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A ESGOTAR COMÍCIOS POR TODO O PAÍS, BERNIE SANDERS E ALEXANDRIA OCASIO-CORTEZ TENTAM DESPERTAR A AMÉRICA ANTI-TRUMP

Expresso Online

2025-04-15 10:07:04

O veterano senador e a congressista democrata andam numa roda-viva, em atos políticos por todo o, país em nome do combate à oligarquia e às tendências autoritárias da Administração. E se o octogenário Sanders já colocou um ponto final nas suas ambições presidenciais, para a deputada de ascendência porto-riquenha, estas ações podem funcionar como rampa de lançamento Quase meio ano após as eleições presidenciais nos Estados Unidos, o Partido Democrata tarda em recompor-se do violento knock-out que sofreu. Além de perder a Casa Branca, saiu derrotado no voto popular e é minoritário nas duas câmaras do Congresso. Os inquéritos de opinião revelam que a taxa de aprovação do Partido Democrata - que deu aos Estados Unidos Presidentes tão emblemáticos como Franklin D. Roosevelt, John Fitzgerald Kennedy ou Barack Obama - está num nível historicamente baixo. Nos últimos dois meses, um intenso programa de comícios realizados em vários estados tem procurado agitar as águas e tirar os cidadãos da letargia. "Ao longo das próximas semanas, estarei a viajar para ter discussões reais por toda a América sobre como avançar para enfrentar os oligarcas e os interesses corporativos que têm tanto poder e influência neste país", anunciou o senador Bernie Sanders, o principal dinamizador da Fighting Oligarchy Tour (Tour de Combate à Oligarquia). Agenda cheia, comícios lotados Aos 83 anos de vida, 34 dos quais ao serviço do Congresso dos Estados Unidos, Bernie Sanders está na estrada, com comícios diários fora de época, ao estilo de uma verdadeira campanha eleitoral. No sábado, um desses atos em Los Angeles (Califórnia) juntou pelo menos 36 mil pessoas, no Gloria Molina Grand Park, e contou com a atuação dos músicos Joan Baez e Neil Young. Este encorajou a multidão a "retomar a América". No dia seguinte, cerca de 20 mil pessoas lotaram o Jon M. Huntsman Center, em Salt Lake City (Utah). Segunda-feira, a Tour de Sanders esteve em Nampa (Idaho) e esta terça-feira tem prevista dose dupla: em Bakersfield e Folsom (Califórnia). Na quarta, estará em Missoula (Montana). Em todos os comícios, Sanders é a voz dos americanos que não só se opõem ao plano da Administração Trump para desmantelar o Goveno federal como estão frustrados com a inação do Partido Democrata. Nesta empreitada, o senador tem sido acompanhado em palco por uma "convidada principal": a democrata Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), membro da Câmara dos Representantes pelo Estado de Nova Iorque. "Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez lideram a ala progressista do Partido Democrata", explica ao Expresso Richard Bensel, professor no Programa de Estudos Americanos da Universidade Cornell (Nova Iorque). "Sanders inclina-se para o grupo de progressistas mais baseado na classe, enquanto Ocasio-Cortez pertence a uma geração mais jovem de progressistas orientados para uma agenda de política de identidade. No entanto, concordam em quase todas as questões importantes para os progressistas." São exemplos: Medicare e Medicaid para todos, propinas gratuitas para faculdades e escolas técnicas, construção de habitação mais acessível, impostos para os ricos, ajudas para os veteranos, um Novo Acordo Verde (Green New Deal) para combater as alterações climáticas. "Hoje, temos mais desigualdade de rendimentos e de riqueza do que nunca. Hoje, temos três multibilionários: o Sr. Musk, o Sr. Bezos, o Sr. Zuckerberg. Estes três juntos possuem mais riqueza do que a metade mais pobre da sociedade americana" Bernie Sanders, no comício em Greeley, Colorado, a 21 de março "Sanders e AOC estão à esquerda, no panorama político dos Estados Unidos", acrescenta ao Expresso Paul Beck, professor emérito da Universidade Estadual do Ohio. "Opõem-se fortemente a Trump e às suas políticas, especialmente aos cortes nos impostos para as empresas e para os ricos, e apoiam a expansão dos programas de segurança social." Estima-se que o comício de Sanders e AOC em Denver, Colorado, tenha atraído mais de 34 mil pessoas ao Civic Center Park. Por comparação, a 25 de outubro de 2024, o comício da candidata presidencial democrata Kamala Harris, com a participação da cantora Beyoncé, na reta final da campanha eleitoral, teve nas bancadas do Shell Energy Stadium, em Houston (Texas) cerca de 30 mil pessoas. "Em Denver, a multidão era tão imensa que as pessoas subiram a estátuas e sentaram-se nos largos degraus dos edifícios do outro lado da rua para assistir", descreve a reportagem da Associated Press. Já em Tempe (Arizona), "milhares de pessoas que não conseguiram entrar na Arena [Mullett] encheram uma praça do lado de fora ou assistiram a partir de um parque de estacionamento". "O desprezo de Donald Trump e do Partido Republicano pela classe trabalhadora não advém apenas de não terem sido criados corretamente. É uma abreviatura para toda a agenda política da direita e um certo tipo de política feia que, na sua essência, consiste em mentir e prejudicar os americanos da classe média e trabalhadora. Mas há uma palavra para este tipo de coisas, Tucson. Vocês sabem: corrupção" Alexandria Ocasio-Cortez, no comício em Tucson, Arizona, a 23 de março Ao Expresso, Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense, explica o que significa ser-se hoje progressista nos Estados Unidos. "A ideia de "progressista" na política americana é fruto de uma longa trajetória histórica marcada por uma busca constante por ampliar a justiça social, reduzir desigualdades e democratizar o acesso aos recursos e direitos fundamentais." "Ser progressista significa defender uma série de políticas que visam alterar a ordem económica e social vigente, rejeitando (pelo menos parcialmente) o modelo neoliberal que, para esses, privilegia os interesses do capital sobre as necessidades da maioria." Sanders nasceu a 8 de setembro de 1941, em Brooklyn, Nova Iorque. É o segundo senador mais velho em funções, só ultrapassado pelo republicano Charles E. Grassley, eleito pelo Iowa, atualmente com 91 anos. Sanders entrou no Senado em 2007, em representação do estado do Vermont. Antes, entre 1991 e 2007, foi membro da Câmara dos Representantes, eleito pelo mesmo estado. Político independente desde sempre, disputou a corrida à Casa Branca, por duas vezes, pelo Partido Democrata, com o qual costuma alinhar no Senado. Em 2016, perdeu as primárias para Hillary Clinton (que seria derrotada por Donald Trump) e, quatro anos depois, foi derrotado por Joe Biden (que seria eleito Presidente). Separados por 48 anos Ocasio-Cortez é a oitava congressista mais jovem (num total de 533 deputados, entre senadores e representantes). Nasceu a 13 de outubro de 1989, no bairro do Bronx (Nova Iorque), numa família porto-riquenha. Foi eleita para a Câmara dos Representantes em 2018, com um discurso pró-imigração e a favor das minorias sociais e uma campanha de baixo custo. À época, foi a congressista mais jovem de sempre a ser eleita. Tem estatuto de estrela na política americana e vários fatores contribuem para isso: é jovem, bonita, boa comunicadora, tem um nome que se tornou uma sigla (como JFK) e uma história de vida inspiradora, própria de quem aproveitou as oportunidades da América e viveu o sonho: antes de fazer da política profissão, ajudou a mãe a limpar casas e depois tornou-se empregada de bar. Os caminhos de Sanders e AOC cruzaram-se em 2016, quando ela trabalhou como voluntária na campanha presidencial dele. Mike Casca, o seu atual chefe de gabinete, trabalhou anteriormente para Sanders. Hoje, um e outra estão comprometidos com o combate à tendência autoritária da Administração Trump, fortemente ligada a figuras oligárquicas como Elon Musk e outros multimilionários. "Ambos desejam fortalecer a moral da ala progressista do partido, que foi seriamente enfraquecida pela vitória de Trump em novembro passado e pelos acontecimentos desde que ele assumiu o cargo", acrescenta Bensel. "Enquanto Sanders está provavelmente mais preocupado com os desenvolvimentos políticos na política contemporânea, Ocasio-Cortez é bastante ambiciosa e esta digressão irá alargar e aprofundar a sua reputação nacional", prossegue o especialista. Nas redes sociais, especula-se acerca do potencial desta dupla, que consegue tirar de casa dezenas de milhares de pessoas a cada novo comício. Os mais entusiastas vaticinam que Sanders e AOC poderão estar a ensaiar um ticket às presidenciais de 2028 - uma hipótese improvável, dado que Sanders teria 87 anos. Outros arriscam que estas ações junto do eleitorado poderão ser uma rampa de lançamento de AOC para um lugar no Senado, ou mesmo para a presidência do país. "Acredito que aquilo a que gostam de chamar radical é senso comum. Acredito que quando uma pessoa fica doente, não deve ir à falência, no país mais rico da história do mundo. Senso comum. Acredito que um salário mínimo deve cobrir o custo mínimo de vida. Senso comum" Alexandria Ocasio-Cortez, a 21 de março, no comício de Denver, Colorado "Duvido que se unam para formar uma dupla vencedora", comenta Beck. "Sanders é velho e não é democrata. AOC está a ganhar mais liderança no partido." "Sanders desistiu há muito tempo das suas ambições presidenciais, porque é simplesmente demasiado velho para ser um candidato viável", concorda Bensel. "Mas, em privado, pode muito bem estar a encorajar AOC a entrar numas primárias contra o senador Chuck Schumer, e AOC pode mesmo ganhar essas primárias." Chuck Schumer é o líder da minoria democrata no Senado e um dos rostos do desencanto de muitos eleitores democratas relativamente à liderança do partido em que votaram. A 14 de março, foi um dos dez deputados democratas a votar a favor de uma lei orçamental de iniciativa republicana que evitou a paralisação do Governo. O senador entendeu ser um mal menor, mas esta cedência à maioria republicana foi sentida, dentro do Partido Democrata, como capitulação a Trump. Para evitar encontros desagradáveis, Schumer adiou a digressão de apresentação do seu livro "Antisemitism in America: A Warning" (Antissemitismo na América: Um Alerta, numa tradução livre). "Isto não é apenas sobre os republicanos. Precisamos de um Partido Democrata que lute mais por nós também. Mas o que isto significa é que nós, como comunidade, temos de escolher e votar em democratas e em representantes eleitos que saibam como defender a classe trabalhadora" Alexandria Ocasio-Cortez, a 20 de março, em Las Vegas, Nevada Dentro de pouco mais de ano e meio, a 3 de novembro de 2026, haverá eleições de meio de mandato para o Congresso. Irão a votos todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes e 33 dos 100 lugares no Senado. "Ainda que a maior parte dos americanos não se sinta especialmente atraído pela ideia em geral de socialismo, devido à história política dos Estados Unidos e ao legado da Guerra Fria, existe um enorme apoio popular às medidas que Sanders e AOC propõem", defende Ponte e Sousa. "Ainda assim, não tem sido suficiente para ajustar as políticas defendidas pelos democratas, e muito menos pelos republicanos." Sábado passado, Sanders surpreendeu o público do Festival Coachella, na Califórnia, e subiu ao palco onde atuava a artista Clairo. De improviso, incentivou os jovens a rebelarem-se contra as políticas de Trump. "Este país enfrenta desafios muito difíceis. E o futuro do que vai acontecer à América depende da vossa geração. Agora, podem virar a cara e ignorar o que acontece, mas, se o fizerem, fá-lo-ão por vossa conta e risco. Precisamos que se levantem para lutar pela justiça. Para lutar pela justiça económica, pela justiça social e pela justiça racial", disse. "O contexto político americano está tão inclinado para a direita que figuras como estas, que na Europa seriam de centro-esquerda, são consideradas nos Estados Unidos como sendo um extremo, na falsa retórica de polarização que se foi naturalizando no discurso político, mas que só tem ocorrido à direita", comenta Ponte e Sousa. "Os democratas têm duas possibilidades para o seu futuro político. Uma será a opção que têm tomado nos últimos tempos, e ao estilo dos partidos socialistas, sociais-democratas, trabalhistas na Europa: caminharem cada vez mais para o centro-direita, disputando as eleições estritamente com base na competência e credibilidade. Isso até pode valer vitórias [como as do britânico Starmer ou do alemão Scholz], mas depressa se torna evidente que não são estruturalmente diferentes dos partidos de centro-direita ou direita", acrescenta. "A segunda possibilidade é assumirem um discurso menos defensivo, de mera conservação de conquistas anteriores, e passarem à ofensiva, à expansão dessas mesmas conquistas, como Sanders e AOC (em menor grau) têm feito. Sanders resumiu bem isto: a liberdade política sem liberdade económica não é verdadeira liberdade." Ao esgotar eventos por todo o país, Sanders parece mais popular do que nunca, ainda que a sua mensagem seja a mesma há décadas. E se há dias em que os seus 83 anos pesam, apesar de cansado ele nunca se dá por derrotado. Margarida Mota Jornalista Margarida Mota