GREVE IMPEDIU JOÃO DE CHEGAR A MODIVAS: "É UM POUCO FRUSTRANTE PERDER UM DIA DE TRABALHO"
2024-12-06 14:15:06

Os maquinistas estão em greve, nesta sexta-feira, por considerarem "insultuosas" as declarações do ministro da Presidência sobre a alegada relação entre os acidentes ferroviários e o consumo de álcool. Em Campanhã, muitos trabalhadores viram os comboios e os metros suprimidos e foram obrigados a faltar ao trabalho. Diariamente, João Cruz perde quase 2.30 horas de casa ao trabalho. Vive em Vila Meã, no concelho de Amarante, e é pedreiro numa obra em Modivas, em Vila do Conde. O dia arrancou com a rotina habitual, mas quando chegou a Campanhã, no Porto, para apanhar o metro, foi confrontado pela greve dos maquinistas. "Já falei com um colega de trabalho e a opção que tenho hoje é voltar para casa. Porque apanhar um Uber sai mais caro do que perder o dia de trabalho", lamenta. Às 8 horas, a solução é esperar no cais pelo próximo comboio e regressar a casa. "É um pouco frustrante. Eu levantei-me no mesmo horário, no horário do costume, e fui supreendido pela greve. Tenho de voltar para casa". No caso de Marta Gomes, empregada doméstica no Marco de Canaveses, o dia de trabalho ainda não está perdido, mas já vai começar atrasado. "Quando cheguei vi que o meu comboio tinha sido suprimido. Agora vou ver a que horas tenho o próximo". No caso de Rui Teixeira, a situação é inversa. Esteve a noite toda a trabalhar numa obra, no Porto, e não vê a hora de chegar a Valongo. "Estive a trabalhar até às 7 horas. Estou mortinho para chegar a casa. A minha maior vontade é tomar um banhinho e descansar", confessa. Com o pastor alemão Rex pela trela, companheiro que o acompanha para todo o lado, o homem de 53 anos deambula para trás e para a frente no cais, enquanto aguarda por informações sobre o transporte. "Já estive aqui uma vez das 7.30 horas até às 16 horas, e acabei por não ir a casa. Se calhar hoje vai acontecer-me o mesmo" afirma, resignado. Apesar do constrangimento, Rui Teixeira afiança que "não é contra as greves, mas sim contra quem paga mal". "Toda a gente tem direito a reivindicar os seus direitos. Tenho de esperar. Se houver, há. Se não, vou trabalhar direto". Rui trabalhou durante a noite e não sabe a que horas vai descansar Foto: Pedro Correia Serviços mínimos da CP asseguram 25% das viagens Foto: Pedro Correia Declarações "insultuosas" provocaram revolta Em todo o país, centenas de maquinistas estão parados esta sexta-feira. A Comboios de Portugal (CP) assegurou 25% de serviços mínimos, o que significa que das 1300 viagens realizadas por dia, deverão efetivar-se cerca de 300. As declarações do ministro da Presidência, sobre a alegada relação entre a taxa de álcool dos maquinistas e a sinistralidade, foram o rastilho para o descontentamento. Hélder Silva, dirigente sindical do Sindicato Nacional dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses (SMAQ) afirma que as palavras foram "insultuosas" e deixaram os maquinistas "bastante desagradados e revoltados". "Depois de andarmos anos e anos a batalhar e a alertar para as condições de segurança e para os problemas dos acidentes, além de nós, as outras autoridades, como a Autoridade Nacional Ferroviária, vir dizer que a medida que vai ser implementada é a redução da taxa de alcoolemia, é reduzir todo o trabalho das pessoas a nada", afirma. Hélder Silva rejeita que o Governo tenha atendido às reivindicações do SMAQ e sublinha que é necessário passar da teoria à prática. "Não é com estudos nem planos de ação que vamos lá, é preciso pegar nesses estudos, nessas identificações que já forem feitas e partir para a ação". O dirigente sindical enumera a correção e eliminação das passagens de nível, os comprimentos dos cais e os sistemas de limitação de velocidade como os principais "pontos negros" a resolver. Além dos comboios, a paralisação desta sexta-feira está a condicionar a circulação no metro do Porto, onde "a adesão dos associados é total", estando "apenas a circular composições residuais, com alguns elementos não sindicalizados". Entre o Hospital de São João e Vila DEste (Linha Amarela), há carruagens a passar, mas na Linha Vermelha, que liga o Estádio do Dragão à Póvoa de Varzim, a situação é mais complicada. "Não consegui apanhar o metro. Apanhei o autocarro, e mesmo assim o primeiro autocarro estava completamente cheio. Consegui apanhar o segundo, mas mesmo assim ia completo", conta Letícia Cruzeiro, estudante de Vila do Conde, que devido à greve vai chegar atrasada às aulas na Escola Superior de Educação, onde estuda Desporto. Já Bruna Esteves, aluna de Marketing na Universidade Portucalense conseguiu chegar de autocarro desde Santa Maria da Feira até Vila Nova de Gaia, e teve de esperar mais do que o habitual pelo metro para a levar de Vila DEste ao São João. "Houve metro, mas com muito mais atraso do que é costume", afirma. Letícia teve de apanhar um autocarro em Vila do Conde porque não há metro Foto: Pedro Correia Segundo o SMAQ, a adesão dos sindicalizados na Metro do Porto foi de 100% Foto: Pedro Correia Consultas no S. João sem grandes constrangimentos Além do protesto dos maquinistas, esta sexta-feira é também dia de greve na Função Pública, com os setores da Saúde e da Educação entre os mais afetados. A paralisação foi convocada pela Federação Nacional de Sindicatos Independentes da Administração Pública e de Entidades com Fins Públicos (Fesinap) e pela Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais (FNSTFPS). No Hospital de São João, as consultas externas decorriam com normalidade, apesar de 80% dos técnicos de saúde e assistentes operacionais terem aderido. Sónia Pinto veio de Penafiel para uma consulta de Dermatologia, marcada há meio ano, e foi atendida. Só não conseguiu pedir a justificação para entregar no Tribunal da cidade, onde trabalha como empregada de limpeza, uma vez que os balcões de atendimento estavam vazios. "Como vinha de Penafiel, era uma viagem um bocadinho longa e estava com receio de chegar aqui e não ter direito à consulta. Mas como as máquinas fazem automaticamente a entrada, eu tive direito à consulta. Tudo normal, até fui atendida mais cedo do que o normal". De Valongo, Rita veio acompanhar Artur Gonçalves à consulta das diabetes, que se realizou "justamente à hora". "Vi que estava tudo desligado, não havia pessoas no atendimento. Mas no momento em que tiramos a senha automática fomos chamados imediatamente pela médica, com quem estivemos três quartos de horas. Fomos muito bem atendidos, não tenho razões de queixa", aponta a mulher de 66 anos. Luís Moreira fez análises às 9 horas e espera agora pela consulta de Oncologia, marcada para as 14.30 horas. O motorista dos Bombeiros Voluntários de Baltar está confiante de que será atendido. "Penso que não terei problema. Até à data, sempre que tenho vindo, mesmo em dias de greve, tenho sido sempre atendido. Espero que hoje seja igual". Profissionais exigem "dignidade" pelo "trabalho duro" Ao JN, o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte (STFPSN) admite que, devido aos serviços mínimos, a greve não está a ter grande impacto nas consultas externas, e que, apesar de os balcões de atendimento estarem encerrados, as consultas estão a realizar-se. Orlando Gonçalves lamenta que "nada tenha mudado" desde a última greve, convocada a 25 de outubro, e garante que os profissionais exigem respostas à tutela, com quem tiveram uma reunião em julho, "depois de muita insistência". "Até hoje, e nós já temos insistido com pedidos de reunião, não houve qualquer desenvolvimento. Passou-se meio ano, o que é imenso tempo para esperar quando se trata principalmente de Saúde", critica. O reforço de trabalhadores no Serviço Nacional de Saúde, a valorização das carreiras e os aumentos salariais são as principais reivincações. "Temos uma nova carreira que entrou em vigor a 1 de janeiro, ainda hoje não abriu um concurso para os técnicos auxiliares de saúde principais, que continuam a ser chefiados por outras categorias profissionais quando a carreira prevê uma categoria para esse efeito". Segundo o dirigente sindical, os técnicos auxiliares de saúde ganham mais 50 euros do que o salário mínimo, o que se traduz em 17 euros líquidos ao final do mês. Não chega para "quem trabalha na Saúde, que é um trabalho delicado e duro". "É impossível viver com dignidade assim. Aquilo que se exige é salários que deem o mínimo de dignidade a quem trabalha". A greve dos maquinistas teve impacto no dia a dia de milhares de portugueses Sara Gerivaz