TORDESILHAS E A GUERRA QUENTE
2025-02-04 06:00:08

Já lá vão mais de 500 anos. Mas os princípios, as ambições e o modus operandi parecem ser agora - e regularmente - revisitados. Vivem-se tempos que Tordesilhas já conheceu. Divide-se, ocupa-se. Há que assegurar poder. Pessoal e nacional. Há que ter mais. Muito de tudo. Variando a espécie desse tudo consoante a tecnologia, a moda do momento e a visão de futuro que se tenha desenhado e pretenda vender ao público desatento, desinformado, desengajado. Há que negociar, entre portas mal fechadas, e informar o mundo das partilhas acordadas, com a pomba e a circunstância que o ciclo eleitoral e o ego ditarem. Mas já não há um Novo Mundo. Continuamos, sim, a assistir à divisão de um mundo velho, em mundinhos. O traçado não escolhe meridianos, nem repete o facilitismo da régua e esquadro em que a 2.ª Grande Guerra incorreu. Recorre, sim, a detetores sofisticados que indiquem metais raros, água potável, ou combustíveis ainda por extrair. Que prometam futuro. Ou um futuro mais fácil, com mais, muito mais de tudo. Mas apenas para alguns. E à custa de tantos. À custa de tratados, da paz, do direito internacional. PUB . CONTINUE A LER A SEGUIR A Ucrânia para Putin; o Panamá ou a Gronelândia para Trump? Seja. Joguetes em tabuleiro festivaleiro, não fossem as baixas do primeiro e a gula do segundo. Poses de macho-alfa, proto confronto de bullies, rodeados por geografias amorfas. Incapazes ou desistentes. Por Pequim, menos ego, menos pressa. A sapiência milenar traduzida em paciência, estratégia, foco. Menos umbigo, mais nação. Desde sempre incompreendida, desconhecida e só recentemente elevada à potência/ameaça real que é. E Taiwan à vista. Com África tão bem assegurada. Fatia gorda. E a Índia? Quer fatia ou será fatiada, novamente? América do Sul? E a Ásia não chinesa, existe ou resiste? Pelo Médio Oriente, vai-se mantendo um fogo eterno, alimentado por fé e proxy wars. Antes joguete, agora campeonato a ganhar fôlegos que deveriam preocupar (ainda) mais. Mas, partido e repartido, o bolo é o mesmo. Engordam uns, oprimem-se outros. Um neoimperialismo que perdeu a vergonha e passa para discursos de tomada de posse e daí, rapidamente, para conversa motivacional de balneário. E, depois, hino de claque. Do Kremlin à Casa Branca. Anúncios que surpreendem, convencem ou assustam. E do ridículo se faz um teste. Resta saber se o Golfo é do México ou da América. Deverá a Crimeia estar dentro de matrioskas coloridas? Reescreve-se a História e redesenha-se a Geografia. Porque disso depende o mundo. Ou melhor, o mundinho. Um mundo, feito de parcelas artificiais que entraram já há tempo considerável numa verdadeira e quiçá derradeira Guerra. Não a fria. Não há muros de Berlim que a delimitem. É antes uma Guerra Quente. Um conflito, quente, feito de alterações climáticas que atiram forças incontroláveis e quase imprevisíveis para cima da soberba de uma civilização que se acha superior, controladora, endeusada. Um conflito feito de transumâncias que, seja qual for a solidariedade e a disponibilidade, alteram equilíbrios e vontades. Acendem egoísmo, desconfiança, agressividade. Ainda mais, se acicatados pelo advento da inteligência artificial. Após Tordesilhas vieram impérios e imperadores. Moveram-se fronteiras, criaram-se nações. Nasceram heróis e revelaram-se cobardias. A Humanidade em negociação permanente. Mas o conflito atual, esta Guerra Quente, não é ultrapassável com negociatas e partilhas conjunturais. Ou ocupações oportunistas. Antes, precisa de valores maiores. Lideranças impactantes, mas cooperantes. E cidadãos. Maiores. Livres nas crenças, mas unidos na vontade - ou necessidade. Alfredo Castanheira Consultor em Marketing e Comunicação; Co-Coordenador MBA Executivo da Universidade Portucalense Alfredo Castanheira