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INOVAÇÃO - DOS DRONES’ AO CALÇADO, OS POLÍMEROS AJUDAM A CRIAR MATERIAIS MAIS SUSTENTÁVEIS

Diário de Notícias

2025-03-17 22:09:30

INOVAÇÃO Nascido há 25 anos, o PIEP desenvolve projetos em toda a Europa, mas também com o Brasil. A Grandene, grupo que produz o calçado Melissa, recorreu à ajuda do Centro Tecnológico de Guimarães. ILÍDIA PINTO, EM BARCELONA A jornalista viajou a convite do PIEP Nascido em Guimarães, o PIEP - Pólo de Inovação em Engenharia e Polímeros está apostado em ganhar dimensão internacional. É verdade que o centro português de tecnologia e inovação tem trabalhado, desde a primeira hora, com grandes projetos internacionais, seja com a Embraer ou com a Agência Espacial Europeia, entre muitos outros, mas, nos últimos anos, o centro tem vindo a participar em feiras internacionais para se dar a conhecer e, simultaneamente, mostrar aquilo de que a indústria portuguesa é capaz. Foi o caso da Plastics & Rubber, feira do setor, que decorreu em Barcelona, e onde o PIEP apresentou algumas das inovações em que participou, como, por exemplo, um depósito para armazenamento de hidrogénio, desenvolvido em parceria com a Tekever, a empresa portuguesa especializada em drones. Algo que foi desenvolvido com a integração de fibra de carbono na sua estrutura, “promovendo leveza e resistência para aplicações energéticas avançadas”. E há já um projeto inter-regional, com a Galiza, envolvendo a Universidade do Minho e a Petrotec, empresa de Guimarães que fabrica bombas de combustível – o PIEP está já a trabalhar no desenvolvimento de reservatórios para hidrogénio para a indústria automóvel. O desafio, reconhece Pedro Mimoso, diretor de Desenvolvimento do Negócio do PIEP, é substituir o metal destas estruturas por plástico, assegurando a sua leveza, mas também a sua resistência e impermeabilidade. Só no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o PIEP está envolvido em 30 projetos, correspondentes a um investimento global de aproximadamente 14 milhões de euros. É o caso da agenda mobilizadora da aeronáutica, o Fly.pt, em que participam também a Tekever, o Instituto Politécnico de Leiria, a Universidade de Évora, ou o ISQ e o CEiiA, entre vários outros parceiros, e que pretende combinar o transporte rodoviário com o aéreo, criando um veículo que anda na estrada, mas que também pode ser teletransportador. “Há uma grande dinâmica internacional neste momento, e já existem até protótipos de uma pilha de combustível, que pode ser elétrica ou a hidrogénio, para abastecer drones, com 4, 6 ou 8 geradores, e que transportam pessoas, como um helicóptero, de um topo de um edifício para o outro”, explica Pedro Mimoso. É o princípio do táxi aéreo e que se poderá vir a revelar “muito interessante” para cidades como São Paulo, onde o uso de helicópteros, particularmente para empresas de uma certa dimensão, é já uma realidade. Tudo o que o PIEP faz tem hoje, naturalmente, uma grande componente de compromisso com a sustentabilidade, seja ao nível do desenvolvimento de biomateriais, seja na criação de estruturas mais leves, com a consequente poupança de matérias-primas. É o caso do projeto e-blast, desenvolvido em parceria com a Aloft, fabricante de solas para calçado, que aproveitou uma tecnologias inicialmente desenvolvida no setor automóvel, com a injeção simultânea de azoto e plástico na criação dos moldes, permitindo baixar em cerca de 10% o peso do componente. Devidamente adaptada para o calçado, esta tecnologia permite “retirar 90% do peso das solas, de alta performance, com grandes vantagens ao nível da sustentabilidade, porque viabiliza o uso de plásticos recicláveis”, afiança Mimoso. Um projeto que atraiu a atenção da Grandene, o gigante brasileiro mais conhecido pela marca de calçado Melissa, que conta com dez fábricas de calçado e que emprega mais de 12 mil pessoas só numa delas. Pedro Mimoso não avança com grandes pormenores sobre o projeto com a Grandene, garantindo apenas que a cooperação “está a decorrer”. Mais do que poupar nas matérias-primas, o objetivo, garante, é facilitar a reciclabilidade do calçado, já que, com esta tecnologia, “é possível utilizar outros materiais, como o TPU ou o PVC, que têm densidades similares ao EVA, mas que podem ser reincorporados no processo de fabrico”. Já na área dos materiais com funcionalidade específicas, o PIEP expôs o que parecia ser um simples fio, de plástico, mas que conduz a eletricidade. Um projeto desenvolvido com a Agência Espacial Europeia, e que levou ao “desenvolvimento de um filamento de um polímero de elevado desempenho, carregado com nanotubos de carbono e grafeno, para permitir a condutividade energética”, explica Renato Reis, coordenador da área de Extrusão, Composição e Materiais Avançados do centro. E que gerou grande atenção por parte dos visitantes da feira. Uma tecnologia com “muitas vantagens” e variadíssimos usos possíveis. “São materiais que também servem para fazer de escudo eletromagnético, e por isso podem ser usados em baterias, em sistemas de defesa, ou no setor automóvel”, acrescenta Pedro Mimoso. Crise política “pode colocar em risco alguns projetos do PRR” Presidente do PIEP, que é parceiro em 30 projetos do Plano de Recuperação e Resiliência, teme que empresas mais pequenas não tenham o arcaboiço financeiro necessário para aguardar pela chegada de um novo Governo – e para aguentar os atrasos dos apoios. ILÍDIA PINTO O PIEP assinala 25 anos e o Nuno dá início ao que já disse que será o seu último mandato no centro. Que PIEP quer deixar em 2028? Queremos que esteja mais forte, ainda mais bem estruturado do que está hoje e que possa navegar sozinho. Para este último mandato, o projeto que temos é conseguir ampliar as instalações. Nos últimos três anos, quase triplicamos o volume de negócios e o número de colaboradores, que hoje são mais de 90 e de diversas nacionalidades. Têm falta de espaço? Fruto de alguns projetos que concretizámos, tivemos de fazer investimentos em laboratórios, mas também em equipamentos, que ocupam espaço. Vamos abrir um polo do PIEP emVila Nova de Cerveira, porque há aí um cluster náutico importante e que precisa de fazer testes e ensaios. A autarquia cedeu-nos instalações e vamos lá instalar-nos. A proximidade à Galiza, e à indústria automóvel que aí existe e que não tem nenhum centro tecnológico com as nossas valências, é outra das razões desta aposta. Em Guimarães temos espaço para crescer, mas temos de construir uma nave nova. Qual é o investimento? Está em estudo, pode ser de 1 a 1,5 milhões de euros, mas não está definido e terá de ser aprovado pelos nossos acionistas. Numa segunda fase, ou que pode ser intermédia, porque a construção levará o seu tempo, queremos abrir um polo em Leiria, ou um pouco mais a sul, para dar resposta mais próxima à indústria de plásticos e de moldes que aí existe. O PIEP faturou 5,4 milhões de euros em 2024. Quanto quer faturar em 2028? Gostava que estivesse entre os nove e os dez milhões. Claro que há condicionantes. Cerca de 50% do negócio do PIEP vem de fundos, governamentais ou comunitários, e às vezes as questões políticas geram alguns constrangimentos. O PIEP está envolvido em cerca de 30 projetos no âmbito do PRR. Em que medida a queda do Governo pode prejudicar estes investimento? Os fundos, como o PT2030 e o PRR, têm uma calendarização para serem postos em prática. Se isso não ocorrer, corremos o risco de não receber o dinheiro e de o projeto fracassar. Do nosso lado, tudo faremos para que os projetos não parem. O PIEP tem alguma capacidade financeira para aguentar estar sem financiamento durante um tempo, enquanto há eleições e vem um novo governo. Mas o PIEP não está sozinho nestes projetos. Claro que uma Navigator não tem problema em aguentar também, mas empresas mais pequenas podem não ter esse arcaboiço e o projeto morrer, porque o parceiro caiu, e temos um problema. É uma preocupação, então? Sim, vejo com alguma preocupação que isto possa atrapalhar alguns projetos. Não acredito que caiam todos, porque temos alguns, nomeadamente na área da mobilidade e da floresta, que contam com players muito grandes, alguns cotados no PSI, e por aí não estou preocupado. A questão são os projetos de menor dimensão e que, inclusive, podem ser possíveis tábuas de salvação de algumas empresas pequenas, que têm projetos novos. Se esse dinheiro não lhes chega, podem pôr em causa o projeto.