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CRISE - PLANO DE EMERGÊNCIA ATIVADO SÓ À NOITE

Expresso

2025-05-02 06:00:14

Crise Governo acionou às 20h30 a rede de emergência de combustíveis e não acionou o sistema de planeamento de emergência civil Durante a tarde de segunda-feira, quando o combustível começava a faltar nos geradores de alguns hospitais da capital, foi acionado o depósito da Trafaria. O gasóleo vinha num camião-cisterna da GNR, mas ficou com dificuldades em avançar no trânsito na Ponte 25 de Abril. Foi só aí que batedores foram ao seu encontro para abrir caminho. Enquanto isso, na sala de crise do Governo que esteve reunido em Conselho de Ministrosdurantetodoodia havia em cima da mesa uma proposta da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e da Entidade Nacional para o Sector Energético (ENSE) para que fosse emitida uma resolução do Conselho de Ministros a ativar a Rede Estratégica de Postos de Abastecimento (REPA). Esta só foi emitida às 20h30, nove horas depois do apagão e quando a eletricidade começava a chegar a vários pontos do país. O corte da rede de energia que deixou o país sem luz elétrica, às 11h33 de segunda-feira, não resultou em nenhuma catástrofe. Para isso valeu também a serenidade das pessoas em geral. Perante a hipótese (com base em informação das entidades da energia) de que a falha generalizada na Península Ibérica poderia só ser normalizada ao fim de 24 horas, as decisões e comunicações do Governo sucederam-se a conta-gotas. A gestão feita em São Bento atrasou durante horas vários passos de ação. Passava do meio-dia quando foi elaborado “um plano de comunicações de crise ao nível estratégico” e acionado o Sistema de Segurança Interna, mas o Governo não ativou o Sistema Nacional de Planeamento Civil de Emergência (SNPCE) e o respetivo conselho. E ao centralizar a comunicação, o Governo atrasou o envio da mensagem da ANEPC à população, de acordo com os dados da fita do tempo a que o Expresso teve acesso. Perante situações de acidentes graves como a deste apagão, “deve-riam ter acionado o SNPCE e emitido uma resolução do Governo para ativar a constituição de uma reserva estratégica de emergência, que visa criar stocks de equipamentos de proteção individual, geradores, alimentação de campanha, e tudo o que seja indispensável em situações de emergência”, diz ao Expresso Duarte Caldeira, especialista em emergência e proteção civil. REDE ESTRATÉGICA ÀS 20H30 É aqui que se enquadra a REPA, cuja resolução de Conselho de Ministros só foi emitida às 20h30, porque só então o Governo “considerou necessário”, segundo resposta oficial da ANEPC ao Expresso. A proposta de ativação começou a ser trabalhada pela ENSE em articulação com a ANEPC a meio da tarde. O adiar era justificado pela necessidade de “não criar um sentimento de pânico”, segundo fonte da ENSE. Para futuro, esta entidade propõe que se agilize este tipo de decisões por um único membro do Governo. Sem a REPA ativa, foram mobilizadas quatro empresas do sector (Galp, Cepsa, Repsol e BP) para abastecimentos prioritários, além do depósito da Trafaria que pertence à ENSE. Mas na sala do Governo, subsistiam dúvidas sobre como gerir a situação. Na quarta-feira, o ministro-adjunto e da Coesão Territorial, Castro Almeida, afirmava à RTP que o receio de que o gasóleo não chegasse à Maternidade Alfredo da Costa, por exemplo (que “tinha combustível para alimentar geradores por mais uma hora”), levou os ministros a dizerem aos motoristas para comprarem e levarem gasóleo até à Maternidade. Quando lá chegaram, no entanto, já lá estava o camião-cisterna. “Isto parece uma brincadeira. É amadorismo”,criticaDuarteCaldeira. E questiona: “Cabe na cabeça de alguém que haja um governante que vá dizer que foram acionados motoristas com jerricãs para abastecer um hospital?” Mais cáustico mostra-se Ascenso Simões, ex-secretário de Estado da Proteção Civil do PS (2007-2008): “Estiveram atarantados desde a primeira hora.” Passavam duas horas desde o início do apagão quando foi acionado O inesperado herói do dia do apagão Na paisagem de leve pânico que caiu em Matosinhos durante a tarde de segunda-feira passa um casal que carrega nos braços enlatados e pacotes de bolachas. “Isto já parece a ditadura. Não temos notícias...” Na verdade, as notícias não pararam de ser feitas. Nas redações viveu-se um alvoroço redobrado para cumprir a missão de alimentar os sites e as emissões televisivas, ainda que durante o apagão elas não chegassem a todos. Num episódio inédito, a rádio foi o único meio de comunicação que chegou às pessoas e as informou durante o apagão e ajudou a gerir os ânimos até regressar a rede elétrica. Estabelecimentos ainda de portas abertas, armados de rádios portáteis, serviram de ponto de difusão das informações transmitidas pelos radialistas. Houve quem também, dentro de casa, abrisse as janelas e partilhasse o seu pequeno rádio portátil com os vizinhos. “A rádio mostra resiliência em situações de crise, mas a rádio existe todos os dias”, sublinha Miguel Soares, da Antena 1. Parece ter surtido efeito: nas redes sociais das rádios portuguesas multiplicaram-se agradecimentos. Numa ilustração publicada nas redes sociais, em que o radialista e desenhador Hugo van der Ding elege o rádio a pilhas como o “herói do dia”, cibernautas aproveitaram para laurear o aparelho. Pelo meio, uma intervenção que parece resumir o espírito: “Já não se fazem heróis como antigamente.” Inês Loureiro Pinto o Centro de Coordenação Operacional Nacional (CCON) da Proteção Civil. Mas o Conselho Nacional de Planeamento Civil de Emergência (CNPCE) nunca chegou a ser ativado, apurou o Expresso junto de fontes da Proteção Civil. Este conselho, criado em 2020, tem como papel garantir uma “ação transversal a todas as áreas governativas do Estado” e “garantir a liberdade de ação dos órgãos de soberania e o regular funcionamento das instituições democráticas, de modo a que, mesmo em situação de crise, estejam salvaguardadas a realização das tarefas fundamentais do Estado e a segurança das populações”. SISTEMA SEMPRE PRESENTE Questionado sobre o porquê desta decisão, o gabinete do primeiro-ministro (de que depende diretamente o SNPCE) apenas respondeu que “o planeamento civil de emergência esteve sempre presente durante este período, através dos seus coordenadores sectoriais, acompanhando a coordenação da resposta”. Para o gabinete de Luís Montenegro, quem esteve sempre no comando foi o CCON, presidido por José Manuel Moura, que “promoveu o reforço da articulação interinstitucional com os operadores do sector energético (rede elétrica, combustíveis e rede gás), telecomunicações, forças de segurança, serviços de saúde e segurança social, serviços de transportes, serviços de abastecimento de água e águas residuais, entre outros”. Ao não ativar os vários planos legais à disposição do Governo, Duarte Caldeira considera que houve uma “desvalorização das comissões de planeamento especializadas que servem de apoio à decisão política”. E não sabe se “se deveu a desconhecimento ou amadorismo”. FALHAS NA COMUNICAÇÃO A gestão da comunicação foi um dos aspetos mais críticos deste apagão. Passava já do meio-dia quando foi elaborado “um plano de comunicações de crise ao nível estratégico” e acionado o Sistema de Segurança Interna e contactado o Mecanismo Europeu de Proteção Civil. Contu-do, o envio da mensagem por SMS à população, elaborada pela ANEPC por volta das 15h30, só foi autorizada pelo Governo já passava das 17h, numa altura em que as comunicações móveis estavam já muito afetadas. A SMS do PROCIV a avisar que “a ligação de energia está a ser gradual” e que “com a serenidade de todos” iriam ser garantidos “os serviços essenciais e a normalização da situação nas próximas horas” começou a chegar aos telemóveis das pessoas à hora de jantar. E só chegou a menos de metade dos 6 milhões de utilizadores de telemóvel. Sem telemóveis e sem televisão a funcionar, valeram os rádios a pilhas. O Expresso apurou que a centralização da comunicação em São Bento também limitou a capacidade de comunicação da ANEPC. Para contornar as limitações das operadoras móveis, na pasta de transição (entre o Governo de António Costa e o de Luís Montenegro) seguiu uma proposta de implementação de um sistema de difusão celular (cell broadcast), considerado mais robusto para quem conseguisse manter os telefones carregados. Fonte oficial do Ministério da Administração Interna argumenta que “receberam um relatório muito embrionário, sem fontes de financiamento, nem análise comparativas das vantagens e desvantagens entre o cell brodcast e as SMS”. E que estavam “a reavaliar esta proposta e a fazer as análises de custo-benefício”. Já a ANEPC esclarece ter “desenvolvido trabalhos com parceiros nacionais e internacionais para avaliar a possibilidade de implementação de novos canais de aviso de longo alcance como o Galileo ou o cell broadcast”. O sistema Galileo usa GPS via satélite e está em análise na UE, devendo estar operacional em 2026. Por concretizar está também o projeto de “Comunicação das entidades em contexto de emergência”, previsto no plano de ação dos fogos rurais e aplicável a todos os eventos extremos, que previa a criação de um call center especializado e para o qual foram identificados EUR2 milhões, em 2021. Fontes da Proteção Civil indicam que apenas avançaram com formação de “elementos-chave nas diferentes organizações que partilham responsabilidades no âmbito dos incêndios para poder comunicar melhor em contexto de crise”. Com Liliana Valente e Miguel Prado ctomas@expresso.impresa.pt Os números de um país às escuras O dia em que a hora de ponta foi ao almoço e as pilhas e os fogareiros esgotaram. No pós-apagão, a corrida aos rádios ainda não acabou de 40 anos que sobreviveu às cheias de Algés de 2022 para chegar ao dia 28 de abril de 2025 e esgotar todas as pilhas, rádios, lanternas, fogareiros e Campingaz, num dia em que o país revisitou um passado que muitos não conheciam ou já não se lembravam. Com as televisões desligadas, uma das pesquisas que os portugueses mais fizeram no Google foi por rádios a pilhas . E nem mesmo nos dias pós-apagão a procura caiu: talvez porque o dia inédito tenha deixado a sensação de que, daí em diante, o melhor é estar prevenido. Segundo o KuantoKusta, que recolhe preços de várias lojas online, o rádio mais procurado está agora 30% mais caro do que antes do apagão. Enquanto uns corriam às lojas para comprar pilhas e lan-ternas e outros esperavam que os bombeiros lhes abrissem as portas dos elevadores, havia quem enchesse o carrinho do supermercado com água engarrafada, enlatados, pão, além de carvão ou velas. A corrida às compras só desacelerou quando os estabelecimentos deixaram de conseguir aceitar cartões e andar com dinheiro na carteira deixou de ser hábito desde a pandemia. No dia em que a hora de ponta foi das 13h às 17h (e não das 17h às 19h), houve quem fizesse quilómetros a pé para ir buscar os filhos à escola e quem esperasse horas ao sol numa paragem. Sem comboios nem metro, com a rede de trotinetas e bicicletas elétricas parada e sem internet no telemóvel para chamar um TVDE, restaram os autocar-ros e os táxis. Também nas estradas o dia foi diferente: houve menos 40% de acidentes do que em qualquer outra segunda-feira dos últimos dois meses e meio. Por alguns momentos do dia, a internet abandonou os telemóveis e a rede era tão escassa que não chegava para uma chamada. Foi então que os velhinhos SMS aumentaram: só na rede MEO foram enviados 22 milhões de mensagens escritas, quase o triplo de um dia normal. Quando quase tudo falhou, as conversas à janela, à porta de casa e entre varandas ajudaram a compensar o silêncio e a falta de informação que a falta de luz deixou em casa. Com Carla Tomás, Diogo Cavaleiro e Miguel Prado ralbuquerque@expresso.impresa.pt Texto Cátia Barros e Raquel Albuquerque Infografia Jaime Figueiredo Pouco passava do meio-dia, estava o país sem luz desde as 11h33, quando começaram a entrar na loja os primeiros clientes à procura de rádios e de pilhas. Mas não umas quaisquer: as mais procuradas eram as médias e grandes, que “já quase não existem”, porque em dias normais ninguém precisa delas. Exceto nesta segunda-feira de apagão, quando foi preciso tirar dos armários as lanternas e os rádios antigos. “Esgotei as pilhas todas. Se tivesse mil, teria vendido as mil”, conta Pedro Mota, responsável da Casa das Loiças do Arco, uma loja com mais Rodrigo Costa Presidente executivo da REN “Não conseguimos evitar a 100% um apagão” Miguel Prado Os últimos dias tiraram longas horas de sono a quem esteve diretamente envolvido na recuperação da rede elétrica. Mas também ao presidente executivo da REN. A empresa restabeleceu em quase 12 horas o normal abastecimento de eletricidade após um colapso com origem em Espanha. “Há muita gente que trabalhou neste processo a quem o país deve um reconhecimento pela forma coordenada e rápida como responderam à crise”, nota Rodrigo Costa, naquelas que foram as suas primeiras declarações desde ao apagão. O gestor lamenta ainda alguma “desinformação”, “falta de rigor” e “intoxicação” sobre o tema do apagão no espaço público. P No apagão qual foi a causa concreta das variações de tensão na rede espanhola que levaram ao desligamento da produção? R Estamos ainda em fase de investigação e não vamos especular antes de ter mais informações. Sendo um incidente que envolve operadores de vários países europeus, estão a ser seguidas as normas nacionais e europeias, bem como as recentes decisões do Governo português e está a ser estabelecido um grupo de análise internacional para analisar tudo o que aconteceu. P Houve um excesso de injeção de energia fotovoltaica na rede? R Nós, em Portugal, não estávamos a solicitar qualquer redução de produção aos centros eletro-produtores fora do processo normal dos mercados de serviços de sistema. Sobre o sistema elétrico espanhol, não dispomos ainda de informação de detalhe sobre o que estava a ocorrer regionalmente. Aguardamos as informações que a Red Eléctrica irá certamente disponibilizar. P O sistema ibérico já teve muitos dias de intensa produção renovável. O que foi diferente desta vez? R Ainda não está esclarecido o que desencadeou as variações de tensão registadas. É um tema muito complexo. Vamos continuar a registar muitas teorias, algumas vão corresponder ao que aconteceu, outras mais especulativas mas possíveis, e outras pouco prováveis. O apuramento das causas acabará por ser feito por um grupo de especialistas de várias entidades. P Os dados de exploração da rede indicam que algumas horas antes das 11h33 já tinha havido um desvio de frequência significativo na rede europeia. Ocorreu em Espanha? R Em redes da dimensão das envolvidas acontecem com frequência desvios. Os operadores lidam com estas situações de forma recorrente. P A REN e Red Elétrica já tinham identificado problemas de tensão associados à abundante potência fotovoltaica? Fizeram alguma coisa para evitar um apagão? R Esse trabalho é um objetivo permanente. Existe uma realidade nova, que é a redução de geração por centrais térmicas e o grande crescimento de geração renovável, solar e eólica, cuja natural intermitência tem sido agravada pelos fenómenos climáticos extremos, secas, tempestades, incêndios e outros. Também o crescimento do autoconsumo introduz mais complexidade na gestão destes sistemas energéticos. Sobre o evento, a REN e a Red Eléctrica, assim como todos os outros operadores de sistema estão a analisar em contínuo as tensões na rede e outros fenómenos eletrotécnicos e tomam ações necessárias em cada momento, como, por exemplo, para o controlo das tensões, mobilizando geradores e equipamentos da rede de transporte. Todas as ações necessárias para os eventos verificados ou perspetivados têm sido implementadas, de modo a assegurar que as diversas variáveis dos sistemas elétricos estão dentro dos valores de referência estabelecidos. P A rede portuguesa não podia ter sido desligada da espanhola mais cedo, com o deslastre seletivo de consumos do lado português para evitar o apagão? R Não. Por duas simples razões: primeiro, a interligação com a rede europeia é um pilar essencial na política energética nacional e europeia; e segundo, mesmo que houvesse essa possibilidade, estes eventos são imprevisíveis e instantâneos. A realidade dos sistemas elétricos europeus não é compatível com esse hipotético modo de funcionamento, realçando uma vez mais as grandes vantagens de um sistema interligado para todos os países. P Houve problemas no arranque autónomo das centrais de Castelo de Bode e Tapada do Outeiro? R Isso faz parte do processo. Temos capacidade de black start, que já tinha sido testada no passado, em situações de treino, mas numa situação real as coisas são diferentes. A tentativa de arranque ter falhado uma ou duas vezes está dentro dos padrões. Em Espanha aconteceu a mesma coisa. Estamos sempre a aprender uns com os outros. P Que custos pode ter uma capacidade de arranque autónomo em mais centrais em Portugal? R As decisões destes temas são tomadas em função do que se considera serem as necessidades de redundância corretas, dos riscos máximos que se podem correr e dos custos que as diferentes soluções podem implicar. Todas as componentes dos sistemas têm de ter múltiplas redundâncias. Isso não evita a totalidade dos acidentes, não nos oferece segurança a 100% porque esse nível não é possível. Mesmo se houvesse duplicação de toda a rede e todos os sistemas, algo poderia sempre falhar. Esta é a realidade com que trabalhamos. O planeamento da rede é feito de forma regular e com revisões para situações extraordinárias que podem acontecer em qualquer altura. O reforço em matéria de serviços de arranque autónomo está de acordo com esse planeamento. O planeamento da rede envolve múltiplas entidades com grande capacidade técnica: a REN, a ERSE (regulador da energia), a Direção-Geral de Energia e o próprio Governo. E ainda há o recurso a laboratórios nacionais, universidades como a FEUP e o IST, e consultores e fornecedores nacionais e internacionais. Um serviço individual de arranque autónomo significa o investimento anual de um a dois milhões de euros. Nunca seria por questões financeiras desta dimensão que se iria pôr em causa a segurança de um sistema elétrico. A contratação de novos serviços está a acompanhar as necessidades. P Há outras medidas que Portugal e Espanha possam adotar para reforçar a resiliência da rede, evitando as variações de tensão e desvios de frequência? R Os sistemas de energia estão a mudar de forma dramática, com fontes renováveis intermitentes, fim das centrais térmicas a carvão, novos sistemas de armazenagem, recuos e avanços no nuclear e gás natural, exploração de oportunidades novas com gases renováveis, incluindo hidrogénio. Depois há a eletrificação da economia e a miríade de equipamentos elétricos que nos rodeiam e sem os quais já não sabemos viver. E como se gere isto tudo? Com recurso a computadores cada vez mais sofisticados e potentes. As redes de energia precisam de comunicar entre si e com biliões de entidades, e temos de continuar a fazer evoluir estes sistemas todos. O potencial da utilização da IA (inteligência artificial) na nossa área é imenso e vai transformar a nossa forma de trabalhar. Temos pela frente uma importante tarefa de treinar as nossas pessoas. Será mais uma oportunidade para melhorar o que fazemos. Para reforçar a resiliência dos sistemas de energia. Temos de continuar a olhar permanentemente para o que se faz de novo, e executar as adaptações sem pôr em risco o que temos de fazer hoje. P Tendo o problema nascido em Espanha, faz sentido Portugal exigir alguma compensação? R Não quero nem devo comentar essa matéria. Já se percebeu perfeitamente que a responsabilidade não foi da REN. Mas estas situações podem acontecer. Este foi o dia mais difícil da minha vida profissional. O que aconteceu foi uma situação, neste caso de origem externa, e que nunca se consegue evitar a 100%. Mas acho que a recuperação da rede correu bem, com toda a franqueza. mprado@expresso.impresa.pt Aeroporto de Lisboa fez 50% dos voos previstos Houve centenas de voos cancelados, atrasados ou desviados, mas os aeroportos estiveram sempre operacionais “Os aeroportos nunca ficaram completamente parados”, garante a ANA Aeroportos de Portugal. O apagão elétrico levou ao cancelamento e adiamento ou desvio de centenas de voos no dia 28 de abril, porém a concessionária assegura que os aeroportos estiveram sempre operacionais e todas as companhias que quiseram que os seus voos saíssem acabaram por fazê-lo. O Aeroporto Humberto Delgado, a principal infraestrutura do país, em Lisboa, foi o mais afetado, mas a ANA garante ao Expresso que “foram cumpridos mais do que os serviços mínimos” e feitos cerca de 50% dos voos previstos. Globalmente, e se se juntar a operação de todos os aeroportos, foram realizados 70% dos voos. No entanto, houve aviões com destino ao aeroporto de Lisboa que não chegaram a levantar voo e um período de duas horas em que aterraram e levantaram voo apenas oito. Porto e Faro tiveram bastante menos perturbação do que Lisboa, com a operação penalizada em apenas 15%. Açores e Madeira não foram vítimas do apagão elétrico, mas, não obstante, os seus aeroportos foram atingidos lateralmente com atrasos. Foram os geradores de emergência que permitiram que os aeroportos estivessem a funcionar, e, como são infraestruturas prioritárias, a maior preocupação nesta matéria era a dificuldade de acesso às infraestruturas, nomeadamente em Lisboa, onde o tráfego era intenso. A maior perturbação da operação sentiu-se por volta da hora de almoço. A ANA agiu de imediato foi criado um gabinete de crise, em articulação com os stakeholders do sector aeroportuário e a comunicação fez-se ao mais alto nível, com a participação dos presidentes da concessionária, Thierry Ligonnière, da NAV, Pedro Ân-gelo, da ANAC, Ana Vieira da Mata, da TAP, Luís Rodrigo, e o secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo. Para poupar energia foram cortados alguns serviços. Foi encerrado o terminal 2, onde operam as companhias aéreas de baixo custo. Os aeroportos são muito tecnológicos, logo falhas nas redes de comunicações e de dados afetam alguns sistemas, como o do check-in ou o de controlo de fronteiras. Este último acabou por ter de ser encerrado, situação que levou à acumulação de filas na zona de controlo de fronteiras. Foi desligado o sistema de tratamento de bagagem também para poupar energia. Houve constrangimentos nos voos e milhares de Colapso expôs dificuldades no arranque das centrais Para ativar a barragem de Castelo do Bode foi preciso levar gerador que não estava na central à equipa técnica de base”. Já após as 16h também chegaria a Castelo do Bode um engenheiro da equipa da EDP Produção do Porto. O presidente executivo da REN desvaloriza a demora do arranque autónomo quer em Castelo do Bode, quer na Tapada do Outeiro. “A tentativa de o arranque ter falhado uma ou duas vezes são situações dentro dos padrões”, observou Rodrigo Costa. Estão por esclarecer os motivos concretos pelas quais o black start não funcionou de imediato, o que teria poupado algumas horas na reposição do abastecimento a nível nacional. A REN deverá entregar no prazo de 20 dias à Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) um relatório detalhado. Na quarta-feira, um antigo funcionário da central de Castelo do Bode testemunhava ao Expresso a redução de pessoal ao longo do tempo. “A central empregava muita gente, mas depois automatizaram tudo. Não sei se é bom ou mau. Sei é que agora vê-se lá poucos empregados”, contou Francisco Barreiro, de 86 anos. Na terça-feira o primeiro-ministro afirmou que a Tapada do Outeiro e Castelo do Bode “são insuficientes do ponto de vista da rapidez para reabilitar o sistema numa situação de crise”. E anunciou que outras duas centrais (as hidroelétricas de Baixo Sabor e Alqueva) também passarão a poder fazer arranque autónomo em caso de apagão. Esses serviços até já tinham sido contratados pela REN em julho de 2024, mas só ficarão disponíveis em janeiro de 2026 (e até final de 2030), por um preço global de EUR8,3 milhões. As duas barragens ainda não têm prontos os equipamentos para o referido black start. O colapso da rede elétrica ibérica teve origem em variações de tensão em Espa-nha, que no espaço de cinco segundos fizeram desligar mais de 15 gigawatts (GW) de potência de produção (quase o dobro do que Portugal estava a consumir nesse momento), criando uma instabilidade que levou ao corte da interligação entre Espanha e França, e ao apagão ibérico. A Red Eléctrica indicou que os primeiros problemas foram detetados em ativos de produção no sudoeste de Espanha. A imprensa chegou a avançar como uma das razões da instabilidade a elevada exposição à produção fotovoltaica. As causas concretas e a atuação dos gestores da rede serão investigadas a nível europeu. A ENTSO-E, asso-ciação europeia de operadores das redes de transporte de eletricidade, elogiou esta quinta-feira a “rápida recuperação dos sistemas elétricos de Portugal e Espanha” e o “elevado grau de preparação e eficiência” da REN e da Red Eléctrica, e anunciou que será criado um painel de peritos para investigar o incidente e emitir recomendações. Miguel Moreira da Silva, fundador da consultora Wiimer, considera que “o tempo de reposição esteve em linha com o sucedido noutros países recentemente, como o Chile”. O apagão cortou 47% do consumo de eletricidade em Portugal na segunda-feira (face ao mesmo dia da semana anterior), com danos em várias atividades, como a restauração. A agência de rating Morningstar DBRS estimou que em Espanha o custo para as seguradoras vá dos EUR100 milhões aos EUR300 milhões. No sector elétrico o apagão poderá pressionar a adoção de soluções tecnológicas que garantam à rede um melhor controlo de tensão, perante uma penetração cada vez maior de fontes renováveis. “A engenharia tem sempre soluções”, afirmou ao Expresso João Peças Lopes, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Por seu lado, Miguel Moreira da Silva defende que “será necessário criar condições para o investimento e manutenção de ativos que, aos atuais preços do mercado, não serão rentáveis”. Com Rúben Tiago Pereira mprado@expresso.impresa.pt passageiros acabaram por ter de ficar em terra, assim como milhares de malas ficaram por distribuir A situação, diz a ANA, ficou normalizada a partir do início de terça-feira, 29 de abril. Os sistemas foram repostos, os voos começaram a ser reformulados e os passageiros a serem reencaminhados. A partir da tarde de quarta-feira a situação das bagagens dos passageiros estava já praticamente resolvida. Para a história ficam as imagens de caos no Humberto Delgado e nas vias rodoviárias contíguas à infraestrutura. A ANA afirma, contudo, que foi “sempre mantida a ordem pública” e a calma. Anabela Campos acampos@expresso.impresa.pt Texto Miguel Prado Infografia Jaime Figueiredo O apagão que deixou Portugal e Espanha sem eletricidade às 11h33 de 28 de abril entrou para a história dos piores incidentes nas redes elétricas europeias, gerando ansiedade e algumas tentativas infrutíferas para levantar a rede, em ambos os países. As duas centrais com sistemas de arranque autónomo (black start), Tapada do Outeiro e Castelo do Bode, levaram várias horas para, de facto, recomeçar a produzir. E a segunda teve de recorrer a um gerador que não estava no local. “Em 30 ou 40 anos não houve uma situação destas. Como recuperar de um apagão é uma coisa que se lê nos manuais... mas agora aconteceu de verdade”, aponta um gestor ouvido pelo Expresso, sobre a dificuldade da operação de segunda-feira. A EDP defende que, juntamente com a REN, “procedeu com sucesso à reativação da central de Castelo do Bode, acionando para esse efeito soluções de contingência que incluíram a utilização de um gerador que se encontrava próximo do local”. A empresa não esclareceu, contudo, porque é que não funcionou de imediato a ativação local do arranque autónomo. A barragem no Zêzere opera de forma regular com três funcionários, e a EDP garante que “foram acionadas equipas adicionais que em minutos se juntaram 28 abril 2025 Cronologia Cláudia Monarca Almeida, Liliana Valente e Marta Gonçalves com Cátia Barros 00h00 Mais de metade dos portugueses com luz A esta hora, 6,2 milhões de consumidores já têm eletricidade. 23h20 Montenegro na MAC Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, foi um dos hospitais que teve dificuldades, pois, mesmo tendo geradores, teve a atividade em risco devido a dificuldades de abastecimento de combustível. 22h30 Todos os distritos com energia A reposição de energia abrange zonas dos 18 distritos continentais. 21h20 PM fala ao país Montenegro anuncia “restabelecimento integral nas próximas horas” do fornecimento de energia e pede “moderação nos consumos” de energia, reconhecendo que situação nos hospitais “foi a mais difícil de gerir”. Continua sem se saber a causa do apagão. 20h59 SMS da Prociv É só ao final do dia que começam a ser recebidas as SMS enviadas pela Proteção Civil. 20h20 Reabastecimento em Lisboa começa É restabelecida a energia nas subestações do Carregado e Sacavém, “um passo essencial para reabastecer Lisboa”. Às 20h30, a E-Redes diz ter já um milhão de clientes com eletricidade. Luz começa a regressar a vários pontos de Lisboa, incluindo Telheiras e Alvalade. 20h00 Proteção Civil alerta bombeiros Um documento interno da Proteção Civil mostra que aviso às corporações para medidas extraordinárias foi apenas feito às 20h, quando a energia já voltava em algumas partes do país. que levou a que as centrais elétricas disparassem, semelhante aos quadros elétricos das casas. É esperada reposição dentro de algumas horas. 19h13 PM publica na conta oficial Luís Montenegro publica primeira mensagem nas redes sociais sobre apagão. zonas dos distritos de Santarém e do Porto. 18h30 REN faz conferência de imprensa João Faria Conceição, administrador da empresa, explica que, momentos antes do apagão, houve uma “grande oscilação de tensões na rede espanhola”, Castelo de Bode e da central a gás natural da Tapada do Outeiro. São as únicas no país com sistema que permite arrancar sozinhas num apagão generalizado. 18h20 Energia retoma em algumas zonas do Porto O fornecimento de energia é restabelecido em algumas 17h10 Governo no X São feitas uma série de publicações com informações que já eram conhecidas (16). 17h33 Castelo de Bode e Tapada do Outeiro recuperadas REN restabelece a produção da central hidroelétrica de 17h00 Proteção Civil envia SMS De acordo com o primeiro-ministro, a partir desta hora a Proteção Civil começa a enviar SMS a toda a população. 12h21 Transportes parados e serviços com geradores O Metro de Lisboa tem todas as linhas paradas, os hospitais do SNS funcionam com geradores a gasóleo, “mantendo os cuidados urgentes e inadiáveis”. No centro de Lisboa não há eletricidade e os semáforos não funcionam. 11h33 Apagão Várias regiões em Portugal reportam falhas no abastecimento de eletricidade. Minutos depois, fonte oficial da REN confirma ao Expresso que se trata de uma falha a nível nacional, estando a empresa ainda a averiguar as causas. 11h56 Espanha ativa planos de reposição de eletricidade A gestora da rede elétrica espanhola ativou “os planos de reposição de fornecimento elétrico em colaboração com as empresas do sector”. Há registos de falhas também na rede elétrica francesa, que ficará totalmente reposta pouco depois das 13h. 12h15 Ministro da Presidência faz primeira declaração O ministro da Presidência, em declarações à Renascença, diz que a informação de que dispõe é que se trata de um problema europeu. 15h53 Primeiras explicações são de Espanha “Uma forte desconexão do sistema elétrico peninsular com o resto do sistema elétrico europeu”, foi assim que explicou o diretor de Serviços de Exploração da Red Eléctrica, Eduardo Prieto, em conferência de imprensa. a distribuição possa ser ativada até ao fim do dia, acrescentando que a origem do apagão foi em Espanha. 15h15 Proteção Civil no X Na rede social X, a Proteção Civil garante estar a “trabalhar desde o primeiro minuto, para a reposição dos serviços”. vão encerrando, nas lojas de rua há filas para comprar lanternas, pilhas, geradores e power banks. Os autocarros estão sobrelotados, os semáforos não funcionam. 15h05 Montenegro na REN Primeiro-ministro visita a REN, apelando à calma e diz ter a “expectativa” de que 14h48 Debate adiado Debate entre AD e PS é adiado, após proposta de Pedro Nuno Santos. 15h00 Trânsito intenso e autocarros sobrelotados Enquanto os centros comerciais da Grande Lisboa 12h30 Afastada hipótese de ciberataque Os dados recolhidos pelos operadores da rede elétrica na Península Ibérica apontam para desequilíbrios de tensão como explicação para o apagão e não para um ciberataque. Governo cria grupo de trabalho para acompanhar a situação, garantindo que o problema tinha “tido origem” fora do país. 12h33 Ministro admite que apagão pode ser ciberataque Em declarações à RTP 3, Manuel Castro Almeida, ministro Adjunto e da Coesão Territorial, admite que “há possibilidade [de ser um ciberataque], mas não está confirmada”, contrariando o que havia sido dito minutos antes pelo Executivo. 13h09 REN confirma “corte maciço no abastecimento elétrico” A REN dá ainda conta de ativação dos “planos de restabelecimento por etapas do fornecimento de energia”. Red Eléctrica de Espanha tinha feito anúncio semelhante às 11h56. 13h19 Von der Leyen e fake news A porta-voz da Comissão Europeia alerta para mensagens a circular no WhatsApp com declarações falsas de Ursula von der Conselho de Ministros esteve reunido durante todo o dia de segunda FOTO D.R. 16h59 Energia volta em algumas zonas do distrito de Santarém A energia é reposta em algumas casas, infraestruturas de serviços e comércio nos concelhos de Abrantes, Golegã, Mação e Sardoal. Estes são os primeiros locais com reposição de energia. Leyen que davam como certo tratar-se de um ciberataque. 13h30 Conselho de Ministros reúne-se de urgência Luís Montenegro convoca todos os ministros e, a meio, sai para visitar a REN. 13h37 Primeiro comunicado da Proteção Civil A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) faz comunicado a garantir que estar a “funcionar normalmente”. 13h50 Sánchez visita Rede Elétrica de Espanha O primeiro-ministro de Espanha visita as instalações da Red Eléctrica, operador espanhol. 13h58 Declarações de Marcelo Presidência da República emite comunicado a informar que está “a acompanhar a situação em contacto permanente com o Governo”. 14h04 Ciberataque outra vez afastado Desta vez é o Centro Nacional de Cibersegurança que assegura não terem sido “identificados indícios de ciberataque”. 14h05 Bombas condicionadas, Metro fechado Vários postos de combustível limitam o abastecimento, outras tantas encerram. O serviço do Metro de Lisboa é suspenso as linhas pararam ao final da manhã com algumas pessoas a serem resgatadas de carruagens que ficaram presas nos túneis. 14h30 Aviação em contingência Autoridade Nacional de Aviação Civil anuncia que são acionados “planos de contingência na aviação”. 14h36 Apelo à contenção no uso de água Algumas das empresas gestoras de serviços de água apelam ao “uso consciente”, alertando que os geradores não vão durar sempre se a situação se prolongar. OS SISTEMAS DE ENERGIA ESTÃO A MUDAR DE FORMA DRAMÁTICA. O POTENCIAL DA IA NA NOSSA ÁREA É IMENSO O APAGÃO FOI O DIA MAIS DIFÍCIL DA MINHA VIDA PROFISSIONAL. MAS ACHO QUE A RECUPERAÇÃO DA REDE CORREU BEM Rodrigo Costa lidera a gestora da rede elétrica desde 2014 FOTO LUÍS BARRA Globalmente, realizaram-se 70% dos voos. Lisboa foi o aeroporto mais afetado Castelo do Bode é uma das centrais de emergência em caso de apagão CARLA TOMÁS