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BOICOTE À TESLA: O FIM DE UMA ERA?

Nascer do Sol

2025-02-14 22:13:19

O apoio do CEO da Tesla a Donald Trump, o suposto gesto nazi e as declarações polémicas não caíram bem nem nos EUA nem na Europa junto de muitos consumidores. E há países europeus a pedir boicote à marca. A Tesla treme e outras ganham terreno. lon Musk, o fundador e CEO da Tesla, tem por hábito dizer o que pensa. Mas aspalavras, por vezes, têm consequências. A empresa que gere, que é líder na venda de carros elétricos, pode vir a sofrer com as mais recentes polémicas. o hnicote começou logo quando Musk mostrou o seu apoio ao presidente americano, Donald Trump mas há mais que isso. Num evento de apoio ao Presidente americano, Musk agradeceu à multidão por «fazer acontecer», antes de colocar a mão direita sobre o peito e erguê-la no ar várias vezes. O gesto foi interpretado por muitos como a saudação nazi e não caiu bem junto de muitos europeus. Na Alemanha, o chanceler Olaf Scholz e a maior central sindical do país criticaram o empresário, principalmente pelo seu apoio ao AfD, partido de extrema direita. Já na Polónia, a indignação foi ainda maior, tendo em conta que as declarações de Musk coincidiram com as comemorações dos 80 anos da libertação do campo de extermínio de Auschwitz. E OS números mostram que as quebras foram grandes. Em Portugal, por exemplo, as vendas da Tesla caíram 29,1% em janeiro deste ano. E há países onde o tombo foi maior. As vendas da Tesla caíram num mês em que omercado de carros elétricos na Alemanha cresceu mais de 50% face ao ano anterior. Em França, foram vendidos menos 63% de carros desta marca. E em países como a Noruega, a Tes-la registou quebras de 38%. No Reino Unido vendeu menos 8%. CONSEQUENCIAS Mas quais serão as consequências para a marca? «De forma genérica os boicotes pelos consumidores em vários países europeus, impulsionados pelas controvérsias tendem a afetar uma marca pela via reputacional e o reconhecimento da marca, ou insígnia, e quanto ao fundador da Tesla, a perceção global do construtor automóvel que é observado como vanguardista como a esperada evolução da cadeia de valor associado ao armazenamento de energia elétrica e a condução autónoma de última geração» refere ao Nascer do SOL João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa. Isso, defende, «traduz-se numa alteração da confiança que pode ser abalada, tanto por parte dos consumidores como dos investidores, o que poderia conduzir a uma diminuição das encomendas e das entregas». No entanto, João Queiroz adianta que, para «manter os ritmos de crescimento das vendas e das receitas, esta cotada tem recorrido a ofertas e desmantnc que, aliado a dificuldadecna ramp-up da produção do novo Model y, pode comprimir as margens, afetando relevante geração de fluxos de caixa, e possivelmente prejudicar o posicionamento da marca num mercado cada vez mais competitivo». Também Adriana Rojão, analista da XTB, fala no novo modelo, que a empresa de Musk prevê que «seja o carro mais vendido a nível mundial em 2024, com mais de 375 mil unidades produzidas na fábrica de Berlim-Brandenburgo», lembrando que este modelo «destacou-se como o mais vendido na Dinamarca, Noruega, Suécia, Suíça e Países Baixos, e a Tesla foi a marca mais popular na Noruega pelo quarto ano consecutivo». A analistarecorda que a empresa planeia ainda este ano lançar a versão Full Self-Drivingna Europa «e iniciar a produção de novos modelos mais acessíveis». Mas as atitudes de Musk «resultaram numa perceção negativa da marca e numa queda acentuada das vendas na Alemanha e França, com políticos a convocarem um boicote aos veículos daempresa» e o relatório do quartotrimestre de 2024 «revelou um aumento da competitividade e uma diminuição dos lucros, devido à fraca procura e à maior concorrência», diz a analista da XTB, recordando que, no entanto, as ações da Tesla recuperaram, «o que sugere otimismo entrea alguns investidores». Adriana Rojão diz ainda que impacto dos boicotes na Europa «dependerá de vários fatores, como a cobertura mediática e a reação dos governos. Se arejeição for limitada, a Tesla poderá enfrentar uma quebra temporária nas vendas; caso contrário, poderá perder uma parte significativa do mercado europeu». VANTAGEM PARA A CONCORRENCIA A verdade é que há outras marcas que podem tirar vantagem deste boicote à Tesla. Uma delas é a chinesa BYD, que conseguiu ultrapassar a Tesla pela primeira vez em janeiro. Por pouco, mas passou. Nesse mês, a BYD comercializou 392 automóveis, enquanto a Tesla chegou aos 389. O crescimento homólogo da marca chinesa foi de 206,3%, enquanto a Tesla registou uma quebra de 29,1% face ao mesmo mês de 2024. «Sem dúvida, a situação representa uma oportunidade para rivais comoa BYD, bem como outras marcas da China e mesmo das incumbentes marcas Europeias que se esforçam por crescer em quota de mercado na transição energética», salienta João Queiroz. Oespecialista diz que a recente aposta desta empresa «em tecnologia de conduçãor autónoma e a integração de sistemas avançados em toda a sua gama, a BYD estará a consolidar a sua presença e. a atrair tanto clientes como investidores», acrescentando que «enquanto a Tesla poderia onfrantar problemas de produção e de imagem, a BYD pode aproveitar para conquistar e aumentar quota de mercado, mostrando-se uma alternativa robusta e inovadora no setor dos elétricos». Emesmo as marcas europeias poderão aproveitar este balançar da gigante americana. «Também as fabricantes europeias que apostam nos elétricos podem obter vantagem deste momento de menor atratividade ou dúvida», dizJoão Queiroz. «Coma Tesla a sofrer alguma erosão perante possíveis questões de reputação e produção, os consumidores europeus podem ver nas marcas locais uma opção mais alinhada com as suas expectativas e com os incentivos/ governamentais de apoio à indústria automóvel». Adicionalmente, explica o especialista, «a proximidadeà base de produçãoe e: a melhor adaptação às normas locais podem ser diferenciais importantes para captar um público que valorize a sustentabilidade e a qualidade». Já Adriana Rojão destaca queem dezembro do ano passado, a Tesla liderou as vendas de veículos elétricosna Europa, com 28.679 unidades do Model Ye 15.360 do Model3. «Contudo, a concorrência está a aumentar, especialmente por parte de marcas europeias e chi-nesas, como a Skoda, a Volkswagen, a BMW, a Volvo e a Renault», alerta. Já a BYD «está a expandir a sua presençano mercado europeu» e, por isso, «o futuro da Tesla dependerá da su1a capacidade de cumprir as promessas relativas à condução autónoma e à inteligência artificial, enquanto a BYD pode aproveitar a atual fase menos favorável da Tesla, especialmente com o lançamento de modelos elétricos mais acessíveis». Adriana Rojãor não tem dúvidas de que a Tesla «enfrenta uma concorrência crescente de marcas como a Volkswagen, a BMW, a Renault, aVolvoeaBYD» eque «a quedanas sua participaçãor deve-sea polémicas envolvendo Elon Musk e ao aumento da concorrência». E atira: «Se os boicotes aumentarem, a Tesla poderá perder mais quota lemercado, especialmente na Europa». A analista defende uemarcascomoa Volkswagen e a BMW «estão bem posicionadas parai atrair clientes da Tesla». FIM DE UMA ERA? Será esta altura para questionar se será o fim de uma era para a Tesla ou se não passa de uma fase negra? João Queiroz diz ser difícil falar em fim. «Apesar dos atuais desafios, émuito difícil poder-se afirmar que estaremos a assistir ao fim da era Tesla», uma vez que «a cotada continua a investirem inovação-como olançamento do novo Model Ye osplanosparaumserviço de ride-hailingau-tónomo (serviço de táxis autónomos, impulsionado pela tecnologia Full Self-Driving [sigla FSD] da empresa), o que pode indicar uma tentativa de recuperar a competitividade». No entanto, reforça que «a volatilidade do mercadoe acrescente concorrênciasugerem que esta fase de incerteza pode perdurar por algum tempo, exigindo uma reestruturação tanto na perceção da marca quanto na eficiência operacional». Resumindo, «provavelmente poderemos apenas assistir a um período de transição que, seadequadamentegerido, poderias ser ultrapassado, mas quejá estáa imarcar uma alteraçãor no panorama damobilidade elétrica». Uma opinião com a qual Adriana Rojão concorda. « Apesar das opiniões divididas sobre Elon Musk e a sua marca, ainda é cedo para declarar o fim da Tesla», diz, defendendo que «embora osboicotes eo aumento da concorrência possam resultar em quebras nas vendas e prejudicar a imagem da empresa, afastando investidores e compradores, a Tesla continua a destacar-se pela sua capacidade de inovação». E apesar das polémicas em torno de Musk, «a marca continua a contar com investidores que confiam no seu potencial. Noentanto, aempresaenfrentadesañios significativosi e, para os superar, será necessário oimplementar rmudanças. Ao Nascer do. »SOL, Bruno Mateus, secretário-geral da Associação Portuguesa do Veículo Elétrico (APVE), defende que as ações de Elon Musk «estão a ter um possível impacto. negativo: significativo na Tesla na Europa, criando oportunidades para concorrentes quer chineses quer europeus», defendendo que estefenómeno «deveráseracompanhado de perto». No entanto, oresponsável diz que «amenos que haja embargospolíticos e económicos, que se perspetivamdifí is, aúnica forma de a indústria europeia de: veículosi elétricos poderter sucesso é ser capaz de produzir veículos elétricos competitivos em todos os aspetos tecnológicos e económicos, e em, particular, produzir tecnologias de baterias competitivas». Face às vantagens ambientais, de eficiência energética e custos de operação dos veículos elétricos «face às soluções com motor de combustão interna, um certo retrocesso que parece querer aparecer na transição para a mobilidade elétrica não deverá ter sucesso a médio e longo prazo», diz Bruno Mateus, acrescentando que «se os fabricantes europeus não aproveitarem as oportunidades, só irão atrasar-se cada vezmais emrelação à concorrência. De qualquer parte do mundo». daniela.ferreira@nascerdosolpt t Apoio de Elon Musk a Donald Trump e as suas declaracões e gestos polémicos têm consequências Daniela Soares Ferreira