CIÊNCIA E AMBIENTE PSICOLOGIA - EM PORTUGAL, A SATISFAÇÃO COM A VIDA ESTÁ ASSOCIADA À SEGURANÇA FINANCEIRA
2025-01-26 06:00:08

Estudo incluiu dados de quase 57 mil pessoas de 65 países e sugere que a Escala de Satisfação com a Vida pode ajudar a criar estratégias para aumentar o bem-estar em todo o mundo Uma boa segurança financeira, ter concluído o ensino superior, estar casado ou ser mais velho: são estas variáveis que mostraram estar associadas a uma maior satisfação com a vida num estudo que incluiu dados de 65 países. E Portugal ficou mais ou menos a meio da distribuição, com os resultados a estarem, no geral, em consonância com os das outras nações à excepção da idade e do estado civil, que não mostraram estar significativamente associadas à satisfação com a vida dos portugueses. Ou seja, poder-se-á concluir que, em Portugal, as pessoas associam uma maior satisfação com a sua vida a uma boa rede de apoio financeiro (ou, em termos mais simples, a ter dinheiro) e à educação, mas os portugueses não valorizam tanto estar num relacionamento estável, e ser mais velho não é indicador de maior satisfação. O estudo, publicado na revista Plos One, incluiu dados relativos a quase 57 mil pessoas de 65 países e sugere que a Escala de Satisfação com a Vida (SWLS, na sigla em inglês), uma ferramenta amplamente utilizada na investigação, tem potencial para identificar domínios comuns no que diz respeito ao contentamento das populações e para criar estratégias e políticas para aumentar o bem-estar em todo o mundo. Num comunicado sobre o estudo, a Plos One destaca que “a satisfação com a vida está associada a uma vasta gama de domínios, como a saúde física, o emprego e a mortalidade”, com a SWLS a corresponder a “um questionário que mede a satisfação com a vida de um indivíduo”. A SWLS, acrescenta a nota, é reconhecida, regra geral, por ser “estatisticamente útil para avaliar a satisfação com a vida num determinado grupo demográfico, como pessoas de uma única nacionalidade ou numa faixa etária específica”. “No entanto, tem sido menos claro até que ponto a SWLS é eficaz para comparações entre diversos grupos, como pessoas de diferentes nacionalidades, línguas, identidades de género ou grupos etários uma qualidade estatística conhecida como invariância de medição ” ,, principalmente porque para avaliar a invariância de medição de uma ferramenta como a SWLS é necessário um grande conjunto de dados à escala global. Para enfrentar esse desafio, a equipa envolvida no estudo agora publicado recorreu aos dados de um projecto conhecido como “Inquérito sobre a Imagem Corporal na Natureza” (“Body Image in Nature Survey” ou BINS, em inglês), que inclui dados sobre a satisfação com a vida de milhares de pessoas em todo o mundo, reunidos entre 2020 e 2022. Os investigadores analisaram os resultados da SWLS para 56.968 participantes do BINS, representando 65 países diferentes, 40 idiomas e diversas identidades de género e grupos etários. A análise sugere que, em geral, a SWLS tem “aplicabilidade universal” e traduz a satisfação com a vida “em todas as nações, identidades de género, grupos etários e línguas”, destaca o comunicado da Plos One. Podemos falar em felicidade? O estudo mostrou que, regra geral, uma maior satisfação com a vida está significativamente associada a uma maior segurança financeira, bem como ao facto de se estar numa relação estável ou de se ser casado. No que diz respeito à idade, os resultados revelaram “uma associação pequena mas significativa entre a idade mais avançada e pontuações mais elevadas na SWLS”. Já no que diz respeito ao género, “tanto as mulheres como os homens apresentaram pontuações mais elevadas na SWLS do que aqueles que se identificaram como sendo de outro género, embora os investigadores observem que apenas 0,6% da sua amostra se identificou como sendo de outro género”, frisa a nota. Ainda assim, segundo os investigadores, a SWLS não atinge uma invariância de medição “perfeita para todas as categorias demográficas, em particular para a nacionalidade”, pelo que os autores recomendam alguma cautela na aplicação da SWLS nas comparações entre nações. Félix Neto, professor catedrático da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), que esteve envolvido no estudo, começa por explicar ao PÚBLICO que este trabalho “fornece um exame da invariância da Escala de Satisfação com a Vida no maior número de nações até hoje ou seja, 65 nações neste projecto em comparação com um máximo de 26 nações anteriormente e num grande número de línguas”. Segundo o professor da FPCEUP, esta escala (a SWLS), desenvolvida pelo psicólogo americano Ed Diener e a sua equipa, “apareceu no campo científico em 1985”, tendo sido adaptada em 1990 para Portugal. Os resultados do estudo, frisa Félix Neto, “evidenciaram invariância escalar completa entre as identidades de género e grupos etários, enquanto a invariância escalar parcial foi suportada em quase todos os grupos nacionais e em todas as línguas representadas no BINS” o que “significa que a SWLS pode ser utilizada para explicar diferenças nos correlatos de satisfação com a vida entre nações”. A equipa de investigadores analisou também “as associações entre satisfação com a vida e variáveis sociodemográficas”, com os resultados a evidenciarem que “uma maior satisfação com a vida ao nível individual estava associada com uma maior segurança financeira, o ensino secundário ou superior [versus outros], estar num relacionamento comprometido ou casado [versus outros] e uma idade mais avançada”. “As diferenças médias na SWLS entre mulheres e homens não foram significativas. A segurança financeira foi o único preditor mais importante para a satisfação com a vida, seguido do estado civil. Este resultado sugere que a melhoria do bem-estar material pode constituir uma via directa para a promoção de maior satisfação com a vida”, explica Félix Neto. Mas podemos falar em felicidade? O professor da FPCEUP frisa que “há um longo debate sobre o enquadramento teórico da felicidade”. “Para quem considera a felicidade como sinónimo de bem-estar subjectivo, a satisfação constitui o indicador cognitivo do bem-estar subjectivo. A felicidade inclui a avaliação global que as pessoas fazem da sua qualidade de vida actual num sentido positivo. Esta avaliação pode ser afectiva (emoções agradáveis e desagradáveis) e cognitiva (julgamento sobre a satisfação com a vida). As pessoas vivenciam um elevado nível de felicidade quando sentem muitas emoções agradáveis e poucas desagradáveis; quando enveredam por actividades interessantes e estão satisfeitas com as suas vidas.” Canadá no topo Félix Neto colaborou neste projecto juntamente com Joana Neto, investigadora do centro REMIT (sigla em inglês do Centro de Investigação em Economia, Gestão e Tecnologias de Informação) da Universidade Portucalense, no contexto cultural de Portugal. E explica que, preliminarmente, foi necessário preparar documentação em vista a obter parecer favorável para este projecto por parte da Comissão de Ética da FPCEUP, que foi obtido. De seguida, nota o investigador, “foi preparada a versão portuguesa do questionário utilizando metodologia intercultural adequada”, tendo os dados portugueses sido recolhidos entre Maio e Outubro de 2021. Entre os participantes de países que indicaram uma maior satisfação com a vida estão os do Canadá, Israel, e Bósnia-Herzegovina e com valores mais baixos os de Taiwan, Japão e Ucrânia. Portugal (cuja amostra incluiu 363 pessoas com uma média de idades de cerca de 36 anos) situa-se mais ou menos no meio desta distribuição de 65 nações, com Félix Neto a destacar que “uma conclusão geral do estudo poderia ser que a satisfação com a vida variava substancialmente entre os grupos nacionais no momento da pandemia de covid-19”. Os resultados portugueses, sublinha o professor da FPCEUP, “estão em grande medida em consonância com os da maior parte dos países”. “Em Portugal, verificou-se que uma maior satisfação com a vida ao nível individual estava associada com uma maior segurança financeira, ensino secundário ou superior (versus outros), e não havia diferenças entre homens e mulheres. Todavia, as variáveis de estar num relacionamento comprometido ou casado (versus outros) e idade não estavam significativamente associadas com a satisfação com a vida.” Quanto às limitações do estudo, Félix Neto indica que “o modo de recrutamento das amostras foi por conveniência, o que limita a generalização dos resultados”. “As amostras não podem ser consideradas representativas das suas nações. Muito embora o conjunto de dados do BINS forneça a maior representação disponível na actualidade das pontuações da SWLS em todas as nações, deve-se notar que o BINS estava sub-representado em diversas partes do mundo, particularmente na África, Ásia Central, Caribe e América Central”, acrescenta Félix Neto. O investigador português acredita que estudos futuros poderão “testar a influência de aspectos adicionais que não foram considerados no BINS como, por exemplo, a identidade religiosa e factores sociopolíticos como a estabilidade política e a corrupção”. “Poder-se-á assim examinar até que ponto esses aspectos podem potencialmente influenciar a compreensão da satisfação de vida entre as nações para além dos factores que foram medidos neste projecto.” No artigo científico, os autores salientam que é necessária mais investigação, o que “ajudará os académicos a compreender melhor o significado e a manifestação da satisfação com a vida entre as nações, mas também ajudará os profissionais a criar modelos melhorados de bemestar subjectivo que, por sua vez, poderão servir de base a políticas públicas e intervenções a nível populacional destinadas a melhorar a satisfação com a vida”. “Há um longo debate sobre o enquadramento teórico da felicidade”, diz o professor Félix Neto (em baixo) A Escala de Satisfação com a Vida, usada na investigação, foi desenvolvida pelo psicólogo americano Ed Diener e apareceu no campo cientíÄco em 1985 Filipa Almeida Mendes