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O MERCADO: JÚRI, JUIZ E CARRASCO DE MUSK

Observador Online

2025-03-18 22:17:17

Se o mercado é capaz de ameaçar um titã, porquê fiar-nos tanto nas rédeas lentas do Estado? A recente derrocada da Tesla - vendas em colapso na Europa e a cotação em bolsa a afundar - trouxe um certo júbilo aos críticos de Elon Musk. Mas, por trás da ironia, há uma lição incontornável: este declínio é um triunfo do mercado livre, uma demonstração de que a escolha individual, mais do que qualquer decreto governamental, é das forças mais poderosas para moldar mesmo os maiores impérios. Longe de ser um fracasso, os problemas da Tesla evidenciam como o mercado entrega aos cidadãos comuns o poder de controlar magnatas mais eficazmente que qualquer esforço legislativo. Analisemos o boicote. As vendas da Tesla na Europa caíram mais de 45% em janeiro de 2025, não devido ao sucesso de um decreto regulatório, mas simplesmente porque os clientes viraram costas à marca. Foram as jogadas políticas de Musk, ou a sua confraternização com partidos europeus de extrema-direita? Ou os modelos já desinteressantes que a marca disponibiliza, agora ofuscados por rivais chineses como a BYD? A motivação importa menos do que o facto: as pessoas escolheram distanciar-se da marca, sem que burocracia ou legislação o decretasse. O mercado funcionou no seu estado mais puro - implacável, direto e com um toque de rebeldia. Agora, compare-se com a lentidão da intervenção estatal ou legal. Governos e tribunais podem multar, regular ou mesmo desmantelar empresas, mas essas ações são lentas, desajeitadas e frequentemente capturadas pelos poderes que deveriam disciplinar. Uma tentativa de restringir os poderes de Musk levaria anos a ser concretizada, atolada em lobbies e desafios legais. Já o veredicto do mercado foi quase instantâneo: as ações da Tesla perderam mais de 40% desde o seu pico em dezembro, eliminando cerca de 800 mil milhões de dólares na sua capitalização. Não foi o martelo de um juiz, mas a vontade coletiva de milhões que levou o próprio presidente dos Estados Unidos a implorar, num apelo quase submisso, que os seus apoiantes demonstrassem o seu amor patriótico à marca. A democracia revelou-se mais vibrante na economia de mercados do que nas urnas, desmontando alguns dos argumentos mais desgastados contra o mercado livre. É frequentemente referido que o capitalismo sem restrições permite que magnatas como Musk esmaguem os mais pequenos. A queda da Tesla sugere o oposto. Musk, com toda a sua fortuna e influência, não é imune à vontade dos consumidores e à sua capacidade de lhe virarem as costas. O mercado não se impressionou com os seus milhões ou fotografias ao lado de Trump. Pelo contrário, amplificou a voz do comprador comum, capaz de humilhar e disciplinar um dos mais poderosos barões do século XXI. Outra crítica habitual aponta para a natureza caótica dos mercados, alegando que as suas flutuações erráticas exigem estabilização estatal. Mas o declínio da Tesla não foi um ato arbitrário da especulação - foi um sinal. Menos vendas refletem mudanças reais, desde as preferências dos consumidores, ao aumento da concorrência, até aos juízos morais sobre a conduta dos seus gestores. Preços e lucros ajustam-se em tempo real, forçando empresas a adaptarem-se ou desaparecer. Em contraste, os resgates públicos muitas vezes sustentam falhanços e ineficiências e distorcem sinais e incentivos. A severidade caótica do mercado não é um defeito; é a sua maior virtude, garantindo que os recursos sejam transferidos para onde são mais valorizados. Por fim, critica-se os mercados por favorecerem os poderosos, silenciando as massas. Mas este episódio com a Tesla inverte o argumento. Quem foram os fracos aqui? Não os compradores que cortaram as receitas da Tesla - no caso da Alemanha, um colapso de 76% de vendas em janeiro - mas sim o poderoso Musk, com os seus mais de 300 mil milhões de dólares, agora forçado a enfrentar as consequências da sua própria conduta. Nenhuma lei replica esta agilidade ou escala. Longe de serem perfeitos - nem todos os boicotes vencem e a riqueza sempre terá a capacidade de amplificar a influência - os mercados dispõem da capacidade para punir a arrogância e corrigir excessos a um nível bastante superior aos mecanismos estatais e legislativos. A justiça pode ser comprada. Os mercados, dificilmente. A Tesla não desapareceu, mas este episódio sublinha uma verdade: a liberdade de escolha, seja para comprar, boicotar ou ser apático, mantém até os mais audazes sob controlo. Se o mercado é capaz de ameaçar um titã, porquê fiar-nos tanto nas rédeas lentas do Estado? Será a economia a única forma política com impacto? O mercado livre, apesar dos seus solavancos, devolve o poder ao povo - uma transação de cada vez. E se confiássemos mais nele? Luís Romeiro Engenheiro e Consultor Luís Romeiro