RICARDO PINHEIRO ALVES - “O OBJETIVO É APROXIMAR AS EMPRESAS DAS FORÇAS ARMADAS” ENTREVISTA
2025-03-14 22:06:32

o presidente da idD Portugal Defence, holding do Estado para a defesa, encontra muito entusiasmo e pouca noção da realidade face à estratégia de rearmamento da Europa. afsousa@medianove.com ê pela idD Portugal Defence que passará toda a estratégia de investimento no setor da defesa, patrocinada por um lado pelas obrigações decorrentes da presença de Portugal na NATO e, por outro, pela opção comunitária de investir 800 mil milhões de euros para ressuscitar o setor. Mas, quanto à independência europeia face à NATO, o presidente da holding do Estado aconselha a um mergulho na realidade. Num quadro em que há 800 mil milhões de euros para gastar em defesa, como vê o setor? Portugal é um país pequeno, que deixou de investir em defesa e isso dificulta o desenvolvimento da indústria. O que fazer para ultrapassar isso? Primeiro, e esse é o nosso grande objetivo, aproximar o mais possível as empresas das forças armadas e pô-los a trabalhar em conjunto. Depois, encontrar mercados externos. Há empresas que já vão sozinhas como é o caso da OGMA , mas há outras que precisam de apoio do Estado. A IDD tenta, junto das embaixadas, dos fabricantes mundiais, ajudar as empresas a entrarem na cadeia de fornecimento. Tentamos também contactar com empresas de outros países que tenham uma dimensão similar. E isso pode criar as condições para acedermos às plataformas se houver vontade da parte das empresas. E se se juntarem. Quanto aos 800 mil milhões? Abrem-se novas oportunidades para as empresas não só a nível da União Europeia, mas também da NATO. ê mais impor-tante a NATO, que é a organização de defesa por essência, com a União a ser importante mais em termos de apoio financeiro. ê preciso ter um pouco de cuidado com o 800 mil milhões: neste momento ainda nada foi aprovado. Independentemente disso, há várias oportunidades. Há a intenção de que as empresas do espaço da EU e da NATO cooperem mais no desenvolvimento de capacidades. E isso abre perspetivas às empresas portuguesas para evoluírem em termos de conhecimento e de tecnologia. Podem ganhar dimensão, competitividade e podem começar a exportar mais. Acho que há um potencial muito grande para o setor crescer em Portugal. E isso ajuda a explicar porque é que tantas empresas estão a demonstrar interesse no setor. Considera que é preciso caminhar para um gasto de 5% do PIB na indústria da defesa? Concordo com a necessidade de aumentar a capacidade da defesa. O investimento em defesa tem um triplo retorno: dissuasor (que significa paz), de soberania e económico. Portanto, concordo que a despesa deve aumentar. Portugal tem neste momento um objetivo até 2029 de chegar aos 2% do PIB. Fala-se em vários números, nomea-damente OS 5%, mas também em 3%, em 3,5% , estes mais no âmbito da NATO. ê uma decisão que será tomada em princípio na próxima cimeira da organização em Haia. Não me admirava que houvesse um aumento dos 2% para um valor superior. E não nos devemos esquecer que não é só a questão da Ucrânia: temos um lago enorme aqui à nossa volta que tem várias ameaças e não são só exércitos convencionais. E temos uma série de aliados que contam com a participação das forças armadas portuguesas e que inclui a América do Norte. Fala-se muito da questão dos Estados Unidos, sai, não sai [na NATO, que é um nosso aliado e não deixou de ser, nem há sinal de que vá deixar de ser. Portugal deve fazer o seu papel, e tem que pensar na sua defesa, que é uma função de soberania. Acha que a União conseguirá alguma vez ser independente em termos de defesa? Quando penso em defesa, penso em NATO e não em União Europeia. Quem tem os mecanismos militares para implementar a defesa é a NATO, que tem uma experiência de 75 anos. A União não tem essa experiência e não tem esses meios. Tal como aconteceu em Portugal nos últimos 50 anos, em que deixámos de investir na defesa, isso aconteceu também na generalidade dos países europeus. Mas há um caso que gosto sempre de realçar, um país muito associado ao pacifismo: a Suécia. O país nunca deixou de investir em defesa. De tal maneira que tem caças próprios, produzem blindados e estão em várias plataformas nos navios. Franceses e britânicos também nunca deixaram de investir. ê preciso não esquecer que os ciclos de desenvolvimento neste negócio são muito longos estamos a falar de cinco, dez anos ou até 15 anos. Portanto, montar a defesa de um continente como a Europa não é uma coisa que se faça amanhã nem depois de amanhã: vai demorar vários anos. Ou seja, a nossa ligação aos Estados Unidos vai continuar a ser essencial nos próximos anos. Vejo aí muito entusiasmo, mas às vezes parece que não há uma noção da realidade. As presidências Vão passando. Num sistema que funciona a longo prazo, não devemos só pensar no dia a seguir. A nossa ligação aos Estados Unidos vai continuar a ser essencial nos próximos anos. Vejo aí muito entusiasmo, mas às vezes parece que não há uma noção da realidade. António Freitas de Sousa