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POUPAR COM A ENERGIA DO SOL (AINDA) NÃO CABE NO BOLSO DE TODOS

Negócios Online

2024-07-08 06:01:05

Muitas famílias investiram em painéis solares com a promessa de apoios que agora tardam em chegar. Para um gasto inicial que ronda os 3.000 a 6.000 euros, o Fundo Ambiental devolve apenas cerca de 1.000 euros. A família Brito - um casal com dois filhos - vive numa moradia de dois pisos na zona de Belém, em Lisboa, com jardim e piscina (mas sem carro elétrico), e paga por mês uma conta de luz que ronda os 220 euros por 1.000 kWh. Para reduzir entre 30 a 50% o encargo com a energia que compram à rede, decidiram instalar painéis solares no telhado de casa. Além de poupar querem ser mais "verdes", passando a produzir a sua própria eletricidade renovável para autoconsumo doméstico. Simulações feitas e informações pedidas a várias empresas - Otovo, Galp, Goldenergy, EDP e Iberdrola -, descobrem que terão de instalar sete a 12 painéis e gastar à cabeça entre 3.000 e 6.000 euros. Ou então, ficar a pagar uma mensalidade entre 31 e 165 euros . Isto para pouparem na fatura mensal algo como 65 a 97 euros, ou 780 a 1.164 euros por ano. Caso decidam instalar também uma bateria para armazenar energia de dia e gastar de noite, terão de gastar mais: entre 6.300 e 9.500 euros. 2,1Painéis solares Portugal já tem hoje em dia uma geração descentralizada renovável de 2,1 GW. A família Brito é apenas o exemplo de um consumidor-tipo, usado pelo Negócios para apurar quanto custa ter painéis solares no telhado de casa, uma tendência que está a ganhar dimensão em Portugal. Dados de maio da Direção Geral de Energia e Geologia mostram que a produção descentralizada total em Portugal atinge já uma potência de 2,1 gigawatts, sendo que, deste valor, a maior fatia (1,8 GW) diz respeito a unidades de produção para autoconsumo (UPAC) fotovoltaicas. Estas produziram até maio 1,9 terawatts-hora, ou seja, 4,4% do total das renováveis a nível nacional (43 TWh ). 40Queda na procura Com os atrasos nos apoios, estima-se uma quebra de 40% na procura de painéis. A corrida aos painéis solares por parte das famílias portugueses disparou 181% em 2022, revelam os dados da plataforma online de contratação de serviços Fixando. Isto aconteceu à boleia dos apoios do Fundo Ambiental, que prometem devolver entre 1.000 e 3.300 euros do valor gasto com painéis. Depois de cair 3% em 2023, no primeiro semestre de 2024 a redução da procura acentuou-se ainda mais, com os serviços de instalação de painéis solares a assinalar uma queda de 32%, face ao mesmo período do ano passado. "Acreditamos que a quebra até ao final de 2024 seja superior ao inicialmente projetado (8%) e que chegue a valores entre os 30 e os 40%", disse ao Negócios o CEO da Fixando, Miguel Mascarenhas. Na base destas previsões estão os enormes atrasos na avaliação das candidaturas ao Fundo Ambiental e respetivos pagamentos dos subsídios, em dívida desde outubro de 2023. Até junho, a procura por painéis solares caiu 32% por falta dos apoios do Fundo Ambiental. As empresas que vendem e instalam painéis solares criticam o curto período de candidaturas aos apoios do Fundo Ambiental e também a grande burocracia do processo. Soma-se "a incerteza quanto à abertura de novas candidaturas, que leva muitas famílias a adiar estes projetos. Isto resulta num abrandamento da procura atual, mas também poderá provocar um aumento muito repentino quando os apoios voltarem, sobrecarregando o setor", explica Mascarenhas, CEO da Fixando. 90Bateria poupa mais Num sistema de painéis solares com bateria, a poupança de energia da rede pode ir até 90%. Também Manuel Pina, CEO da Otovo, uma das poucas empresas em Portugal que vende painéis em modelo de subscrição (espécie de leasing , sem investimento inicial), confirma uma quebra de 30% nas vendas e uma "grande diferença na procura dos portugueses entre 2023 e 2024". Na visão do responsável, é precisamente a falta de previsibilidade dos subsídios para comprar painéis solares que cria "distorções no mercado". O responsável chama ainda a atenção para a questão fiscal, sendo que os painéis solares são vendidos com uma taxa de IVA reduzida de 6%, enquanto as baterias permanecem nos 23%, o que acaba por fazer disparar (para o dobro) o valor a pagar por um sistema doméstico de produção fotovoltaica com capacidade de armazenamento, apesar dos benefícios para a carteira (com poupanças que podem ir até aos 90%). Tendo a Otovo duas formas de comercializar painéis solares (subscrição e pronto pagamento), o CEO aconselha as famílias a fazerem contas ao valor por kWh e não ao preço total do sistema. "É como comprar azeite: devemos olhar para o preço por litro e não para o tamanho do garrafão", explica. De acordo com os cálculos da empresa, com subscrição, a família Brito ficaria a pagar 83 cêntimos por cada kWh (sistema de 3,5 kW), face a preços que variam entre os 89 cêntimos e 1,47 cêntimos nas ofertas que obrigam à aquisição dos painéis. No entanto, e apesar de não exigir um grande investimento inicial, ao fim de 20 anos esta opção custará 7.440 euros, quase três vezes mais face aos 2.811 euros a pronto. Tome nota O que deve saber antes de apostar na energia solar Tem dúvidas sobre se deve, ou não, investir em painéis solares para diminuir a conta da eletricidade? Estas são algumas dicas a ter em conta antes de tomar uma decisão final. Em que locais podem ser instalados os painéis solares? O que é preciso para produzir energia para autoconsumo em casa? Ao fim de quanto tempo é recuperado o investimento inicial? Quais as modalidades disponíveis para comprar painéis solares? Qual é a taxa de IVa aplicada aos painéis solares? Que apoios existem para comprar painéis? Em que locais podem ser instalados os painéis solares? Habitualmente são instalados nos telhados das moradias ou em terrenos privados, quintais ou terraços, caso seja permitido, e desde que no local não existam sombras. É proibida a instalação de painéis solares em locais com contadores provisórios (obras, por exemplo), sendo que a contratação dos mesmos deve ser feita depois do contador definitivo estar instalado. O que é preciso para produzir energia para autoconsumo em casa? Para começar, é necessário a habitação ter um contador inteligente instalado e este estar devidamente parametrizado. Depois há também que registar o conjunto dos painéis, denominados como unidade de produção para autoconsumo (UPAC) no portal da Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG). Este registo é fundamental para a medição dos consumos e da energia injetada na rede. Sem este passo, o operador da rede de distribuição (E-Redes, do Grupo EDP) não reconhecerá a instalação como uma UPAC, impedindo o apuramento do saldo entre a energia autoconsumida e aquela que foi comprada à rede. Para potências iguais ou inferiores a 350 Watts não é necessário controlo prévio. Acima desse nível e até 30 kW têm de ser previamente comunicadas à DGEG. Ao fim de quanto tempo é recuperado o investimento inicial? Caso seja consuma a totalidade da energia produzida, é possível recuperar o investimento ao fim de quatro anos. No entanto, em média, os consumidores levam entre 5 a 10 anos a recuperar o valor, dependendo do número de painéis solares instalados, da sua localização e da poupança anual na fatura de eletricidade, que pode variar entre 20 e 50%, de acordo com os vários "players" do mercado. Quais as modalidades disponíveis para comprar painéis solares? Os consumidores podem optar pelo pronto pagamento integral, pagamento faseado sem juros de três e cinco anos ou pelo modelo de subscrição (tipo leasing ). Qual é a taxa de IVa aplicada aos painéis solares? Em julho de 2022 entrou em vigor a redução do IVA dos painéis fotovoltaicos para a taxa de 6%. Os sistemas de painéis solares vendidos com bateria também são taxados a 6%, mas se as baterias forem vendidas sozinhas passam para 23% de IVA. Que apoios existem para comprar painéis? O Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis, do Fundo Ambiental, devolve até 85% do valor gasto: entre 1.000 e 3.300 euros, consoante tenha ou não bateria. Para famílias carenciadas há o "Vale Eficiência", com um máximo de 3.900 euros por candidatura. Bárbara Silva barbarasilva@negocios.pt | José Tiny - Ilustração