ESCASSEZ DE TÉCNICOS FAZ DISPARAR PREÇO DAS REPARAÇÕES DOMÉSTICAS
2025-01-18 07:31:04

Falta de técnicos inflaciona reparações comuns na casa É cada vez mais difícil encontrar quem repare caldeiras, lareiras ou até picheleiros. O salário destas profissões subiu, em média, 8,5% no último ano e os serviços estão 10% mais caros Trabalho - O mercado de trabalho tem falta de técnicos para as reparações comuns na casa que, por isso, estão mais caras. Na maioria das vezes, o cliente nem encontra quem faça o serviço. Apesar da subida média de 8,5% no salário destas profissões, elas ainda não parecem ser dignas para que os jovens as escolham para a vida. A simples reparação de um cano, a limpeza de uma chaminé ou o arranjo no telhado podem tornar-se uma dor de cabeça para quem não sabe fazê-lo, pois é cada vez mais difícil encontrar profissionais. A plataforma online portuguesa Fixando tem mais de 70 mil especialistas e empresas registadas a prestar serviços deste tipo, mas contabilizou que 56% dos pedidos de reparações e assistência técnica não tiveram resposta em 2024. A reparação de caldeiras (76% sem resposta), a limpeza de lareiras e chaminés (61%), a pichelaria (51%) e a canalização (38%) foram os serviços mais difíceis de contratar. Como consequência, na Fixando, o preço médio destes serviços aumentou 10% num ano, passando de 122 euros, em 2023, para 134 euros, em 2024. O fenómeno não é dissociável da falta de profissionais da construção civil, onde muitos destes técnicos também trabalham. No entanto, a principal causa é social e mais densa, pois os pais deixaram de ensinar aos filhos os saberes que vinham de outras gerações, além de que os jovens tendem a não ter interesse nestes trabalhos manuais, como explica o sociólogo e investigador Esser Jorge Silva: “A principal razão pela qual estes ofícios não atraem os jovens é a de que persiste o princípio de que são atividades sem dignidade para serem escolhidas como objetivo de vida”. BAIXO ESTATUTO SOCIAL O estatuto social destes trabalhos manuais é reduzido e associado “à baixa literacia, à despreocupação com a aparência, à sujidade das vestes, à rudeza do corpo, à falta de polimento nos gestos e a modos de expressão pouco ou nada urbanos”, acrescenta o sociólogo, revelando que "quanto mais o seu exercício se aproxima do chão, menos valorizados” são pela sociedade. Em sentido inverso, a valorização financeira é cada vez mais expressiva. Entre outubro de 2023 e o mesmo mês de 2024, as profissões ligadas à construção e reparação registaram um aumento salarial médio de 8,5%, segundo os dados divulgados ontem pela Segurança Social. Em média, este setor pagou 1268,5 euros ilíquidos a cada funcionário, em outubro de 2024, quando um ano antes pagava 1168,8 euros. Do ponto de vista dos arranjos da casa, o pintor foi o que teve a maior valorização (11,7%), mas todas as profissões da construção viram o salário aumentar acima da taxa de inflação. Ou seja, ganharam poder de compra no ano passado. No futuro, “persistirá a escassez” destes profissionais, pois “não se imagina uma mudança na malha mental” e estas ocupações “acabarão por ficar para os imigrantes”, afirma Esser. A contratação de mão de obra estrangeira “pode ser uma solução imediata”, concorda o CEO da Fixando, Miguel Mascarenhas, ao mesmo tempo que é preciso “investimento na formação de mão de obra qualificada e na valorização do setor”. A modernização destas atividades, que já está a acontecer, “também poderá contribuir” para mitigar o preconceito social, mas “é igualmente importante criar incentivos que tornem estas profissões mais atrativas, tanto para jovens em início de carreira como para trabalhadores que queiram reconverter-se”, assegura Miguel Mascarenhas. Trabalham mais horas Não foi só o salário que aumentou entre os profissionais da construção e reparações, pois também trabalham mais horas. Em outubro de 2023, laboravam em média 6,8 horas diárias. Um ano depois, a média é de 7,3 horas, segundo informação da Segurança Social. Empregos vagos Houve 1272 ofertas de emprego sem colocação no setor da construção em novembro do ano passado, o último mês para o qual a Segurança Social disponibilizou dados. Lisboa lidera procura É na região de Lisboa que se registam mais ofertas de emprego na área da construção que não obtiveram colocação. Salários no setor subiram mais de 8%, mas nem assim seduzem profissionais. Empresas desistem de contratar Contratar estrangeiros pode ser a solução mais imediata Testemunhos Chris Humphries Presidente da WorldSkills “Todos os países do hemisfério norte e da Europa enfrentam este problema” O presidente da WorldSkills, instituição internacional de caridade que organiza torneios de competências, afirma que “todos os países do hemisfério norte e da Europa” se debatem com a falta destes profissionais. A população jovem está “em declínio”, identifica Chris Humphries, e constata que “há um crescente desajuste entre a disponibilidade de mão de obra e as necessidades”. É preciso “ajudar os pais e os jovens a verem não só como as competências são importantes para a economia, mas também o quão recompensadoras podem ser estas profissões”. Ana Carolina Santos AC-Arquitetos, Lisboa “A falta de mão de obra foi gerada pela crise de 2011 e agravada agora” A arquiteta Ana Carolina Santos encontra “vários motivos” para a falta de mão de obra no setor das remodelações e construção, uma realidade “gerada pela crise de 2011 e agravada agora”. Os baixos salários, o envelhecimento dos profissionais, a baixa atratividade para os jovens e a escassez de formação especializada de carpinteiros e pintores, por exemplo, são alguns dos fatores que enumera. Existe “alta procura” para remodelações, adianta, o que é motivado pela "escassez de habitações”, sobretudo em zonas mais povoadas, como na região de Lisboa. Pedro Simões Cortez Cortez Construções, Abrantes “Nesta área consegue-se ter um vencimento médio, temos de formar” A falta de mão de obra nos setores da remodelação de imóveis resulta “do abandono da arte da construção civil”, adianta o empreiteiro Pedro Simões Cortez: “Quando deixou de se ver, em tempos, a formação profissional na área e deixou de se ver serventes ao lado dos pedreiros com conhecimento, logo era de se esperar que um dia havia de acontecer esta falta de mão de obra”. O empreiteiro defende que é preciso mais formação e que se explique aos jovens que “nesta área se consegue ter um vencimento médio” pois “as novas tecnologias estão também a entrar”. Salários na construção Média por profissão (valores de outubro/2024, brutos) * Aumento face a out.2023 (em %) Média do setor 1268,5 Engenheiro Encarregado 1707,61 Motorista de pesados 1246,7 ^8,5 2358,9 5,7 Centro 339 Empregos vagos por região 9,6 (nov.2024) Operador de máquinas e gruas 1241,3 8,1 1272 Serralheiro1225,3 7,2 Eletricista1223,4 9,2 Lisboa e Vale do Tejo 483 Canalizador Alentejo RA Madeira @ Carpinteiro 9,9 1156,9 1148 9,1 Ladrilhador 1144,3 M 9,2 Espalhador de betão 1135,1 4,5 Pedreiro 1106 11,1 Armador de ferro 1104,6 11,9 Pintor 1087,2 11,7 Estucador I 1086,1 11,2 Não qualificados 1057,71 10,5 Algarve RA Açores 0 Evolução dos empregos vagos (em novembro) 3670 2664 2755 1968 2019 2020 2021 2022 2023 2024 FONTE: SEGURANÇA SOCIAL E IEFP INFOGRAFIA JN