PRELOVED - O VELHO É O NOVO NOVO´ DO RETALHO
2025-05-19 21:04:09

o VELHO é O NOVO “Novo”: Como A SEGUNDA MàO ESTA A CONQUISTAR o RETALHO Há marcas de luxo a revender os seus próprios produtos, lojas com formatos híbridos e plataformas certificadas. 0 retalho abraçou a segunda mão e vai muito além da moda. Ñào é velho, é "vintage”. Não é usado, é “pre-owned”. A economia circular que incentiva as pessoas a olharem para artigos em segunda mão em vez de comprar novo está a ganhar cada vez mais adeptos e a provar que é um mercado de crescimento sustentável. Não só permite adquirir bens a preços mais baixos, como reduz o desperdício e permite estender a vida útil de produtos , desde os que são produzidos em massa, como os móveis da IKEA, aos itens de luxo de produção limitada, como as malas Birkin da Hermés. Foi a identificação desta procura nos clientes que levou a IKEA a abrir em Portugal a plataforma IKEA Preowned, no início de abril. é o primeiro marketplace da marca onde qualquer pessoa pode vender e comprar produtos da empresa sueca em segunda mão, com uma validação que não existe em transações informais. “Em Portugal, mais de 10% do mercado de mobiliário em segunda mão já é IKEA, e isso mostra o quanto é relevante a nossa chegada enquanto promotor e facilitador de uma plataforma que torna todo este processo mais ágil”, disse à DISTRIBUIçàO HOJE a líder de portfólio digital da subsidiária portuguesa, Maria João Franco. A equipa foi acompanhando o crescimento dos serviços circulares e decidiu avançar para uma solução entre consumidores independentes, que não depende da localização das lojas e pode ser efetuada em todo o país. “é cada vez mais importante assegurar soluções e serviços acessíveis, que permitam aos nossos clientes ter acesso aos nossos produtos seja em que fase da vida for”, salientou a responsável. o ponto fulcral da IKEA Preowned é que prolonga o ciclo de vida dos produtos em vez de acabarem no lixo, mas também oferece preços mais baixos , sendo que a marca já é conhecida por ser mais acessível que outras lojas do género. “A plataforma oferece vantagens muito claras, tanto para quem vende como para quem compra”, considerou Maria João Franco, salientando que isto é válido em móveis e acessórios para a casa. Do ponto de vista dos compradores, a vantagem é poderem escolher produtos mais baratos num canal da marca, o que oferece mais confiança na transação. Para os vendedores, a plataforma facilita o processo de colocação à venda e oferece mesmo ferramentas de inteligência artificial para auxiliar. Por exemplo, tem recomendação automática de preços, acesso a fotografias, medidas e manuais de montagem. Se o vendedor optar por receber o valor da venda em cartão reembolso IKEA (e não em dinheiro vivo) recebe 15% extra. é uma forma de manter tudo na família da marca de mobiliário e um dos motivos pelos quais a IKEA não considera que o marketplace tenha impacto nas vendas de artigos de primeira mão. “Pelo contrário, vemos a IKEA Preowned como uma extensão natural da nossa proposta de valor”, assinalou Maria João Franco. “Este é um novo modelo de negócio que vem complementar a nossa oferta e reforçar o nosso compromisso com os preços baixos e a circularidade”, continuou. “Acreditamos que, ao criar esta forma de ligação com os nossos clientes, estamos também a chegar a novos públicos e a gerar mais envolvimento com a marca”. Os dados dos mercados onde a plataforma já foi lançada há mais tempo mostram isso mesmo , mais de 25% dos utilizadores da Preowned aderiram à IKEA Family pela primeira vez. Para um certo segmento de consumidores, o contacto com a marca começa através dos produtos em segunda mão e operar esta plataforma é, para a empresa, a possibilidade de formar uma relação duradoura com esses clientes. DA mODA RãpIdA AO LUXO A indústria da moda é, provavelmente, a que mais se associa à economia circular e à revenda. A última década trouxe várias plataformas online que facilitam esta tendência, tanto nacionais como internacionais, e a sua popularidade continua a crescer. A nível global, o mercado de moda em segunda mão valeu 170 mil milhões de euros em 2024 e espera-se que cresça a um ritmo anual composto de 10,7% até 2034, atingindo os 450 mil milhões de euros. São dados publicados em abril pela consultora Global Market Insights, que mostraram ainda uma preponderância do segmento da roupa: as receitas atingiram 105 mil milhões de euros no ano passado e deverão chegar aos 306 mil milhões em 2034. “o apoio de celebridades à moda em segunda mão impulsionou de forma significativa a sua popularidade, criando uma cultura de sustentabilidade entre os consumidores”, lê-se no relatório da GMI. Os analistas da consultora também identificaram maior apetite de marcas de topo pela revenda dos seus artigos, numa forma de apelar aos clientes com maior consciência ecológica, e citam os exemplos da H&M e Zalando, que lançaram websites só dedicados à revenda de produtos. Outros players, como a Lululemon, cos e Isabel Marant, têm a opção nos seus sites. Entre as opções de plataformas exclusivamente dedicadas à revenda, as mais populares são a Poshmark, ThredUp, Vinted, Depop e Buffalo Exchange, que compõem o top 5. Depois há a Vestiaire Collective, Goodfair, Beyond Retro, Recloset, The RealReal e, claro eBay, entre outras. Em Portugal, podemos destacar as ofertas locais da Micolet, Big Closet, Wallapop, My Cloma, Retry ou Flamingos Lisboa. E, mais recentemente, da Portugal Duty Free, que abriu um espaço Preloved no Aeroporto de Lisboa com artigos maioritariamente de luxo em segunda mão. O grupo DFNI distinguiu a loja com o prémio internacional “Best New Store = People & Planet” em 2024. “Em menos de um ano, a loja atraiu milhares de passageiros, mostrando uma forte aceitação do conceito de luxo sustentável”, disse à DISTRIBUIçâO HOJE a diretora de compras da Portugal Duty Free, Ana Sara Ferreira. “A procura por moda circular e produtos de luxo vintage está a ganhar cada vez mais relevância, e a Preloved planeia reforçar a sua oferta com novas categorias de produto direcionados a colecionadores e entusiastas de alta relojoa-ria”, revelou, indicando que a perspetiva para 2025 é de “crescimento sustentado”. Segundo a diretora, a maioria dos clientes que procuram a Preloved são dos Estados Unidos, embora também haja compradores portugueses, espanhóis, angolanos, britânicos, brasileiros, suíços e dos Emirados ârabes Unidos. “Estes consumidores incluem viajantes que procuram artigos únicos a preços mais acessíveis, colecionadores de peças de luxo, e adeptos da moda circular”, detalhou. “são pessoas que valorizam a qualidade, a exclusividade e o impacto positivo das suas escolhas”, com atenção à sustentabilidade. Neste segmento alto de peças de luxo o valor nunca baixa muito, o que permite às marcas abraçar a revenda sem receios. “o mercado secundário, neste contexto, não representa necessariamente uma ameaça às vendas em primeira mão, mas sim uma resposta complementar à nova realidade de consumo, onde exclusividade, qualidade e sustentabilidade são cada vez mais valorizadas”, considerou Ana Sara Ferreira. “A revenda destes artigos prolonga o ciclo de vida dos produtos e responde às exigências de um consumidor mais consciente, sem comprometer o prestígio das marcas”. A perceção de valor mantém-se elevada e isso reflete-se na procura contínua por certo tipo de artigos. Na Preloved, por exemplo, as malas da marca Hermés no modelo Birkin estão entre os produtos mais procurados. No estudo da GMI, os analistas especificam que a Geração z, agora entre os 13 e os 28 anos, é uma demografia essencial na moda em segunda mão: mais de 80% mostra interesse em alugar ou comprar roupas usadas por preocupações ambientais. A procura vai continuar a subir, antecipa a consultora, “criando novas oportunidades para designers, retalhistas e modelos de negócio”. A Europa está a mostrar avanços nesta área, com um peso do total do mercado em torno dos 16,4% em 2024. Na próxima década, o crescimento anual rondará os 9,7%, com França, Alemanha e Reino Unido na linha da frente. A região está a registar uma adesão cada vez maior, sobretudo a serviços de aluguer de roupas e plataformas de artigos de luxo em segunda mão. “A implementação de regulações que promovem práticas da economia circular e reciclagem de têxteis apoia ainda mais o crescimento do mercado”, indica a GMI, referindo que a prioridade da sustentabilidade entre os consumidores europeus tem levado à emergência de marketplaces de moda vintage e lojas físicas em segunda mão. A SEGUNDA VIDA DA TECNOLOGIA O outro segmento em que a circularidade vem crescendo é o da tecnologia, porque o preço de smartphones e computadores recondicionados é muito apelativo para os consumidores. Na Worten Reuse, por exemplo, a expectativa é de “um crescimento muito acentuado” em 2025, conforme explicou à DISTRIBUIçàO HOJE o gestor de área, Paulo Almeida. “A economia circular tem vindo a ganhar cada vez mais espaço na vida dos portugueses, ainda que estejamos numa fase quase embrionária em relação a esta área”, afirmou. “A sustentabilidade é uma das vertentes que sensibiliza o público que tem empatia por este tipo de produtos, mas também o facto de ser affordable, proporcionando a aquisição de um produto de confiança, a preços acessíveis”. Embora haja uma subida no interesse entre a população mais jovem, o público que mais procura este tipo de soluções é o da geração Millennial, que tem agora entre 29 e 44 anos. Paulo Almeida explicou que isso se deve ao facto de terem maior sensibilidade em relação a temas ambientais e de reciclagem, mas também à relação custo-benefício dos artigos, especialmente quando falamos de tecnologia ou de produtos de moda. “Este movimento permite uma atuação consciente perante artigos que tendencialmente acabam como lixo, com grandes impactes ambientais”, referiu Paulo Almeida. E um problema identificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que classifica o lixo eletrónico como potencial ameaça à saúde e aponta para “milhões” de dispositivos deitados fora todos os anos, desde computadores e telemóveis a eletrodomésticos e equipamentos médicos. Mesmo a reciclagem pode ser perigosa, segundo a organização, porque se for mal feita liberta até 1000 substâncias químicas diferentes para o meio ambiente, incluindo agentes neurotóxicos. “Milhões de toneladas de lixo eletrónico são recicladas de forma perigosa, mantidas em casas e armazéns, deitadas fora ou exportadas ilegalmente”, avisa a organização. O mercado de segunda mão, ao proporcionar a vida útil de dispositivos, minimiza este impacto. “Existem países que já adotam nas organizações públicas a reposição de parque tecnológico com um percentual de artigos recondicionados”, frisou o responsável da Worten. “Isto demonstra a ambição e a relevância que esta área já detém em países em que a maturidade já se encontra num nível avançado”. Por outro lado, a maior atenção dada ao recondicionamento não afeta a venda de produtos novos. “Há sim uma agradável mudança de mindset, que permite o prolongamento da vida útil de um artigo, entre 50% e 100% da sua anterior vida útil”, salientou Paulo Almeida. “Isto ganha enorme relevância na definição do ciclo de vida de artigos tecnológicos, numa vertente educativa e responsável, retardando a sua passagem a resíduo e o seu respetivo tratamento”. OPORTUNIDADES De FUTURO Com a maior atenção dada à segunda mão e uma economia titubeante em 2025, é já possível identificar onde estão grandes oportunidades num futuro próximo. Uma delas é o das revendas geridas pelas próprias marcas, não só com certificação de qualidade, mas também com programas “buy-back". Espera-se que cada vez mais marcas abram os seus espaços em segunda mão (online ou retalho físico), tal como fez a IKEA. “Vemos um grande potencial de crescimento nesta plataforma, especialmente entre públicos que valorizam soluções práticas e economicamente mais acessíveis”, notou Maria João Franco. “Sabemos que há desafios desde a logística entre particulares à necessidade de garantir sempre uma experiência segura e positiva para quem compra e vende”, ressalvou. “Mas estamos preparados para aprender com os nossos clientes, ajustar o que for necessário e continuar a crescer de forma sustentada”. A IKEA, disse, acredita que este "é apenas o início de um caminho com muito potencial”. Portugal é o primeiro país onde a IKEA Preowned foi lançada de forma completa e imediata para compradores e vendedores, servindo como mercado de teste e inovação. Outra tendência é o uso de IA para personalizar as ofertas, com recomendações automatizadas que se vão adaptando aos hábitos de compra de cada consumidor, A introdução de provadores virtuais e ferramentas de realidade aumentada será cada vez mais comum. Haverá ainda uma crescente afinidade pela “moda lenta” (slow fashion) em vez da moda rápida (fast fashion), que promove a compra de menos artigos e de maior qualidade em vez de grandes quantidades de produtos baratos que em três meses são descartados. A experiência da Portugal Duty Free atesta isso. “As oportunidades para a Preloved SAO notórias, especialmente face à crescente procura por produtos de luxo sustentáveis e vintage”, indicou Ana Sara Ferreira. O mercado mostra atração por artigos com preços mais baixos (por vezes até 60%), mas não só. “Há um interesse crescente por peças raras, exclusivas ou descontinuadas, que a Preloved consegue oferecer”, destacou a responsável. “A entrada de novas categorias, direcionadas a colecionadores e entusiastas de alta relojoaria, também apresenta uma excelente oportunidade para expandir a base de clientes”. No entanto, a loja reconhece que há desafios neste segmento. Um deles é a desaceleração global do mercado de luxo, com a perda de cerca de 50 milhões de consumidores em 2024. O aumento do custo de vida tem levado os consumidores a cortar na compra de artigos, o que afeta diretamente as compras de luxo. “A concorrência a nível internacional também é um desafio importante, já que o mercado em segunda mão está em crescimento, exigindo que as marcas repensem os seus preços, considerem a sustentabilidade e ofereçam opções com boa relação qualidade/preço”, resumiu Ana Sara Ferreira. “Garantir um rigoroso controlo de qualidade e autenticidade nos artigos revendidos também é um ponto fundamental para manter a confiança dos clientes, um aspeto com o qual a Preloved se compromete”. Essa questão da confiança é válida em todos os segmentos de revenda, independentemente do tipo de produto, mas alguns são mais fáceis de vender em segunda mão que outros. “o desafio varia de área para área, da complexidade de recondicionar produtos versus artigos que são vendidos sem qualquer intervenção necessária, como a moda”, explicou Paulo Almeida. “Esta realidade acarreta custos elevados em termos de criação de estrutura para fazer face à competitividade e satisfação de cliente neste tipo de negócio”, salientou. “Em usados, a base é confiança. A cultura da troca e da entrega de artigos usados será um game changer neste tipo de negócio”. O gestor frisou ainda que existe uma enorme oportunidade no mercado de usados = desde que haja uma relação clara entre a necessidade do cliente e a oferta de produtos de determinado segmento. O 8 O velho é o novo "novo": Como a segunda mão está a conquistar o retalho? iStock “Em Portugal, mais de 10% do mercado de mobiliário em segunda mão já é IKEA, e isso mostra o quanto é relevante a nossa chegada enquanto promotor e facilitador de uma plataforma” Maria João Franco, IKEA “o mercado secundário, neste contexto, não representa necessariamente uma ameaça às vendas em primeira mão, mas sim uma resposta complementar à nova realidade de consumo” Ana Sara Ferreira, Preloved “Em usados, a base é confiança. A cultura da troca e da entrega de artigos usados será um game changer neste tipo de negócio” Paulo Almeida, Worten ANA RITA GUERRA