A POSIÇÃO DE PORTUGAL NUM MUNDO MAIS PERIGOSO - INDÚSTRIA DA DEFESA JÁ EMPREGA 20 MIL
2025-03-17 22:09:30

Atualidade Defesa A indústria de guerra “made in Portugal” quer estar na linha da frente ASSIM QUE DONALD TRUMP VIROU COSTAS â EUROPA. Os DECISORES POLÍTICOS DO VELHO CONTINENTE DESPERTARAM PARA A NECESSIDADE DE ACELERAR A APOSTA NA INDÚSTRIA DE DEFESA MAIS DE UMA CENTENA DE EMPRESAS NACIONAIS TENTAM JOGAR NESTE CAMPEONATO erá a Europa despertado de um longo sono de paz? A invasão russa da Ucrânia fez regressar aos céus do continente as nuvens carregadas da guerra. Agora, com Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos da América, a Europa parece ter perdido o apoio militar daquele que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, foi sempre o seu principal aliado e protetor. nes e sistemas antidrone, mas também para responder a outras necessidades, desde a cibernética à mobilidade militar”, explicou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. No atual quadro geopolítico, Portugal quer contar como protagonista. O Governo de Luís Montenegro tinha em cima da mesa a possibilidade de antecipar a meta de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em despesas com as Forças Armadas, antes previsto para 2029. As exigências da NATO podem fazer subir o objetivo para os 3%, muito acima dos 1,55% gastos no ano passado. A despesa pode chegar aos 6400 milhões de euros, o equivalente a mais de 600 euros/ ano por cada português. A indústria de guerra nacional parece renascer por força das circunstâncias. As lições do general “Temos de ter consciência de que os gastos com a defesa são um investimento e não uma des pesa. A frase é do general Luís Valença Pinto, antigo chefe do Estado Maior ,General das Forças Armadas, e atual presidente do EuroDefense Portugal, organização não governa mental que tem como principal missão promover o estudo, a reflexão e o debate sobre a política europeia de segurança e defesa. á Domingo , o responsável fez as contas, e assegura que, “segundo os estudos, por cada euro investido na defesa, a economia portuguesa tem um retorno entre os três e os quatro euros”. O ponto de partida nacional é modesto, é certo, mas a ambição acompanha a (nova) tendência europeia. o poder político na Europa adormeceu”, depois de “se ter habituado a delegar na NATO e onos Estados Unidos as matérias ligadas à defesa e à segurança”, diz. Do ponto de vista filosófico, o militar de carreira admite com naturalidade “a aspiração do Homem em alcançar a paz duradoura, ao ponto de se iludir que ela é possível e estava já assegurada”. “Infelizmente”, sublinha, “a História da humanidade diz-nos que a guerra acaba sempre por se sobrepor”. e com este espírito realista” que o general Luís Valença Pinto conduz a conversa. Hoje, Ve “os governos europeus consciencializados” de que o jogo mudou; “Portugal não é nem pode ser diferente”, refere. “A defesa e a segurança são muito rapidamente destruídas, mas reerguê-la é muito complicado e demorado... Se queremos paz e segurança, então, é preciso encarar a defesa como uma política pública fundamental. Acredito que, no futuro imediato, este setor seja objeto de um projeto europeu de soberania partilhada, com a presença de todos OS Estados-membros da União Europeia, com a participação de outros parceiros importantes, como o Reino Unido e a Noruega, e também com países como a Turquia, O Canadá ou a Austrália”, por exemplo. “só assim poderá deixar de haver redundância e fragmentação na indústria de guerra europeia, e será possível ao Ocidente contrariar aquilo que é uma posição bizarra e imprevisível da atual administração norte,americana”, afirma o general Luís Valença Pinto. Portugal, garante, pode estar na linha da frente: “Temos conhecimento e tecnologia. Ainda a um nível pequeno, é certo, mas em franco crescimento e já com bons exemplos de internacionalização. A escolha é muito simples: ou somos atores principais ou seremos irremediavelmente marginalizados”. conclui. Made in Portugal No fim do século xx, a indústria da aeronáutica, espaço e defesa portuguesa resumia-se a quatro ou cinco micro e pequenas empresas, encabeçadas por jovens curiosos, apaixonados pela aeronáutica e, quase todos, guiados pelo sonho de levar o cunho português ao espaço. Hoje, o setor inclui 380 empresas e nenhuma destas valências é indissociável das outras. Na linha da frente está a AED Cluster Portugal, uma ideia que reúne 150 entidades como empresas, mas também a NAV Portugal, centros de investigação, universidades e câ- maras municipais 7, que se têm vindo a apresentar no país e no estrangeiro. Composta por 20 mil trabalhadores altamente qualificados e com um volume de negócios de 2,1 mil milhões de euros (em 2023), a AED Cluster Portugal obtém 92% das suas receitas através de exportações. á Domingo , o presidente José Neves (que também é diretor da GMV) explica que o projeto permitiu criar um player capaz de dialogar com clientes e decisores internacionalmente, o que não seria possível se cada uma destas empresas se apresen-tasse sozinha num mer cado tão competitivo”. Depois de décadas a fazer compras nos Estados Unidos, os países europeus querem agora compromissos para fazer cumprir a Estratégia Industrial de Defesa Europeia (EDIS na sigla em inglês), que prevê que 50% das aquisições europeias para a defesa sejam feitas internamente entre 2020 e 2030; este número deverá subir para 60% entre 2030 e 2035. A AED Cluster Portugal quer jogar neste campeonato. A Europa pôs,se a jeito. Durante anos, estivemos dependentes dos Estados Unidos e fragmentados ao nível da decisão. Tínhamos países a comprar aos Estados Unidos, outros à Coreia do Sul, outros a França... A nova realidade obriga nos a ter uma estratégia conjunta, conso lidada, não apenas numa perspetiva de quatro anos, mas de oito, 12 ou mais. As pessoas desconhecem isto, mas a Europa investe mais do que a Rússia e o mesmo que a China em defesa, mas fá-lo de forma fragmentada. A atualidade obriga-nos (aos europeus) a mudar de estratégia e a estar mais alinhados. A união pode ser o segredo para solucionar problemas”, afirma José Neves. Entre OS principais produtos made in Portugal destacam-se drones (da Tekever), que já combatem na Ucrânia, mas também tecnologias dedicadas às comunicações marítimas e terrestres, ao desenvolvimento na proteção balística de viaturas e de componentes para o setor da aviação. Inclui ainda a criação de software ao nível de sistemas de comando e controlo, projetos de computação e inteligência e ainda a aposta contínua no espaço , a Lusospace Aerospace Technology lan çou, no mês passado, o POSAT2, O primeiro satélite comercial português. O CEO da Lusospace, Ivo Vieira, explica que o satélite é apenas a face visível da empresa, que tem surpreendido com outras novidades. ê O caso do pro-jeto para a implementação de uma constelação de satélites que permitirá garantir, a baixo custo, comunicações e GPS aos navios da Marinha portuguesa, sem que esta tenha de recorrer a serviços estrangeiros. Outra inovação são os óculos individuais de realidade aumentada, que vão permitir projetar informações no campo de visão, capazes de guiar soldados em cenário de batalha e até de localizar os inimigos mais próximos. “Já temos bastantes empresas que são referências no mercado global. Falamos de empresas que tiveram a capacidade para reter talento, de se qualificarem em termos de meios humanos e tecnológicos. Teoricamente, as forças armadas são os clientes finais, mas a esmagadora maioria do negócio ainda é feito no estrangeiro, com várias empresas portuguesas a integrarem cadeias de fornecimento de outras entidades que prestam serviços a exércitos estrangeiros”, descreve. O presidente da AED Cluster Portugal espera que o paradigma se altere "com este alavancar do orçamento português para a defesa”. “Esta é uma oportunidade importantíssima para o setor. Para a aproveitar, temos de nos organizar, continuando a criar sinergias não só entre empresas, mas também com O Governo e, é claro, as forças armadas portuguesas. O objetivo é simples: deixar de comprar tudo lá fora e não mais ignorar o bom que é feito no nosso país”, resume José Neves. P.36 Atualidade APÓS DÉCADAS a SOMBRA da superpotência aliada, os europeus acordaram para a necessidade de se rearmarem contra as ameaças. Portugal tem trunfos fortes na indústria da defesa A despesa pública para a defesa pode subir para 3% do PIB ou 6400 milhões de euros/ano “A Europa investe mais do que a Rússia em defesa, mas fá-lo de forma fragmentada. A atualidade obriga-nos a estar mais alinhados” José Neves AED Cluster 1. TERRESTRE A TECNOLOGIA DA UAV VISION PRODUZ DRONES E ARMAMENTO ANTIDRONE, MAS TAMBeM VEICULOS DE COMBATE 2. .BLINDAGEM A BEYOND COMPOSITE GARANTE PROTEçáO BALISTICA DE VIATURAS 1.PODER AeREO OS DRONES DA UAV VISION ESTáO AO SERVIçO DA FORçA AeREA PORTUGUESA E EM CENáRIO DE GUERRA NA UCRANIA 2. INOVAçáO A BEYOND VISION TEM VINDO A CRIAR EQUIPAMENTOS A partir de 2030 60% das compras europeias devem ser feitas no mercado interno. Portugal quer estar neste mapa “o poder político na Europa adormeceu(.. ao delegar na NATO e nos Estados Unidos da América a defesa do continente” Gen. Valença Pinto EuroDefense 1. ESPAçO O POSAT2, DA LUSOSPACE ê O PRIMEIRO SATêLITE COMERCIAL PORTUGUêS 2. PORMENOR IMAGENS DO SATêLITE DA GEOSAT 3. C-390 PAINêIS PARA AERONAVE DA EMBRAER PRODUZIDOS NA OGMA JOÃO AMARAL SANTOS