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SOBRE RODAS - REFORÇO DE PESO PARA O CLUSTER AUTOMÓVEL NACIONAL?

Visão

2024-07-11 07:34:05

O fabrico de um carro elétrico na Autoeuropa será não só a garantia de futuro da maior fábrica de automóveis do País, como garantirá encomendas aos fabricantes de componentes sediados em Portugal A administração do Grupo Volkswagen garantiu aos representantes dos trabalhadores da Autoeuropa que está a considerar trazer o fabrico de um carro elétrico para a Autoeuropa, no decorrer de um encontro do Comité Mundial das Comissões de Trabalhadores deste grupo alemão, que decorreu em Wolfsburgo nos passados dias 27 e 28 de junho. A informação foi avançada à Agência Lusa por Rogério Nogueira, o coordenador da Comissão de Trabalhadores da unidade de Palmela, que garantiu que a decisão será tomada nos próximos meses. Desde que a Europa decidiu avançar com uma transição acelerada para a mobilidade elétrica, acabando com a venda de veículos com motor a combustão até 2035, que os funcionários da maior fábrica de automóveis de Portugal, a Autoeuropa, têm manifestado a sua preocupação com o futuro desta unidade fabril. “Estamos, como é óbvio, bastante agradados com a possibilidade de a Autoeuropa estar em posição de poder receber mais um modelo para a produção, e desta vez elétrico”, disse Rogério Nogueira. Apesar da grande aceitação internacional do modelo que ali é produzido, o T-Roc, o terceiro modelo mais vendido em toda a Europa em 2023, o aproximar do final dos carros a combustão na Europa poderia pôr em causa a viabilidade desta unidade fabril. “Como é do conhecimento de todos, está a ser feito um grande investimento para o futuro, preparando a fábrica para estar em condições de produzir também carros elétricos. A Comissão de Trabalhadores continuará a fazer pressão ao seu nível para que essa possibilidade se torne uma certeza”, acrescentou. Mas esta não é apenas uma boa notícia para os trabalhadores da Autoeuropa. Esta informação surge na mesma semana em que a fábrica da Stellantis de Mangualde apresentou os primeiros veículos elétricos produzidos no País. Tratam-se de furgões ligeiros, comerciais e de passageiros, das quatro marcas fabricadas naquela unidade fabril: Peugeot, Citroën, Opel e Fiat. Para iniciar esta alteração, Mangualde investiu um total de 30 milhões de euros na construção de uma nova linha de montagem que pudesse acomodar as baterias. O anúncio da vinda de um veículo elétrico para a Autoeuropa e o início de produção de veículos elétricos em Mangualde trazem também um novo alento para a indústria de componentes para automóveis, um dos setores que mais têm contribuído para o crescimento económico do País. UM CLUSTER EM ALTA Atualmente, existem cerca de 350 empresas deste setor, que gera um volume de negócios de 15 mil milhões de euros, o equivalente a 5,7% do PIB. Garante postos de trabalho a 63 mil pessoas e, no ano passado, atingiu um total de 12,8 mil milhões de euros de exportações, sendo responsável por 16,5% das vendas ao exterior de bens transacionáveis. Segundo a AFIA, a Associação dos Fornecedores da Indústria Automóvel, 95% dos carros que circulam em toda a Europa têm pelo menos uma das suas peças “made in Portugal”. No ano passado, produziram-se 318 321 veículos nas fábricas instala-das no nosso país, o terceiro melhor ano de sempre, apenas superado por 2018 e 2022. E esta quebra deu-se devido à paralisação forçada da Autoeuropa em setembro, por falta de peças de um fornecedor esloveno, o que se traduziu numa quebra de 15 mil viaturas na produção anual. Da totalidade dos carros produzidos em Portugal, 97,8% destas viaturas foram canalizadas para o mercado externo, sendo a Alemanha o principal cliente, seguindo-se a França, Itália e Espanha. Basta olhar para a lista dos maiores exportadores de 2023 para encontrarmos sete empresas do setor automóvel entre as dez primeiras: Autoeuropa, Continental Mabor, Bosch Car Multimedia, Aptivport Services, Visteon Electronics Corporation, Faurécia e Purem Tondela. A Espanha é o nosso maior cliente, recebendo 27,9% das exportações nacionais, seguindo-se a Alemanha, para onde vão 22,5% dos componentes para automóveis produzidos em Portugal. Juntos, estes dois países absorvem 50,4% das nossas exportações deste setor. Nos últimos anos, Portugal tem também atraído empresas da área das novas tecnologias automóveis, como os sistemas de informação e gestão de energia. Um dos casos mais emblemáticos é o da Critical TechWorks, uma parceria entre a BMW e a portuguesa Critical Software, que produz soluções informáticas para os veículos da marca bávara. É uma das que mais têm crescido, tendo faturado cerca de 165 milhões de euros em 2023, um aumento de 30% face ao ano anterior, e prevê que o volume de negócios mantenha este ritmo de crescimento em 2024. A empresa já tem três escritórios no País , Lisboa, Porto e Braga ., 82 emprega 2 400 pessoas e quer chegar ao fim deste ano com cerca de três mil funcionários. ACEITAÇÃO DOS ELÉTRICOS Portugal é também um dos países da Europa do Sul com maior penetração de carros elétricos. Segundo os dados da ACAP, no primeiro semestre deste ano, 16,5% dos veículos vendidos no País eram movidos exclusivamente a eletricidade. Mas, se analisarmos apenas as vendas de junho, esta percentagem sobe para os 18,9%, ou seja, cada um em cinco carros vendidos no País é 100% elétrico. Uma tendência que contraria um pouco o que está a acontecer na Europa, cujo mercado tem sentido algum arrefecimento das vendas de veículos elétricos. No total, foram vendidos em Portugal 137 mil novos veículos ligeiros de passageiros no primeiro semestre do ano, o que corresponde a um aumento de 7,8% face ao mesmo período do ano passado. Os ligeiros de passageiros alimentados a energias alternativas já representam mais de metade das vendas no País (51,7%), enquanto os que utilizam apenas gasolina são responsáveis por 39,5% das novas matrículas registadas no período em análise. Os carros a gasóleo, que há uns anos dominavam o mercado, resumem-se agora a 8,8% das vendas totais de carros no País. Os números são claramente positivos para o cluster automóvel nacional e o início da produção de carros elétricos em Mangualde e o anúncio agora da Volkswagen de estar a ponderar trazer um carro elétrico para a Autoeuropa podem ser um catalisador suplementar para dar um novo boost a esta indústria. visao@visao.pt O T-Roc, produzido na Autoeuropa, foi o terceiro modelo mais vendido na Europa no ano passado. Mas as vendas continuam em alta e voltou a conquistar os europeus. Em maio deste ano, ascendeu ao primeiro lugar, acima do seu “irmão” VW Golf Dos 318 mil veículos produzidos em Portugal em 2023, 97,8% foram para exportação, sendo a Alemanha o nosso maior mercado Autoeuropa A fábrica de Palmela poderá passar a produzir um veículo elétrico As energias alternativas já representam mais de metade das vendas de automóveis ligeiros de passageiros em Portugal Continental A empresa que fabrica pneus em Lousado, Famalicão, é a quarta maior exportadora nacional PAULO M. SANTOS