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O NOVO PRESIDENTE DO IRÃO: REFORMISTA, DEFENSOR DO DIÁLOGO COM O OCIDENTE E OPOSITOR DA POLÍCIA DA MORALIDADE

Expresso Online

2024-07-06 10:05:07

Margarida Mota Jornalista A candidatura de Masoud Pezeshkian à presidência do Irão foi uma surpresa, já que não raras vezes tem criticado as autoridades do país, designadamente a propósito da imposição do hijab. Vê vantagens no acordo internacional sobre o programa nuclear e quer resolver o problema das sanções ao país através de negociações Os iranianos foram a votos e escolheram para seu próximo Presidente o reformista Masoud Pezeshkian, de 69 anos. No Irão, um reformista não renega a República Islâmica, mas reconhece que parte importante da sociedade já não se revê no projeto político e defende mudanças. Médico cardiologista de formação, foi ministro da Saúde entre 2001 e 2005, durante a presidência de Mohammad Khatami, o primeiro Presidente reformista após a Revolução Islâmica de 1979. À época, já era viúvo: perdera a mulher, ginecologista, e um filho, num acidente de viação, em 1994, e não voltou a casar, optando por educar os outros três filhos sozinho. A autorização da sua candidatura à presidência, por parte do Conselho de Guardiães, provocou surpresa, já que não raras vezes ele tem criticado o regime. Fê-lo, por exemplo, por alturas da pandemia de covid-19 quando denunciou os números reportados pelo Ministério da Saúde. “Não são verdadeiros”, afirmou, acrescentando que se fosse responsável, “Qom teria ficado em quarentena desde o primeiro dia e ninguém teria sido autorizado a sair da cidade”. Essa cidade santa xiita era então o epicentro do surto de covid-19 no país. Mais recentemente, voltou a apontar o dedo às autoridades a propósito da imposição do hijab, que motivou grandes manifestações populares após o caso Mahsa Amini. “É nossa culpa. Queremos implantar a fé religiosa através do uso da força. Cientificamente, é impossível”, disse numa entrevista. “Queremos que os nossos filhos sejam modestos, mas se o nosso comportamento os faz odiar a nossa religião, deveríamos pelo menos abster-nos de continuar com este método.” “O meu governo opor-se-á à polícia da moralidade e oponho-me firmemente a qualquer forma de coação contra qualquer ser humano. Não temos o direito de coagir mulheres e raparigas, e tenho vergonha destes comportamentos em relação a elas” “Durante os protestos sobre o caso Mahsa Amini, Pezeshkian foi dos poucos deputados a falar contra o regime, a dizer que a culpa do que acontecera era do regime, e não dela. Ele sempre pôs o ónus da culpa no excesso de vigilância da polícia moral. E isso, à luz do padrão iraniano, torna-o um reformista”, comenta Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense. “Muitos estudantes que queriam protestar foram suspensos e professores foram aposentados e despedidos. Quando reprimimos a dissidência nas universidades e na sociedade, expulsamos qualquer pessoa que quer falar. Por outro lado, dizemos que as pessoas devem vir falar. Se as pessoas concordarem connosco, têm o direito de protestar, mas se se opuserem à nossa atuação, isso será considerado ilegal. Prendemo-los, encarcerámo-los e depois levámo-los a julgamento por perturbarem os assuntos do país” “Além disso, defende o ensino bilingue e a introdução da língua azeri no ensino público, por causa da sua origem étnica”, destaca o investigador. Nascido em 1954, em Mahabad, na província Azerbaijão Ocidental (ocidente do Irão), o pai do candidato era azeri e a mãe curda, o que o tornou popular junto de algumas minorias iranianas. A seu favor tem a ficha limpa em matéria de corrupção, problema estrutural no Irão. Deputado desde 2008, o mais velho dos seis candidatos que disputaram a segunda volta - e o único reformista - teve como lema de campanha “Pelo Irão”. Com ele, apelou a uma nova relação entre o regime e a população, em que a “desconfiança” generalizada relativamente aos políticos seja vencida através de um processo de “reconciliação” nacional. Num tema fraturante entre os políticos iranianos, Pezeshkian atribui importância ao acordo internacional sobre o programa nuclear. “Se o JCPOA fosse mau, porque é que Trump e Israel o quiseram destruir e, ao mesmo tempo, no Parlamento do Irão, deputados atearam fogo ao JCPOA?”, disse, realçando a postura contraditória dos opositores do acordo. Durante a campanha, Pezeshkian dirigiu-se diretamente a Jalili: “Se não aceitarmos o JCPOA, qual é a sua alternativa”? Ficou sem resposta. “O acordo nuclear é vantajoso. Outros problemas da esfera da política externa não poderiam ser resolvidos sem o acordo estar finalizado” A 13 de junho passado, uma foto tornada pública de um encontro entre Pezeshkian e o antigo chefe da diplomacia iraniana Mohammad Javad Zarif, que negociou o acordo nuclear, adensou rumores sobre se este peso-pesado da política iraniana poderá vir a ser o seu ministro dos Negócios Estrangeiros. Pezeshkian advoga uma política externa equilibrada, assente em interações com o Leste e com o Ocidente, na linha da “Interação Construtiva” do Presidente reformista Hassan Rohani. Esta estratégia consagra a interação do Irão com países vizinhos, nações europeias e potências globais através da diplomacia e não do confronto e tem como um dos principais objetivos a integração do país na economia global. “Na região, temos potencial para sermos um centro de trânsito de leste para oeste e trazer benefícios significativos. Porque é que ainda não o conseguimos? Porque estamos em conflito entre nós e com os nossos vizinhos” No passado, criticou deputados que gritaram slogans desejando a morte a certos países. “Precisamos de tolerar os outros e trabalhar e colaborar com o mundo.” A POSIÇÃO DE PEZESHKIAN SOBRE OUTROS TEMAS SANÇÕES “Vou levantar as sanções normalizando as relações e adotando uma abordagem política colaborativa” MÉDIO ORIENTE “Nunca aceitarei a ocupação de terras alheias nem tolerarei o genocídio e o racismo” ESTADOS UNIDOS “Quem quer negociar não impõe sanções. Um governo que afirma estar pronto para as negociações não destrói negociações anteriores. Nunca se deve confiar nestas pessoas” MULHERES “Devemos ensinar a igualdade entre mulheres e homens desde a infância. Defendo ativamente legislação de segurança das mulheres e trabalharei para eliminar o estatuto de segunda classe das mulheres em posições de autoridade e na esfera económica”