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"DIPLOMACIA PREVENTIVA": NETANYAHU VISITA O CENTRO DO PODER DOS EUA, SEM ESQUECER TRUMP

Expresso Online

2024-07-26 20:55:04

Margarida Mota Jornalista O primeiro-ministro de Israel terminou a viagem aos Estados Unidos com uma visita a Donald Trump, com quem não estava desde que o republicano saiu da Casa Branca. Este reencontro, a menos de quatro meses das eleições presidenciais, é o culminar de “uma jogada de diplomacia preventiva” de Benjamin Netanyahu com a qual conseguiu fragilizar um Partido Democrata dividido relativamente à questão israelo-palestiniana Na última etapa da visita de quatro dias aos Estados Unidos, o primeiro-ministro de Israel esteve com Donald Trump, no resort de Mar-a-Lago, na Florida. Em Israel, a demora de Benjamin Netanyahu regressar a casa, e a um país em guerra - tendo ele partido já na segunda-feira - provocou reparos. Por causa desse encontro, que aconteceu esta sexta-feira, a viagem de volta de Netanyahu só poderá realizar-se no sábado à noite. “Como não é possível voar no Shabat [dia de descanso para os judeus], a comitiva regressará a Israel imediatamente no final do Shabat”, esclareceu o gabinete do primeiro-ministro. O Shabat começa ao pôr do Sol de sexta-feira e termina ao pôr do Sol de sábado. Após os encontros, na véspera, com Joe Biden e Kamala Harris, a visita a Trump era uma prioridade. Os dois nunca mais se encontraram desde que o norte-americano saiu da Casa Branca, em 2020, e a relação entre ambos esfriou após Trump ter sentido como uma deslealdade a saudação do israelita à eleição de Joe Biden. Mas agora que Trump volta a ser hipótese para a Casa Branca e Netanyahu está mais acossado do que nunca no seu país, o encontro aconteceu com facilidade, no recato daquela propriedade de luxo e sem quaisquer declarações à imprensa. “Trump defende o fim da guerra na Faixa de Gaza através de uma aceleração dos combates. O que ele tem dito - e pode sempre mudar a narrativa porque Trump é o que é - é que já se deviam ter dado os meios que Israel precisa para garantir a sua segurança”, explica ao Expresso Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense. “Trump não o quer dizer, mas basicamente está do mesmo lado de Netanyahu, que é contra a solução de dois Estados.” No término da viagem de Netanyahu aos centros do poder em Washington - que o investigador rotula de “jogada de diplomacia preventiva” -, é possível tirar duas importantes conclusões: Trump é o candidato de Netanyahu às presidenciais de 5 de novembro e, por outro lado, o primeiro-ministro israelita tem mais margem para interferir na política norte-americana do que o inverso. “Os republicanos conseguiram o que queriam, que era contaminar a agenda do Partido Democrata no que toca ao Médio Oriente, mostrando a ineficácia da abordagem mais integrada, mais pacifista, mais diplomática do governo de Biden”, diz Tiago André Lopes. “Biden tem dito que Israel quer negociar, que está disponível para negociar e que é a favor da solução dos dois Estados. Já os republicanos são a favor de ajudar Israel. Ponto. São a favor de dar a Israel todos os meios de que precisa para se defender. Aliás, até agora, não ouvimos uma palavra de Trump sobre a questão palestiniana, apenas sobre a questão israelita”, alerta o investigador. “Os republicanos mostram que o que se passou nos últimos meses é apenas uma má gestão dos Estados Unidos, que querem agradar aos dois lados da contenda, mas para os republicanos não há dois lados. Há apenas um, que é o Governo de Israel e que tem razão.” O convite para Netanyahu discursar no Congresso na quarta-feira foi enviado a 31 de maio e assinado por quatro pessoas: o republicano Mike Johnson (presidente da Câmara dos Representantes), Hakeem Jeffries (líder da minoria democrata na Câmara), o democrata Chuck Schumer (chefe da maioria no Senado) e o republicano Mitch McConnell (líder da minoria no Senado). “Enquanto Israel trava uma guerra justa pela sua sobrevivência e oito reféns americanos permanecem em cativeiro, o seu testemunho ao Congresso é fundamental”, escreveu Mike Johnson, na rede social X, no dia do discurso. Mas a urgência em ouvir Netanyahu não colheu unanimidade, com a sessão a ser boicotada por cerca de metade dos legisladores afetos ao Partido Democrata. “Netanyahu conseguiu mostrar um Partido Democrata dividido em três”, diz Tiago André Lopes. “Houve um grupo que não foi à sessão, outro, liderado por Chuck Schumer, que esteve presente na sala por uma questão institucional mas que discordou e um terceiro que não se opôs ao discurso de Netanyahu no Congresso.” A ausência mais indiscreta foi a de Kamala Harris que, na qualidade de vice-presidente, preside ao Senado e, tradicionalmente, às sessões conjuntas do Congresso. Também Chuck Schumer, líder do Senado, assumiu discordâncias, assistindo ao discurso, mas não ocupando o seu lugar habitual, no púlpito por trás do orador, ao lado do líder da Câmara dos Representantes. Foi substituído pelo senador democrata Ben Cardin. “Só para que fique claro, Netanyahu perdeu tantas pessoas que se dirige apenas a uma fração do Congresso”, escreveu, na rede social X, a congressista Alexandra Ocasio-Cortez, da ala esquerda dos democratas. “Quando isso acontece, eles enchem as cadeiras com não-deputados, como fazem nas cerimónias de entrega de prémios, para projetar a aparência de total presença e apoio.” De “criminoso de guerra” a “mentiroso”, muitos democratas ausentes denunciaram, nas redes sociais, “um dia negro” para a história do Congresso e do país. “Netanyahu expôs um Partido Democrata completamente dividido, ao contrário do republicano. Com algumas exceções, a grande maioria dos deputados republicanos foi favorável, esteve na sala e aplaudiu o primeiro-ministro de Israel”, diz Tiago André Lopes “Muitos congressistas democratas seguiram vergonhosamente o exemplo da Administração Biden-Harris e minaram ativamente a relação EUA-Israel. Vergonhosamente, muitos deles também boicotaram o discurso de hoje do primeiro-ministro Netanyahu. Não se deixem enganar: todas estas ações estão a ser feitas a mando da base antissemita radical do Partido Democrata”, acusou o senador republicano Ted Cruz, num comunicado. “Os republicanos devem ter a clareza moral e a unidade que falta ao Partido Democrata. Estamos unidos em apoio do nosso aliado, Israel, e estamos empenhados em fornecer a Israel o apoio militar de que necessita durante o tempo que for necessário para derrotar totalmente o Hamas.” O facto de, em nenhum momento da sua visita aos EUA, Netanyahu ter insinuado disponibilidade para negociar uma trégua em Gaza acentuou o braço de ferro verbal com Kamala Harris, que tem defendido “um cessar-fogo imediato”. Na quinta-feira, diante dos jornalistas, após o que designou de encontro “franco e construtivo” com Netanyahu, a candidata à nomeação democrata às presidenciais afirmou: “O que aconteceu em Gaza nos últimos nove meses é devastador. As imagens de crianças mortas e pessoas desesperadas e famintas a fugir em busca de segurança, por vezes deslocadas pela segunda, terceira ou quarta vez Não podemos desviar o olhar perante estas tragédias. Não podemos permitir-nos a ficar insensíveis diante do sofrimento. Não ficarei calada.” “Kamala Harris foi dura com Netanyahu, mas na questão da implementação real da solução dos dois Estados - em que a ala mais à esquerda do Partido Democrata pede já um calendário -, ela ainda não se posicionou. Foi dura com Netanyahu, porque é contra o estilo, é contra a imagem de um homem que não tem preocupação com a morte de civis. Aí, ela foi bastante firme, mas ainda não é clara a sua posição política neste assunto”, diz Tiago André Lopes. Enquanto vice-presidente, Kamala Harris gere essencialmente dossiês de política interna. Agora que se candidata à Casa Branca, exige-se-lhe que concretize as ideias que defende relativamente aos problemas do mundo. Os potenciais custos inerentes pode estar a fazer Kamala hesitar “Ela sabe que este é o assunto mais difícil de todos, em termos de política externa. Não se conhece verdadeiramente o seu posicionamento real sobre o assunto e percebe-se que não consiga ser muito clara. Se se colocar do lado dos dois Estados perde a ala do seu partido mais ao centro e não vai buscar votos ao eleitorado republicano. Se se opuser, vai contra a ala da qual faz parte. E se tiver uma posição dúbia, corre o risco de não aguentar nenhuma das alas. É o problema de Biden, que quer uma coisa impossível: que os palestinianos negociem quando o governo do outro lado não quer negociar com ninguém”, conclui o professor da Portucalense. “A sorte de Kamala Harris é a política externa marcar pouco a agência interna. Porque se os republicanos trouxerem a questão israelo-palestiniana para a mesa, será uma fragilidade para os democratas.”