LÍTIO NO BARROSO - O VERDE PASSOU A CASTANHO
2025-02-16 22:12:28

REPORTAGEM Prospeções ono Barroso: “Verde passou a castanho” Boticas Dois meses após a servidão administrativa que permitiu a entrada em terrenos e baldios, notam-se marcas das escavações na paisagem acorreia@jn.pt As máquinas pararam POr ordem do tribunal ono dia 6 deste mês, em Covas do Barroso. Uma providência cautelar suspendeu a servidão administrativa de 6 de dezembro do ano passado, que autorizou a Savannah Resources a entrar em terrenos privados e baldio para alargar prospeções de lítio. Jorge de Aquino, emigrado em França, aproveita os raios de sol em Covas do Barroso, onde nasceu há 51 anos. “Vio massacre que fizeram lá em baixo”, diz. As marcas de dois meses de prospeções, com abertura de caminhos e plataformas de perfuração, são visíveis na paisagem, agudizadas pelas chuvas de fevereiro. “Está muito diferente. O verde passou a castanho”, descreve Paulo Pires, mais “pastor que agricultor”. Maria Fernandes Lourei- ro tem terrenos na zona abrangida pela concessão mineira, que se estende por 590 hectares. Está entre as dezenas de proprietários afetados pela servidão administrativa. “é um pandemónio”, frisa a agricultora, que mostra fotos de lama onos caminhos e nos montes, árvores pintados com cinzentos arrancados às entranhas da terra pelas perfuradoras; há charcas a aguentar águas das prospeções, mas também um tubo a verter para o monte e uma plataforma a escorrer para um ribeiro. “Dói o coração ver os terrenos assim. Entraram pOr ali como um javali, sem cuidado nenhum”, aduz Maria. “Entraram só poIque tinham uma servidão”, lamenta Aida Fernandes, presidente do Conselho Diretivo dos Baldios de Covas do Barroso. “Alguns proprietários nem sabem o que está a acontecer, porque são pessoas idosas ou estão fora”. Daniel Loureiro apascenta as vacas num dos lameiIOS que tem com a mulher, Maria, para lá de Romainho, ono coração da concessão. “Onde andarem as máquinas nunca mais a terra recupera”, diz o agricultor, 60 anos. A concessão da Savannah tem prazo até 2034. “Andando aí 12 anos é tudo destruído. A natureza desaparece”, aduz. Aida Fernandes concorda e lembra dias passados. “Das prospeções que foram feitas em 2017 e 2018, continuamos a ter locais em que nada nasce”, diz, lembrando que, dizem geólogos, a recuperação pode demorar 400 anos. Em dias de chuva, a água das prospeções, que já “foi filmada a escorrer pelos montes”, é uma “incógnita” para Aida Fernandes. “Para cima não vai. Passa para o rio, daí ao Tâmega até o mar, lá para o Porto”, alerta Daniel Loureiro. “Não vamos ficar bem, mas aqueles que não querem saber agora um dia vão botar as mãos às orelhas, porque quando chove não há nada que tenha mão na água”, aduz. “Quem está para baixo devia ter preocupação”, avisa Paulo Pires. “Acho que mais gente devia juntar-se a nós e demovê-los desta mineração”, adianta. “Sou português, as minhas filhas são francesase e, desde pequenas, que adoram vir a este paraíso”, conta Jorge de Aquino. “Com a mina, vamos vir para quê depois? Para ver miséria?” P. 12 CINEMA Luta contra mina em antestreia hoje no Porto A luta do povo de Covas do Barroso foi levada ao grande ecrã pelo realizador Paulo Carneiro. o filme “A savana e a montanha” tem como atores as pessoas que desde 2017 se manifestam contra a mina de lítio a céu aberto prevista para os montes no entorno daquela aldeia do concelho de Boticas. Mostrado no ano passado na semana dos realizadores, no maior festival de cinema da Europa, em Cannes, França, chega agora a Portugal, com antestreia marcada para hoje, às 16 horas, no Cinema Trindade, no Porto. Os bilhetes custam sete euros. “Máquinas entraram em força nos terrenos”, dizem representantes dos baldios de Covas FOTOS: PEDRO CORREIA Daniel Loureiro teme fim da agricultura Ruca, em primeiro plano, e Faísca, com Paulo Pires Augusto Correia