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BRAGA 2025 O VOO DA CULTURA

Jornal de Letras, Artes e Ideias

2025-01-23 07:32:04

CAPITAL PORTUGUESA CULTURA Depois de Aveiro, em 2024, Braga é a Capital Portuguesa da Cultura em 2025, com um vasto programa, que abrange as mais diversas áreas artísticas e culturais. O JL dedica o tema desta edição àquela cidade do Minho, com textos de Ricardo Rio (presidente da autarquia), Henrique Barreto Nunes, Paulo Ferreira e José Oliveira, além de entrevistas com a coordenadora Joana Menezes Mendes e com o músico Adolfo Luxúria Canibal. Em 2025 todos os caminhos vão dar a Braga. RICARDO RIO No passado mês de julho de 2024, centenas de representantes locais de cidades criativas dos cinco continentes subscreveram o Manifesto de Braga, por ocasião do encontro mundial da Rede UNESCO que se realizou nesta cidade, defendendo a inclusão da Cultura como Objetivo do Desenvolvimento Sustentável autónomo aquando da revisão dos ODS pelas Nações Unidas para o pós-2030. Na base desta proposta, está a ideia partilhada por tantos de que a Cultura cumpre um papel absolutamente transversal a todas as dinâmicas de desenvolvimento dos territórios, sendo uma poderosa ferramenta de promoção da educação, da competitividade, do empreendedorismo, da inclusão, da sustentabilidade, da afirmação da identidade, etc.. Em suma, mais e melhor Cultura associam-se a mais qualidade de vida e tornam os territórios mais atrativos para distintas franjas da população, gerando riqueza e empregos e potenciando uma maior dinâmica demográfica. Numa cidade como Braga com mais de 2000 anos de história, a Cultura está presente no seu património vasto e diversificado, nas suas celebrações, nas suas tradições, na riqueza da rede dos agentes e equipamentos culturais, numa multiplicidade de manifestações culturais que cobrem todo o território, ao longo de todos os dias de cada ano. Aqui temos as icónicas celebrações da Semana Santa, a Braga Romana, a Noite Branca, as festividades de São João, a Braga Barroca, os Festivais de Verão, o Mimarte, o Authentica, os Festivais de Folclore, o Braga em Risco, o Semibreve, a Expoética, os Encontros de Imagem, o Braga Blues … Na área das letras, Braga acolhe o Festival Literário Utopia, a caminho da sua 3ª edição e da sua internacionalização do outro lado do Oceano; recebe o Grande Prémio de Literatura DST; promove o Prémio de Literatura de Viagens, Maria Ondina Braga e o Grande Prémio Carreira de Literatura, Vítor Aguiar e Silva, tal como lançará em breve o Grande Prémio de Poesia José Manuel Mendes. Sucedem-se as edições de livros, as exposições, os concertos, os espetáculos de música ou dança, as exibições de teatro, cinema, novo circo e media arts, ramo em que Braga optou por obter a sua adesão à referida rede UNESCO das Cidades Criativas. A cada novo ano, Braga respira mais Cultura, munindo-se de uma oferta que ultrapassa largamente as paredes das principais salas de espetáculos, como o Theatro Circo, o Forum Braga, o gnration ou o Auditório Vita; ou as salas dos seus Museus e Galerias (o Palácio dos Biscainhos, o Museu D. Diogo de Sousa, o Museu Nogueira da Silva, o Palácio do Raio, o Museu da Sé, o Museu dos Cordofones, a Livraria Centésima Página a ZET Gallery, a Galeria Mário Sequeira, entre tantos outros), para ir ao encontro das pessoas no espaço público e nos locais mais inusitados, da entrada do hospital ao Mercado Municipal, do balcão de um café a um autocarro dos transportes públicos, na cadeia, nas escolas, nas instituições sociais. Uma oferta que se dirige em primeira instância ao público local, numa cidade multicultural que fervilha e transborda energia, em termos demográficos, sociais e económicos, mas que potencia importantes dinâmicas turísticas, alicerçando, também através da Cultura, um crescimento do número de visitantes, das dormidas e do retorno económico para a Comunidade. Muitas vezes, promovendo o cruzamento entre as dinâmicas culturais e os ativos patrimoniais dispersos por todo o território, sejam eles de caráter cultural ou natural, como por exemplo ocorre nas dezenas de iniciativas do programa Descentrar. Braga convive bem com esta ideia de ser uma cidade-palco, em que o efeito cénico da envolvente torna ainda mais especial qualquer iniciativa que aí se realize. Poderia o Festival Utopia ser um extraordinário festival literário se não passasse por locais como o centenário Theatro Circo, o Salão Nobre da Universidade do Minho ou a Capela da Imaculada? Poderia. Mas não seria a mesma coisa. Esta viagem de redescoberta e transformação de si própria, das suas vivências e da forma como era percecionada pelos outros, pode ter começado de forma descoordenada e com passos avulsos rumo a um horizonte de ambição. Mas cuidou de se estruturar numa estratégia de médio longo prazo, concreta, consistente e abrangente, discutida e construída com todos, como foi sucedendo em cada uma das áreas da gestão municipal e de desenvolvimento do território. Nasceu assim a Braga 2030, a estratégia de desenvolvimento cultural de Braga, que norteou muitas das políticas e projetos que foram tendo lugar desde 2017 até hoje, e que terá que sustentar muitas das iniciativas a desenvolver no futuro próximo. Valorizando recursos, potenciando sinergias, estimulando a inovação, suprindo lacunas, afirmando espaços e protagonistas. Em 2025, ano em que Braga é a Capital Portuguesa da Cultura, este título surge como um legado da candidatura finalista da cidade a Capital Europeia da Cultura 2027, mas é sobretudo mais uma etapa que dá continuidade ao trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos. Mais do que um ponto de chegada, e tal como antes sucedera com a candidatura a Capital Europeia da Cultura, Braga 2025 será uma escala, mais uma etapa na consolidação de Braga como uma referência cultural a nível nacional e internacional. Queremos que 2025 seja um momento de exaltação da cultura da cidade e da cultura portuguesa e queremos que os projetos que estamos a trabalhar sejam sustentáveis a longo prazo. Numa cidade de portas abertas ao mundo, a Capital Portuguesa da Cultura começa sob um mote quase óbvio: “Abre a tua Porta!”, um repto à participação de todos, convocando a comunidade e os agentes culturais locais, numa mobilização artística ímpar na sua história. Com o apoio de financiamentos públicos e comunitários externos que rondam os 2 milhões de euros, a Capital Portuguesa da Cultura contará com um orçamento global de quase 12,5 milhões de euros, aos quais acresce o investimento em vários equipamentos culturais e patrimoniais municipais, como o Convento S. Francisco, o Arquivo Municipal e a Ínsula das Carvalheiras, ou o Museu da Imagem e o Mercado Cultural do Carandá, que estão já na fase de concurso público. Em breve, irá também para concurso público a reabilitação da Casa dos Crivos e a construção do Media Arts Center no antigo Cinema S. Geraldo, ao mesmo tempo que se dá passos firmes para a revitalização do Teatro Romano ou a criação dos Museus na Fábrica Confiança e no Centro Cultural Francisco Sanches. Do ponto de vista programático, estima-se que a Braga 25 envolve 170 parcerias locais, 50 parcerias nacionais e 40 internacionais, numa mobilização única de agentes culturais dos mais diversos quadrantes. O eixo da criação artística nacional presente na programação de 2025 é composto por estreias de artistas na cidade como a pianista Maria João Pires, apresentações únicas como a que fará a fadista Mariza, de festivais que ligam o quadrilátero cultural (Braga, Barcelos, Guimarães e Vila Nova de Famalicão) tais como o Square e o Extremo, e novas criações de artistas maiores da cultura em Portugal, como os encenadores Tiago Rodrigues e Marco Martins. No domínio da criação artística internacional, a Braga 25 convida um leque de artistas e criadores para intervenções em espaços urbanos da cidade como é o caso do arquiteto espanhol Manuel Bouzas (curador da representação espanhola na próxima Bienal de Arquitectura de Veneza), bem como a estreia nacional do espetáculo do coletivo Bang on Can All Stars. Há espaço ainda para colaborações entre artistas nacionais e internacionais nas áreas do cinema e da música como Daniel Blaufuks e Matthew Herbert e na dança com a dupla Francisco Camacho e Meg Stuart, bem como uma exposição antológica de Kim Gordon. A Capital Portuguesa da Cultura assenta também em projetos de comunidade, que formam a espinha dorsal de um programa rico em colaborações como as que cruzam o património musical da região e a contemporânea, juntando o Grupo de Cantares de Mulheres do Minho ao Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga; a criação literária com o escritor Ondjaki e jovens da comunidade; uma coreógrafa internacional a um coletivo de trabalhadores municipais - no caso, Allison Orr e os trabalhadores da recolha de resíduos da Agere; ou uma encomenda a Filipa Francisco, que trabalhará com grupos de folclore bracarenses. Em Braga, os sinos já ecoam a chamar para um ano de efervescência cultural. Abrem-se as portas. Não deixe de entrar no futuro. Local, nacional e universal MANUEL HALPERN Administradora executiva do Theatro Circo de Braga, Joana Menezes Fernandes assumiu a coordenação da Braga Cultura 2030 – Estratégia Cultural de Braga 2020–2030 e, posteriormente, a coordenação do programa artístico da Braga’27 – candidatura a CEC. E é na sequência dessa candidatura que agora assume a coordenação de Braga 2025, CCPC. É licenciada em Arte e Património pela Escola das Artes da Universidade Católica do Porto onde obteve também o grau de Mestre em Gestão do Património Cultural. JL: A programação da CPC parte de algum conceito específico? Joana Menezes Fernandes: Este título resulta de um processo de 2018, quando se deu início à preparação da candidatura à Capital Europeia da Cultura (CEC). Uma parte significativa é um conjunto de projetos artísticos diversificados que já estavam planeados. Não existe um conceito do ponto de vista de slogan. Existe sim essa matriz comum, com um lastro no território de Braga. É um projeto que tenta naturalmente abranger várias áreas. Quais foram as vossas maiores preocupações em termos de abrangência de campos artísticos, e de equilíbrio entre o local e o nacional e o universal? Não organizamos o nosso programa na lógica de pensar especificamente num X número de projetos para cada área artística, até porque muitas propostas são, na realidade, multidisciplinares. Por exemplo, temos um projeto chamado Cinex, que tem uma hibridez de linguagem entre o cinema e outras áreas. Outra das propostas é uma exposição da Kim Gordon, a primeira da artista em Portugal. Só que, como se sabe, a Kim Gordon é conhecida enquanto co-fundadora do Sonic Youth, ou seja, o seu trabalho mais visível é no domínio da música. E quanto à representatividade territorial? Organizamos e pensamos o nosso programa assente em vários objetivos. Em primeiro lugar, queremos promover a internacionalização da criação artística contemporânea portuguesa, nomeadamente fundando uma rede de parceiros europeus e internacionais que estiveram connosco na preparação do processo anterior. Depois, sendo este um título de capital portuguesa, acreditamos que Braga deve ser, em 2025, um espaço de visibilidade e de promoção da criação artística contemporânea portuguesa. E ainda um terceiro objetivo passa por criar um contexto fértil de relações com parceiros europeus, artistas de escala nacional, etc., E depois que tudo isto sirva como uma oportunidade de capacitação dos agentes locais que estão também presentes no nosso programa de uma forma transversal. Temos cerca de 180 parceiros locais que integram este programa. E cerca de 50 parceiros nacionais, nos quais estão representadas instituições incontornáveis à escala nacional, como os teatros nacionais, a Companhia Nacional de Bailado. E depois temos ainda cerca de 40 parceiros internacionais. Braga já tinha uma programação cultural significativa, com o Theatro Circo e outras instituições. Espera-se uma mudança de escala? Sim. Desde logo, há aqui um investimento bastante significativo da parte do município e daquilo que é o orçamento do município alocado à cultura. Mas, na realidade, este crescimento e gradual investimento na cultura é algo que tem vindo a ser feito logo na sequência da atribuição do título de CPC à cidade, no final de 2022. Além daquilo que era o investimento habitual do município, houve aqui um investimento adicional na ordem dos três milhões e meio. E a estes somaram-se ainda os dois milhões de euros que o governo português atribuiu a cada uma das CPC. Obviamente este orçamento reforçado para as políticas culturais da cidade materializou-se depois na oferta e numa maior dinâmica ao longo de 2025. Todos os dias será possível ao público bracarense e também a quem nos visita participar numa das atividades do nosso programa. Há neste programa também, como é evidente, uma continuidade de projetos, de eventos, de propostas que já existiam na cidade, como é o caso do Festival Utopia. Qual é o equilíbrio entre produções próprias ou encomendas, e a inclusão de Braga em circuitos nacionais e internacionais? Não consigo responder a essa pergunta em termos de percentagens. Posso dar um exemplo muito concreto. Kathryn Joseph vai apresentar ao vivo o resultado de uma encomenda da CPC, que é uma composição de uma banda sonora para o clássico do cinema alemão Fausto. Outro exemplo, que acontece mais no final do ano: o encenador e realizador, Marco Martins, irá estrear o seu novo trabalho em Braga, que é uma encomenda da CPC. O Tiago Rodrigues também está connosco no primeiro trimestre de programação, não sendo exatamente uma encomenda, será uma estreia em solo nacional. Braga continua a ser bastante conhecida pelo lado da música, pelo movimento de rock independente. Por esse lado, o que se pode esperar? Criámos o festival Square. É um festival que celebra a música independente e este ecossistema musical tão particular que na realidade tem expressão não apenas em Braga, mas também nos concelhos vizinhos, como Barcelos, Famalicão e Guimarães. Vemos neste território um ecossistema muito fértil de produção de música independente, não só com bandas e artistas, mas também com editoras, agências, etc. Que outros destaques se podem fazer? É sempre algo ingrato. Vou falar de um projeto que pode ser de alguma forma a síntese de muitos dos princípios que estão presentes no nosso programa. Contra-Quiosque é uma exposição que acontece em espaço público, ocupando cinco quiosques da cidade. Foram convidados cinco artistas, cada um deles desenvolve um processo de residência, que resultará numa micro-exposição. O mote para esse trabalho destes artistas foi o dar voz e dar visibilidade às comunidades menos visíveis da cidade. E quando falo de comunidades menos visíveis, falo até de comunidades não-humanas: uma das propostas terá como parceiro o banco de germoplasma vegetal português. Com a adaptação do programa de CEC para CPC o que ficou de fora? Há um envelope financeiro completamente distinto. O programa da capital europeia da cultura implicava um trabalho muito mais profundo e muito mais intenso com parceiros internacionais. Vai ser com certeza um ano muito especial para Braga, mas depois o que é que vai ficar? Vemos com bons olhos a possibilidade de continuidade de algumas destas propostas, nomeadamente o Festival Square. De resto, acreditamos que possa a vir ter um impacto no pós-2025 no consumo cultural dos bracarenses. Também há a ambição de que possa ter um impacto na notoriedade da cidade de Braga, quer a nível nacional, quer a nível internacional, e que isto possa atrair também ainda mais visitantes. E depois, acreditamos que a enorme quantidade de agentes culturais de escala nacional e internacional que estarão presentes na cidade ao longo do ano possa contaminar o nosso setor cultural e criativo local com novas práticas. Ainda acontece muito que os artistas bracarenses seja forçados a migrar para Lisboa ou Porto? Sim, claro.com efeito não apenas em Braga, mas em todas as cidades terceiras do país .É muito difícil competir com a capacidade que cidades como o Porto e Lisboa têm para atrair talento, mas acreditamos que o título de CPC torne Braga um território mais fértil e mais atrativo para fixar agentes culturais. A não perder A programação de Braga 2025 é muito vasta e abrange todas as áreas. Destacamos aqui dez eventos que valem uma visita a Braga no próximo trimestre ABRE A TUA PORTA Braga 2025 abre oficialmente as portas com um espetáculo colaborativo com coreografia de Filipa Francisco e Deeogo Oliveira, dramaturgia de Regina Guimarães e encenação de John Romão. A cerimónia é apresentada pela atriz Margarida Vila-Nova e será dada a palavra à Geração B25+, grupo de jovens que serviu de órgão consultivo do projeto da Braga 25 desde a fase de candidatura a Capital Europeia da Cultura. Em plena avenida central, ouve-se a música de fadista Mariza, Dino d’Santiago, Iolanda, grupos folclóricos bracarenses e breakdance. Theatro Circo e Avenida Central, dia 25 KIM GORDON É conhecida como baixista fundadora dos Sonic Youth, banda que marcou a cena indie de Nova Iorque, a partir dos anos 80. Contudo, vem a Portugal mostrando uma outra vertente. É que paralelamente tem desenvolvido uma interessante carreira de artista. Em Braga, integrando o programa Cinex, exibe pela primeira vez o seu trabalho artístico no nosso país, em Object of Projection, reunindo obras da última década. Uma abordagem multifacetada, fortemente assente na arte conceptual, instalação, observação e estética punk, que inclui instalações performáticas em vídeo. Gnration, até 5 de abril SQUARE É um festival, mas também um ponto de encontro para profissionais na área da música. O Square decorre ao longo de quatro dias, em Braga, Famalicão, Barcelos e Guimarães. Tem uma parte vocacionada para o público em geral, com concertos de banda locais e estrangeiras, nomes Unsafe Space Garden e Quadra, Asmaa Hamzaoui & Bnat Timbouktou ou Julián Mayorga. E, ao mesmo tempo, propõe um programa de conferências e encontros vocacionado especialmente para a Indústria. O festival que tenta tirar partido do contributo da região para o rock independente português. Vários espaços, de 29 de janeiro a 4 de fevereiro VERA MANTERO X SUSANA SANTOS SILVA Se o encontro não é totalmente improvável, é pelo menos inédito. Vera Mantero, um dos nomes da Nova Dança Portuguesa, e Susana Santos Silva, artista da cena jazz europeia, reúnem-se em palco para apresentar uma obra interdisciplinar, criada a partir de um projeto de improvisação sobre movimento, gestos e palavras. O projeto é desenvolvido no âmbito do programa Zona Franca, que liga o Gnration e o Theatro Circo, em Braga, ao Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. CARLOS PAREDES Este ano celebra-se o centenário do nascimento de Carlos Paredes, um dos mais importantes nomes da história da música portuguesa. Braga junta-se às celebrações com dois concertos encomendados O primeiro junta o guitarrista americano Ben Chasny (Six Organs Of Admittance) ao português Norberto Lobo. O segundo traz-nos o jazz de Mário Laginha, na companhia de Julian Argüelles (saxofone), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Pereira (bateria). Gnration, dia 14; Theatro Circo, dia 21 NO YOGURT FOR THE DEAD, TIAGO RODRIGUES Diretor do Festival do Teatro de Avignon e ex-diretor do D. Maria II, Tiago Rodrigues é atualmente o mais reputado encenador e dramaturgo português a nível internacional. Braga recebe a estreia nacional da sua mais recente peça, No Yogurt for the Dad, inspirada nos últimos dias de vida do seu pai. Falada em português e neerlandês, a peça conta com Interpretações de Lisah Adeaga, Beatriz Brás e André Pato, e música dos Clã. Antes disso, dia 14 de fevereiro, Nuno Preto faz uma leitura encenada de By Heart, do mesmo autor. Theatro Circo, 27 e 28 de fevereiro STEVE REICH MUSIC FOR 18 MUSICIANS Integrando o ciclo Contraponto do Theatro Circo, dedicado à composição musical dos séculos XX e XXI, o grupo de percursão Drumming, na companhia de e um ensemble de Braga, interpreta, a peça Music for 18 Musicians, escrita entre 1974 e 1976 por Steve Reich. Uma peça hipnótica que promete proporcionar uma experiência rara à audiência. KATHRYN JOSEPH A escocesa Kathryn Joseph já tinha vindo ao Theatro Circo, em 2019, para apresentar From When I Wake The Want Is. Agora, enquanto prepara o seu próximo álbum, aceita o desafio da CPC, e prepara, em exclusivo, uma banda sonora para o clássico universal de F. W. Murnau, Fausto (1926). Um filme concerto que ninguém vai querer perder. Theatro Circo, dia 15 MOBILE RADIO É uma oficina muito peculiar. . Sarah Washington e Knut Aufermann desafiam os participantes a construiu uma obra coletiva de arte radiofónica que será transmitida em 28 estações de diversos países. A dupla chama-se Mobile Radio e já produziu aquilo a que chamam radio art para mais de 50 estações de rádio no mundo inteiro. Gnration, de 15 a 22 de março CONTRA-QUIOSQUE Pode-se dizer que é um projeto que mexe com a cidade. O contra-quiosque recupere cinco quiosques devolutos da cidade de Braga e dá-lhe uma nova vida, enquanto espaços de residência artística em diálogo com as comunidades, tendo como resultado final cinco micro-exposições. Os cinco quiosques ficam a cargo dos artistas Emilia Rigová, Hilda de Paulo, Maria Trabulo, Marta Machado e Miguel Teodoro. Quiosques da cidade, a partir de 29 de março Festival Utopia O não lugar que tomou conta de Braga PAULO FERREIRA 1. Inspirado pelo conceito de “utopia”, que desde os tempos de Thomas More tem fascinado sonhadores e pensadores, o Festival Utopia é o não-lugar que se corporizou em Braga, transformando e apropriando-se da cidade, que desta forma se torna num polo de conhecimento, arte e imaginação. Unindo autores, artistas e pensadores de renome, ao lado de talentos locais, acolhe e promove diálogos e expressões artísticas que, tal como uma utopia, desafiam o presente e exploram novos horizontes. 2. Desde 2023, falamos de um evento apenas com duas edições, a programação do Utopia totaliza 21 dias, com mais de 200 horas que refletem a diversidade de temas e de abordagens que tornam o festival uma experiência única. Mesas-redondas, masterclasses, cursos, concertos, atividades para famílias, oficinas para jovens e muito mais, em sessões que incentivam a partilha e o debate em torno de questões contemporâneas, abrindo novas perspetivas e caminhos de reflexão. Entre a lista com mais de 200 convidados constam nomes como Ludmilla Ulitskaya, Leïla Slimani, Gilles Lipovetsky, Valter Hugo Mãe, Lídia Jorge, Miguel Esteves Cardoso, Dulce Maria Cardoso, Ricardo Araújo Pereira, Afonso Cruz, José Luís Peixoto, Lélia Salgado e Gonçalo M. Tavares. A repercussão do Utopia destacou-se desde logo pela atenção dos media, tendo registado um valor de retorno mediático de três milhões, com perto de 600 notícias. 3. Em 2025 só poderemos ter uma edição ainda mais especial do Utopia Braga, enquanto instrumento de valorização do território, que se apresenta como Capital Portuguesa da Cultura. Preparando-se para esta ocasião histórica, o festival alarga o seu alcance e consolida a sua importância no cenário cultural nacional, demonstrando a força da cultura como motor de crescimento e transformação. E como o festival tem uma visão de futuro foi estabelecida uma cooperação estratégica com a próxima capital portuguesa de Cultura, Ponta Delgada, estando já projetada uma edição especialíssima do nosso evento naquele arquipélago mágico. 4. Um dos grandes propósitos do Utopia é unir os vários territórios do país através de uma programação diversificada e colaborativa. Exemplo disto é o acordo intermunicipal assinado na sessão inaugural do Utopia 2023 com Lisboa, Óbidos, que estabelece novas sinergias e troca de experiências entre diferentes regiões, reforçando a presença da cultura portuguesa em todo o território. Nesta intenção de colaboração entre território, também Matosinhos já se juntou ao Utopia (e outros virão). 5. Apenas com duas edições, reforçamos, o Utopia já se afirmou na agenda dos grandes eventos literários nacionais. Tendo sido sua ambição desde o primeiro momento, o festival tem já confirmada a sua primeira edição internacional, na América latina, em 2025, dando continuidade à sua missão de promover Portugal além-fronteiras e levando a cultura portuguesa a novos públicos e espaços. Seguindo uma lógica de “marketing territorial”, cada município português é convidado a apresentar-se a partir de uma característica singular que o define e que será ligada ao universo do livro e da leitura. 6. O Utopia destaca-se ainda pela sua ligação com os agentes culturais e económicos locais e nacionais. Desde instituições de ensino a empresas, associações culturais e espaços artísticos, esta rede de parcerias é fundamental para o sucesso do festival e para a criação de um ambiente em que a cultura se cruza com o quotidiano da cidade e dos seus habitantes. Atualmente são já mais de 40 parceiros. O compromisso e entusiasmo crescentes possibilitam a afirmação de Braga como uma cidade de conhecimento, criatividade e inovação cultural. 7. O reconhecimento da qualidade do programa verificou-se na adesão, ao registarmos em 2023 as sessões esgotadas semanas antes de acontecerem. Isto num evento que por natureza não é de massas, mas que tem vindo a conquistar públicos distintos graças à diversidade das propostas que compõem o programa. Mais de 33 mil pessoas já participaram do Utopia. 8. O Utopia é também um instrumento de criação de conteúdos originais. Em 2023, Afonso Cruz respondeu à chamada e concebeu o espetáculo “O que a chama iluminou”, dando origem este ano ao seu mais recente livro (Companhia das Letras). Estes conteúdos originais assumem particular relevância na medida em que assumem uma lógica de itinerância, levando estas criações para outras geografias (Óbidos, Guimarães, Matosinhos e muitos mais). J *Paulo Ferreira é consultor editorial, agente literário, fundador e diretor da Booktaylors, responsável pela programação do Festival Utopia. As bibliotecas no coração da cidade HENRIQUE BARRETO NUNES Há uma longa tradição da existência de bibliotecas em Braga, que remonta ao séc. VII, sendo continuada à sombra de uma escola catedralícia, culminando em conventos, mosteiros e colégios que aqui floresceram desde o séc. XVI, naturalmente sob a égide da igreja católica. Após a Convenção de Évora-Monte, assinada em 27 maio 1834, que pôs termo à guerra civil, são extintas as ordens religiosas e nacionalizados os seus bens, tornando-se evidente a necessidade urgente de salvar as suas livrarias, o que a legislação entretanto promulgada incentiva. A vereação bracarense mostra logo interesse em fundar uma biblioteca, o que só se tornará possível em 1841, através de uma Carta de Lei que ordenava “o imediato estabelecimento e conservação da Biblioteca Pública” em Braga (BPB) instalada no convento dos Congregados, com uma coleção inicial de cerca de 25000 volumes de origem monástica. Não cabe neste texto descrever todas as vicissitudes e obstáculos verificados com a entrada em funcionamento da BPB que, quando foi proclamada a República, se encontrava num estado perfeitamente caótico. Em 1911 foi nomeado seu bibliotecário Alberto Feio, que para além da situação herdada teve que enfrentar novos e inesperados desafios, de entre os quais avultava a incorporação do importantíssimo cartório do Cabido da Sé de Braga e de outras instituições da Igreja, bem como o dos registos paroquiais, o que viria a estar na origem da criação do Arquivo Distrital de Braga (1917), na altura anexado à Biblioteca. O problema mais imediato era o da falta de espaço pois no edifício dos Congregados não seria possível acondicionar a imensa mole documental que lhe tinha sido cometido conservar e disponibilizar ao público. A solução acabou por recair no palácio barroco do arcebispo D. José de Bragança, riscado por André Soares, destruído por um incêndio em 1864. A obra vultuosa do seu restauro, inspirado nas bibliotecas conventuais, concretizada pela D. G. Edifícios e Monumentos Nacionais, começou em 1930, iniciada no tempo da Ditadura Militar, que também incluiu a BPB nas beneficiárias do “depósito legal”, acabando por ser inaugurada em 1934. Num edifício adaptado, para a época com grande critério, a Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga (BPADB) começa a funcionar com forte impacto na cidade, cumprindo as funções que lhe eram inerentes e gozando de algum prestígio no meio intelectual devido ao património bibliográfico e documental de que era detentora. Constata-se porém que a partir do início da década de 60 começam a surgir novos problemas, o que incide especialmente no enorme atraso no tratamento e disponibilização das espécies bibliográficas entradas. Mas eis que surge Abril, a liberdade e a democracia são palavras de ordem que também se refletem na cultura e na urgente necessidade de satisfazer as necessidades dos cidadãos em matéria formativa e informativa. Quase coincidindo com a revolução, a BPADB foi integrada na recém-criada Universidade do Minho, com resultados imediatos a partir de 1976, resultantes da realização de importantes obras estruturais, da aquisição de mobiliário e equipamento e, sobretudo, devido à contratação de pessoal com formação adequada, o qual consegue dar resposta à enorme afluência de leitores e investigadores que ali encontram os mais recentes livros, revistas e jornais editados em Portugal, entrados através do “depósito legal”, bem como milhares de títulos que estavam por catalogar. Um pouco mais tarde virá o tempo da informatização. A BIBLIOTECA TAMBÉM SE COMEÇA a distinguir pela intensa ação cultural que desenvolve, o que a tornou uma referência no país, trazendo aos seus espaços alguns dos maiores nomes da literatura e da intelectualidade portuguesa, realizando igualmente conferências e colóquios, recitais de poesia e exposições, ao mesmo tempo que dinamizava uma secção infantil e juvenil. Porém em breve se coloca de novo o problema da falta de espaço, começando a vislumbrar-se uma solução com a criação da Rede de Bibliotecas Públicas (RBP) em 1987 e, posteriormente, do Projecto Bibliopolis, que permitia a integração na rede de grandes centros urbanos onde existiam importantes e históricas bibliotecas, como era o caso de Braga. Essa adesão concretizava-se através da assinatura de um contrato-programa entre a SEC/Instituto Português do Livro e da Leitura (mais tarde, das Bibliotecas) e os municípios interessados. Braga era porém um caso especial porque a BPB estava integrada na Universidade do Minho, o quem só tornou possível a adesão à RBP em 1991. A nova biblioteca começou pouco depois a ser construída, respeitando o programa do IPLB, sendo evidente a articulação deste equipamento com a BPB, tendo como uma das linhas axiais a transferência quase integral dos livros entrados pelo “depósito lega” (cerca de 200 mil) a partir de 1976 para as novas instalações, o que permitiria a sua utilização pela comunidade através do livre acesso e do empréstimo domiciliário. E finalmente, em dezembro de 2004 foi inaugurada a nova biblioteca, que passou a ostentar o nome de Lúcio Craveiro da Silva (BLCS). Em poucos anos este equipamento conquistou o seu lugar no coração da cidade, disponibilizando aos bracarenses cerca de 500 mil monografias, das quais, em 2024, os 33000 leitores inscritos fizeram 72000 empréstimos. Cumprindo o que prescreve o “Manifesto da IFLA/UNESCO para as Bibliotecas Públicas”, é um centro local de informação, tornando acessível aos seus utilizadores o conhecimento e a informação em todos os géneros. Disponibiliza um espaço de acesso público para a produção do conhecimento, partilha a troca de informação e cultura, incentiva a criação literária e promove a participação cívica dos cidadãos, com base na igualdade de utilização universal. A BLCS, SERVIÇO PÚBLICO GRATUITO, Integrou-se rapidamente na vida da comunidade como o atestam especialmente as suas iniciativas de ação e extensão cultural, a promoção de autores locais, a evocação de personalidades e instituições marcantes, o seu papel na criação e desenvolvimento na Rede de Bibliotecas Escolares. Não obstante em Braga, ao contrário do que acontece em inúmeros municípios, ainda não se ter concretizado a existência de uma rede concelhia de bibliotecas, como estava preconizado no contrato programa atrás referido (apenas existem quatro pequenas bibliotecas em freguesias urbanas e numa rural), não existindo sequer uma itinerante que leve o livro à procura do leitor, lacuna de exclusiva responsabilidade da autarquia. Quanto à velha Biblioteca Pública, enfim “liberta” do Arquivo Distrital, que continua a ser indubitavelmente uma das mais ricas e importantes do país, tendo sobrevivido a cinco regimes políticos, vive, quanto a mim, um período de alguma indefinição. Possui salões e depósitos majestosos, alguns de grande qualidade cénica, mas sofre de certos constrangimentos devidos à conceção dos espaços do belíssimo palácio barroco que ocupa (p. ex., não possui sala de exposições e auditório facilmente acessíveis), devendo procurar assumir-se essencialmente como uma biblioteca patrimonial, dando primazia à preservação, tratamento, acessibilidade e promoção das suas opulentas coleções e mantendo a sua integridade (lamentável o recente “abate” de centenas de títulos de jornais). Pequenas exposições, feitas com critério e rigor, têm-lhe dado alguma visibilidade, chamando a atenção para o invulgar património bibliográfico que conserva. Braga tem excelentes bibliotecas que deviam viver sob um regime de cooperação e complementaridade, mas deve estender a sua ação a todo o concelho, afirmando o seu papel decisivo na consolidação da democracia de novo ameaçada. Adolfo Luxúria Canibal A cidade do rock MANUEL HALPERN Os Mão Morta têm um novo espetáculo, Viva La Muerte, que cai entrar em digressão pelo país, depois de se ter estreado no Theatro Circo, em Braga. A banda de Adolfo Luxúria Canibal assinala assim 40 anos de existência, numa visita à música de intervenção, que sairá em disco mais à frente. O JL entrevista o líder dos Mão Morta, a banda com maior visibilidade do movimento de rock alternativo que surgiu em Braga nos anos 80. JL: Braga é conhecida como a cidade dos arcebispos e tem muitas vezes uma conotação muito conservadora. Como se explica que neste contexto nasça um dos mais importantes movimentos de rock alternativo em Portugal? Adolfo Luxúria Canibal: Braga era conhecida, sobretudo, pela preponderância da Igreja, que julgo que continua a ser a maior proprietária da cidade. Mas houve muitos filhos de famílias a ir estudar para fora, porque a Un. do Minho só abriu em 1973. Quando voltavam relatavam o contacto com tudo o resto, os movimentos estudantis, etc. Depois também os emigrantes, que regressavam no verão, e traziam outras coisas. Portanto, havia uma espécie de cultura alternativa que se ia formando na cidade, à margem do tradicional. Esse caldo cultural alternativo que fez com que, de facto, quando surgiu o boom dos movimentos ligados ao rock um pouco por toda a Europa e Portugal, tal acontecesse também em Braga. Manifestou-se como um grande polo contracultural de que o rock fazia parte. Tu próprio recebeste essa educação católica? Até que ponto é que o catolicismo também mexeu contigo? A minha primeira rebelião familiar foi contra a frequência da missa dominical. Mas o catolicismo estava de tal forma entranhado que lembro-me de ficar a ver quando é que receberia um castigo divino. Demorei algum tempo a perceber que não havia castigo nenhum. Como é que vocês faziam para mostrar o vosso trabalho, a vossa música? Primeiro foi na Fábrica. Havia três edifícios devolutos. De vez em quando, havia festas e fazia-se um palco improvisado. Ou então, nas casas particulares. E depois apareceu o Deslize, que abriu em 83, 84, e que também começou a ter alguns concertos. Por que achas que acabou por ser a música a face mais visível? O punk permitiu que toda a gente pudesse fazer música. E o post-rock continuou nessa senda, abrindo ainda mais um leque de possibilidades quanto às tipologias musicais. Isso em Portugal é feito em Braga. A música surgiu como uma disciplina artística mais imediatamente apelativa. E, tirando a literatura, é a arte que necessita de menos investimento financeiro para poder ser executada. Mas havia outras expressões artísticas… Sim, Braga tem uma boa panóplia de fotógrafos. A fotografia fazia parte do quotidiano também dessa geração, tal como o desenho e a pintura. Houve também alguns esboços e coisas mais performativas e teatrais. Braga reteve esses talentos? Todas essas pessoas acabaram por sair de Braga. Os bracarenses são um bocado parte da diáspora portuguesa. A cidade ainda hoje não lhes dá condições para fazer nenhuma vida estabilizada, porque o consumo cultural é irrelevante e insuficiente para que uma pessoa viva da sua prática artística. Há muitos que vivem em Lisboa, porque assim têm outras condições de visibilidade e de trabalho. A partir dos anos 90, quando os media começaram a ficar concentrados na capital e a não sair de lá por falta de orçamento, tudo o que trabalhava no resto do país não era visível. Como é que evoluiu esse movimento e o que é que sobra desse movimento hoje? Braga tem, a nível da música, muita coisa a acontecer. Só que são coisas a nível muito local, e não conseguem dar o salto. Mesmo quando tentam chegar a Lisboa, são quase invisíveis, porque como ninguém conhece, ninguém vai ver. Mas a cidade não melhorou em termos de oferta cultural? Melhorou bastante com a remodelação do Theatro Circo e a abertura em 2013 do Gnration. A cidade ganhou uma capacidade de interação cultural. Achas que a capital portuguesa da cultura pode contribuir para que isso melhore? A capital portuguesa da cultura centraliza-se muito na mostragem de coisas que se fazem fora. Apesar da programação ser muito boa, faltam coisas novas, que sejam produzidas pela capital em si. Entretanto, os Mão Morta vão entrar em digressão, sendo que o primeiro concerto será em Braga? Há um disco novo chamado Viva La Muerte, que foi apresentado com uma conferência com vários historiadores ligados à temática do fascismo. E depois temos uma série de concertos, sempre ligados a esta temática. O Theatro Circo convidou-nos a fazer um espetáculo que assinalasse os 40 anos dos Mão Morta. Propusemos fazer algo centrado no conceito do fascismo, e das novas ameaças à democracia que estão a surgir um pouco por todo o lado. Reunimos um repertório de música de intervenção, do José Mário Branco, etc, coisa que nunca tínhamos feito, e demos-lhe a nossa visão. Alternativa e clandestina O que sempre me fascinou na cidade de Braga foi a sua obscuridade, o seu lado lunar, não a luminosidade nem os brilhos falsos que lhe querem impor à força, com festas pimba e falsamente populares. Desde sempre que me lembro desta ser apelidada da “Cidade dos Arcebispos”, atrozmente conservadora e retrógrada. Nas grandes celebrações da Páscoa, do Natal ou de santos variados, ou mesmo no dia-a-dia mais corriqueiro, sente-se, ainda hoje, esse peso de uma religiosidade esmagadora. Então, como em muitos meios semelhantes, para mim o mais urgente, grave e prodigioso, sempre se passou nas sombras e nos espaços esconsos, longe do oficial e das leis. Quando em 2020 estreou o meu filme bracarense, Os Conselhos da Noite, o que nele se passava, para além da historinha óbvia, era uma tentativa de resgate da História alternativa, clandestina, sempre pronta a ser abafada. Por exemplo, ir às antigas paredes do Bar Deslize (agora dividido entre o Rossio da Sé e o Mal-Amado) - onde nos anos 80 a banda Mão Morta fez história pela calada, onde tanta poesia germinou, novas visões de uma cidade revolucionária, de um novo mundo – e tentar sentir ainda uma energia, uma vibração de promessa e logo de eternidade. Convocar personagens míticas, mas atuais, das letras e do teatro que nunca receberam o devido valor – como José Miguel Braga ou Camilo Silva – e por elas evocar, por exemplo, o grande poeta Sebastião Alba e a sua majestade discreta e cósmica; poeta esse que morreu num dia banal atropelado numa grande via-rápida, tal como na música Construção, de Chico Buarque – o mesmo esquecimento, a mesma frialdade. Ir aos escombros românicos, góticos, barrocos e intemporais da Sé de Braga e sentir reverberações da nova música eletrónica, do rock ou das tangentes ao hip-hop que hoje se pode escutar em Braga e para lá dela. Uma personagem deambulatória e esquecida – Tiago Aldeia – que no cérebro continha o Velho mas que nos olhos e nas perceções do puro presente sentia (violentamente e constantemente) o Novo. Que hoje continua a ser o mais alternativo, e logo o mais essencial. Da livraria Centésima Página à fauna, flora e todos os tipos de poética dos bares em frente à grande Catedral (com destaque para o Sé La Vie), passando pelas sessões do LUCKY STAR - Cineclube de Braga, temos todo um cosmos em potência que vale, para quem procurar para além das aparências, todos os epítetos de uma Cidade da Cultura. JOSÉ OLIVEIRA Livrarias: da Victor à Centésima Página HENRIQUE BARRETO NUNES Nos últimos 40 anos desapareceram do centro de Braga nove livrarias e um alfarrabista, quase todas substituídas por lojas de roupa. De todas elas, duas merecem referência especial pelo prestígio de que gozaram e pelo papel que desempenharam no ambiente cultural da cidade. A Livraria Cruz, fundada em 1888 por um professor primário, dedicou-se inicialmente ao livro escolar, mas o seu sucesso foi crescendo de tal modo que em 1916 José A. Cruz decidiu remodelar totalmente o prédio em que estava instalada, criando de raiz um novo estabelecimento. A imprensa da época tece loas à sua qualidade ao nível do mobiliário e da decoração do interior, considerando-a “um mimo de arte”. A livraria rapidamente se impôs, sendo completada com uma oficina tipográfica e continuando a dedicar-se ao livro escolar (era especializada nos célebres “livros únicos”), mas também a obras de temática religiosa e de autores próximos do Estado Novo, não descurando naturalmente a produção editorial nacional. A oferta era abundante, pois dispunha de grandes armazéns, sendo um estabelecimento de livros de rotação lenta. Sendo frequentada por uma certa elite local, foi igualmente uma escola de livreiros que criaram estabelecimentos similares. Hoje, com o interior descaracterizado, é um restaurante denominado “Livraria”. Caso muito diferente foi o da Livraria Victor, criada em 1947 pelo então jovem Victor de Sá (VS), inquieto oposicionista que acreditava que os livros e a leitura podiam ajudar a mudar a sociedade (aliás tinha sido ele o promotor da Biblioteca Móvel, em 1941, que o regime acabou por liquidar). Preso pela PIDE um mês antes da abertura da livraria, esta era vítima constante de rusgas policiais que ali procuravam os livros proibidos, muitas vezes vendidos “por debaixo do balcão”. A Liv. Victor foi um ativo polo cultural onde a pretexto dos livros, se debatiam os problemas de um país amordaçado e se conspirava contra o regime, atraindo muitos “desafetos” ao Estado Novo. Por isso mesmo esteve encerrada durante uma semana, aquando de uma das sete prisões de VS. Em 1972 Victor Sá (historiador, que conheceria também o exílio e só após o 25 de Abril pôde ensinar, prof. da Fac. de Letras da Un. do Porto) inaugurou uma filial, inspirada no modelo das livrarias parisienses que se transformou num local de muitas iniciativas culturais, continuando a ser alvo da censura. E em 1975, em pleno “verão quente” foi apedrejada e metralhada pela extrema-direita. Hoje em Braga, para além das que abriram nos centros comerciais, resistem duas pequenas livrarias, existe uma Bertrand e aconteceu um milagre. Fundada por três mulheres em 1999 e desde 2005 instalada num belo edifício barroco, riscado por André Soares, na Avenida Central, surgiu a Livraria Centésima Página, um espaço encantatório Livraria independente, com diversas secções, apresenta no seu salão principal, de pé direito altíssimo, com estantes até ao teto, uma oferta editorial invulgar orquestrada por um grupo de colaboradores de qualidade. Não se deixando submergir pelas “bestas céleres” ou pelas obras que o mercado impõe, tem uma oferta em que, para além do óbvio, deparamos com livros de pequenas e desconhecidas editoras, de vanguarda ou marginais, as edições de autor, as universitárias, a bibliografia local, além de uma oferta em diversas línguas, a começar pela galega, bem como um espaço dedicado aos mais jovens. E lá também se apresentam livros e autores, se realizam debates e recitais que se podem estender até um pequeno jardim com árvores frondosas (no centro de uma cidade onde o cimento impera) no qual, quando o tempo o permite, essas animações têm lugar, apoiadas por uma simpática cafetaria. A Centésima Página é uma casa de livros única, sedutora, aonde apetece ir e sabe bem estar.