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COMO NUM QUADRO DE DEGAS

Jornal de Letras, Artes e Ideias

2024-09-05 08:35:06

Não há arte que seja menos espontânea que a minha... Edgar Degas Edgar, Edgar Degas, estava obcecado com Sylvie Dellerue, primeira bailarina da modesta companhia de Monsieur LeGrand, que tinha o salão de ensaios num beco perpendicular ao Boulevard des Italiens. Todos dias o jovem pintor, protegido de Manet, ia postar-se nas imediações tentando trocar um olhar com Sylvie, uma rapariguinha arruivada, que também vivia numas águas-furtadas ali perto. Era inquilina do próprio Monsieur Legrand que, tendo levado um tiro enquanto adolescente, arrastava a perna esquerda e a cada um que lhe fazia um reparo sobre a maneira como coxeava, o velho ensaiador puxava de uns galões de bailarino que actuara não só nos melhores palcos de Paris, como em Antuérpia, Veneza, Viena e numas quantas cidades mais da Mittleuropa. Porém, se ninguém lhe dirigisse a palavra acerca do seu defeito, ao menor descuido, começava a explicar a partir de que portal alguém fizera pontaria com um revólver e disparara sem que houvesse motivo por parte do agressor. Depois de toda a gente abandonar o salão, ele seguia cautelosamente o mesmo itinerário que a bailarina, que perdia de amores o pintor. Quando ele chegava à porta da casa, a rapariga já tinha a luz acesa nas suas águas-furtadas. E ele entrava na porta ao lado, procurando que Degas não se apercebesse. Vagarosamente, subia as íngremes escadas e quando chegava ao nível das águas-furtadas, metia a chave à porta e entrava no seu outro buraco. Com a mesma lentidão, estendia o braço e afastava a grande cortina. E à sua vista tinha as duas pequenas dependências onde ela habitava. Entre ambas as águas-furtadas havia um grande espelho onde Sylvie podia olhar à vontade para o seu corpo, depois de se despir. Diriamos que ela adorava sentir aquele reflexo de si como um acto de paixão. Às vezes lembrava-se do tímido pintor e ia à janela verificar que ela ali estava no passeio em frente. E à noite. deixando de ver o ponto vermelho da sua cigarrilha, ouvia-o tossir. E perguntava-se porque é que ele não a abordava na rua, porque não a levava a um café, por que lhe sugeria levá-la para a cama.. Ela sabia que Edgar era pintor, mas não fazia ideia do que ele pintava. Diziam-lhe que entrava muitas vezes no Louvre e em outros museus e ali ficava horas a pintar, sempre pintava cópias de grandes quadros que ali estavam em exposição. Sentado num ampla poltrona de couro muito gasto. Monsieur LeGrand desapertava o cinto das calças, punha as lunetas, e ia bebendo aguardente por um copinho de vidro grosso. Pacientemente, via Sylvie preparar uma refeição frugal, ir uma e outra vez e regressar à máquina a petróleo, cuidando do que iria comer. Depois, diante do amplo espelho, quer do lado da saleta ou da alcova, despia-se. O ensaiador, quando a via desnudar as pernas pendurando as meias negras nas costas de uma cadeira, deixava o copo inclinava-se como se ela estivesse a tentar seduzi-lo. E ela seduzia-se a ela própria diante do espelho, como quisesse confiar-se à apreciação de Monsieur Legrand. E ninguém fazia o menor ruído. Mentira, peço desculpa. Quando Sylvie se despia mais e mais. até ficar completamente nua, sentada na cadeira diante do espelho, ou deitada no pequeno leito, soltava os suspiros ditados pelas caricias que ela fazia entre as suas pernas, em pleno sexo, gruta cabeluda que fazia com que Monsieur LeGrand se soerguesse de olhos desorbitados. E ela experimentava um e outro orgasmo; e ele tentava dar força ao fundo de si, aproximando-se perigosamente das costas do espelho que era o fundo das suas águas furtadas, tudo aquilo arquitectado por ele para poder observar as suas inquilinas. Degas cantava em voz muito baixa algumas cançonetas de amor que apreendera com os boémios seus amigos. Imaginava Sylvie nos seus braços. Poderia subir às águas-furtadas e bater à porta, mas ela seria quem de o receber de braços abertos no seu tugúrio? Decerto viveria na extrema miséria, sabia que ela era de Limoges, bem longe de Paris, e que a família lhe mandava uma mensalidade curta para que ela se tornasse numa bailarina, de preferência célebre. O pintor vivia num primeiro andar, nas cercanias da Ópera de Paris, onde havia cursos de ballet para candidatas a partir dos dez anos. A proximidade daquelas bailarinas e de candidatas a bailarinas começaram a atrai-lo de um modo, digamos, profissional. O distanciamento entre ele e Sylvie não parecia encurtar-se sobretudo pela timidez de Degas. E quando rebentou o escândalo das águas-furtadas, descrito com os escabrosos pormenores num jornal, fez com que Sylvie se visse na rua e Monsieur Legrand teve de prestar declarações na polícia, e certa madrugada foi espancado no beco, ficando às portas da morte. Na verdade quando estava hospitalizado, Sylvie conseguiu chegar à enfermaria, aonde ele estava com as suas ligaduras, e despejou o tambor do revólver naquele corpo que se sacudiu pela última vez. Impressionado com o ocorrido com a sua bailarina e o seu mestre, Degas fechou-se em casa, onde só Manet o visitava, levando-lhe alimentos. E um dia o artista que adiantou o impressionismo entre os seus pares, interrogou o amigo sobre o que lhe interessava na pintura, apontando alguns quadros com bailarinas que estavam encostados aa parede. - Mestre, interessa-me sobretudo a verdade. O real Manet mordeu os lábios. Manet, o impressionista, afinal, não tinha ali um discípulo do impressionismo. - Nos corpos interessa-me a forçam o equilíbrio, a postura Anos mais tarde. A uma pergunta semelhante responderia: - Porque o bailado, as bailarinas, são tudo o que resta da arte dos gregos. E então terá reservado para si. alguma vez em que se encontrava em salões de ensaio e aprendizagem de bailarinas, ter ficado surpreendido por encontrar ali mais do que um travesti de tutu e pontas. E tapou a cabeça com a manta que tinha sobre os joelhos. Como um sinal para que Manet se retirasse. J Novos contos Destacado autor na área do conto português contemporâneo e estudioso do de outras épocas, vencedor de vários galardões, como o Grande Prémio de Literatura dst 2024 ou o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, José Viale Moutinho publica uma nova recolha de história curtas (a 20.ª), na Exclamação, a chegar às livrarias a 11. José Viale Moutinho José Viale Moutinho