ganhar a eleição”, diz Lopes. “Pode desequilibrar o jogo e trazer alguma expectativa ao resultado final da corrida.” Para tal, terá de convencer os eleitores descontentes que representa uma oportunidade de mudança real. A seu favor tem a ficha limpa em matéria de corrupção, problema estrutural no Irão. Deputado desde 2008, o mais velho dos seis candidatos - e o único reformista - tem como lema de campanha “Pelo Irão”. Com ele, apela a uma nova relação entre o regime e a população, em que a “desconfiança” generalizada relativamente aos políticos seja vencida através de um processo de “reconciliação” nacional. A 13 de junho passado, uma foto tornada pública de um encontro entre Pezeshkian e o antigo chefe da diplomacia iraniana Mohammad Javad Zarif, que negociou o acordo nuclear, adensou rumores de que este peso-pesado da política iraniana pode vir a ser o ministro dos Negócios Estrangeiros de Pezeshkian, em caso de vitória. A possibilidade de vencer dependerá muito da capacidade para agregar os eleitores reformistas e, em especial, os que têm avolumado os protestos antigovernamentais. “No Irão, dizem que estas são umas eleições de engenharia ”, diz Mohsen Ghasemi, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). “Querem criar um ambiente para dizer ao povo que estão a trabalhar conforme a lei, mas, na verdade, o que vemos é que o Governo tem um controlo enorme sobre quem é qualificado para ser eleito e quem não é.” Em 1994, Peeshkian perdeu a mulher, ginecologista, e um filho, num acidente de viação. Não voltou a casar e educou os outros três filhos sozinho. Defensor do acordo internacional sobre o programa nuclear de 2015, criticou deputados que gritam slogans desejando a morte a certos países. “Precisamos de tolerar os outros e trabalhar e colaborar com o mundo.” SAEED JALILI 58 anos Ex-negociador do acordo nuclear Conservador Tem 58 anos e, tal como o Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei, nasceu na cidade santa de Mashhad (nordeste). Foi negociador chefe do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano (JCPOA, de 2015) entre 2007 e 2013, o período de maior tensão internacional em redor deste dossiê. Afirmou-se como negociador inflexível, avesso a compromissos e adepto de obstáculos ao avanço diplomático. Antiamericano e autoproclamado revolucionário, é visto como possível réplica do chefe de Estado recentemente desaparecido. “É o candidato perfeito para continuar o caminho do Presidente Raisi, que não conseguiu acabar o mandato. Jalili foi candidato nas últimas eleições, mas decidiu sair da corrida a favor de Raisi”, lembra Ghasemi. Essa rigidez tem raízes no seu posicionamento ideológico. Crente nos princípios fundadores da República Islâmica, integra a fação dos principialistas. Em 2002, doutorou-se em Ciência Política pela Universidade Imam Sadegh, com uma dissertação intitulada “A Fundação do Pensamento Político Islâmico no Alcorão”. Hoje, ensina “Diplomacia do Profeta” na Universidade Imam Sadiq, em Teerão. “Do ponto de vista dos costumes sociais, defende aquela lógica apertada de uma sociedade muito conservadora”, diz Tiago André Lopes. “Em termos sociais, é um reacionário. Acha que o Islão está em guerra permanente contra os não muçulmanos, mas, essencialmente, contra os falsos crentes.” A participação de Jalili na guerra Irão-Iraque (1980-88) custou-lhe a perna direita e moldou-lhe a visão do mundo, já que Estados Unidos e Europa se colocaram ao lado do Iraque contra o Irão. O conflito valeu-lhe o título de “Mártir Vivo”. “O martírio é um conceito muito valioso, é o fim de tudo antes de se entrar no paraíso”, diz Ghasemi. “Eles criam muitas designações, como mártir vivo . Raisi é Presidente mártir . Enganam o povo. Dizem coisas populistas para fugir ao facto de, durante 45 anos, não terem feito as coisas que deveriam.” Em 1989, Jalili entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde esteve 12 anos. Em 2001, foi nomeado diretor de planeamento político no gabinete do Líder Supremo. Candidata-se à presidência pela segunda vez. Em 2013, concorreu sob o lema “Grande jihad para o salto do Irão”. Pagou o preço da frustração popular pelas sanções internacionais impostas ao país, fruto da sua rigidez diplomática, e ficou-se pelo terceiro lugar, com cerca de 11%. Apesar das suas posições antiamericanas, Jalili não consta da lista de sanções dos Estados Unidos. Pelo contrário, este ultraconservador enfrenta sanções do Canadá desde outubro de 2022, com outros 24 iranianos, “em resposta às suas graves e sistemáticas violações dos direitos humanos, bem como à grave e contínua violação da paz e segurança internacionais por parte do Irão”. ALIREZA ZAKANI 58 anos Presidente da Câmara Municipal de Teerão Conservador É um político da linha dura, com alcunha de “tanque revolucionário”, que preside à Câmara Municipal de Teerão desde 2021. Enquanto autarca, tem-se revelado entusiasta de medidas controversas, como a construção de mesquitas em parques públicos ou o Plano Noor, que visa impor à força o hijab às mulheres iranianas. A campanha tem como alvo empresas e indivíduos que desafiam as regras de indumentária da República Islâmica - cobrir a cabeça das mulheres e disfarçar os contornos do corpo - e procura ir ao encontro do incómodo de cidadãos devotos confrontados com cada vez mais mulheres sem véu em público. A chegada à Câmara foi o término de um período dedicado ao Parlamento, tendo sido deputado em dois períodos: 2004-16 e 2020-21. No Majlis, presidiu a uma comissão encarregue de trabalhar o acordo nuclear e opôs-se a esse entendimento. Regressa à disputa presidencial após ter sido desqualificado pelo Conselho de Guardiães duas vezes (2013 e 2017) e de ter desistido da corrida em 2021, para apoiar o vencedor Raisi. Nasceu em 1966, em Teerão, numa família religiosa. O pai era um conhecido atleta que lhe transmitiu a paixão pela luta livre, mas, já adulto, foi a informação que mais o entusiasmou. Hoje é proprietário de um site noticioso e de um semanário. É alvo de sanções por parte do Reino Unido, por envolvimento em casos de graves violações dos direitos humanos no Irão. MOSTAFA POUR-MOHAMMADI 64 anos Ex-ministro do Interior e da Justiça Conservador Nasceu na cidade santa de Qom, em 1960, e, ainda antes da Revolução Islâmica, ali frequentou o Seminário Haqqani, importante escola do pensamento xiita, por onde passaram muitos altos responsáveis do regime religioso. Nestas eleições, é o único clérigo a ir a votos. À semelhança do que aconteceu com o Presidente Raisi, o passado persegue Pour-Mohammadi, que Tiago André Lopes rotula de “figura sinistra”. Após a Revolução de 1979 e durante oito anos, foi procurador em “tribunais revolucionários” em várias províncias. Com Raisi, fez parte da chamada “comissão da morte”, que ordenou, supervisionou e participou na purga de dissidentes. Estima-se que, em 1988, em meses, mais de 30 mil prisioneiros políticos tenham sido assassinados em execuções extrajudiciais. A maioria pertencia à Organização dos Mujahidine do Povo Iraniano (PMOI/MEK), grupo hoje sedeado em Paris. Recentemente, numa entrevista, Pour-Mohammadi defendeu o seu papel no massacre de 1988: “Ainda não acertamos as contas com o MEK”. “É um homem complexo”, comenta Lopes. “Está ligado aos órgãos no centro de tudo o que são condenações do Irão por violações dos direitos humanos.” Pour-Mohammadi foi ministro do Interior entre 2005 e 2008, era Presidente o conservador Mahmud Ahmadinejad, e da Justiça entre 2013 e 2017, sob o chefe de Estado reformista Hassan Rouhani. No ano passado, pôs o dedo na ferida e abordou o impacto da frustração pública dos iranianos na sua motivação eleitoral. “A geração jovem distanciou-se de nós”, admitiu. “As próprias pessoas deviam estar interessadas em participar nas eleições, e isso depende do nível da sua satisfação. Temos de analisar a situação de forma realista. Hoje, a satisfação popular diminuiu e muitas entidades governamentais são responsáveis.” Esta atitude pragmática terá contribuído para ser inicialmente desqualificado para concorrer à Assembleia de Peritos, a 1 de março passado. Apresentou queixa e a sua candidatura foi aceite, mas não recebeu votos suficientes para ser eleito. Composto por 88 teólogos, este órgão é eleito pelo povo para mandatos de oito anos. É competente para supervisionar e escolher o Líder Supremo, previsivelmente o sucessor de Ali Khamenei, que tem 85 anos. AMIR-HOSSEIN GHAZIZADEH-HASHEMI 53 anos Vice-Presidente Conservador Tem 53 anos e é médico cirurgião de formação. Foi deputado entre 2008 e 2021, mas, aos olhos do público, é uma figura relativamente desconhecida. Candidata-se à presidência pela segunda vez - em 2021, foi o quarto candidato mais votado, com pouco mais de um milhão de votos. O Presidente eleito, Raisi, nomeou-o primeiro vice-presidente do Parlamento e chefe da Fundação dos Assuntos dos Mártires e dos Veteranos, que concede empréstimos à habitação a veteranos deficientes e às famílias de “mártires”. Esta organização paraestatal é alvo de sanções decretadas pelos Estados Unidos, acusada de canalizar recursos financeiros para organizações terroristas, em particular a milícia xiita libanesa Hezbollah. Ghazizadeh-Hashemi foi porta-voz da Frente de Estabilidade da Revolução Islâmica, fação política principialista descrita como “o partido mais à direita do Irão”, de que também era militante Saeed Jalili. “É, talvez, o candidato mais fraco”, conclui Tiago André Lopes. “Enquanto que Pour-Mohammadi e Jalili, por serem ultraconservadores, têm o apoio de parte da sociedade e do establishment, enquanto Qalibaf vai buscar apoio ao Parlamento e à Guarda Revolucionária, Hashemi é uma figura um pouco inócua. Agora, se o regime quiser controlar politicamente o próximo Presidente, é o candidato ideal. De todos é aquele de quem se conhece menos posições, e é mais fácil manipular, se chegar ao poder.”