FUNDOS GANHAM EUR14,8 MIL MILHÕES COM QUEDA DA TESLA EM BOLSA, QUE VÊ RIVAL BYD DISPARAR PARA MÁXIMOS HISTÓRICOS
2025-03-18 22:17:17

Mau momento da Tesla tem sido aproveitado por grandes fundos de investimento. A BYD, que valoriza mais de 55% em Bolsa este ano, apresentou um produto revolucionário no carregamento de veículos elétricos As ações da Tesla acumulam uma pesada desvalorização desde o início deste ano, à boleia da intervenção política do seu maior acionista e fundador, Elon Musk, mas há quem esteja a ganhar muito dinheiro com este cenário. Os grandes fundos que têm estado a apostar na queda dos títulos (os chamados short sellers) arrecadaram um total de 16,2 mil milhões de dólares, cerca de 14,8 mil milhões de euros, segundo o Financial Times, num dia em que uma das suas maiores rivais, a construtora chinesa de automóveis elétricos BYD, regista máximos históricos depois de uma inovadora solução para carregamento dos veículos. A empresa chinesa voltou a valorizar-se mais de 4% na sessão desta terça-feira, em Hong Kong, depois de ter anunciado um novo sistema que permite o carregamento dos veículos elétricos suficiente para fazer 470 quilómetros - o que em alguns modelos representa a totalidade da autonomia - em apenas 5 minutos. E informou ainda que os seus dois veículos mais populares, que custam menos de 40 mil dólares na China, passem a ser equipados com este novo sistema de carregamento a partir de abril. Desde o início deste ano, as ações da BYD valem mais 55,58%, contrariando a tendência seguida pela Tesla, que atingiu um máximo histórico em dezembro do ano passado, à boleia da nomeação de Trump, mas os seus títulos desvalorizam-se em 37,25% desde janeiro. E este número poderá ser reforçado com a abertura de sessão desta terça-feira. A inovação da BYD está a ser vista pelos analistas e pelas empresas do sector como uma grande derrota para a Tesla. À Axios, Matt Teske, presidente-executivo da Chargeway, empresa de carregamentos de veículos elétricos, diz que a Tesla deixou de ser a líder no segmento de baterias e na tecnologia de carregamento. Joanna Chen, analista da Bloomberg Inteligence, diz que isto pode "marcar o início de uma nova onda de lançamentos de modelos, impulsionando as vendas de veículos elétricos a bateria da BYD". Ligações políticas penalizam A ligação de Musk a Trump, assim como o seu apoio público ao partido de extrema-direita alemão, a AfD, tem levado a uma queda nas vendas de carros da empresa e a uma campanha anti Tesla que se tem espalhado sobretudo pela Europa (e até já chegou a Portugal). Alguns investidores da Tesla têm-se insurgido contra a participação política de Elon Musk, considerando que a sua postura tem estado a afetar a companhia. Numa entrevista ao The Guardian, Christopher Tsai, cuja empresa tem dezenas de milhões de dólares investidos na Tesla, disse que espera que Musk saia do departamento de eficiência do Estado (DOGE) para se poder dedicar a 100% aos seus negócios. A Tsai Capital tem 75 mil ações da Tesla, que no início deste ano valiam 28,4 milhões de dólares e agora valem menos de 18 mil milhões. "Musk precisa de assumir o cargo de presidente-executivo da Tesla neste momento crítico. Em poucas palavras, a palavra equilíbrio tem faltado a Elon Musk e à sua capacidade de liderar a Tesla como CEO, ao mesmo tempo que concentra toda a sua energia e tempo ao comando da DOGE dentro da administração Trump", explica Dan Ives, analista de tecnologia da WebBush, numa nota. E acrescenta que "tem havido muito pouca ou nenhuma presença de Musk nas fábricas, ou instalações de produção da Tesla, nos últimos dois meses e esta perceção [de afastamento] está a contagiar as ações". Na conferência dos resultados referentes a 2024, Musk disse aos analistas que esperava um crescimento das vendas este ano, mas os números nos primeiros meses apontam para um cenário muito diferente. Em fevereiro, apesar da subida homóloga registada no Reino Unido, as vendas da Tesla caíram 76% na Alemanha, 48% na Noruega e Dinamarca, 42% na Suécia, 26% em França e o número de carros fabricados na China caiu 46%. Números que mostram uma queda nas compras desta marca específica, apesar das vendas de carros elétricos ter aumentado. Na mesma nota, o analista Dan Ives fala no "momento da verdade" para a Tesla e antecipa que esta tendência se deve continuar a verificar nos próximos meses, prevendo que menos de 5% dos atuais donos de um carro da Tesla equacionariam comprar um segundo automóvel da mesma marca no futuro. Em Portugal, a BYD ultrapassou pela primeira vez a Tesla em número de novos carros vendidos em janeiro, mas a norte-americana recuperou em fevereiro. De qualquer forma, a tendência nas vendas de carros da Tesla tem sido de declínio, registando uma diminuição homóloga de 52,6%, contrastando com o crescimento do peso da chinesa no mercado. A situação tornou-se crítica de tal forma que, na semana passada, Trump transformou a entrada da Casa Branca numa espécie de sala de exposição de veículos da Tesla, anunciando a compra de alguns para a sua administração. "Querem penalizá-lo e penso que isso é muito injusto", disse Trump, na altura, referindo-se aos manifestantes da Tesla. As ações recuperaram durante esses dias. China dá cartas O mercado de veículos elétricos tem sido sobretudo dominado pelas empresas chinesas, graças ao impulso que o Governo tem dado ao desenvolvimento deste sector. Em 2023, Pequim deu uma borla fiscal no total de 520 mil milhões de yuans (o que equivale hoje a 65 mil milhões de euros) que se vai prolongar até 2027, livrando os consumidores de pagar uma fatia considerável de impostos quando compram um novo automóvel com estas caraterísticas. Este programa, aliado aos vários apoios às empresas, entrou em vigor depois de um outro, que também subsidiava aquisições, ter terminado ao final de uma década. Esta aposta tem surtido efeito no crescimento deste sector: quatro das maiores cinco fabricantes de carros elétricos do mundo, listadas em Bolsa, são chinesas. A lista é liderada pela norte-americana Tesla, mas depois seguem-se Xiaomi (que tem outros negócios ligados à tecnologia), BYD, Li Auto e XPeng. E se alargamos a pesquisa pelo top10, há sete empresas de Pequim, duas dos EUA e uma do Vietname. Espera-se que a China instale cerca de 460.000 novos carregadores públicos de veículos elétricos este ano, elevando o número total para mais de 2,1 milhões, o que equivale a dois terços dos carregadores públicos em todo o mundo, de acordo com a consultora chinesa Omdia. Nos primeiros dois meses de 2025, a BYD foi responsável por cerca de 27% da produção chinesa de veículos elétricos, com vendas de mais de 405 mil automóveis, segundo dados da Automobility. A empresa está a expandir-se em todo o mundo, com novas fábricas na Ásia, na Europa e na América do Sul. Mesmo depois deste arranque de ano conturbado para a Tesla, a empresa continua a valer mais de 700 mil milhões de dólares em Bolsa, superando qualquer rival no sector automóvel. Gonçalo Almeida Jornalista Gonçalo Almeida