CULTURAS - FERNÃO CRUZ ENTRE A VIDA E O SONHO
2025-05-09 08:04:06

Em Braga, Fernão Cruz explora as ambiguidades humanas na exposição "Sentinela". Propõe "construir um novo alfabeto a partir de arquétipos emocionais” “Devemos afirmar que o inconsciente contém não só componentes de ordem pessoal, mas também impessoal, coletiva, sob a forma de categorias herdadas ou arquétipos. Já propus antes a hipótese de que o inconsciente, nos seus níveis mais profundos, possui conteúdos coletivos em estado relativamente ativo; por isso, designei-o como inconsciente coletivo." As palavras de Carl Gustav Jung, decalcadas na parede branca, servem tanto de pré como de posfácio ao percurso que se presta a vários mergulhos na espiral onírica das obras de Fernão Cruz, oito pedras num caminho sem destino que flutuam num lago ciano, proporcionado pela alcatifa que cobre todo o espaço. Ao entrar na Zet Gallery, em Braga, somos convidados a descalçar-nos ouI a usar pequenas botas plásticas. “E como quem diz: Calma, que agora se vai parar para estar atento", sugere Helena Mendes Pereira, diretora-geral da galeria e curadora da exposição. Atentamos então a "Sentinela", a mais recente apresentação de Fernão Cruz, que há quatro anos, aos 25, se tornava no mais jovem artista a EXPOr individualmente na Fundação Calouste Gulbenkian. Interessalhe trazer a mesma calma a quem contempla as obras , oul “adereços estoicos” no palco da transformação, como chega a descrevé-las durante a nossa visita guiada , que a que o artista conseguiu no processo de criação. “Fiz 30 anos este ano. Sou uma pessoa brutalmente acelerada e de repente estou a descobrir uma nova existência que é não estar sempre de bafos de fora. Claro que tenho a energia para produzir, mas fazer esta exposição foi a permissão para conseguir construir algo sem estar freneticamente louco a querer fazer mais e mais”, reflete durante o percurso pela galeria bracarense. Subidos a0 palco do inconsciente coletivo, deparamo-nos com “O Malabarista Anestesiado” e “Abismo”, um par de obras em que OS COIPOS, encolhidos a0 tamanho da juventude, evocam a vertigem e a procura de direção. “Gostava que uma pessoa a0 entrar aqui se sentisse uma criança que se acha adulta", comenta Fernão Cruz à entrada no segunda sala, onde nos fitam três "Sentinelas", "exoesqueletos" na forma de peças de roupa cristalizadas em escultura graças à resina epaty. E também aqui que ensaia sobre o seu objetivo. “A minha produção artística não vem de um lugar contextual, de comentário sobre o que se passa no mundo.com base na ideia junguiana, o que me interessa fazer é construir um novo alfabeto a partir de arquétipos emocionais; explorar o medo, a dificuldade da decomposição do COIPO, o luto, o desejo, a vinculação das relações.” Essa exploração encontra um denominador comum na vulnerabilidade, nota. “Interessa-me evocar temas que são importantes, experiências que vivi, mas não de forma direta , porque o importante é transformar, mas transformar para este lugar onde outras pessoas conseguem identificar coisas com que se relacionam, à sua maneira.” A curadora completa: “Esta exposição tem uma aura; toda a gente há de encontrar aqui qualquer coisa que também viveu, sentiu e sonhou; algo que também é seu. Há qualquer coisa silenciosa que nos convida à mesma emoção,"” SER UNO NA MULTIPLICIDADE A primeira conversa que os dois tiveram sobre a exposição , na qual Helena Mendes Pereira lançou a Fermão Cruz “o mote para novas dimensões de trabalho que suscitassem o carácter altamente experimental do seul trabalho, com total ausência de critérios comerciais” =, lembrou à curadora palavras de Stig Dagerman. Em “A Nossa Necessidade de Consolo ê Impossível de Satisfazer” (1955), o autor sueco pondera: “ê impossível saber quando cairá o crepúsculo, impossível enumeral todos OS casoS em que o consolo se fará necessário. A vida não é um problema que possa resolver-se dividindo a luz pela escuridão oul os dias pelas noites, mas sim uma viagem imprevisível entre lugares que não existem.” “Acho que o trabalho do Fermão tem a ver com essa espera, a inquietação permanente que não sabemos explicar, o objeto de memória que é a0 mesmo tempo felicidade e nostalgia”, aponta a curadora. As evocações são várias e ambíguas: há a tensão entre a criança e o adulto, e tudo o que está pelo meio; a carga e a melancolia nas obras, aliviada pela puerilidade intencional da alcatifa. “A exposição é melancólica mas é esperançosa”, resume Fernão Cruz. Na forma, a pintura e a escultura interagem e viajam no tempo entre a tradicional fundição em bronze e o vanguardismo da assemblage, repara Helena Mendes Pereira. ê na “bipolarização” que a diretora da Zet Gallery encontra a magnitude da obra de Fermão Cruz: “Ele consegue muito cedo criar no seu percurso uma unidade de linguagem, sendo múltiplo,” Na maior sala da exposição, “Sentinela” atinge o seu ponto nevrálgico em trés focos. Em “Espera”, uma constelação de nós de roupas que continuam a dimensão metadoméstica aberta em “Outro” (que Fernão Cruz apresentou em 2024 na Rialto6, em Lisboa), é interrompida por uma porta que não abre, estilo Excalibur, presa numa rocha de poliestireno. “ê uma espécie de purgatório de existência, não vamos para a frente nem para trás", diz Fernão Cruz. Numa ponta, uma grande chave de cartão forjada a bronze duplica a impossibilidade própria do sonho. As mesmas contradições aparecem em "Nocturno", um políptico que representa “a diluição da existência” em quatro atos e que o artista avança ser “das peças mais arrojadas” que já fez. A remediação surge em “Um Dia”, uma janela para a (im)possibilidade e a suspensão da descrença que parece acender uma centelha que rompe mais à frente, em “Voo Explosão". “A minha natureza ambivalente o querer eo não querer, o ir eo não ir, o ser e o não ser têm de aparecer no trabalho.” Terminamos a visita em frente a “Impossível", protagonizada por quase duas centenas de gotas (serão chuva, serão sangue?) de pasta de papel. “Fiz gotas porque queria fazer gotas, depois encontrei o saco, que era da casa da minha avó, e lembrei-m das mãos” que são as do pai, impressas em 3D, cobertas com cinza. Os elementos apareceram-lhe e, deles, Fermão Cruz construiu o seu alfabeto. Perguntamos se a reflexão surge antes, durante oul depois da criação. “As coisas não são assim tão pensadas, são sentidas Primeiro a mão fala e depois o cérebro pensa. ê a minha forma mais honesta de trabalhar.” Não foi propositado o facto de a data da inauguração ter caído na véspera da Revolução de Abril, mas a festa fez-se com Cravos vermelhos. “Sentinela” celebra a liberdade de fazer parar o tempo e de explorar o que se quer no trabalho, e o que Fernão Cruz quer é tirar o tapete a si próprio. “Quando tu te tiras fora de pé, é quando o trabalho cresce mais. Sinto que é o que acontece nesta exposição", reflete o lisboeta no documentário realizado no seul atelié sobre a exposição e que dela faz parte. No mesmo vídeo, que, no pequeno auditório da galeria, ajuda a contextualizar a exposição percorrida, Fernão Cruz menciona a inspiração que encontra na norte-americana Amy Sillman. “Ela pergunta a0s seus alunos: qual é a a tua unidade?", conta. E responde. “A minha unidade é tentar agarrar. Eu quero agarrar as coisas, mas elas escapam-me pelos dedos.” ilpinto(@expressc rimpresa pt SEI NTINELA Fernão Cruz Zet Gallery, Braga, até 18 de junho "Impossivel. escultura--instalação realizada este ano “o que me interessa é explorar o medo, o luto, o desejo” FERNaO CRUZ INÊS LOUREIRO PINTO