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APAGÃO : UM ALERTA CONTRA A ILUSÃO DO PROGRESSO

Sapo Online

2025-05-02 21:27:09

Segunda feira, 28 de Abril de 2025 Portugal mergulhou na escuridão durante 10 horas.Mas foi mais do que uma falha elétrica. Foi um choque de realidade Segunda feira, 28 de Abril de 2025 Portugal mergulhou na escuridão durante 10 horas. As teorias conspirativas começaram a correr tão depressa como a eletricidade a fugir: ataque cibernético? sabotagem de infraestruturas críticas? submarinos russos a cortar cabos submarinos? O colapso da Europa em direto? Felizmente, nem guerra, nem hackers, nem filmes de ficção científica. Para já, que se saiba. O que nos dizem até agora, é que foi "apenas" a natureza - um fenómeno climatérico extremo - para outros uma nuvem - que mostrou o quão frágeis são os nossos alicerces modernos. Um apagão que afetou Portugal e Espanha, sem aviso nem cerimónias. Houve quem dissesse, em tom de piada amarga, que nos tinham apagado a luz ao fundo do túnel. Mas foi mais do que uma falha elétrica. Foi um choque de realidade. Apagou-se a luz. E com ela, foi-se o verniz da modernidade. Mas entre a ironia, o apagão e a desconexão, algo inesperado aconteceu, e aqui vem a versão romantizada do dia. Recuperou-se, por breves horas, algo que a tecnologia tem vindo a apagar: a empatia, a conversa, o tempo humano e o contacto pessoal. As pessoas saíram para a rua. Conversaram. Partilharam histórias antigas. Juntaram-se perto de rádios para saber o que se passava. As crianças ao final do dia a brincarem na rua. Redescobrimos um tempo esquecido - o tempo humano. Algo que julgávamos ter perdido para sempre no ruído das notificações e dos ecrãs dos telemóveis. O que nos pareceu uma pausa forçada revelou-se, em parte, uma cura silenciosa. Um relembrar do que importa. Mas não nos iludamos. Este não foi um ensaio romântico sobre a vida antes do digital. Foi, sim, uma lição e aviso severo. Vivemos dependentes de uma energia que julgamos garantida e infinita, de uma infraestrutura invisível mas bem vulnerável, e de tecnologias que esquecemos que precisam de algo tão básico quanto... eletricidade. Estamos ligados a uma rede que nos desliga do essencial - e que, num clique, apaga-nos. E quando tudo falhou, nem as tão apregoadas energias renováveis nos valeram no imediato. Porquê? Porque apesar de termos tido um dia solarengo e apesar de vivermos num país que se diz na linha da frente da transição energética - sem rede, sem gestão de sistemas, também não há forma de distribuir energia. Se cada casa, cada prédio, cada comunidade tivesse capacidade própria de gerar parte da sua energia - painéis solares, baterias, pequenas centrais - não haveria apagão que nos assustasse. A verdadeira segurança energética começa em casa, e não é só produzir "verde". É garantir que o sistema aguente. E, idealmente, que não dependamos de um vizinho. Sim, somos parte do mercado ibérico de eletricidade. E no momento do colapso, importávamos mais de 30% da nossa energia - energia solar espanhola, mais barata do que a produzida cá. Pergunta-se: o sol não é igual para todos? Mas a obsessão com o "mais barato" ficou às claras. Ou melhor, às escuras. O modelo económico-energético revelou-se o nosso calcanhar de Aquiles apesar dos avisos dos especialistas que eram vistos como os velhos do Restelo: a dependência externa e a falta de resiliência. Entregar a nossa segurança elétrica a outro Estado soberano - ainda por cima a Espanha - é ignorar a história e o bom senso. Porque já diziam os antigos - De Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos! Não podemos continuar a construir políticas energéticas baseadas em preços de mercado como se estivéssemos a comprar fruta ao quilo. O barato, como tantas vezes na vida, saiu caro. Ficou claro: a nossa dependência é tecnológica, estrutural e também emocional. A internet falha e ficamos à deriva. Sem algoritmos e as suas sugestões. E se, por momentos, isso tudo nos faltasse? Como nos orientaríamos? Se calhar, temos que ganhar novos velhos hábitos, como um velho rádio de onda média a pilhas, umas notas e moedas no bolso em vez de os cartões, e planos para dias não normais. Em termos de sustentabilidade verdadeira, a lição é clara. A sustentabilidade é mais do que "verde". É garantir o essencial. E é aqui que a sustentabilidade precisa de ser resgatada do seu uso superficial. Sustentabilidade é preparação para a adversidade, capacidade de adaptação, redundância estratégica. Na análise de riscos, que tanto falamos na definição de uma estratégia de sustentabilidade, eventos de baixa probabilidade e alto impacto - como este - são os mais perigosos. Mas também muitas vezes os mais negligenciados. Não por serem inevitáveis, mas porque insistimos em ignorá-los... até ser tarde demais. Não basta falar de transição energética e de cidades inteligentes. É preciso garantir que haja uma rede segura, descentralizada e funcional. Que haja planos. Que haja soberania. Talvez seja tempo de olharmos a sustentabilidade não como um luxo verde, mas como a arte de preparar o futuro - com pés bem assentes no chão. E depois, a luz voltou. E aprendemos? Logo após a normalização, todos regressaram ao mesmo: redes sociais, selfies do apagão, críticas ao governo... e vida como dantes. Mas será que compreendemos o verdadeiro aviso? O problema não foi apenas a falha técnica. Foi a revelação brutal de que vivemos à mercê de sistemas frágeis que não dominamos. Que este apagão nos tenha acordado - antes que outros, mais graves, nos apanhem desprevenidos num mundo V.U.C.A. que vivemos. Porque no fim de contas, a única luz que não se pode apagar... ... é a da consciência. E essa não precisa de electricidade para funcionar." Luís Cristino