ADDVOLT COM CAPITAL 100% AMERICANO, "TALENTO E INOVAÇÃO EM PORTUGAL"
2025-05-23 21:05:35

Americanos que tinham 10% passaram a acionista único da Addvolt, empresa que desenvolve baterias para veículos pesados. Bruno Azevedo e os restantes fundadores mantêm-se na gestão. Ouça a história da empresa no podcast a "Liga dos Inovadores" A norte-americana Carrier, que detinha 10% da Addvolt, anunciou no início do mês a compra desta empresa de Matosinhos fundada em 2014 por quatro estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. A mudança não altera o ADN da empresa nem a sua estratégia, apenas acelera e amplia os planos, garantem os novos donos, que vão avançar com investimento e contratações. De saída estão a 2bpartner, uma sociedade de capital de risco do grupo DST, que apostou na Addvolt desde o início (tinha 17%), a Portugal Ventures e fundos alemães. "A Carrier torna-se o único acionista da Addvolt. No entanto, a Addvolt mantém a sua identidade, operação e equipa base", diz ao Expresso a empresa norte-americana, garantindo que "a aposta é no crescimento sustentado a partir de Portugal para o mundo, com reforço de investimento em talento e inovação local". O valor do negócio é mantido em segredo, mas, ao Expresso, os novos donos garantem que ele "representa um forte reconhecimento do valor tecnológico da Addvolt, da sua equipa e da sua capacidade de liderança na eletrificação do transporte refrigerado". É a nova fase de uma empresa nascida há cerca de uma década de um spin-off da Universidade do Porto, que rapidamente despertou as atenções e catapultou os seus fundadores, entre os quais Bruno Azevedo, atual presidente, para a lista da Forbes dos jovens talentos europeus com menos de 30 anos. Na passagem pelo podcast "Liga dos Inovadores", ainda antes do anúncio do negócio, Bruno Azevedo contava que "a empresa nasceu de três ingredientes: ignorância, coragem, e compromisso", e o empurrão de um professor, Adriano Carvalho, que "fomenta muito a proximidade da universidade às empresas". Além da empresa Luís Simões, que lhes "abriu as portas" dos camiões e da informação. A ideia começa a germinar em 2012 e 2013, a pretexto de uma tese de mestrado, quando Bruno Azevedo foi à Luís Simões para perceber como funcionava a energia dos camiões. "Estava a conversar com um assistente de frota, e de repente o camião arranca o motor a diesel. E eu pergunto: o camião está desligado e o motor a trabalhar, porquê?" Era para refrigerar a mercadoria. "Olhei para cima e pensei: e quanto consome este motor de frio? Vi que o camião tinha uma ficha elétrica, e pensei que, se a máquina está a preparada para carregamento elétrico e nós queremos eletrificar o transporte, aqui está uma boa ideia". Juntou-se a Miguel Sousa, Ricardo Soares e Rodrigo Pires e, de uma tese de mestrado e um ecossistema ativo, nasceu a Addvolt. Sem emissões, sem ruído e com poupanças Hoje a empresa tem mais de 1200 baterias a circular em 23 países, pontuando Holanda, Suíça e Alemanha. Estas baterias são um "powerbank" que alimenta o sistema de refrigeração, sempre de modo elétrico. "Quando o sistema Addvolt está num camião, ele pode ser carregado no armazém. Armazena a energia que depois é usada para alimentar a máquina de frio". Este sistema funciona em paralelo com um outro que permite a recuperação de energia na travagem - "um dínamo no eixo do camião, em que vamos produzindo energia à medida que o camião vai fazendo a viagem" - e, com tudo junto, "não temos emissões, ruído, consumo de diesel". "Estamos a eliminar 600 litros de diesel por mês, por viatura, 20 toneladas de CO2 por ano, por viatura, e reduzimos também drasticamente o nível de ruído e as necessidades de manutenção em 50%", estima Bruno Azevedo. Além de melhorar as condições de trabalho - "imaginem um motorista a dormir dentro de um camião e o motor a diesel a roncar para refrigerar". O jovem gestor diz que "há 4 milhões e meio de veículos de mercadorias refrigeradas que diariamente transportam frutas, legumes, medicamentos, flores, semicondutores" e, com a bateria da Addvolt, "contribuímos [ainda] para a redução do desperdício alimentar porque 13% da produção alimentar é desperdiçada durante o transporte, devido à falta de refrigeração". A bateria "é igual ao frigorífico que temos em casa: é autónomo, liga e desliga consoante a temperatura da caixa", e tem tamanhos diferentes consoante o meio de transporte. A aposta está nos camiões e comboios, mas o mercado é vasto. "Atualmente são transportadas refeições na traseira de uma bicicleta", que também precisa de conservação de frio. Próximo desafio: camiões a fornecer a rede As baterias já podem ser reutilizadas - quando os clientes vendem o camião, a bateria pode ser desinstalada e usada noutras finalidades - e, num futuro próximo, Bruno Azevedo espera ter uma solução que permita pôr os camiões a fornecer energia aos armazéns. "Os sistemas de refrigeração consomem muita energia, não faz sentido as empresas comprarem baterias para os armazéns se têm bateria no camião que pode ser usada quando ele está estacionado". Quando Bruno Azevedo falou na "Liga dos Inovadores" a compra da Carrier ainda não era pública, mas nessa altura, questionado sobre os riscos de a empresa ser vendida e desmantelada, já os tinha afastado. Questionado sobre se era ponto assente que a empresa continuaria a ser portuguesa, Bruno Azevedo garantiu que "sem dúvida. O nosso talento está no Porto. Somos cerca de 60 pessoas, toda a parte de engenharia produtiva está no Porto, e contamos com uma cadeia de fornecedores nacionais, desde a eletrónica, metalomecânica, cabos de alta potência, temos todas as condições para continuar a fazer inovação a partir de Portugal". A empresa garante que a estabilidade e a continuidade são essenciais para "acelerar o crescimento internacional da tecnologia Addvolt". O jovem que cresceu na aldeia de Adães, em Oliveira de Azeméis, que tem na avó, no comendador António Rodrigues (Simoldes) e em Aristides Fernandes, antigo patrão do pai, grandes referências de gestão, vai continuar a ser o presidente. Frases "A Carrier torna-se o único acionista, mas a Addvolt mantém a sua identidade, operação e equipa-base. A aposta é no crescimento sustentado a partir de Portugal para o mundo, com reforço de investimento em talento e inovação local" Valor da venda "representa um forte reconhecimento do valor tecnológico da Addvolt, da sua equipa e da sua capacidade de liderança na eletrificação do transporte refrigerado" "A nossa empresa nasceu de três ingredientes: a ignorância, a coragem e o compromisso" "13% da produção alimentar são desperdiçados durante o transporte devido à falta de refrigeração. Nós contribuímos para a redução do desperdício" "O nosso talento está no Porto, e talento atrai talento: temos todas as condições para continuar a fazer inovação a partir de Portugal" Elisabete Miranda Jornalista Elisabete Miranda