MAREN COSTA, EX-DESIGNER DA AMAZON: "O LUCRO ESTÁ SEMPRE À FRENTE DAS PESSOAS E DO PLANETA"
2025-02-16 22:13:19

No documentário Buy Now! A Conspiração Consumista, Maren Costa, ex-funcionária da Amazon, desvenda estratégias da empresa para perpetuar o ciclo vicioso de consumo, desperdício e descarte. A designer e ambientalista norte-americana Maren Costa começou em 2002 a trabalhar na sede da Amazon em Seattle, nos Estados Unidos. Em 2020, foi despedida ilegalmente pela empresa tecnológica fundada por Jeff Bezos. Os recursos humanos justificaram a exoneração com "violações de políticas" internas associadas ao activismo climático. No documentário Buy Now! A Conspiração Consumista, Maren Costa revela as estratégias que a marca usa não só para fomentar compras impulsivas, mas também para esconder o rasto de desperdício e destruição ambiental deixado pelo consumismo. Realizado por Nic Stacey, A Conspiração Consumista estreou-se na Netflix no passado dia 20 de Novembro, oito dias antes da Black Friday. Durante a quadra natalícia, esteve entre os conteúdos mais vistos da plataforma de streaming. Além de Maren Costa, cuja história oferece um arco narrativo ao filme, participam no documentário antigos funcionários da Apple e da Adidas. O documentário expõe tácticas usadas pelas grandes empresas para nos manter agarrados a um ciclo interminável de consumo, a comprar coisas de que, na verdade, não precisamos. Nesta entrevista por videochamada, Maren Costa discorre sobre como os líderes das empresas tecnológicas estão, no seu entender, a consumir cada vez mais recursos do planeta para concentrar poder e riqueza. "A nossa civilização está a mostrar sinais de um colapso iminente, quase como se tivesse uma tendência natural para o fascismo. E agora é um problema global, temos uma bomba-relógio amarrada ao peito", alerta. Buy Now é estruturado por máximas que, segundo o documentário, perpetuam o ciclo consumista: "venda mais", "desperdice mais", "minta mais", "encubra mais" e, por fim, "controle mais". O que vimos na posse de Donald Trump foi precisamente os líderes das empresas tecnológicas, incluindo Jeff Bezos, ao lado que quem hoje controla os Estados Unidos. Como reagiu a isso? É assustador. Eu chamo os três [Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Elon Musk] de trindade profana. Provavelmente, durante pelo menos a última década, as petrolíferas precisaram das grandes empresas tecnológicas para fornecer inteligência artificial [IA] que as ajudasse a extrair mais combustíveis fósseis e de forma mais eficiente. Foi nessa altura que nós [funcionários com preocupações ambientais] estabelecemos os objectivos climáticos que apresentámos à Amazon. Cerca de 8700 pessoas assinaram um documento a dizer que queriam promessas climáticas claras - e uma delas era deixar de ajudar as petrolíferas a extrair mais combustíveis fósseis. Isto foi em 2018, 2019. Agora, as grandes tecnológicas precisam das petrolíferas para expandir rapidamente a IA. Refere-se ao facto de os centros de dados (data centers) de IA precisarem de muita energia para operar? Exactamente. As grandes tecnológicas precisam da indústria dos combustíveis fósseis porque querem acelerar a construção de centros de dados de IA. Querem fazê-lo a um ritmo tão rápido que irá esgotar as redes de energia existentes em qualquer lugar onde tenham as suas unidades. Por isso, vão precisar de combustíveis fósseis para compensar a diferença, indo ao ponto de voltarem a pôr em funcionamento centrais de carvão desactivadas. As necessidades energéticas dos centros de dados de IA vão ser colossais. Precisam não só de muita energia para expandir os centros de dados, mas também de água para arrefecer os sistemas. Isto vai acelerar as alterações climáticas, aumentar a produção de petróleo e aprofundar a desigualdade na distribuição de riqueza. Chamo-lhe "a corrida ao armamento da IA", uma das coisas mais assustadoras que alguma vez fizemos, reforçando a parceria existente com a indústria petrolífera, o que já era assustador. Agora, vemos esta "trindade profana" a comprar o nosso governo. É demasiado poder concentrado, nunca vimos isso na história recente. Hoje temos um fosso inimaginável entre os ricos e os demais, sendo que os primeiros estão a construir foguetões e bunkers, como se fossem refúgios do dia do juízo final. O que quer dizer com isso? Acha que, de algum modo, o dinheiro e acesso à tecnologia que têm vão protegê-los de um futuro apocalíptico? Sim, vão proteger. Mas nós vamos ficar para trás desprotegidos e eles não se preocupam minimamente com isso. Estão óptimos assim. Quando Trump chegou à Casa Branca, assinou um vasto leque de decretos, parte deles com grande impacto climático, como a saída do Acordo de Paris. O New York Times refere que mais de mil trabalhadores da Agência de Protecção Ambiental dedicados às alterações climáticas podem ser despedidos. Como reage a estas decisões? Vejo como uma forma de sociopatia. É contra o senso comum e contra a ciência. Não há qualquer explicação lógica para o facto de nos estarmos a afastar de forma tão intensa dos objectivos climáticos. As empresas tecnológicas também estão a afastar-se dos seus objectivos climáticos. Isto ocorre porque o poder corrompe e o poder absoluto corrompe ainda mais. Eles estão completamente fora da realidade. Um exemplo: numa entrevista recente, Elon Musk dizia ao jornalista que o estava a questionar sobre o X [antigo Twitter] que, se os anunciantes boicotarem a sua rede social, "a Terra será o juiz". Musk estava a falar de todos nós como "a Terra", e ele vê-se a si próprio como o rei disso tudo. Trata-se de um absoluto narcisismo. É como se a matéria de que somos feitos mudasse à medida que enriquecemos. Eu literalmente vi Jeff Bezos mudar ao longo do tempo, ele passou de um geek para aquilo que é hoje. Chegou a privar com Jeff Bezos enquanto trabalhava na Amazon? Estive presente em muitas reuniões com ele e mais três pessoas e, depois, à medida que a empresa crescia, as reuniões começavam a aumentar. Depois, era cada vez menos frequente estar numa reunião com Jeff Bezos. Mas estive em muitas reuniões com ele, desde o início, discutia com ele. É uma pessoa inteligente e ambiciosa. Sucesso na Netflix, Buy Now! denuncia os métodos que alimentam o ciclo de produção, consumo e desperdício excessivos Sucesso na Netflix, Buy Now! denuncia os métodos que alimentam o ciclo de produção, consumo e desperdício excessivos Sucesso na Netflix, Buy Now! denuncia os métodos que alimentam o ciclo de produção, consumo e desperdício excessivos Fotogaleria Sucesso na Netflix, Buy Now! denuncia os métodos que alimentam o ciclo de produção, consumo e desperdício excessivos No documentário, afirma que os funcionários querem acreditar que a empresa em que trabalham é idónea. Era o seu caso na Amazon até mudar de opinião. Esta mudança foi gradual ou foi uma epifania? Foi um pouco das duas coisas. Quando comecei na Amazon, a empresa não tinha muito poder. Toda a gente achava que aquele negócio fracassaria, ninguém imaginava que se tornaria o gigante que é hoje. As coisas que fazia pareciam positivas, como fazer com que parecesse menos um website de geeks brancos, como torná-lo mais acessível a pessoas que podem ter daltonismo ou que não são brancas e do sexo masculino, por exemplo. Sentia que estava a aprender imenso e que poderia usar estas competências para lá da Amazon, como um instrumento para mudanças sociais. Em que momento mudou de opinião? Numa dada altura, comecei a pensar: "Espera, tenho acesso à máquina desta enorme empresa, posso tentar usá-la para fazer grandes mudanças." Contudo, quando comecei a questionar as coisas, comecei a levar pequenos e sucessivos golpes. Era do género: pediam-me para fazer uma alteração no site e eu percebia que aquilo não era o melhor para os clientes. Questionava porque é que havíamos de fazer isto se nós só fazíamos o que era melhor para os clientes. Diziam apenas para eu mudar e ponto final. Ou então propúnhamos colocar em prática o pedido número um dos clientes, que era permitir a visualização do preço total, já com os impostos, na página de detalhes do produto. Tivemos de lutar por essa alteração. Mas eles tinham medo de o fazer, porque pensavam que iam perder dinheiro. O lucro passou a estar à frente da experiência do cliente? Sim, o lucro está sempre à frente das pessoas e do planeta. E depois, lá está, os sucessivos pequenos golpes fizeram com que eu sentisse que estava a comprometer os meus valores. Não me sinto bem com isto. No início, pensávamos que as compras online seriam mais ecológicas do que as presenciais. Pensávamos que estávamos a fazer algo que tornaria o consumo mais sustentável, e dizíamos isso a nós mesmos. E isso até pode ter acontecido no início, quando a Amazon tinha a sua própria frota de condutores e podia coordenar as viagens para fazer múltiplas entregas numa rota apenas. Mas nunca pensámos que chegaríamos a ter envios em duas horas [nos EUA]. Se antes era necessário esperar duas semanas, agora a entrega é no próprio dia, uma vez que há subcontratação de transportadoras. Há empreiteiros de condutores para que as entregas sejam o mais rápidas possível. Não há forma de isto ser energeticamente eficiente. "Não há qualquer explicação lógica para o facto de nos estarmos a afastar de forma tão intensa dos objectivos climáticos" Aquilo que começou por ser uma livraria online, e atrair pessoas que adoram livros e valorizam o pensamento crítico, transformou-se numa plataforma que fomenta "o consumo impulsivo" de objectos, como descreve no documentário Buy Now? Comecei a perceber que a Amazon não era tão verde como costumávamos pensar que era. Fui então pesquisar onde estava a Amazon em termos de sustentabilidade enquanto empresa. Isto foi em 2014. Em qualquer escala de classificação nesse domínio, a Amazon estava a receber a pior pontuação, estava mesmo atrás da [cadeia de supermercados] Walmart. Percebi que estávamos a fazer tudo absolutamente errado. A Amazon apresentava-se como líder em matéria ambiental, mas nós estávamos a ficar para trás. Foto Cidades soterradas pelo lixo: Buy Now! usa fotomontagens para ilustrar o problema do sobreconsumo É então que decide criar o movimento Amazon Employees for Climate Justice? Foi então que comecei a apresentar internamente ideias a altos quadros na Amazon. Devíamos ter uma visão clara de todos os nossos camiões para evitar ineficiências nas entregas. Devíamos ter um selo de compromisso ambiental, que na altura não existia. Devíamos ter um objectivo climático. Expunha estas ideias e a resposta era tão diferente de tudo o que eu já tinha vivido antes na empresa. Não estávamos a mudar o sistema. Decidi que havia dois caminhos: deixar a empresa ou continuar ali e tentar mudá-la, colocando o meu emprego em risco. Penso que o maior impacto que tive alguma vez foi ser despedida... ...ser despedida ilegalmente e processar a Amazon com uma colega, ganhando em tribunal e tornando o caso público. Sim. Eles depois tiveram de publicar internamente em todos os locais de trabalho que nos tinham despedido injustamente. Eu nem sequer teria entrado no documentário se não tivesse feito isso. A nossa demissão criou uma onda forte o suficiente para que se accionasse pequenas alavancas para operar mudanças. Como podem os funcionários de empresas tecnológicas organizar-se para defender a acção climática? Precisamos construir um poder colectivo, da mesma forma que o fazemos em movimentos por direitos civis ou laborais. Temos de o fazer e é um processo lento. Construir esse nível de solidariedade é algo moroso. É preciso criar laços pessoais. Não se pode esperar que alguém ponha o seu emprego em risco sem confiança mútua. É como se a organização se movesse à velocidade da confiança e, por isso, é algo que não é instantâneo. Cada um de nós tem um nível diferente de influência ou de poder que pode utilizar. "Comecem a construir redes de cuidados, é disso que também vamos precisar. Quando as sociedades entram em colapso, os governos começam a deixar de ser capazes de cuidar das pessoas" Todos nós devemos analisar qual é o nosso maior músculo. Quem for um trabalhador da área da tecnologia tem um músculo forte. Juntos, podem fazer muito. É como os controladores de tráfego aéreo, por exemplo. Cinco mil assistentes de bordo poderiam entrar em greve e, ainda assim, uma companhia aérea poderia não se sentar à mesa. Mas se cinco controladores de tráfego aéreo decidem encerrar o espaço aéreo de Nova Iorque, aí sim, as companhias aéreas sentam-se à mesa para negociar. Por isso, temos de pensar estrategicamente sobre como nos organizamos, com quem, quando e onde. É preciso começar. E pensar sobre isso na vossa comunidade. Não estaria a fazer o activismo climático que faz se não tivesse esperança. Quais são os caminhos de mudança que vê no contexto actual? A teoria da mudança exige transformar o sistema profundamente. A nossa civilização está a mostrar muitos sinais de um colapso iminente, quase como se tivesse uma tendência natural para o fascismo. E agora é um problema global, temos uma bomba-relógio amarrada ao peito, porque temos uma janela de tempo tão limitada. Portanto, onde estiverem, dirijam-se à vossa autarquia local, pois é aí que um indivíduo pode ter mais impacto. Falem com a vossa escola, a vossa igreja, o vosso centro comunitário. Comecem a construir redes de cuidados, é disso que também vamos precisar. Quando as sociedades entram em colapso, os governos começam a deixar de ser capazes de cuidar das pessoas. É a solidariedade entre as comunidades locais que continua a valer, a ser construída em conjunto. Temos de começar já a trabalhar para construir essa força de compensação. tp.ocilbup@seraosaa Andréia Azevedo Soares