TRANSIÇÃO ENERGÉTICA E RENOVAÇÃO DO PARQUE AUTOMÓVEL SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS DO SETOR" - ENTREVISTA A HELDER BARATA PEDRO
2025-04-05 21:06:33

Secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) A digitalização e a transição para a mobilidade elétrica são desafios estruturais para a indústria automóvel, sublinha Helder Barata Pedro, secretáriogeral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP). A indústria nacional representa 4 por cento do PIB e 40.000 milhões de euros de volume de negócios. Mas o momento é marcado por pressões externas como a dependência da cadeia de valor chinesa e as barreiras impostas pelos EUA. Para o responsável da ACAP, a aposta na inovação é essencial para garantir que Portugal se mantém competitivo num mercado global cada vez mais dinâmico. AACAP representa as empresas do setor automóvel há mais de 100 anos, tem por missão promover o crescimento e a competitividade das empresas associadas. Como tem evoluído a atividade da associação e quais são hoje os seus principais desafios? A ACAP tem desempenhado um papel essencial na defesa e promoção do setor automóvel português ao longo de mais de um século, adaptando-se à evolução do mercado e às necessidades das empresas associadas. Além da representação institucional, tem reforçado o apoio à inovação, à digitalização e implementação de políticas que garantam um ambiente competitivo favorável. Atualmente, os principais desafios incluem a transição energética, que exige uma infraestrutura de carregamento mais robusta e incentivos eficazes para tornar os veículos elétricos mais acessíveis. A renovação do parque automóvel é outra prioridade, dado que a elevada idade média das viaturas compromete a segurança rodoviária e os objetivos ambientais. A competitividade da indústria automóvel nacional enfrenta ainda pressões externas, nomeadamente a dependência da cadeia de valor chinesa nos veículos elétricos e as barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos da América. A ACAP continua a atuar como um interlocutor entre as empresas do setor e as entidades governamentais, garantindo que as políticas adotadas promovem a sustentabilidade, a inovação e o crescimento do setor em Portugal. Participa, ainda, nos trabalhos das Associações Europeia e Mundial dos Construtores de Automóveis. O setor automóvel português é composto por cerca de 35.000 empresas, mais de 160.000 trabalhadores e cerca de 40 mil milhões de euros de volume de negócios. Representa aproximadamente 4 por cento do PIB. Que atividades consideram incluídas no setor automóvel e como prevê a evolução destes números? O sector automóvel é um dos mais relevantes da economia portuguesa. Representa aproximadamente 4 por cento do PIB, e gerou 10,9 mil milhões em receitas fiscais , 17,8 por cento das receitas fiscais do Estado. Inclui atividades, desde a produção e comercialização de veículos ao fabrico e distribuição de componentes, serviços de manutenção e mobilidade sustentável. A evolução destes números dependerá de diversos fatores, como a estabilidade do mercado, a adaptação às exigências ambientais e o investimento em inovação. O setor enfrenta desafios estruturais, como a digitalização e a transição para a mobilidade elétrica, que exigem investimentos elevados e um reajuste nas infraestruturas e modelos de negócio. Apesar destes desafios, o setor automóvel português tem potencial para continuar a crescer, especialmente se forem criadas condições que incentivem a produção nacional de veículos elétricos e eletrificados e o desenvolvimento de uma cadeia de abastecimento mais autónoma e sustentável. A aposta na inovação e na internacionalização será essencial para garantir que Portugal se mantém competitivo num mercado global cada vez mais dinâmico. Quais são as principais vantagens competitivas de Portugal neste setor e como poderão ser atraídos novos investimentos? Portugal dispõe de vantagens competitivas significativas no setor automóvel, como a localização estratégica, uma indústria automóvel altamente exportadora e mão de obra qualificada. O país tem atraído importantes investimentos na produção de veículos e componentes, especialmente no segmento dos veículos eletrificados. Também o facto de estarmos na Península Ibérica, onde existe um importante Cluster Automóvel, é um fator que temos de aproveitar. Para reforçar a captação de investimento, é essencial garantir estabilidade fiscal e legislativa, apostar na modernização industrial e criar condições para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras. A melhoria da rede de carregamento para veículos elétricos e a aposta na produção nacional de componentes críticos, como baterias, podem contribuir para o fortalecimento da competitividade do setor. No ano passado foram produzidos em Portugal mais de 330.000 veículos, um crescimento de 4,5 por cento quando comparado com 2023. Tendo em conta o atual contexto, é previsível que essa evolução se mantenha em 2025? É verdade que, em 2024, a produção automóvel em Portugal registou esse crescimento. No entanto, em janeiro de 2025 foram produzidos 23.573 veículos, refletindo uma queda de 21,7 por cento em relação ao mesmo mês de 2024. A evolução da produção ao longo do ano dependerá de vários fatores, nomeadamente da dinâmica da procura nos mercados internacionais, da estabilidade das cadeias de abastecimento e do impacto das novas políticas da União Europeia para o setor automóvel. O reforço dos investimentos na produção de veículos eletrificados e a adaptação da indústria às exigências da transição energética serão igualmente determinantes para sustentar o crescimento do setor. A grande maioria dos veículos produzidos no país são para exportação. Em que medida a crise que o setor vive na Europa está a afetar a indústria nacional? Dado que mais de 97 por cento dos veículos produzidos em Portugal são exportados, qualquer retração nos principais mercados europeus pode afetar negativamente a indústria nacional. Os principais destinos das exportações portuguesas , como Alemanha, França, Itália e Reino Unido , enfrentam desafios como a inflação, a redução do poder de compra, o aumento das taxas de juro e a incerteza económica. A desaceleração da procura nestes mercados pode levar a uma diminuição das encomendas para as fábricas portuguesas, afetando o ritmo de produção. Esses mercados representam mais de metade das vendas de veículos produzidos em Portugal. Que mudanças estão a registar-se nesses países e de que forma é que a indústria nacional tem procurado responder a esse novo contexto? Os mercados da Alemanha, Itália, Reino Unido e França têm vindo a sofrer transformações significativas, impulsionadas por fatores económicos, regulatórios e de consumo. A inflação e o aumento das taxas de juro nestes países reduziram o poder de compra, condicionando a procura por veículos novos. No caso da Alemanha, à crise económica somou-se uma crise política, mas esperemos que rapidamente a situação estabilize com a formação do novo governo. Perante este novo contexto, a indústria automóvel nacional tem apostado na diversificação da produção, reforçando a oferta de veículos eletrificados para acompanhar a crescente procura por modelos mais sustentáveis. A União Europeia acaba de anunciar um Plano de Ação para o setor automóvel. Quais são as medidas mais importantes e que impacto poderão ter na indústria nacional? Entre as medidas mais relevantes destaca-se a alocação de 1,8 mil milhões de euros para o desenvolvimento de uma cadeia de valor para matérias-primas e fabrico de baterias, um passo essencial para assegurar a soberania tecnológica da Europa e reduzir a dependência de fornecedores externos. Além disso, o plano aposta na transição para veículos inteligentes, conectados e autónomos, um fator crítico para garantir que a indústria automóvel europeia se mantenha competitiva face ao avanço da China e dos EUA nesta área. O plano prevê ainda uma simplificação do quadro regulatório e um reforço do apoio à mobilidade elétrica, nomeadamente através de incentivos à aquisição e expansão da infraestrutura de carregamento. Estas medidas são fundamentais para estimular a procura por veículos de zero emissões e acelerar a renovação do parque automóvel europeu. Para Portugal, este plano representa uma oportunidade estratégica para atrair novos investimentos, especialmente no setor das baterias e na produção de veículos eletrificados. A flexibilização das metas ambientais pode aliviar a pressão sobre os fabricantes, permitindo uma adaptação mais gradual à transição energética. Além disso, o reforço dos incentivos à mobilidade elétrica poderá impulsionar a modernização do parque automóvel e fomentar um setor mais sustentável e competitivo no contexto europeu. Qual poderá ser, por outro lado, a resposta à concorrência da China e a tarifas aplicadas pelos EUA? A concorrência da China no setor automóvel, particularmente no mercado dos veículos elétricos, tem sido um dos grandes desafios para a indústria europeia. Os fabricantes chineses conseguiram alcançar uma posição competitiva forte devido a elevados investimentos em tecnologia, economias de escala e um apoio estatal significativo. Recentemente, a União Europeia tem vindo a reforçar a sua estratégia industrial, procurando reduzir a dependência externa e aumentar a produção de componentes críticos, como baterias, dentro da Europa. Os dados da ACAP apontam para uma queda de 2 por cento no mercado automóvel em Portugal em fevereiro de 2025, quando comparado com o mesmo mês do ano anterior. Foram matriculados quase 23.000 veículos e os elétricos representaram 20,3 por cento. São números que demonstram duas tendências, o decréscimo da compra de veículos e a opção cada vez mais significativa pelos elétricos? Os dados da ACAP confirmam essa dupla tendência no mercado automóvel português. Por um lado, um decréscimo de 2 por cento nas matrículas que pode estar associado a vários fatores, como a confiança dos consumidores e das empresas, a incerteza fiscal e a evolução das taxas de juro, que continuam a condicionar a decisão de compra dos consumidores. Por outro lado, os veículos totalmente elétricos (BEV , Battery Eletric Vehicle) representaram 23,7 por cento nos veículos ligeiros de passageiros, em fevereiro de 2025, reforçando a crescente adesão à mobilidade elétrica. Embora o mercado automóvel tenha registado um ligeiro recuo, o crescimento do segmento elétrico sugere que a transição energética está em curso. Em Portugal o parque automóvel tem envelhecido. Que medidas devem ser tomadas no sentido de promover um parque automóvel mais atual e mais sustentável? O envelhecimento do parque automóvel por-tuguês continua a ser um dos grandes desafios do setor, com cerca de 1,5 milhões de veículos com mais de 20 anos ainda em circulação, comprometendo tanto os objetivos ambientais, devido às emissões elevadas de CO2 e outros poluentes, como a segurança rodoviária, pela ausência das mais recentes tecnologias de segurança. Os incentivos ao abate não têm sido suficientes para renovar a frota, sendo necessário o reforço e ampliação do programa, incluindo apoio à substituição por veículos elétricos, híbridos e a combustíveis alternativos. A revisão da fiscalidade automóvel é outro fator essencial, ajustando a carga fiscal sobre veículos novos e menos poluentes para tornar a sua aquisição mais acessível. Paralelamente, a expansão da infraestrutura de carregamento assume um papel crucial, uma vez que a rede atual ainda é insuficiente para dar resposta ao crescimento da mobilidade elétrica. A renovação do parque automóvel não só contribuiria para a redução das emissões de CO2 e melhoria da qualidade do ar, como também traria benefícios ao nível da segurança rodoviária e da eficiência energética, sendo fundamental que Portugal adote medidas estruturais e de longo prazo para garantir que a renovação da frota acompanhe as metas europeias de descarbonização. Pg Helder Barata Pedro