TIAGO PITTA E CUNHA - “ESTE VAI SER O SÉCULO DA DESCARBONIZAÇÃO, QUER SE QUEIRA, QUER NÃO”
2025-05-07 06:01:03

BILHETE DE IDENTIDADE . Idade : 58 anos . Cargo: Fundação Oceano Azul, Presidente Executivo (desde 2017); Conselheiro do Presidente da República para 0 Ambiente, Ciência e Assuntos Marítimos (2010-2016) Prémio do Cidadão Europeu, pelo Parlamento Europeu (2016), Prémio Pessoa, 2021 . Formação: Direito Europeu e Internacional, London School of Economics (1994); Licenciado em Direito, Universidade Católica (1990) N Os últimos três anos realizaram-se mais progressos do que nas últimas três décadas em Portugal no que diz respeito aos oceanos, admite o presidente executivo da Fundação Oceano Azul. Foramjá criadas três áreas marinhas protegidas e caminha-sep: para uma quarta, a da maior montanha da Europa, submersa a sul do Algarve, e que permitirá a Portugal cumprir o objetivo de ter 30% de área marítima protegida em 2030. Convidado desta semana das “Conversas com CEO” e considerado o maior especialista em Mar do país, Tiago Pitta e Cunha fala-nos dos caminhos para manter a política de sustentabilidade numa altura em que OS Estados Unidos arejeitame e outros países começam a seguir pelor mesmo caminho.. Como é que um jurista se interessa tanto pelo mar? Como todos os portugueses, gostava muito do mar, mas por ir à praia. Não tinha naqualquer perceção do seu valor estratégico. Em 1993 resolvi fazer um mestrado em Direito na London School of Economics e, por curiosidade, entrei na aulad de Direito do Mar. E/ professor pedia que puséssemos o nome e o país. No final, o professor diz: quem é este Tiago de Portugal? Gostava de falar com ele no fim da aula . Fiquei umbocado preocupado. Fui falar com o professor. Eele disse-me: estoumuitor entusiasmadoporque raramente tenho alunos portugueses. Vocês têm a maior zona económica exclusiva da União Europeia e parece que em Portugal ninguém se dá conta disSO. O meu amigo vem fazer o meu curso e vai fundar uma escola de Direito do Mar em Portugal . Nessanoite não dormi. E isso foi determinante para a minha vida. E que papel pode desempenhar a Fundação Oceano Azul nesta sua batalha por uma governação mais proativa do mar? A Fundação Oceano Azul tem já um papel muito forte a nível internacional. é consultora devários governos nacionais, apoiando-os empolíticas domar, e trabalha com oss secretariados das grandes organizações intergovernamentais, Temos sido as crianças do planeta, diz Tiago Pitta e Cunha. o seu otimismo sobre o futuro apoia-se na série de impactos no planeta que começam a ser visíveis a olho nu. MIGUEL BALTAZAR Fotografia mos convencer alguns países a não explorar o fundo do mar. Da mesma maneira que a administração americana não vai conseguir apoio para muitas das suaspolíticas, seguramente que na questão da sustentabilidade, do ambiente, da descarbonização, também não irá ter esse apoio, fora edentro. Os próprios Estados americanos têm visões muito diferente e no primeiro mandato continuaram tudo o que foi transição para uma economia verde. Podem dizer que agora é diferente. Está muito mais agressivo. Claro quie sim, mas não vai ser isso que vaimudaro instinto de sobrevivência de toda a espécie humana. Se estivermos cá no século 22 é porque 21 foi o século da descarbonização. Damesmar maneira que o século 19 foi o da revolução industrial, este vai ser o século da descarbonização, quer se queira, quer não se queira. Mas qual é a sua expectativa em relação à cimeira de Nice? o meu sonho é que a Cimeira de Nice seja umpasso determinante para chegarmos ao final da década a tempo de criar O Acordo de Paris para o oceano. Portugal também se comprometeu a proteger 30% das suas áreas marinhas até 2030. é possível cumprir esse objetivo? Em Portugalnão enhodúvidas que vamos cumprir esse objetivo. A Fundação Oceano Azul já iajudou a criar uma área marinha protegida nas Selvagens e no Algarve e uma rede de áreas marinhas protegidas nos Açores.com isso atingimos 19%. No verão passado, como apoio da ministra do Ambiente, do ICNF e da Marinha, fizemos uma expedição científica ao maiorbancosubmarinor da Europa, o Gorringe. Estáa a 250 quilómetros a sul do Algarve e é a maior montanha da Europa, maior que O Mont Blanc. Esta montanha submarina em jurisdição nacional vai ser provavelmente a próxima área marinha protegida, uma área maior que o Algarve. E há quem me diga que com a montanha, se apanharmos uma série de montes submarinos, poderemos chegar aos 30%. O que é que gostaria de mudar na política portuguesa? Portugal poderá ser uma das primeiras potências marítimas do século XXI se adotar políticas em três áreas. Desde logo, deve construir uma política externa para os oceanos. Depois, precisa de uma estratégia para a investigação científica marinha associada ao oceano. E finalmente, temos del ter uma política industrial para a economia azul. O país tem de se convencer que temos de apostar na nossa geografia em que o oceano é um dos elementos mais avassaladores. Era fundamental que existisse um ministro do Mar? Não necessariamente. Erafundamental ter um mministro coordenador dos assuntos do mar, com uma política pública transversal. O que era o seu sonho para esta área? Estou a trabalhar muito tambémna Europa. A Fundação Oceano Azul criou um manifesto para um pacto europeu para o oceano, que estáaser finalizado na ComisSão Europeia. A Europa está por construir e nas circunstâncias quie vivemos ainda se tornamais importante. Tenho o sonho que essa Europaseja construída tambémpelas políticas portuguesas. No mart tem-nosido. Egostariao que o meupaís fosse mais pertinente no século XXI do que foi nos séculos xx e XIX, onde estivemos sempre ou mais atrasados e menos endividados, ou mais endividados e menos atrasados. Que consigamos, como mar, ajudar a criar um modelo de nvolvimentoecon económico mais sustentável. OuçA o PODCAST EM como a ONU, a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu, O Conselho Europeuo ou ainda coma a Convenção-Quadro para as Alterações Climáticas. Um exemplo é esta defesa de chegar a 2030 com 30% do oceano protegido. Não fica desanimado por ver papel e papel e depois não fazemos nada. Estou nesta carreira, que se confunde com a minha vida, há 35 anos. E estou muito animado porque nos últimos três anos conseguiu-se mais do quenos últimos 30 Numa altura em que o sistema multilateral, se não colapsou, está absolutamentebloqueado os oceanos têm conseguido ser uma área da agenda multilateral a ver algumas luzes a acenderem-se positivamente. Que impacto é que esta administração Trump pode ter nesse caminho? O anúncio da saída do Acordo de Paris está a ter um grande impacto em tudoquantor é clima e: sustentabilidade. Recentemente a delegação norte-americana, num fórum ninternacional, disse queo OS Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) não existiam. A Costa Rica, por exemplo, que construiu uma reputação por ter sido um dos grandes campeões da sustentabilidade, tambémjá anunciou que deixará de sentir-se obrigada pelos ODS. Mas há sempre outros caminhos. Temos oportunidades junto dos países campeões dos temas do oceano. N leste momento há uma coligação de 32 países que defende a moratória para a mineraçãosubmarinaeo Parlamentoportuguês foi o primeiro da Europa a adotar uma lei que a consagra. Outro grande acontecimento foi a: adoção do Tratado do Alto Mar, já ratificado por mais de 20 países. São países que estão na linha da frente a liderar pelo exemplo. Mas essa liderança pelo exemplo pode ser prejudicial paraa competitividade desses países? Não necessariamente. Isso é partir do princípio de que tudo o que é sustentabilidade é um custo. Já não é o paradigma no século XXI. Mas que está a ser considerado pelos EUA... Porque OS EUA têm agora umaadministraçãoo que está a aprojetar novamente a economia extrativa linear do século xx. Indepen-dentemente da administração americana, o »planetar estár crise eprofundíssima. Os cientistas dizem-nos que ou conseguimos proteger 30% da natureza até daqui a cinco anos Ou, com a velocidade a quie está: a seri dilapidada, em 2040 já só temos 20% para proteger. E não há dúvida nenhuma que aeconomia verde está: gerar lucro, tudo o que anda à volta das finanças da natureza está a ganhar tração. Mas o entusiasmo com as políticas ESG, tudo isso parece cair por terra quando temos OS EUA a recuar. Onde assenta o seu otimismo? O meu otimismo assenta, infelizmente, no pessimismo das notícias sobre o caminho que está a seguir o mundo. Estamos a assistir a uma série de impactos no planeta que começam a ser visíveis a olho nu, a criar calamidades sucessivas e acondicionar, por exemplo, aindústria dos seguros. O oceano é a apólice de seguro da humanidade edoplaneta. Todos os dias depositamos no oceano o equivalente a 750 bombas atómicas. Começámos com a revolução industrial er o oceano absorveu essa energia toda. Infelizmente há sinais de saturaçáO, os oceanos estão a aquecer mais depressa do que a atmosfera e os cientistas estão altamente preocupados. A Fundação Oceano Azul organizou, com o governo francês, o SOS Dcean. Tivemos OS maiores cientistas do mundo em clima e oceanog todos disseram:j já não temos respostas, ninguémsabe o que vai ser a subida do nível das águas até ao final do século. Não é por acaso que os 30 por 30 foram decididos na cimeira Kunming-Montreal onde a China teve um papel determinante. A China pode ser agora o grande pilar das políticas de sustentabilidade? No que diz respeito à questão dabiodiversidade, dos 30 por 30,a a China, se não és pai, é a mãe desse compromisso. A geometria da geopolítica mundial da sustentabilidade vai mudar. Quando o presidente Donald Trump, no seu primeiro mandato, decretou a saída do Acordode Paris, o Presidente Xi Jinping foi a Davos defender o Acordo de Paris. E também aqui, poderáquerer voltar a seguir esse rumo. O que espera da terceira conferência dos oceanos das Nações Unidas, em Nice ? O Presidente Macron tem-se assumido como um verdadeiro líder na questãodo oceano. Quando visitou a Fundação Oceano Azul durante a Conferência de Lisboa de 2022, tomou decisão, nessa: altura e nesse lugar, de aderir à moratóriapara a mineraçãos submarina... ...0 que ganha a França por ter aderido à moratória da mineração, nesta era da economia digital? A França tem uma belíssima plataforma científica na área do mar, é dos países mais avançados do mundo em investigação científica. A mineração submarina: seria criar o fim do jogo para a humanidade. O fundo do mar éondedepositamos todos os materiais mais perigosos do planeta, mercúrios, azotos, aradioatividade. A exploração de minério no fundo do mar, além de levantar todos esses materiais perigosos, iria criar uma pluma de sedimentos que envenenaria a coluna de água, onde temos os stocks pesqueiros. E viria impedirtambém o mar de absorver e reciclar gases e de gerar oxigénio de onde vem 50% do que existe no planeta. As pessoas dizem que os minerais no fiundo do mar são muito importantes para a tecnologia das baterias. Não é verdade. O cobre, o cobalto e o níquel já nãos se usa. A tecnologia vai evoluindo. Mas há também as designadas terras raras, que serão muito mais generosas no fundo do mar. Mas temos de criar uma lógica de economia circular. Esses materiais não podem ser utilizados como se fossem infinitos. Nós, humanos, temos, de uma vez por todas, de crescer e tornarmo-nos adultos no planeta. Temos sido as crianças do planeta. Quando vemos Donald Trump a querer a Groenlândia, também por causa das terras raras, é difícil perceber como va- “Todos os dias depositamos no oceano o equivalente a 750 bombas atómicas.” Utilize o seu leitor de códigos QR para aceder a este episódio do podcast Conversas com CEO. “os oceanos estão a aquecer mais depressa do que a atmosfera.” HELENA GARRIDO