SERÁ O FIM DO RONCO DOS MOTORES DOS SUPERCARROS? OS PURISTAS TAMBÉM SE ADAPTAM
2025-05-16 21:04:35

Alguns já nasceram elétricos, com motores superpotentes, como o Rimac Nevera R (com 2107 estonteantes cavalos de potência), outros para lá caminham, como os da mítica Ferrari. Os puristas dividem-se: uns não dispensam o ronco seco e sonoro dos motores atmosféricos V8 e V12, mas há outros que já dizem que a eletricidade é o caminho Há quem diga que são mais ou menos uma espécie em vias e extinção, mas os potentes e ruidosos motores atmosféricos que ainda equipam muitos dos supercarros que animam a alma dos mais puristas continuam aí para as curvas. Dito de outra forma, o caminho da eletrificação total talvez ainda demore algum tempo a ser percorrido, pelo menos até ao momento em que as marcas sejam mesmo oficialmente proibidas de continuarem a colocar na estrada alguns modelos míticos que ajudaram a reconfortar os nossos verdes anos. A verdade é que a tecnologia das motorizações amadureceu e, no entanto, ficou mais verde. Agora, a alma de alguns modelos mais icónicos das históricas marcas dos superdesportivos passou a ser alimentada por eletricidade, além da gasolina. Não só já existem vários modelos híbridos como alguns totalmente elétricos, como é o caso do Porsche Taycan, entre as marcas mais conhecidas, que foi concebido de raiz apenas a pensar na eletricidade. Mas depois há marcas de supercarros que já nasceram 100% elétricas, de onde se destaca a Rimac, com o seu modelo Nevera R, que disponibiliza a inimaginável motorização de 2107 cavalos de potência. Se me perguntarem o que é que isto significa em termos de força transmitida às rodas, o mais provável é ficar sem palavras e socorrer-me dos números: acelera dos 0 aos 100 quilómetros/hora em 1,7 segundos e pode atingir uma velocidade máxima de 412 km/h. É, na verdade, uma outra dimensão que nos é proporcionada pelas motorizações destes carros híper-rápidos e que colocam o conceito de velocidade num patamar completamente diferente daquele a que estávamos habituados. Foi-se o vozeirão inebriante do ronco, mas estamos a ser levados em direção a uma nova dimensão do significado da palavra vertigem, onde o tempo e o espaço parecem fundir-se, ou onde se torna difícil discernir entre conduzir e sonhar. Ferrari, McLaren, Lamborghini, Porsche, entre outras, já experimentaram a hibridização dos seus motores e, segundo nos foi dito pelos responsáveis de algumas destas marcas, nem por isso as vendas estancaram ou caíram, antes pelo contrário. "Ainda temos muitos clientes puristas e saudosistas dos motores atmosféricos, mas, na verdade, também temos filas de espera mesmo para os híbridos que temos lançado", enfatiza Luís Pessanha, que tem a representação da Ferrari em Madrid (e que foi eleito o melhor concessionário do mundo pela mítica marca de Maranello, entre 170 representantes globais). O gestor confirmou recentemente ao Expresso que tem procura assegurada para três anos e, como exemplo da euforia que se gera em torno de cada lançamento, nota que uma semana depois da apresentação do Ferrari F80 (híbrido), a 17 de outubro último, já tinha três encomendas. Cada exemplar custa EUR3,6 milhões. A marca ainda não tem nenhum modelo elétrico, mas já o anunciou. A data ainda não está totalmente confirmada, mas tudo indica que a 9 de outubro - portanto, ainda faltam alguns meses para os mais puristas se habituarem à ideia - a mítica marca dos carros superdesportivos Ferrari vai apresentar o seu primeiro veículo totalmente elétrico. A novidade foi admitida pelo seu presidente executivo, Benedetto Vigna, no início de fevereiro, durante a apresentação dos resultados anuais da Ferrari, referentes a 2024, ao mercado. Nessa altura, Vigna recusou-se a detalhar o que quer que fosse sobre o próximo modelo, dizendo apenas que seria lançado de uma forma "única e inovadora" a partir da casa-mãe da empresa em Maranello, no norte de Itália. O novo carro elétrico da Ferrari fará parte de um total de seis novos modelos que a marca italiana planeia lançar este ano. O presidente executivo da Ferrari (que continua a ser uma marca de nicho), assegurou que os planos de eletrificação dos seus carros não serão afetados pelas políticas da administração Trump ou pelo risco de uma guerra comercial. Vigna garantia então, talvez para acautelar reações mais alérgicas de alguns puristas, que "não estamos a fazer uma transição elétrica, estamos a fazer uma adição elétrica". Noutra latitude, embora na mesma linha de raciocínio, o presidente do Clube Escape Livre, assegura que, "indiscutivelmente, os supercarros da Ferrari, Aston Martin, Rolls-Royce, Hispano Suiza, McLaren, entre outras marcas, atraem uma clientela com posses e que aprecia a exclusividade, a potência e o som incomparável e entusiasmante dos 8 ou 12 cilindros atmosféricos". No entanto, Luís Celínio nota que, "retirando - ainda que nem em todos os casos - a adrenalina do som único dos motores atmosféricos, todos os outros valores se mantêm nos híbridos. Mais: a hibridização permite a estes construtores automóveis apresentarem ainda uma maior potência de forma mais fácil". O líder do Clube Escape Livre, diz acreditar que enquanto aquelas marcas de topo apresentarem modelos equipados com motores a combustão terão sempre, até pela raridade e mais-valia que eles irão constituir num futuro próximo, a opção dos seus clientes. "Mas, e das conversas e experiências no âmbito do Clube Escape Livre, constato que a preocupação ambiental já recolhe votos e é um facto que os compradores de supercarros aceitam que os híbridos e elétricos serão inevitáveis no futuro próximo", acrescenta Luís Celínio. Foi-se o vozeirão inebriante do ronco, mas estamos a ser levados em direção a uma nova dimensão do significado da palavra vertigem, onde o tempo e o espaço parecem fundir-se, em nome da velocidade E nota ainda que, quanto mais as marcas souberem preservar a identidade dos seus carros nesta transferência para os híbridos e elétricos, "menos resistência será oferecida pelos clientes, pois continuarão a querer um carro que os faça sonhar". E é precisamente o sonho que continua a estar na base da decisão do comprador de um Porsche, segundo Nuno Costa, diretor de marketing daquela marca para Portugal, "independentemente de ser equipado com um motor a combustão ou com um motor elétrico". Ou seja, e ainda segundo este responsável, "não foi difícil, felizmente, fazer com que os nossos clientes passassem a gostar dos nossos elétricos ou eletrificados porque, no fim do dia, está lá o ADN da marca e isso é reconhecido". Nota que o mítico e ruidoso modelo 911 ainda é o mais procurado, mas faz questão de deixar bem claro que 30% das vendas em Portugal já se traduzem em modelos 100% elétricos: o Taycan e, mais recentemente, o Macan. Se juntarmos a estes os modelos híbridos, então somam já 70% das vendas no mercado nacional. Como dizem alguns analistas, os híbridos estão mais ou menos a meio caminho entre os carros super-ruidosos e os que já só dependem da eletricidade. E, nesse contexto, Licínio Almeida, diretor da Lamborghini para Portugal, orgulha-se de dizer que já têm toda a gama disponível com motorizações híbridas. O último a ser apresentado em Portugal, há poucas semanas, foi o Temerario, que desenvolve até 920 cavalos de potência, acelera dos 0 aos 100 km/h em 2,7 segundos. Na prática, e por muito que se seja adepto dos motores ruidosos, nos híbridos, assegura Licínio Almeida, "está lá tudo: exclusividade, valor, exceção, design e muita potência". Admite que, no início "houve um certo ceticismo, mas, lá está, como qualquer novidade, os híbridos requerem habituação". E nota que a consciência ambiental existe e que está a tornar-se cada vez mais evidente entre os clientes tanto da Lamborghini como da Bentley, que também representa em Portugal, e em relação à qual sublinha o sucesso que está a ser a aceitação do modelo Continental GT V8 híbrido, que desenvolve até 782 cavalos de potência. No fim de contas, Licínio Almeida garante que com a hibridização dos motores dos supercarros que traz para Portugal (por enquanto nem a Lamborghini nem a Bentley têm 100% elétricos), "o prazer da condução não desapareceu e, agora, há um bónus: todos têm mais potência disponível". Dito de outra forma, e ainda segundo aquele responsável: "O que conta, acima de tudo, para os clientes deste tipo de carros, é a experiência da condução, que continua agarrada a cada modelo. Além disso, como já disse, estão mais potentes, proporcionam mais prazer e quase pelo mesmo preço." Mais potência por menos decibéis PORSCHE TAYCAN Motor Elétrico com 408 a 1034 cavalos (consoante a versão escolhida) Aceleração Dos 0 aos 100 km/h entre 4,8 e 2,2 segundos Preço De 108.008 a 253.647 euros LAMBORGHINI TEMERARIO Motor Híbrido a gasolina com 920 cavalos de potência Aceleração Dos 0 aos 100 km/h em 2,7 segundos Preço Estimado próximo dos 400 mil euros BENTLEY CONTINENTAL GT SPEED Motor Híbrido a gasolina com 792 cavalos de potência Aceleração Dos 0 aos 100 km/h em 3,1 segundos Preço 364.675 euros (sem despesas logísticas) FERRARI F80 Motor Híbrido a gasolina com 1200 cavalos de potência Aceleração Dos 0 aos 100 km/h em 2,15 segundos Preço A rondar os 3,6 milhões de euros Vítor Andrade Coordenador de Economia Vítor Andrade