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PORTUGAL FORNECE TECNOLOGIA PARA NAVIOS DE GUERRA

Expresso

2025-03-14 22:06:32

Portugal já está a fazer sistemas de combate para navios de guerra Na tecnologia, Portugal tem a oportunidade de fazer parte da nova indústria da defesa, defende gestor da Thales “Somos portadores de capital intelectual (brainware) de grande nível, desenvolvemos sistemas de engenharia de topo, e essa poderá ser a mais-valia de Portugal na sofisticada e competitiva indústria da defesa europeia que irá dar um salto nos próximos anos”, afirma Sérgio Barbedo, presidente executivo da Thales Edisoft e diretor-geral da gigante francesa da defesa em Portugal, em entrevista ao Expresso. Uma oportunidade que o país não pode perder na nova era de rearmamento da Europa, defende o gestor, a liderar a operação portuguesa da Thales desde 2013. O país tem uma palavra a dizer na área da engenharia e sistema de defesa. “o que fazemos dentro da Thales Edisoft, a partir de Paço de Arcos, é muito competitivo. os engenheiros que cá temos são state of the art, SàO OS melhores. Estão aqui mas podiam estar em qualquer empresa de topo do mundo”, diz Sérgio Barbedo, orgulhoso de uma equipa que “trabalha em sistemas críticos de alta segurança” ou em sofisticados sistemas de aeronáutica. Com um centro de engenharia especializado em sistemas de comando e controlo (nomeadamente de combate) naval, a desenvolver projetos para algumas das maiores armadas da Europa, e um outro centro especializado em gestão de tráfego aéreo, Portugal “pode e deve posicionar-se” para fazer parte da nova indústria da defesa europeia, e preparar-se para estar na cadeia de produção desde o início. Um lugar que pode ambicionar, assegura Sérgio Barbedo, se se sentar já à mesa das negociações na União Europeia (UE), posicionando as Forças Armadas para planear e participar nas compras de equipamento militar, e colocando o país nas novas cadeias de valor que estão a ser redesenhadas, no âmbito do pacote de EUR800 mil milhões que a Europa irá libertar nos próximos quatro anos para os negócios da defesa. Tecnologia é o trunfo “Em tecnologia podemos ser muito avançados. Somos muito fortes nessa componente e começamos a ter massa crítica para poder participar na reindustrialização da defesa europeia”, diz. O contributo pode ser não tanto pelas fábricas, mas pelo conhecimento, vendendo brainware. “A Thales opera a partir de Portugal para todo o mundo. Fornece o sistema de comando e controlo para as marinhas inglesa, alemã e polaca. A equipa portuguesa dá cartas na gestão do tráfego aéreo: é a número um mundial no sistema de gestão de mensagens aeronáuticas de planos de VOO [Top Sky AMHS] e a número três no sistema de mapeamentos dos movimentos em pista [Top Sky Tower]”, detalha o gestor, um engenheiro civil, que no início da carreira passou pela banca de investimento. A importância de saber comprar Mas para que isso aconteça é preciso que o poder político, as Forças Armadas e a indústria trabalhem em conjunto. E, dada a urgência da Europa, será necessário que o país o faça já. “Temos que atrair para Portugal parte das capacidades que a Europa vai criar em defesa e para isso temos que saber fazer as aquisições certas, temos que as planear e temos de fazê-las em conjunto com os nossos aliados”, avisa. O gestor sublinha que o país deve aproveitar esta relação de parceria com a Thales (empresa presente em 65 mercados e em países como OS EUA) para se fortalecer. “O Estado português tem em Portugal uma parceria com o principal ator europeu na parte de sistemas eletrónicos de defesa. E isso é um ativo enorme para o nosso país”, considera. E defende: “Eu diria que Portugal, se souber comprar melhor, pode exportar muito mais.” Sérgio Barbedo explica que é comprando equipamento dentro da Europa que Portugal consegue integrar-se nas cadeias de produção e beneficiar delas. Se comprar fora da UE, ficará de fora do efeito multiplicador que a injeção de EUR800 mil milhões irá ter na indústria europeia, onde irá haver muitas parcerias. “Temos de atrair os parceiros europeus para instalarem as suas capacidades em Portugal”, sugere. E será preciso garantir que o país irá participar no processo de consolidação que irá acabar por acontecer no futuro. Fazer a Europa great again Há hoje, em Portugal, a trabalhar na área de defesa, em empregos qualificados, cerca de 20 mil pessoas, mas pode haver mais, vaticina o gestor. “Temos em Portugal empresas capazes de fornecer todo o tipo de sistemas que as Forças Armadas possam precisar”, afirma. Há três grandes players mundiais presentes em Portugal: Thales, Embraer e AirBus. Neste caminho que a UE está a traçar, e que passa por garantir a segurança dos europeus, a “independência e a soberania tecnológica” e criar espaço para que a Europa se torne um líder tecnológico, que rivalize com OS Estados Unidos, há espaço para as empresas europeias inovarem e começarem a destronar a liderança das tecnológicas norte-americanas, a maioria delas, nota, com negócios na área da defesa. “Vamos fazer a Europa great again”, graceja, admitindo que a hostilização do aliado europeu por Donald Trump criou uma oportunidade para a Europa explorar as grandes potencialidades da indústria da defesa nas áreas mais tecnológicas e inovadoras. Outros negócios A Thales em Portugal está a trabalhar com as Forças Armadas na criação de capacidades de defesa aérea de curto alcance. E tem uma estação espacial em Santa Maria, nos Açores, com uma equipa de 15 pessoas. Portugal é para a Thales mais do que defesa e aeronáutica, já que o grupo está presente em seis áreas de negócio. E um dos seus pontos fortes é a cibersegurança e a inteligência artificial. A empresa francesa presta serviços ao Centro Nacional de Cibersegurança, ao Centro Nacional da Casa da Moeda e à banca e outras áreas da economia. Há aqui também oportunidades, nesta nova fase da Europa, afirma Sérgio Barbedo. A gigante francesa Thales conta faturar EUR25 milhões este ano em Portugal e espera duplicar o negócio até 2030, num quadro de reforço da aposta europeia na defesa E15 NuMEROS 800 mil milhões de euros é o pacote da UE parao o investimento em defesa até 2029, devendo os Estados-membros aumentar os orçamentos dos atuais 2% do PIB para pelo menos 3,5% 19 milhões de euros foi a faturação da Thales Edisoft em Portugal em 2024, dos quais 80% são exportação. Em 2025 o volume de negócios deverá subir para EUR25 milhões e em 2030 duplicar para EUR50 milhões 400 é o número de trabalhadores da Thales em Portugal, dos quais 70 são responsáveis por dois sistemas de controlo de tráfego aéreo do grupo e 50 pelo sistema de comando naval presente nas maiores marinhas europeias 20 mil milhões de euros é a faturação anual do grupo Thales, dos quais cerca de 50% vêm da defesa. Emprega 90 mil pessoas, está em 69 países e tem uma capitalização bolsista superior a EUR50 mil milhões Thales Edisoft, liderada por Sérgio Barbedo, faz a partir de Paço de Arcos sistemas-chaves para a indústria naval e aviação civil FOTO NUNO BOTELHO