A VIA-SACRA DO LOGOS
2025-04-14 08:35:07

«É IMPERIOSA UMA VISITA A ESTE TRABALHO, APRESENTADO NO ANO EM QUE BRAGA É CAPITAL PORTUGUESA DA CULTURA» Entramos hoje na semana maior para os cristãos, a Semana Santa, que nos convida a uma atitude orante e contemplativa dos últimos passos de Jesus, antes da Sua morte e ressurreição. Por conseguinte, gostaria de sugerir uma visita à Zet Galery, onde se encontra uma exposição única que está patente ao público até ao dia de Páscoa. Com obras em três espaços culturais icónicos da cidade minhota, este périplo propõe ao visitante uma “procissão poética”, que se deverá iniciar na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, passando depois pelo Museu Pio XII e terminar na Zet Galery. Giancarlo Pavanello, o artista italiano nascido em Veneza que foi convidado para este trabalho, expõe na Biblioteca obras que indiciam desde logo um trabalho de excelência e a que associamos de imediato mestres como os contemporâneos Manuel Santos Maia, Cruz-Filipe, entre outros. Com efeito, os poemas que acompanham as obras de Pavanello, no Museu Pio XII, abrem ao visitante, de súbito, outros horizontes (vitais) e fazem antever a explosão que o aguarda na Zet Galery. Nesse espaço de arte contemporânea de Braga, com curadoria de Helena Mendes Pereira, encontra-se a maior parte das obras de Pavanello (mais de 300), que põem em destaque a poesia visual e trabalhos em que a Arte Povera e a Arte Bruta sobressaem. No entanto, quem visita a exposição como crente, que foi o meu caso, sente um estremecimento interno ao percorrer o coração da Galeria, onde está exposta a Via-Sacra do Logos. Evocando os estreitos caminhos por onde Jesus carregou a cruz, em Jerusalém, o visitante é convidado a contemplar um jogo de imagens e palavras que o ajudam a percorrer, com Jesus, os últimos momentos da Sua vida, antes de morrer e de ressuscitar. Os textos de Carlos Poças Falcão, que ladeiam os quadros da via crucis de Pavanello, põem-nos em confronto com as nossas profundezas mais abismais e a música de fundo sublinha esse lamento esperançoso e vitalizante que nos atravessa, na trajetória de crentes. Pedro Abrunhosa, que também esteve presente na inauguração da exposição, foi convidado para participar neste trabalho e compôs três músicas; uma delas a partir de um poema que o Cardeal D. Tolentino de Mendonça escreveu, intitulado “Sexta-feira Santa”. A soprano Sofia Marafona dá voz a dois poemas: o de Tolentino Mendonça, já citado, e um outro de Daniel Faria. É possível apreciar esse trabalho musical, enquanto se circula pela galeria, para percorrer a Via-Sacra do Logos e também para apreciar a exposição de muitas das obras que Giancarlo Pavanello produziu ao longo da sua longa vida. Uma nota se impõe para destacar o crucial papel do DST Group, que financiou e dispôs de toda a Galeria para esta exposição e investiu nos encargos económicos para o transporte das obras e o seguro das mesmas. Papel igualmente relevante nesta exposição teve Mons. Mário Rui de Oliveira, padre da Arquidiocese de Braga e Chefe da Chancelaria do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, em Roma, que foi um dos mediadores e grande impulsionador da mesma. O seu texto, “A Via-Sacra do Logos: O percurso verbo-visual de Giancarlo Pavanello”, no catálogo da exposição (que apresenta um grafismo de excecional qualidade), bem como a recensão crítica de Teresa Bartolomei, são importantes subsídios que ajudam o visitante a adentrar-se no mistério, a refletir, a rezar e a percecionar a obra de Pavanello de forma crítica e atuante, num mundo “estilhaçado” e marcado por conflitos bélicos que o aproximam da paixão de Cristo. A Via-Sacra do Logos consiste num caminho artístico que permite ao visitante seguir Jesus nos Seus derradeiros passos e assenta na combinação de símbolos e imagens, numa iconografia disruptiva e interpeladora de Giancarlo Pavanello (Carlo Pava), com textos de Carlos Poças Falcão, que nos remetem para uma auscultação das nossas entranhas mais profundas e para a interrogação constante ao longo da Via-Sacra, perscrutando as nossas tibiezas, a nossa debilidade e fraqueza e as nossas inseguranças e cegueiras. Por outro lado, os jogos de palavras do poeta Poças Falcão e a seleção e a disposição das cores a que recorre o artista italiano, ao longo das quinze estações, acentuam a gradação e o auge do sofrimento só superado pela ressurreição do Senhor. Nos quadros, como nos textos que os acompanham, até a sintaxe está ao serviço de uma narrativa que coloca a ênfase em Jesus, o “servo sofredor” e por isso o Poeta Tolentino de Mendonça garante que “Deus ainda não terminou”. Em síntese, creio que é imperiosa uma visita a este trabalho, apresentado no ano em que Braga é Capital Portuguesa da Cultura, pois distingue-se pela singularidade e pela eloquência e traz até nós um artista que, doutorado em Línguas e Literaturas e assumidamente agnóstico, aceitou o desafio de se abeirar do Mistério, convidando cada um à abertura a esse itinerário espiritual. Diretora Pedagógica do Colégio de Nossa Senhora da Conceição Exposição está patente na Zet Galery até ao domingo de Páscoa Cidália Teixeira