pressmedia logo

RENAULT EMBLÈME - CANDEIA QUE VAI À FRENTE...

e

2025-05-22 21:06:18

Apresentado como um estudo e não como um protótipo que abre o caminho à produção de um qualquer automóvel novo, o Emblème apresenta-nos os esforços da Renault e dos seus parceiros para a redução em 90% dos gases de escape, comparativamente a carro do início da década equipado com motor de combustão interna. E, para consegui-lo, esta espécie de “laboratório rolante” propõe a redefinição dos conceitos da economia circular aplicadas ao setor. Diz a sabedoria popular que “candeia que vai à frente alumia duas vezes”, numa espécie de alusão ao espírito de iniciativa que associamos ao desbravamento de caminhos novos. Mas, este princípio, poderia aplicar-se, também, ao Renault Embléme, “concept” que a marca do losango apresenta como "visionário", por antecipar muitos dos conceitos e das técnicas que o fabricante, apoiado pelos seus parceiros, pretende utilizar para reduzir, significativamente, os gases de escape. Esta é a fórmula que a Renault apresenta como essencial para atingir a meta da neutralidade carbónica na Europa até 2040 (no mundo, até 2050). O Embléme é o símbolo (ou o emblema) da mudança de paradigma em marcha, por introduzir muitas soluções que a marca francesa pretende adotar no futuro próximo, numa geração nova de automóveis, mesmo se nem todas as soluções propostas parecem exequíveis ou realistas. A “missão” deste “concept” é muito clara: este “laboratório rolante”, na comparação com Captur de 2019, com motor a gasolina, propõe-se reduzir em 90% as emissões de co2, de 50 toneladas para apenas 5, durante todo o processo de produção e o ciclo de vida do automóvel. Num primeiro plano o visual, o Embléme pretende diferenciar-se pelo seu “ecodesign”. Isto, na prática, não é mais do que o desenho ao serviço da eficiência, mas sem que isso obrigue a renunciar à elegância: com 4,80 m de comprimento e 2,90 m entre eixos, o automóvel criado com o apoio da escuderia de Fórmula 1 da Alpine tem detalhes cativantes, nomeadamente a grelha dianteira ativa e as câmaras nos guarda-lamas dianteiros que substituem os espelhos retrovisores exteriores tradicionais, mais as jantes de 22 e o difusor na traseira que também admite a regulação do seu posicionamento (logo, trata-se de elemento ativo). E o resultado é um coeficiente de arrasto de apenas 0,25 Cx. E o peso é de “apenas” 1800 kg. Elétrico e hidrogénio Baseado na plataforma AmpR Medium, a base do Renault Scenic E-Tech Electric (ou do A390 que a Alpine tem quase, quase pronto a produzirl...), mas numa variante com tração traseira, o Embléme conta com arquitetura técnica que permite “arrumação” muitíssimo eficiente de todos componentes importantes do sistema de propulsão (motor elétrico, bateria de iões de lítio, pilha de combustível e depósito de hidrogénio). A máquina com 218 CV (160 kW) não tem quaisquer terras raras e é alimentada por acumulador de energia do tipo NMC (a combinação de níquel, manganês, cobalto) com 40 kWh de capacidade, e por pilha de combustível ("fuel cell"), sistema que produz eletricidade a partir do hidrogénio armazenado num depósito com 2,8 kg. E, assim, é possível reivindicar até 1000 km de autonomia (combinada). A Renault, reconhecendo as limitações das baterias atuais, que teriam de ser maiores e mais pesadas para propor níveis de autonomia semelhantes, vê o hidrogénio como alternativa, por permitir, também, tempos de abastecimento muito reduzidos. No entanto, afirma-o a marca, esta tecnologia não está a ser equacionada para quaisquer ligeiros de passageiros. Reciclar e repensar O Embléme também é um “manifesto” no que respeita ao reaproveitamento de materiais na produção de automóveis. Pascal Tribotté, o responsável deste projeto, explicou-nos que teve de pensar-se “mais à frente” durante todo o processo de conceção, para encontrar soluções transversais que considerassem “todo o ciclo de vida do carro”. A ideia também surgiu como desafio para os fornecedores de componentes; nesta lista, AKWEL, Autoneum, ArcelorMittal, Constellium, Dicastal, Forvia, Forvia Hella, Michelin, STMicroelectronics, Valeo e Verkor. Todas as parceiras da marca que participam neste programa contribuíram com produtos que passaram por processos de produção muito mais amigos do ambiente, incluindo o alumínio, aço, plásticos ou borracha. Noutros casos, procurou-se a adoção de materiais sustentáveis, como as fibras de cânhamo e de folhas de ananás. Independentemente do fornecedor, os objetivos foram comuns: reduzir a pegada ambiental, baixar o peso e oferecer os mesmos níveis de durabilidade. Tratam-se, todavia, de materiais bastante dispendiosos, maioritariamente, por não serem fabricados de forma massiva, o que inviabiliza, na maioria dos casos, a adoção pela indústria automóvel. Discrição tecnológica O conceito futurista do Embléme estende-se ao habitáculo. Aí, encontra-se o “cockpit” com ecrã panorâmico OpenR a toda a largura do painel de bordo , 1,2 m de comprimento e 12 cm de altura e tecnologia 8K de ultra-alta definição, para experiência ainda mais imersiva. Existe outro monitor numa consola que combina comandos físicos e tateis, conceito a que a marca deu o nome de “Shy Tech” (leia-se tecnologia discretal). Somam-se-Ihes, comandos por voz, iluminação ambiente interior com funções de assistência à condução e, ainda, equipamento de som “surround” 5.1 desenvolvido em colaboração com Jean-Michel Jarre. No interior, estão expostos os materiais resultantes de economia circular, alguns adornados com mensagens poéticas sobre as ambições sustentáveis do Embléme, automóvel que pode reciclar-se a mais de 90%. FOCADOS NA SUSTENTABILIDADE A necessidade de descarbonização associada à obrigatoriedade do cumprimento das regras antipoluição na Europa, que são mais restritivas do que no resto do mundo, não são desafios novos para os fabricantes de automóveis, mas a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA trouxe camada suplementar de instabilidade geopolítica à equação da mobilidade... Cléa Martinet, Vice-Presidente para a Sustentabilidade no Grupo Renault, admite o momento de incerteza, mas diz que a empresa não se desvia do objetivo de cumprir todas as metas de neutralidade carbónica na Europa até 2040. Martinet assegura que este momento de complexidade não fará a Renault abandonar as suas políticas de descarbonização e pretende continuar concentrada na necessidade de oferecer soluções de mobilidade cada vez mais limpas e sustentáveis. “Estou convencida de que isto é uma fase temporária. Temos de ser neutros em [emissões de] carbono e eficientes. E não podemos renunciar aos nossos compromissos ambientes ou perder a competitividade. Sim, os elétricos vindos de fora da Europa estão a dificultar-nos a vida, mas a nossa resiliência em sermos sustentáveis pode tornar-nos mais competitivos e rentáveis", afirma. Por outro lado, apesar dos progressos dos combustíveis sintéticos e do potencial enorme do hidrogénio, Cléa Martinet assegura que todos OS objetivos de descarbonização determinados pela União Europa poderão cumprir-se apenas com recurso a veículos elétricos. PEDRO JUNCEIRO