AUMENTO DOS CARROS ELÉCTRICOS ROUBA ESTACIONAMENTO NO CENTRO DE LISBOA
2025-04-19 15:30:07

Automóveis com "dístico verde" já são mais de 30 mil e podem estacionar sem limites em todas as zonas. Mais de metade são de fora da capital e maioria ruma ao centro. EMEL perde 3,7 milhões. O aumento do número de automóveis eléctricos em circulação está a causar um problema à Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL). Beneficiando de um regime de excepção, através do "dístico verde", pensado para incentivar o seu uso por razões ecológicas, essas viaturas ocupam agora tanto espaço que estão a pôr em causa a disponibilidade de lugares de estacionamento tarifado para todas as outras. Um fenómeno sentido sobretudo nas zonas centrais da capital e que está a afectar muitos moradores. É a própria empresa municipal a admiti-lo no relatório e contas relativo a 2024, aprovado em reunião de vereação, na passada segunda-feira. No final do ano passado, existiam em Lisboa 30.272 "dísticos verdes", refere-se no documento, divulgado pela Antena 1 e também consultado pelo PÚBLICO. O número corresponde a um crescimento de 66% em relação ao ano anterior, em que estavam registados 18.247 automóveis com tal regime de excepção. E integra-se numa dinâmica em grande afirmação do mercado desse tipo de automóveis nos últimos anos. Em 2022, os "dísticos verdes" eram 11.869, no ano anterior, eram 7793. Em 2018, nem chegavam aos dois milhares e meio. O dístico verde foi criado em 2013, quando a representatividade dos carros eléctricos era ainda residual. O "dístico verde" permite o parqueamento de veículos totalmente eléctricos, em todas as zonas de estacionamento de duração limitada, nos lugares tarifados, sem o pagamento da tarifa e sem limite de tempo. Ao contrário dos selos atribuídos a residentes ou a empresas, a concessão deste dístico, com um ano de validade, não está vinculada a uma morada na cidade, podendo ser requerido pelos donos de qualquer carro 100% eléctrico que queira estacionar em Lisboa. Para tal, terão apenas de apresentar os documentos do veículo e pagar 12 euros de emolumentos. Tal benesse tem acabado por servir como incentivo à entrada na capital de muitos automóveis desse género detidos por residentes nos concelhos em redor da capital. A maioria dos dísticos verdes, 60%, é emitida para veículos de fora de Lisboa, com particular relevância para os concelhos da área metropolitana. Eles representam 47% dos carros com dístico verde. Uma realidade agravada pelo facto de uma parte substancial se dirigir para as áreas centrais da cidade, onde a pressão para encontrar lugar para estacionar é muito maior e, em consonância, as tarifas têm um preço mais alto do que nas outras zonas. Isso está a tornar muito mais difícil a rotação de automóveis, essencial para corresponder à procura, admite a empresa no seu relatório e contas. Nele se admitem não apenas as consequências dessa dinâmica para a disponibilização de lugares no espaço público, mas também para a facturação da empresa. Um facto tão relevante que levou mesmo a entidade gestora do estacionamento no espaço público da capital a reconhecer que foi obrigada a desenvolver "estudos exploratórios, tentando perceber possíveis impactos deste crescimento". Até porque se prevê que ele continue. "Os dados recolhidos apontam para uma maior preponderância da presença de veículos com dísticos verdes em arruamentos com tarifas mais elevadas, o que não surpreende, pois, as tarifas mais caras são estabelecidas em zonas com mais pólos de atractividade, onde se gera maior pressão de estacionamento", analisa-se no capítulo dedicado à mobilidade eléctrica. "O que contraria a permanência prolongada de viaturas é, precisamente, a tarifa, e, se o dístico verde dispensa o pagamento dessa tarifa, então será natural que haja maior preponderância de viaturas com dístico verde nestas zonas", explica o documento. Os tais "estudos exploratórios" concluíram que os carros com "dístico verde" representavam, em média, 4% dos lugares na denominada "coroa verde", constituída por bairros mais periféricos e onde as tarifas são mais baratas. E que ocupavam 13% nos "eixos castanhos", zonas de estacionamento com tarifas mais elevadas e um limite de duas horas de permanência. "Se forem retirados os veículos com outros tipos de dístico, ou seja, se a presença de dísticos verdes for comparada com a de veículos em rotação, percebe-se que a presença de dísticos verdes equivale a 10% da rotação na coroa verde e a 19% nos eixos castanhos", constata-se. O que acaba por ter consequências nas contas da empresa. Se os veículos com dístico verde pagassem a mesma tarifa que os restantes, o valor corresponderia a 3,7 milhões de euros, refere-se nesta análise, que foi realizada em Junho passado. Até ao final do ano passado, o número de dísticos verdes cresceria 23%. Mas há outras preocupações para além das tarifas não cobradas, garante a EMEL. "Sendo um valor importante, a receita está longe de ser a principal questão quando se equaciona o dístico verde", refere a análise, notando os problemas causados pela concentração desses carros nas áreas mais procuradas da cidade. "O ordenamento do estacionamento visa objectivos múltiplos e um crescimento tão rápido do número de veículos sem qualquer estímulo à rotação acabará por impor limites à definição de outras estratégias, com outros objectivos: desde logo à promoção da rotação, mas também à protecção das necessidades dos residentes", diz a empresa. No final de 2024, a EMEL contabilizava 102.526 lugares de estacionamento no espaço público da cidade. De acordo com dados divulgados em Janeiro passado, pela ACAP - Associação Automóvel de Portugal, e citados pela Lusa, no ano passado, 57,3% dos veículos ligeiros de passageiros matriculados novos "eram movidos a outros tipos de energia, nomeadamente eléctricos e híbridos", sendo que 19,9% dos veículos ligeiros de passageiros novos eram eléctricos. tp.ocilbup@oamelams Samuel Alemão