FALTA DE TÉCNICOS INFLACIONA PREÇOS DE REPARAÇÕES COMUNS EM CASA
2025-01-18 09:34:04

É cada vez mais difícil encontrar quem repare caldeiras, lareiras ou até picheleiros. O salário destas profissões subiu, em média, 8,5% no último ano e os serviços estão 10% mais caros. O mercado de trabalho tem falta de técnicos para as reparações comuns na casa que, por isso, estão mais caras. Na maioria das vezes, o cliente nem encontra quem faça o serviço. Apesar da subida média de 8,5% no salário destas profissões, elas ainda não parecem ser dignas para que os jovens as escolham para a vida. A simples reparação de um cano, a limpeza de uma chaminé ou o arranjo no telhado podem tornar-se uma dor de cabeça para quem não sabe fazê-lo, pois é cada vez mais difícil encontrar profissionais. A plataforma online portuguesa "Fixando" tem mais de 70 mil especialistas e empresas registadas a prestar serviços deste tipo, mas contabilizou que 56% dos pedidos de reparações e assistência técnica não tiveram resposta em 2024. A reparação de caldeiras (76% sem resposta), a limpeza de lareiras e chaminés (61%), a pichelaria (51%) e a canalização (38%) foram os serviços mais difíceis de contratar. Como consequência, na Fixando, o preço médio destes serviços aumentou 10% num ano, passando de 122 euros, em 2023, para 134 euros, em 2024. O fenómeno não é dissociável da falta de profissionais da construção civil, onde muitos destes técnicos também trabalham. No entanto, a principal causa é social e mais densa, pois os pais deixaram de ensinar aos filhos os saberes que vinham de outras gerações, além de que os jovens tendem a não ter interesse nestes trabalhos manuais, como explica o sociólogo e investigador, Esser Jorge Silva: "A principal razão pela qual estes ofícios não atraem os jovens é a de que persiste o princípio de que são atividades sem dignidade para serem escolhidas como objetivo de vida". Baixo estatuto social O estatuto social destes trabalhos manuais é reduzido e associado "à baixa literacia, à despreocupação com a aparência, à sujidade das vestes, à rudeza do corpo, à falta de polimento nos gestos e a modos de expressão pouco ou nada urbanos", acrescenta o sociólogo, revelando que "quanto mais o seu exercício se aproxima do chão, menos valorizados" são pela sociedade. Em sentido inverso, a valorização financeira é cada vez mais expressiva. Entre outubro de 2023 e o mesmo mês de 2024, as profissões ligadas à construção e reparação registaram um aumento salarial médio de 8,5%, segundo os dados divulgados na sexta-feira pela Segurança Social. Em média, este setor pagou 1268,5 euros ilíquidos a cada funcionário, em outubro de 2024, quando um ano antes pagava 1168,8 euros. Do ponto de vista dos arranjos da casa, o pintor foi o que teve a maior valorização (11,7%), mas todas as profissões da construção viram o salário aumentar acima da taxa de inflação. Ou seja, ganharam poder de compra no ano passado. No futuro "persistirá a escassez" destes profissionais, pois "não se imagina uma mudança na malha mental" e estas ocupações "acabarão por ficar para os imigrantes", afirma Esser Jorge Silva. A contratação de mão de obra estrangeira "pode ser uma solução imediata", concorda o CEO da Fixando, Miguel Mascarenhas, ao mesmo tempo que é preciso "investimento na formação de mão de obra qualificada e na valorização do setor". A modernização destas atividades, que já está a acontecer, "também poderá contribuir" para mitigar o preconceito social, mas "é igualmente importante criar incentivos que tornem estas profissões mais atrativas, tanto para jovens em início de carreira como para trabalhadores que queiram reconverter-se", assegura Miguel Mascarenhas. Pormenores Trabalham mais horas Não foi só o salário que aumentou entre os profissionais da construção e reparações, pois também trabalham mais horas. Em outubro de 2023, laboravam em média 6,8 horas diárias. Um ano depois, a média é de 7,3 horas, segundo informação da Segurança Social. Empregos vagos Houve 1272 ofertas de emprego sem colocação no setor da construção em novembro do ano passado, o último mês para o qual a Segurança Social disponibilizou dados. Lisboa lidera procura É na região de Lisboa que se registam mais ofertas de emprego na área da construção que não obtiveram colocação. Centros de formação tentam remar contra a maré Com 40 anos feitos esta semana e presença em 14 cidades de norte a sul, o Centro de Formação Profissional da Indústria Metalúrgica e Metalomecânica (Cenfim) é um dos vários centros do país que contraria a tendência e lança, para o mercado, jovens prontos a trabalhar nas profissões técnicas que escasseiam. "O país precisa desses técnicos e não há no mercado, isso é ponto assente", assevera o diretor do Cenfim, Manuel Grilo. O mesmo responsável admite que "começa a ser difícil o recrutamento de jovens" para estas áreas, embora haja 150 mil que não estudam nem trabalham: "Não há muita apetência para trabalhar nestas profissões, isso começa-nos a preocupar e tem sido um problema grande". Nas áreas relacionadas com a construção e reparações, como a soldadura, a refrigeração e climatização ou a eletricidade, a taxa de emprego na área "é de 100%", diz Manuel Grilo: "Um jovem que venha frequentar um curso destas especialidades tem garantida empregabilidade". Como tal, já há profissionais de outras áreas a reconverter-se: "Temos advogados que vieram fazer o curso e hoje são soldadores. E temos contabilistas que são hoje operadores de máquinas CNC, portanto, fizeram reconversões profissionais radicais e temos muitos exemplos desses". Para esbater a dificuldade de recrutamento, o Cenfim aposta em "sensibilizar os pais", mas também é preciso convencer políticos: "Só se fala de digitalização e da economia verde e estamos a deixar para trás aquilo que as empresas necessitam". Canalizadores são cada vez mais difíceis de encontrar Delfim Machado