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O JOGO RECOMEÇA NA DEFESA EUROPEIA, O QUE PODERÁ PORTUGAL OFERECER? TECNOLOGIA

Expresso Online

2025-05-18 12:40:07

Vão ser precisos investimentos colossais e muitos anos para a Europa ombrear com os gigantes mundiais. Sem escala, mas com projetos interessantes em nichos de mercado e o primeiro unicórnio no sector da Defesa, é na área tecnológica que Portugal poderá contribuir mais para a reindustrialização europeia Identificar e abater mísseis aéreos inimigos em tempo real, numa área que poderá chegar a 500 quilómetros em mar aberto, a partir de um sistema de combate para navios militares desenvolvido em Portugal, é possível desde 2022, e já há Armadas europeias a usá-lo: a francesa, a inglesa, a alemã e a polaca. Portugal produz tecnologia de ponta na área da Defesa em Paço de Arcos, a seis quilómetros da base de comando naval da NATO, liderada pelo vice-almirante norte-americano Jeffrey Andersen, onde uma equipa de 50 engenheiros da Thales Edisoft (quase todos portugueses) dá vida a sistemas de defesa e ataque naval. Usada em embarcações militares, em missões de patrulha ou em teatro de guerra, a tecnologia made in Portugal tem capacidade para monitorizar o espaço aéreo e marítimo, identificar todos os alvos que estão sob a sua mira e intercetar ameaças. É, na prática, o cérebro do navio. "O que fazemos dentro da Thales Edisoft, a partir de Paço de Arcos, é muito competitivo. Os engenheiros que cá temos são os melhores. Estão aqui mas podiam estar em qualquer empresa de Defesa de topo do mundo", salienta Sérgio Barbedo, o presidente da Thales Edisoft, orgulhoso de uma equipa que "trabalha em sistemas críticos de alta segurança" e que coloca o país ao nível do mais sofisticado que se faz nesta indústria. Drones, satélites, componentes de aeronaves militares, proteção balística, têxteis técnicos para fardamento, veículos antimotim, construção e reparação naval, o primeiro avião português e muitos milhares de horas de engenharia em programas de grandes players mundiais da Defesa estão entre os projetos criados e desenvolvidos em Portugal nas duas últimas décadas - e que podem dar agora o seu contributo na reindustrialização da Defesa europeia. Estão espalhados de norte a sul do país. Falta escala à maioria deles, mas estão a afirmar-se e em expansão, numa dinâmica que se tem vindo a fortalecer. Há um novo rumo, depois da decrepitude a que se assistiu nos anos 80 e 90, quando as empresas de Defesa começaram a definhar e o investimento praticamente desapareceu. Para trás ficava um certo apogeu vivido na Guerra Colonial, altura em que o país tinha um contingente de 200 mil soldados e uma forte produção de fardamento e munições. A Defesa ficou na gaveta na viragem do século. E, quando se tornou visível, nem sempre foi pelas melhores razões, como aconteceu com a alegada comissão de EUR30 milhões paga à Escom e ao Grupo Espírito Santo na compra de dois submarinos à alemã German Submarine Consortium, quando Paulo Portas era ministro da Defesa (2002-2005) - um processo que chegou a ser investigado, por alegada corrupção, tráfego de influência e financiamento ilegal de partidos, e acabou arquivado. As contrapartidas dos negócios da Defesa, mecanismo que foi sendo abandonado, tendem a ser terreno escorregadio. O mundo ocidental vivia, então, em paz, e em caso de conflito os EUA e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) estavam lá para nos proteger. Havia questões mais populares na agenda, como a Segurança Social e a Saúde. A Europa, costumava dizer a antiga chanceler alemã Angela Merkel, tem 7% da população mundial, 25% do PIB e 50% dos gastos sociais. O renascer e o despertar Na segunda década do século XXI, uma nova geração, onde pontuavam engenheiros, entra em ação. Começaram a aparecer negócios ligados à Aeronáutica e ao Espaço, alguns com um pé na Defesa. Há um (tímido) renascimento do sector. E a entrada da Embraer em Portugal, com a aquisição do controlo das OGMA (65%) no final de 2004, dá um importante empurrão à indústria da Defesa. Criaram-se novas empresas, atraiu-se investimento estrangeiro, e o país acabou por dar um salto: hoje tem cerca de 300 empresas a operar nas áreas da Aeronáutica, Espaço, Defesa e Segurança, a uma gigantesca distância da escassa dezena de projetos que tinha em 2000. Emprega 30 mil pessoas e tem um volume de negócios superior a EUR2,1 mil milhões por ano. Um dos exemplos mais vibrantes desta nova realidade é a Tekever, uma empresa de raiz portuguesa, fundada em 2021 por engenheiros do Instituto Superior Técnico e que hoje se assume como a maior fabricante europeia de veículos aéreos não tripulados - os populares drones, um equipamento que se tornou chave na guerra na Ucrânia. Avaliada em cerca de EUR1,2 mil milhões, a Tekever ascendeu, no início de abril, ao estatuto de unicórnio, o sétimo português e o primeiro na área da Defesa. Um patamar que a faz subir um degrau na ambição: tornar-se o maior fabricante mundial de drones. Ricardo Mendes é o rosto de um projeto em crescimento acelerado e uma voz ativa e presente na única área em que Portugal se afirma, num mercado onde operam algumas das maiores empresas do mundo, o da Defesa. Área para onde se viraram subitamente os holofotes da Europa, hostilizada por uma Administração norte-americana personificada em Donald Trump, que deixou de olhar para o Velho Continente como um parceiro inalienável, se aproximou da Rússia de Putin e está a tirar o tapete à NATO. A certeza de que o mundo mudou confirmou-se a 28 de fevereiro, quando na mediática Sala Oval da Casa Branca, numa reunião marcada por Washington para dar início ao fim da guerra na Ucrânia, Trump acusou Volodymyr Zelensky de "estar a brincar com a terceira guerra mundial" e de ser um "ingrato" para com os EUA, escorraçando-o e colocando-se ao lado de Kremlin. Uma reunião coreografada, cujo objetivo, têm admitido vários analistas, era encostar à parede a Ucrânia e a Europa. Escassez de matéria-prima e falta de trabalhadores especializados e de militares estão entre os grandes desafios a enfrentar no "ReArm Europe" Soaram as sirenes. Três anos de guerra no coração da Europa, desafiada por um país com um vasto arsenal nuclear e um enorme poderio militar, como a Rússia, não tinham despertado verdadeiramente as consciências para os riscos que se adivinhavam. Naquele dia tornou-se claro. "Fizemos de conta que não estava a acontecer nada", sublinha Miguel Monjardino, professor de Geopolítica e Geoestratégia no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e colunista do Expresso. Já há muito que se intuía a mudança de estratégia dos EUA: em 2017, a mesma Administração Trump tinha sublinhado, na Estratégia de Segurança Nacional, que a disponibilidade para financiar a NATO estava a esgotar-se. "A aproximação de Donald Trump à Rússia é tática", frisa Monjardino. O seu interesse, avança, é afastar Vladimir Putin do Irão e da China, o seu verdadeiro adversário. Curiosamente, Xi Jinping foi um dos convidados especiais do Kremlin para a comemoração, a 9 de maio, dos 80 anos do fim da II Guerra Mundial. E depois há, admite, uma empatia de valores políticos. Trump e o seu vice-presidente J. D. Vance têm mais em comum com os líderes russos do que com os europeus. "Olham para Moscovo como um aliado cultural. Um aliado na defesa de uma certa ideia de civilização", sintetiza. O mundo terá agora de ser olhado por novas lentes. "Todas as empresas e governos planeiam numa situação de risco. Mas como é que se planeia numa situação de total incerteza como a que vivemos?", pergunta. É um dos grandes desafios da nova era. "O problema da incerteza é que tende a não existir precedente histórico", explica Monjardino. Sem alternativa, Bruxelas avançou com um desígnio até aqui impensável: rearmar a Europa, revitalizar a pouco musculada indústria da Defesa e equacionar uma UE da Defesa. Processo já em marcha. Foram anunciados EUR800 milhões para investimento no "ReArm Europe", uma parte em empréstimos, traduzidos numa linha de crédito de EUR150 mil milhões, e outra em flexibilização nas regras orçamentais dos Estados-membros, no equivalente a EUR650 milhões. José Manuel Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia, é um dos defensores da mudança de agulha. "Se reagir de forma estratégica, a UE tem a oportunidade de deixar de ser um adolescente geopolítico e afirmar-se progressivamente no cenário mundial, ao lado da América e da China", escreveu em janeiro deste ano num artigo para a Revista do Expresso. E foi mais longe: "A velha máxima ainda se aplica: se queres paz, prepara-te para a guerra. Isto significa que a UE precisa de reforçar as suas capacidades de defesa." Tecnologia, a arma do século XXI Grande fornecedor de drones para a Ucrânia, cuja compra tem sido feita por países que estão a financiar Zelensky, a Tekever tem estado no centro da ação. Há equipas da empresa no terreno a dar suporte, formação e treino aos militares ucranianos e ao mesmo tempo a investigar, a desenvolver e a fazer adaptações e reparações in loco. A guerra e a indústria da Defesa são assuntos que Ricardo Mendes começou a tratar por tu nos últimos quase três anos. "Desde 2022 aconteceu uma mudança significativa relacionada com o tipo de tecnologias usadas em ambiente de defesa e guerra: a inteligência artificial, os sistemas autónomos, e por aí fora, tornaram-se centrais. São as tecnologias relacionadas com a computação, e não com materiais e a mecânica, que têm ganhado espaço. Evoluem muito rapidamente e adaptam-se, um drone de hoje não tem nada a ver com o que existia há um ano", opina. É, explica, uma evolução que resulta da existência de dois polos opostos. "Sentem-se obrigados a escalar a sofisticação dos sistemas de ataque e defesa, numa espécie de jogo do gato e do rato, que permita ganhar vantagem tática", justifica o fundador da Tekever. Mas é também uma questão económica: "Há fragatas ou carros de combate que custam dezenas de milhões de euros a serem abatidos por equipamentos que custam dezenas de milhares, como os drones." Hoje, as tecnologias em teatro de guerra são imprescindíveis, assegura. A Ucrânia é atualmente o maior laboratório militar do mundo, é lá que estão a ser testadas as novas técnicas de guerra. "Os ucranianos são a primeira força mundial a ter ramos inteiros - terrestres, aéreos, aquáticos - a usar meios autónomos", avança Ricardo Mendes. A Tekever já tinha alguma experiência no campo militar - tem trabalhado com as Forças Armadas portuguesas e as forças de segurança e vigilância de vários países - e aproveitou a onda. Agora, o plano é expandir-se fortemente, tornar-se líder mundial. "Queremos criar um ecossistema europeu, ter empresas e unidades de produção em vários países", prevê. A Tekever tem mil trabalhadores, fábricas em Portugal, em Ponte de Sor e nas Caldas da Rainha. Mas também tem produção em França e no Reino Unido, com quem trabalha há anos na vigilância marítima para o Ministério do Interior. E não descarta a possibilidade de vir a ter no futuro uma fábrica na Ucrânia. "A Ucrânia tem um talento inacreditável nesta área e está a criar uma capacidade industrial fantástica que será muito importante para a Europa nos próximos anos", assegura Ricardo Mendes. Enquanto Lisboa parece distrair-se com a política interna, na Europa as empresas e os grandes países movem-se, e a discussão em torno da industrialização da Defesa fervilha. Há demonstrações disso. "A Tekever está já a trabalhar com vários governos e países para preparar os programas em que estarão futuramente envolvidos", admite Ricardo Mendes, sem especificar quais os países com quem se tem reunido. Mas assegurando que o objetivo é criar sistemas de defesa modernos, virados para o futuro. As reuniões entre os detentores de negócios da Defesa e os militares multiplicaram-se nos últimos dois meses. Há outros fabricantes de drones de referência no país, como é o caso da Beyond Vision, da UAVision ou da GhostySky. Na aviónica tem-se destacado também a GMV Portugal, com soluções de alta tecnologia para controlo de voo, sistemas de navegação ou gestão de missões. "Somos portadores de capital intelectual [brainware] e de competência em sistemas de engenharia, e essa poderá ser a mais-valia de Portugal na sofisticada e altamente competitiva indústria da Defesa", afirma Sérgio Barbedo, presidente executivo da Thales Edisoft, traduzindo um pensamento consensual no sector. Já o fundador da Tekever defende que deve ser canalizado para a área tecnológica uma parte considerável do investimento destinado à Defesa e não apenas uma franja. "É onde a Europa tem possibilidade de escalar mais depressa", diz Ricardo Mendes. E justifica: "Estando a partir de uma base mais atrasada face a blocos como os EUA, a China ou a própria Rússia, temos de abordar a questão de forma diferente. Temos de ter uma estratégia de gerar procura e não avançar primeiro, como é habitual, com subsídios para a investigação. É o que os americanos fazem e muito bem", aponta. A Europa foi, entre os grandes blocos económicos mundiais, quem menos investiu em Defesa nas últimas décadas - a Alemanha, o motor económico da UE, tem estado até agora inibida de o fazer. Os EUA continuam a ser de longe quem mais investe: EUR904 mil milhões em 2023 contra EUR258 mil milhões da UE, 1,6% do PIB. Um valor aquém daquele que a revista "The Economist" estima que a Europa vá precisar para poder defender-se sem os americanos e que se situa entre os 4% e os 5%. Usando o método de paridade do poder de compra, verifica-se que os gastos em equipamento militar da Europa são aproximadamente os mesmos da Rússia, no entanto, a capacidade bélica de Moscovo é superior. O primeiro avião português Em 2028 sairá da fábrica de Ponte de Sor, pronto a voar, o primeiro avião nado e criado em terras lusas: o Lus 222, um bimotor de asa alta, para 19 passageiros, 2700 quilos de carga transportável e 2100 quilómetros de alcance, projeto que resulta de uma parceria do Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto (CEiiA), da Força Aérea e da Geosat. Desenvolvido, industrializado e comercializado a partir de Portugal, o Lus 222 poderá puxar o país para um novo patamar. "É, diria, um salto quântico para Portugal", atira, entusiasmado, Miguel Braga, diretor de Aeronáutica e Defesa do CEiiA. O Lus 222 está a ser desenvolvido por uma equipa de 120 pessoas, a maioria engenheiros. Trata-se de um investimento de EUR220 milhões, com capital público e privado, financiado em EUR51 milhões pelo PRR. "Não há nenhum avião civil ou militar que não tenha um fortíssimo investimento público", sublinha Miguel Braga. O custo poderá situar-se entre os EUR8,5 e os EUR10 milhões. O plano é produzir 12 a 20 aeronaves por ano, e já há encomendas. A parceria com os militares é chave. "A Força Aérea tem tido uma disponibilidade fantástica. Garante-nos que os nossos engenheiros estão a desenvolver um avião que as Forças Aéreas vão querer", frisa. E será também cocomercializadora, porque apoiará o CEiiA no posicionamento do Lus 222 noutras Forças Aéreas. Há, aliás, um lado empresarial dos militares que o ainda Governo de Luís Montenegro considera importante estimular. Em entrevista ao "Eco", a 21 de abril, o ministro da Defesa, Nuno Melo, afirmava que "as Forças Armadas têm de encontrar receitas próprias para ajudar a suportar a modernização de equipamentos". E, nesse sentido, considera que a Lei da Programação Militar (LPM), numa futura atualização, terá de dar uma orientação diferente ao modelo de financiamento. Atrair o olhar dos grandes Apesar de periférico, Portugal tem conseguido atrair o investimento de players mundiais: a Embraer, a Airbus, que abriu uma fábrica em Santo Tirso, ou mesmo a Boeing e a Pilatus Aircraft. "É fruto do reconhecimento da qualidade e inovação dos produtos portugueses", aponta José Neves, presidente da AED Portugal, cluster que reúne as empresas da indústria Aeronáutica, do Espaço e da Defesa. Estabilidade e segurança, mão de obra qualificada, salários baixos e boas infraestruturas são alguns dos trunfos que o nosso país exibe, sintetiza. Foi com a compra das OGMA pela brasileira Embraer que Portugal colocou um pé na sofisticada indústria da aviação. A gigante brasileira investiu em duas décadas EUR500 milhões na expansão da operação e tornou-se um parceiro reconhecidamente relevante para o sector. Recuperou e revitalizou as OGMA, que estavam à beira da rutura quando foram privatizadas. Atualmente, tem 2000 trabalhadores e gera EUR250 milhões de receitas. Fundou duas fábricas em Évora, hoje nas mãos da empresa espanhola Aernnova [com 930 trabalhadores]. Fez crescer a operação das OGMA na área da manutenção de aviões e motores. O KC-390 da Embraer, versão NATO, tem adaptações feitas em Portugal, e por cada aeronave que a construtora vende o país consegue um contributo de EUR10 milhões de exportações. Há 42 KC-390N encomendados neste momento. "A Embraer cresceu muito nos últimos três anos e vai continuar a crescer na Europa a partir de Portugal", assegura Frederico Lemos, administrador da Embraer Defesa e Indústria. Portugal acabou de encomendar em março 12 aeronaves A-29N, o supertucano, investimento que aumentará a cooperação com a Embraer. Um investimento de EUR200 milhões, que deverá reverter para a indústria portuguesa, em compras, EUR75 milhões. Facto que Nuno Melo não se tem cansado de sublinhar nas últimas semanas: "Os gastos em Defesa trazem investimento para a economia portuguesa", tem frisado o governante. As OGMA, explica Frederico Lemos, fazem a manutenção das aeronaves KC-390 e dos A-29. "Isso gera bastante valor económico, inclusive a prazo, uma vez que os aviões militares ficam em operação 30 ou 40 anos", avança. Portugal é estratégico como porta de entrada da Embraer na NATO. Aliás, a fabricante brasileira, número três mundial, abriu em 2024 um escritório na Avenida da Liberdade, em Lisboa. É o único escritório de Defesa da Embraer na Europa e tem 30 pessoas. A Airbus é outro dos gigantes que aterrou em terra lusa. Em 2022, a gigante franco-pan-europeia instalou-se em Santo Tirso, onde faz a montagem de fuselagem do A320 e A350. Tem estado a crescer. Vai aumentar em 5500 metros quadrados a fábrica, acrescentando 30% à área industrial. Wouter van Wersch, vice-presidente da Airbus Internacional, assegura ao Expresso o interesse da empresa em Portugal, onde tem também um centro de engenharia desde 2018. "Até à data, os investimentos da Airbus criaram 1400 postos de trabalho qualificados", salienta. A relação vai para lá do investimento direto: a Airbus tem parcerias com mais de 30 empresas portuguesas que são seus fornecedores, alguns deles há largos anos. A espanhola Indra, com mil trabalhadores e 25 anos de investimento de operação em Portugal, tem Lisboa como uma das alavancas para atingir a ambição de se alcandorar ao topo da indústria da Defesa europeia, liderada por empresas com a alemã Rheinmetall, a francesa Thales ou a italiana Leonard - cuja cotação, fruto da nova orientação europeia, disparou em março, duplicando em alguns casos o valor das empresas. "A Indra Group está a reforçar a aposta na Defesa, e Portugal faz parte do plano. Hoje, a operação portuguesa já colabora em projetos estratégicos no sector da Defesa da Indra, e este reforço no investimento europeu poderá abrir novas oportunidades de participação em projetos de valor acrescentado", afirma Hélder Alves, diretor para a Defesa & Segurança da Indra Portugal. Do desporto para a defesa Área onde Portugal tem trunfos e tem feito um investimento consistente é no têxtil técnico - a inovação é um fator chave, e a aposta no segmento do desporto tem sido ganhadora. "Houve um marco de orientação para a Defesa quando em 2018 foi lançado o conceito do soldado do futuro, que é tudo o que tem a ver com os sistemas de combate e sobrevivência: o fardamento, as botas, as tendas ou os sistemas de carga (mochilas)", admite Gilda Santos, a engenheira têxtil que está à frente do CITEV, centro tecnológico criado há duas décadas. Trabalham neste área empresas como a Riopel, a Damel, a A. Sampaio, a Monte Campo ou a ICC Lavoro e a Penteadora. É no norte do país, em regiões como Guimarães, Barcelos, Braga, Famalicão, Felgueiras ou Trofa, que está grande parte da produção. O segredo está nas fibras e outros compósitos de base têxtil, que trazem flexibilidade, ergonomia e leveza aos equipamentos militares. São uma vantagem face a materiais mais pesados como o aço, salienta Gilda Santos. "Os têxteis são cada vez mais aplicados na mobilidade. E, por isso, também em veículos militares: terrestres, aéreos e marítimos. A proteção balística é outra área forte",explica. Se do lado empresarial há avanços, do lado do Estado existe falta de visão. Gilda Santos gostaria de ver as regras da contratação pública menos orientadas para o preço e mais focadas nas qualidade - o que, frisa, seria benéfico para a indústria portuguesa, muitas vezes preterida por países de mão de obra mais barata. Um apelo que as empresas da Defesa que servem as FA também fazem: o Orçamento apertado leva as encomendas para o exterior e para países muitas vezes menos sofisticado, lamentam. Se Portugal quiser posicionar-se na cadeia de produção da indústria de Defesa europeia tem de o fazer já, através das compras das Forças Armadas As universidades têm sido viveiros de alguns negócios que vão desbravando caminho nas áreas Aeroespaciais, de Segurança e de Defesa. A Beyond Composite, a quem a Sonae Capital Industries se juntou como acionista, é um bom exemplo. Fernando Cunha, engenheiro têxtil da Universidade do Minho, criou, com um grupo de engenheiros, a Beyond, em 2018. Dois anos depois começou a desenvolver, a partir de Vila Nova de Gaia, soluções em material compósito para proteção balística de pessoas e bens, mas também para veículos militares, helicópteros e drones ou lanchas e navios. "Produzimos componentes para servir de escudo balístico a viaturas militares ou contentores táticos onde são levadas as comunicações e ambulâncias utilizadas no terreno de operações. É uma proteção contra os ataques inimigos", exemplifica Fernando Cunha. Exporta sobretudo para Espanha, Alemanha e França. Há também projetos no sector naval, segmento em que outrora Portugal foi fortíssimo: a Lisnave chegou a ser o maior estaleiro de construção e reparação de navios da Europa. Perdeu-se dimensão, mas o país ainda tem alguma indústria nesta área, embora modesta e sem escala. A Lisnave encolheu fortemente, mas faz manutenção e reparação naval. Os Estaleiros de Viana do Castelo, concessionados à West Sea da Martifer - onde têm estado a ser construídos seis navios patrulha oceânicos para a Marinha portuguesa -, têm 1200 trabalhadores e querem continuar a crescer. Nas mãos do Estado, e com atividade na área da reparação, há também o Arsenal do Alfeite e a Naval Rocha. Décadas de atraso Vão ser preciso muitos anos, talvez décadas, para reconstruir a indústria da Defesa. É essa a convicção de Miguel Monjardino. Há dentro da Comissão Europeia a consciência dessa dura realidade. Mas não há alternativa, nem tempo a perder, admitem fontes comunitárias ao Expresso. Acabou-se o chapéu da defesa antinuclear norte-americana. França e o Reino Unido, os dois únicos países europeus com armas nucleares, não são suficientemente dissuasores face a ameaças futuras. "Reconstruir a indústria da Defesa é uma coisa que leva muito tempo. Anos. Têm de existir empresas, tem de ser criada uma cadeia de valor logística e tem de se recuperar ou criar de raiz o conhecimento perdido nos últimos anos", adverte Monjardino. Levará muito tempo a recuperar o fosso industrial e tecnológico face aos EUA. "Uma coisa são os anúncios políticos, outra é a existência de encomendas firmes para as empresas poderem trabalhar dentro de um quadro temporal de médio e longo prazo", avisa. Augusto Mateus, ex-ministro da Economia, aponta na mesma direção. "Relançar a indústria da Defesa vai demorar 25 anos. É esse o tempo de que a Europa irá precisar para ter real capacidade de dissuasão. E será necessário fazer um investimento colossal." Mais, frisa: "Já não há indústria. A produção de bens tornou-se minoritária." Além disso, a Europa tem falta de matérias-primas críticas, grande parte delas nas mãos da China. Mateus faz também uma leitura política: "A Europa, desde meados dos anos 80, apropriou-se dos dividendos da paz e desviou-os para a área da Saúde, os EUA desviaram-no para a Investigação e Inovação e aplicaram-no à indústria, nomeadamente da Defesa." Crítico em relação à estratégia europeia, o ex-ministro da Economia de António Guterres diz que a Europa está a começar a casa pelo telhado. "O que está a fazer não serve de muito se não tiver uma estratégia pensada. A autonomia da Europa não existirá sem uma estratégia", afirma, lamentando que esta nova orientação ponha fim ao primado da UE, que é o da paz. Defesa, qual defesa? Os principais partidos, PSD e PS, noticiou já o Expresso, omitem os custos que o país irá ter com o inevitável crescimento dos gastos com a Defesa até 2029. Ou como irá financiar a mais que provável nova meta de 3% do PIB, que irá ser discutida na cimeira da NATO, a 24 e 25 de junho, em Haia. Aguardado encontro onde Trump voltará certamente a pressionar os Estados-membros para subirem o Orçamento até aos 5%. Será uma reunião histórica, de desfecho imprevisível, onde o futuro da Aliança Atlântica estará em cima da mesa. O nervosismo é grande. Vai ou não Portugal recorrer ao pacote de EUR150 mil milhões para investimento em Defesa? É uma resposta em aberto. Foi, porém, dado um passo em frente: o Governo ativou junto de Bruxelas a cláusula que permite que as despesas relacionadas com a Defesa, até ao limite de 1,5% do PIB, não sejam contabilizadas para efeitos das contas públicas. E Pedro Nuno Santos, o líder do PS, concordou. A Defesa é um tema sensível, e não é politicamente consensual, até porque se antecipa uma fragilização do Estado Social. Luís Montenegro tem jurado que não. E já adiantou que irá subir a fasquia do investimento na Defesa para 2% do PIB até 2029 - um acréscimo de EUR1,7 mil milhões ao Orçamento português, que ronda os EUR3,1 mil milhões, mas não tem sido cumprido. Ricardo Pinheiro Alves, presidente da estatal IDD Portugal Defence, veio afirmar que o país vai mais do que duplicar o investimento na Defesa previsto na LPM nos próximos cinco anos, passando dos EUR300 milhões para os mil milhões por ano. E avançou, em entrevista ao "Negócios", que continua de pé (mas sem garantias) o projeto para a construção de uma fábrica de munições, um investimento de EUR40 milhões, numa parceria entre público e privado. Com um aumento da despesa para os 3% do PIB, nem Montenegro nem Pedro Nuno Santos se comprometem. Até porque vai doer fiscalmente. E o Conselho de Finanças Públicas já avisou que uma subida dos gastos para os 2% irá implicar um aumento do défice de 0,6% entre 2027 e 2029. Há várias vozes a pedir que o poder político, em nome da previsibilidade do investimento, faça um pacto de regime para a Defesa. Uma delas é a de José Neves, da AED Portugal. "Estamos a falar de investimentos consideráveis e a longo prazo, devia ser definida uma estratégia e haver um acordo entre os partidos de poder que garanta uma continuidade da despesa em Defesa", afirma. O mercado da Defesa, salienta Neves, "tem uma forte componente institucional", por isso tem de haver uma linha orientadora. "É importantíssimo que o Governo, as Forças Armadas e as empresas dialoguem e definam estratégias de longo prazo. A indústria só tem retorno do investimento pelo menos a quatro anos", diz. É também consensual no sector a ideia de que se Portugal quer fazer florescer a indústria da Defesa, as Forças Armadas têm de fazer encomendas dentro do espaço europeu. E o Estado tem de sentar-se já à mesa das negociações, posicionando as empresas para participar nos investimentos e nas novas cadeias de valor que estão a ser redesenhadas na UE. "Tem de haver um alinhamento entre todos", avisa José Neves. "Se Portugal souber comprar, pode exportar muito mais", sentencia Sérgio Barbedo. Se fizer compras fora da UE, ficará de fora do efeito multiplicador que o teto de EUR800 mil milhões irá ter na indústria europeia, avisa o presidente da Thales Portugal. "Devemos posicionarmo-nos para sermos exportadores de produtos de defesa e não exportadores de pequenas componentes, como muitas vezes acontece", defende. A força motriz da indústria da Defesa são os Estados como cliente. É a forma de criar o lastro e as condições para garantir que o capital privado tem a confiança suficiente para avançar com os investimento necessários para satisfazer a procura, dizem. Portugal alinha na estratégia de Bruxelas. "A Europa precisa de produzir mais e comprar mais dentro do europeu, e devemos fazê-lo quando em causa estiverem ofertas equivalentes, ou próximas", afirmou Nuno Melo ao Expresso. A UE compra 80% do equipamento militar fora da Europa, e o objetivo é que inverta e passe a comprar pelo menos 65% dentro. Há países que já estão com o pé no acelerador. A Alemanha está a readaptar para a indústria militar fábricas de sectores em crise ou deslocalizadas. Uma delas é a antiga fábrica de comboios da Alstom, em Görlitz. Outra é uma fábrica da Volkswagen que irá fechar, em Osnabruck, e que a Rheinmetall, líder europeia na produção de munições e veículos militares, está a equacionar transformar para produzir equipamento militar. "A Defesa é agora de longe o sector mais dinâmico da indústria alemã", afirmou recentemente Armin Papperger, administrador da Rheinmetall. A importância das Lajes Miguel Monjardino afirma que Portugal tem de ter pensamento próprio face à Defesa. "Devemos posicionar-nos via NATO, que já tem toda a infraestrutura de comando e controlo criada, com décadas de experiência e de confiança, ou fazemos isto através da UE, onde não há este tipos de estruturas de apoio à decisão a nível militar?", questiona. E prossegue: para os portugueses não é indiferente ser no âmbito da UE ou da NATO. "Ficaria surpreendido se a NATO que existe hoje venha a ser a mesma daqui a cinco anos. Portugal deveria estar na linha da frente da discussão. Não estamos no pelotão da frente ao nível económico, nem tecnológico, mas devíamos estar ao nível político, que é onde estas coisas são decididas. Temos de estar presentes e com pensamento próprio", alerta. Apontando o dedo, defende que Portugal devia ter um conceito estratégico militar definido: e não tem, ou está desatualizado. Sem isso estamos a meter o carro à frente dos bois, avisa. "O sistema de forças está a ser alterado, e é urgente tomar decisões", exorta Monjardino. As empresas portuguesas e os militares não têm um quadro de referência estável para planear a produção, diz. É preciso perceber igualmente, defende ainda, se vai haver uma especialização dos países europeus na produção de equipamento. Drones, satélites, aeronáutica, proteção balística, têxteis técnicos ou sistemas tecnológicos são algumas das mais-valias do nosso país Os Açores como localização estratégica não tem tido a atenção devida, admite. "Seria uma grave irresponsabilidade política não aumentar a presença militar portuguesa nas Lajes, a fronteira ocidental da Europa", diz Monjardino. E lembra que o almirante Gouveia e Melo defendeu, antes de deixar a Marinha, chamou a atenção para a necessidade de criar uma base naval no Porto Aéreo da Vitória. Portugal não tem uma presença militar nos Açores desde o fim da Guerra Fria, sublinha. A Marinha, considera, tem de ter mais bases militares e pontos de apoio no Atlântico. "Durante os 30 anos, de 1991-2020, em que durou aquilo a que chamo a curta paz, a importância estratégica dos Açores diminuiu, porque não houve rivalidade estratégica no Atlântico Norte. Agora, as coisas estão muito diferentes", diz. Falta de efetivos, um problema Há muito para fazer. O coronel Carlos Mendes Dias, académico e militar reformado, afirma que desde que se tornou quadro permanente, em 1988, só tem visto o investimento na Defesa piorar. "As Forças Armadas estão suborçamentadas, com escassez de meios e falta de recursos humanos", lamenta. "Só para dar uma ideia, em unidades onde antes havia 800 pessoas, hoje há 50", precisa. O Exército trabalha com equipamento de artilharia muito antigo, refere ainda. E exemplifica: "Acabámos de anunciar a aquisição de 36 obuses autopropulsados da francesa Caesar, que irá substituir um rebocado, o americano M114, da década de 40." Mendes Dias considera que Portugal mostra grandes fragilidades em matéria de Defesa, e destaca duas: a antimíssil e a mobilidade estratégica. Além disso, alerta, o país está curto de efetivos. "O rácio entre a capacidade de cumprir missões obrigatórias e com as quais nos comprometemos e os meios existentes é menor do que nos anos 90, e é reduzida", afirma. Temos nos três ramos 23.400 efetivos, e para as missões que temos de cumprir o mínimo previsto era de 32 mil efetivos, adverte. São menos 10 mil militares. "Desde o fim do Serviço Militar Obrigatório [SMO], em 2004, o número de efetivos das Forças Armadas desceu para quase metade", sintetiza. Há, aponta, cada vez menos candidatos, e entre os que aparecem revelam-se alguns casos de falta de perfil. "Verificamos problemas de resiliência mesmo em quem se voluntaria", confessa. O desinteresse pela carreira militar acarreta outras questões."Se não há pessoas, o que é que adianta comprar material? É uma pergunta que se tem de fazer aos políticos", atira Mendes Dias. E não está isolado nesta inquietação. O novo chefe do Estado-Maior da Armada, Nobre de Sousa, a 12 de abril, em entrevista ao "Público", deixava um aviso ao país: "Não podemos pegar no dinheiro e gastá-lo todo no investimento [em equipamento de defesa], porque senão corremos o risco de vir a ter uns meios muito sofisticados e não ter pessoas para os operar." Admitiu ainda que a Marinha está com dificuldade de retenção de quadros qualificados e apontou para a falta de quase 1933 efetivos: são 6441, mas deviam ser 8374. O seu antecessor, Gouveia e Melo, fez o mesmo reparo. Não se mostrando defensor do antigo SMO, o também protocandidato à Presidência da República afirma que é preciso uma nova resposta. "O modelo antigo é precisamente isso, um modelo antigo. Tem de se encontrar uma nova resposta", diz. Uma resposta, sublinha, discutida e aceite por todos: poder político e população. Na Europa já se discute em alguns países o regresso do SMO, como é o caso da Bélgica, em Portugal o tema não está na agenda. Nuno Melo mantém-se por enquanto defensor da estratégia de profissionalização das Forças Armadas. Ganhe quem ganhar as eleições de 18 de maio, a Defesa será um tema incontornável. Em agosto de 2024, o ministro da Defesa dizia que a Lei de Programação Militar estava "fora do seu tempo". Agora assegura ao Expresso que a nova versão está revista e pronta para seguir para Conselho de Ministros, aguardando pelo próximo Governo para avançar. Veremos se o próximo Executivo mantém o figurino. Há, isso é certo, uma nova ordem a emergir. O inimaginável está a acontecer nos EUA, onde o império da força começa a sobrepor-se ao império da lei. Há mais perguntas do que respostas, e é grande a inquietação. Será criada uma União Europeia de Defesa, com um exército próprio, passando a Europa a falar a uma só voz? Quem irá liderar: a França, hoje o país com maior poderio militar na UE, ou a Alemanha, que perdeu o travão que a impedia de se armar e é quem maior capacidade industrial tem. E o que acontecerá a uma Europa armada com os partidos de extrema-direita a chegar ao poder? Anabela Campos Jornalista Anabela Campos