pressmedia logo

OS BRICS ESTÃO MAIORES E MAIS FORTES

CNN Portugal Online

2024-10-22 10:04:04

Para este ano, os BRICS aparecem reforçados com cinco novas nações: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irão "Os BRICS não estão contra ninguém. Os BRICS não são um grupo anti-Ocidente. São apenas um grupo não-Ocidental". Estas palavras foram proferidas por Vladimir Putin na antevisão do encontro e escondem não muito bem as intenções deste grupo, que se reunirá pela 16.ª vez esta terça-feira em Kazan, no coração da Rússia. Em cima da mesa está, como sempre esteve, criar alternativas aos mecanismos controlados pelo Ocidente e depender cada vez menos de sistemas que não construíram. Originalmente criado por Jim ONeill, banqueiro da Goldman Sachs, em 2001, quando escreveu o relatório Building Better Global Economic BRICs, servia para designar as economias que iriam ser o motor do crescimento económico na década seguinte: Brasil, Rússia, Índia e China. Estes países pegaram no conceito e criaram o grupo em 2006. Poucos anos depois, em 2010, juntou-se a África do Sul, ficando assim completo o acrónimo que agora conhecemos. A previsão de ONeill verificou-se correta e mantém-se atual, com o crescimento anual dos BRICS a ser superior ao dos países do Ocidente e a riqueza total a superar a do G7. Para este ano, os BRICS aparecem reforçados com cinco novas nações: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irão, e o grupo é agora informalmente apelidado de BRICS+. Com estas junções, o grupo assume uma dimensão ainda mais estratosférica: coletivamente, estes países representam 45% da população mundial, 28% do território e cerca de 35% do PIB mundial em paridade do poder de compra. Com a entrada dos três países asiáticos, os BRICS são agora responsáveis pela produção de 44% do crude a nível mundial. O que se vai discutir e propor em Kazan Em cima da mesa, indicou desde logo o governo brasileiro em comunicado, vai estar um dos temas quentes do momento: o conflito no Médio Oriente. Tiago André Lopes, comentador da CNN Portugal, afirma que este vai ser um tópico de "consenso" entre os membros para contrapor à "ironia do Ocidente". "A recente cimeira entre a União Europeia e o Conselho de Cooperação do Golfo correu mal. É verdade que surgiu um comunicado conjunto sobre comércio, mas a União Europeia queria que os países do Golfo condenassem a Rússia na questão da Ucrânia, e os países do Golfo queriam que a União Europeia condenasse Israel na questão do Médio Oriente. Ninguém conseguiu aquilo que queria", afirma o professor de Relações Internacionais. "Os países do Médio Oriente ficaram muito desapontados com a falta de acutilância verbal da União Europeia. Acho que esse assunto vai ser recuperado agora nos BRICS. Não podemos esquecer que, na última cimeira, dos cinco Estados que entraram para os BRICS, quatro são do Médio Oriente. Claramente agora vão ter um peso significativo nesta discussão." Também se vai debater o alargamento da organização, perspetiva Tiago André Lopes. Azerbaijão, Bangladesh, Cazaquistão e Nigéria já submeteram pedidos formais de adesão. Mas não são os únicos interessados; o docente da Universidade Portucalense aponta também a Malásia e a Indonésia e ainda o estranho caso da Turquia, membro da NATO. Putin já deu o mote. "A porta está aberta, não estamos a barrar ninguém", disse o presidente russo a jornalistas dos países do grupo na sexta-feira. "Até à data, 30 países manifestaram o desejo de cooperar com os BRICS, de uma forma ou de outra, e de se juntarem às atividades da organização, de uma forma ou de outra", prosseguiu. "Temos de, em conjunto com todos os membros da organização, analisar cuidadosamente a forma de tratar a expansão. Não vamos de modo algum afastar ninguém." Como anfitriã da cimeira e líder do grupo este ano, a Rússia vai apresentar uma série de propostas para serem debatidas. Uma delas é a criação de um sistema semelhante ao SWIFT para ligar os bancos centrais de cada um destes Estados. O SWIFT é uma sociedade, com sede na Bélgica, que atua como uma espécie de fundação para o sistema bancário internacional, conectando cerca de 11 mil bancos, firmas e empresas em 200 países. Por este sistema passam biliões de euros de transações financeiras todos os dias, que ficam registadas em recibos digitais que as detalham. A Rússia foi expulsa deste sistema no início da invasão da Ucrânia, o que a deixou efetivamente excluída do sistema financeiro internacional. "É uma troca de informações financeiras entre bancos centrais. Um análogo do SWIFT, algo que permita pagamentos internacionais", esclareceu Putin. Este sistema, explica a Reuters, permitiria que estes países não necessitassem de converter as suas próprias moedas em dólares para realizar transações. Para garantir mais segurança, este sistema recorrerá ao blockchain para armazenar e transferir tokens digitais, suportados pelas moedas nacionais. Se um ou mais membros dos BRICS forem excluídos do sistema internacional, tal como aconteceu com a Rússia, as trocas entre os membros poderão continuar sem qualquer tipo de barreiras. Tiago André Lopes alerta, porém, que este ponto pode ser o mais "contencioso". "Apesar da China concordar e a Índia também, ambas percebem que o uso maciço das suas divisas pode levar a uma supervalorização em bolsa e tirar-lhes a vantagem competitiva que têm agora nos mercados internacionais." Mas há mais medidas para reduzir a dependência do Ocidente. Moscovo irá também propor a criação de um sistema internacional de pagamentos e depósitos para reforçar o comércio transfronteiriço. O plano é que um país dos BRICS que ficar isolado dos mercados financeiros ocidentais possa na mesma aceder aos mercados financeiros do grupo. Quanto às matérias-primas, a Rússia irá propor a criação de uma plataforma de trocas comerciais de cereais e outros bens, cujos preços internacionais são atualmente definidos nas bolsas ocidentais. Moscovo quer também a criação de uma seguradora para os BRICS que, de acordo com a Reuters, iria permitir o transporte de mercadorias e matérias-primas essenciais sem qualquer sobressalto uma vez que, nos dias de hoje, as principais companhias de seguros, que podem recusar prestar os seus serviços a estes países, são ocidentais. Por fim, a liderança russa vai sugerir a criação de uma instituição financeira alternativa ao FMI, que possa apoiar os BRICS durante crises económicas. Será que se entendem? Permanecem muitas dúvidas sobre se os BRICS se conseguirão organizar e saber alcançar compromissos. As relações entre alguns dos seus membros não são as mais fáceis. China e Índia têm relações tensas e as suas forças envolvem-se regularmente em pequenas lutas ao longo dos mais de 3 mil quilómetros da fronteira que partilham. Em 2020, nas escaramuças mais graves em décadas, dezenas de soldados dos dois lados perderam a vida. Há também o conflito entre Arábia Saudita e Irão, que lutam por procuração em várias arenas como a Síria, o Iémen e a África Ocidental. Uns veem-se como líderes do xiismo, outros como líderes do sunismo, e ambos querem exercer a maior influência possível no mundo muçulmano. As relações entre os dois países estão agora ligeiramente mais calmas devido ao conflito no Médio Oriente, mas ainda não se sabe se esta melhoria poderá vir a ser duradoura. Por outro lado, ONeill, o homem que inventou o termo, afirmou em agosto de 2023 que já se questionou várias vezes sobre a verdadeira utilidade da organização "para além do simbolismo". "Agora que os BRICS anunciaram que vão acrescentar mais seis países - Argentina (acabou por desistir após Javier Milei ser eleito presidente), Egito, Etiópia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - volto a colocar a questão. Afinal de contas, a decisão não parece ter sido tomada com base em critérios objetivos claros, e muito menos económicos. Por que razão, por exemplo, não convidaram a Indonésia? Porquê a Argentina e não o México, ou a Etiópia e não a Nigéria?", questionou ONeill. O banqueiro aponta também as diferenças económicas entre os países. Enquanto a China se consolidou como a segunda economia mundial e tem mais do dobro do tamanho dos outros países todos juntos, e a Índia cresce a um ritmo vertiginoso, Brasil e Rússia representam aproximadamente a mesma percentagem do PIB global que representavam em 2001, quando ONeill escreveu o documento inicial. Outra diferença fundamental são as relações que os membros mantêm com o Ocidente. Enquanto Rússia e Irão estão totalmente afastados, países como o Brasil, a Índia, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos continuam a ter laços estreitos com os Estados Unidos da América e outros países ocidentais. Qualquer tentativa russa de tentar hostilizar mais estes países poderá encontrar resistência. "Ninguém neste bloco está disposto a colocar-se na posição em que a Rússia se encontra atualmente, como um adversário aberto do Ocidente e dos Estados Unidos, arriscando-se a um confronto armado", disse ao Washington Post Boris Bondarev, antigo representante da Rússia na sede das Nações Unidas de Genebra, em agosto de 2023. Aapesar de tudo isto, Tiago André Lopes afirma que o grupo está "numa fase ascendente". "Se os BRICS conseguirem, de facto, traçar um roadmap para ter regras institucionais mais rígidas e mais formais, então vão passar a ser, claramente, uma espécie de grupo de contestação ao G7. Mas isso vai depender dessas regras formais, do eventual aparecimento de um quartel-general ou de uma sede. Será interessante ver se vai ou não acontecer e acho que pode dar um novo élan à instituição", conclui. https://cnnportugal.iol.pt/brics/russia/os-brics-estao-maiores-e-mais-fortes-e-querem-uma-nova-ordem-mundial-menos-dependente-do-ocidente/20241022/6712b168d34e94b829067503 Pedro Falardo