“PLANO DE PAZ” DE ORBÁN PODE SER “TRUNFO” PARA TRUMP E REPUBLICANOS
2024-07-18 15:17:03

Hélio Carvalho Jornalista Depois de enviar a sua proposta de paz aos Governos europeus, Viktor Orbán fez questão de elogiar muito o ex-Presidente dos EUA e de apelar a uma vitória de Trump em novembro. Os especialistas não acreditam que o possível “plano” tenha sucesso, devido às possíveis cedências pela Ucrânia, mas vêem-no como um aviso para a crescente falta de vontade, em ambos os lados do Atlântico, em manter o apoio aos ucranianos Rodeada por críticas em Bruxelas, devido às“missões de paz” não-autorizadas de Viktor Orbán pelo mundo, a Hungria defendeu-se esta semana de quem a acusa de colaborar com Vladimir Putin e com a Rússia, e confirmou que já apresentou a sua proposta de “plano de paz” para a guerra na Ucrânia junto de todos os líderes da União Europeia. Em entrevista ao jornal húngaro Magyar Nemzet, o diretor político do Governo de Budapeste, Balázs Orbán (sem relação familiar com o primeiro-ministro), disse que o plano “está agora na mesa de todos os primeiros-ministros da UE” e salientou que a abordagem da Hungria é “uma avaliação realista da situação, com objetivos realistas e num calendário apropriado”. Os conteúdos do “plano” ainda são desconhecidos mas, a julgar pelas pistas que Viktor Orbán foi dando, através das votações do seu Governo a propostas da UE, das declarações ao lado de líderes da Rússia e China, e das conversas com Donald Trump e os republicanos norte-americanos, este poderá passar por um cessar-fogo imediato e concessões de território ucraniano. Os conteúdos do “plano” ainda são desconhecidos mas, a julgar pelas pistas que Viktor Orbán foi dando, através das votações do seu Governo a propostas da UE, das declarações ao lado de líderes da Rússia e China, e das conversas com Donald Trump e os republicanos norte-americanos, este poderá passar por um cessar-fogo imediato e concessões de território ucraniano. Para Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense, a proposta do Governo húngaro deverá ser “bi-faseada”, começando por um cessar-fogo, devido ao “impacto económico e o impacto migratório da guerra da Ucrânia” na Hungria, considerando que depois “é muito provável que implique concessões territoriais”. “Não excluiria que Orbán olhasse com muito interesse para a ideia de normalização da atual situação no terreno e, portanto, haver uma aceitação tácita de que cada lado fica onde está agora, o que obviamente não interessa a Kiev de todo”, apontou ao Expresso. Já Manuel Poêjo Torres, investigador no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, acredita que “o mais certo” é que a proposta “não culmine num processo de paz”. E explicou que a proposta pode também imitar, em parte, o plano de 12 pontos apresentado pela China em fevereiro de 2023, “que não reconhecia a Rússia como um agressor, mas como uma parte de um conflito entre duas partes - e não é disso que se trata, trata-se de uma violação à soberania e integridade territorial de uma nação soberana”, neste caso da Ucrânia. E, como “não pode ser tudo mau”, também é previsível que seja incluído “apoio humanitário e apoio económico para a reconstrução do território”. Parceria com Trump pode ser “trunfo político” para novembro Depois de o seu diretor político fazer vários elogios a Donald Trump, dizendo que o ex-Presidente norte-americano “está comprometido com a paz”, também Viktor Orbán declarou que o ex-presidente e de novo candidato às presidenciais nos Estados Unidos tem “planos bem fundamentados” para a paz na Ucrânia. “Não podemos esperar nenhuma iniciativa de paz por parte [de Trump] até às eleições. (...) Estou mais do que convencido de que, após a provável vitória do Presidente Trump, as relações financeiras entre os Estados Unidos e a União Europeia vão mudar significativamente com desvantagens para a UE, no que diz respeito ao apoio financeiro à Ucrânia”, escreveu Orbán, numa carta enviada aos líderes europeus e divulgada na terça-feira pelo Financial Times. Em entrevista ao Expresso, Poêjo Torres avisa que a relação de grande proximidade entre o primeiro-ministro da Hungria e os conservadores dos EUA - marcada por viagens de Donald Trump Jr. (filho do ex-Presidente) a Budapeste e de governantes húngaros ao resort de luxo em Mar-a-Lago - revela que “esta proposta de resolução do conflito é provavelmente um artifício de desenho político” que pode, em véspera de eleições presidenciais, ser usada como “trunfo” por Trump. “Vai servir Donald Trump como potencial trunfo durante a campanha eleitoral, não porque foi executado, mas porque foi proposto. Donald Trump vai afirmar-se como aquele que, por alternativa aos belicistas europeus e democratas americanos, vem para garantir a paz na Europa e no mundo. Não há plano de paz, tudo isto é um desenho político criado para criar distúrbios e desequilíbrios junto dos aliados”, critica o especialista. Mas muito antes das eleições, os republicanos já tomaram várias medidas para limitar o apoio norte-americano à Ucrânia. Em outubro, a revolta de congressistas mais extremistas contra o apoio financeiro e militar aos ucranianos levou à queda do então speaker republicano, Kevin McCarthy; e, este ano, um pacote de apoio proposto por Joe Biden passou à justa no Congresso, apesar de uma crescente contestação em todo o Partido Republicano. Já esta semana, Donald Trump lançou um novo tiro de alerta a Kiev, nomeando J.D. Vance - conhecido por muitas posições extremistas e por se opor completamente ao fornecimento de ajuda militar à Ucrânia - como candidato a vice-presidente. Avaliando esta opção, Tiago André Lopes disse que “dá-nos uma noção daquilo que pode vir a acontecer”, e reflete uma posição mais oposta à despesa externa no atual Partido Republicano norte-americano. “Há uma fixação no controlo de despesas e do défice externo norte-americano e este é uma área fácil para cortar dinheiro. Na lógica do Partido Republicano, e até mais do que Trump, são os europeus que têm que ajudar e não os norte-americanos; os europeus é que são vizinhos da Ucrânia, e portanto, há a ideia de que os europeus têm que começar a pagar as suas próprias contas”, sublinha o docente, referindo que, para J.D. Vance, pode existir também o intuito de “redirecionar a despesa”, nomeadamente para ajudar a Coreia do Sul e Israel. Donald Trump tem dito, repetidamente, que a guerra na Ucrânia irá acabar mal tome posse como Presidente dos Estados Unidos, se for eleito. E Manuel Pôejo Torres acredita que “se Donald Trump chegar à Casa Branca, vai cessar imediatamente todo o apoio”, a juntar aos riscos colocados pelos republicanos no Congresso. O investigador lamenta que “infelizmente, o Partido Republicano tenha deixado de ser o partido de Reagan, de George W. Bush e de George H.W. Bush”, para se tornar “menos moderado, menos conservador e cedido pelo populismo”. “Isso é muito perigoso porque é o caminho para a tirania, para o isolacionismo americano, e nós sabemos que não existe uma guerra mundial sem que, para isso, esteja reunida pelo menos uma condição: os EUA estarem politicamente isolados das dinâmicas do resto do mundo”, avisou. No quadro da NATO, a possível eleição de Donald Trump nos EUA é, por isso, um fator de preocupação para Pôejo Torres, que não crê que seja inocente o timing da invasão da Rússia na Ucrânia - durante o mandato de Joe Biden, e não de Trump -, aproveitando um certo enfraquecimento interno da aliança transatlântica. “É uma forma de gerar discórdia dentro do bloco. O objetivo da Rússia não é derrotar, não é conquistar, não é invadir os territórios pertencentes à NATO; não é assim que se ganha uma guerra contra a NATO. Ganha-se uma guerra contra a NATO gerando discórdia, gerando desequilíbrios geoeconómicos dentro do bloco, explorando as vulnerabilidades e destruindo a resiliência dos povos”, vaticina. “Ideia da voz única parece ser algo exagerada por Bruxelas” A presidência rotativa do Conselho da União Europeia, que no segundo semestre de 2024 pertence à Hungria, não podia ter arrancado de forma mais controversa. Apesar dos avisos de vários líderes europeus, nomeadamente de Charles Michel e Ursula von der Leyen, que reiteraram que o Governo húngaro não representava os interesses da UE no estrangeiro, Viktor Orbán viajou para Moscovo e foi reconhecido como um representante europeu por Putin. A rebelião diplomática de Orbán provocou tamanho desconforto em Bruxelas e nas 26 capitais europeias dos Estados-membros que a Comissão Europeia já deixou claro que iria boicotar as reuniões informais de ministros convocadas para Budapeste, recomendou que os seus comissários não participassem nessas reuniões e os diversos Governos europeus deverão tomar medidas semelhantes. Esta semana, o Governo húngaro pediu que os líderes europeus abrissem canais diplomáticos com Moscovo e que se afastassem da “política pró-guerra” da administração Biden nos EUA. Em resposta, Charles Michel recusou a acusação e recordou que a posição europeia é de “total apoio” à Ucrânia - uma posição que até foi votada a favor pela Hungria. Manuel Pôejo Torres assume-se como crítico sobre a forma como a UE e Ursula von der Leyen têm gerido a posição “complicada” da Hungria, por achar que é “um erro estratégico terrível para a UE e para as suas instituições comportarem-se de forma autocrática, porque não aceitar aquilo que diz um membro de pleno direito é um comportamento quase totalitário por parte dos agentes centralizadores da União Europeia”. “A Hungria, liderada por Viktor Orban, tem tido uma oposição que se opõe diretamente à fórmula de paz encontrada pelo Ocidente. (...) Mesmo assim, em democracia liberal, não pode, não deve ser silenciado. É do interesse dos democratas e dos liberais que esse tipo de agentes se revelem, se mostrem, e que haja uma ponte de diálogo democrático com este tipo de atores políticos”, defende o investigador, sugerindo até que a presidente da Comissão Europeia esteja presente em “todas as reuniões” em Budapeste para tentar “moderar o discurso de Viktor Orbán" - pelo menos "criar e possibilitar uma nuance diplomática e política, em vez de fazer um isolacionismo dos seus membros”. Pôejo Torres atirou ainda que “Viktor Orbán é o representante eleito e o chefe do executivo húngaro, mas quem pertence à União Europeia não é Viktor Orbán, e o povo húngaro deve ser respeitado, da mesma forma que Portugal deve ser respeitado”. Já Tiago André Alves acredita, no que diz respeito à continuidade do apoio da UE à Ucrânia (e não só), que “a ideia da voz única parece ser um tanto ou quanto exagerada da parte de Bruxelas, porque a verdade é que começa a haver várias dissensões”, com cada vez mais Governos na Europa liderados por partidos de extrema-direita, ou pelo menos por coligações menos globalistas e menos afetas a manter o apoio à Ucrânia. “As sondagens, quer na Áustria, quer na Roménia, dão para já vantagem a partidos próximos de Orbán e, portanto, é provável ainda termos Governos com uma ideologia mais próxima de Orbán. E se é verdade que o governo dos Países Baixos, para já, decidiu manter a ajuda à Ucrânia, também não é mentira que este novo governo tem no seu centro o VVD da extrema-direita neerlandesa. Não esquecer que, no caso francês, por exemplo, nós ainda não sabemos sequer que governo é que vamos ter”, salienta. Além disso, Tiago André Lopes nota que existem outros atores, na UE e na NATO, que já se mostraram mais favoráveis à iniciativa diplomática húngara, nomeadamente a Eslováquia e a Turquia. “Parece-me que há um conjunto de atores que querem começar a negociar, e depois há um conjunto de atores que continuam na ideia de que temos que prolongar a guerra o mais possível até a dinâmica militar ser favorável a Kiev. O problema é que isso implica custos que não sei se os cidadãos europeus são de facto dispostos a pagar”, refere.