EMPRESAS DE DEFESA SUÍÇAS ESTÃO EM FUGA
2025-05-25 21:05:42

Por João Guerreiro Rodrigues O mundo mudou. A invasão russa da Ucrânia forçou a Europa a abandonar a ilusão de que a guerra era coisa do passado e a reconhecer a urgência de rearmar. Mas nem todos estão a beneficiar dos aumentos dos orçamentos de Defesa. A política de neutralidade suíça está a empurrar muitas das suas empresas do setor para fora do país e Portugal já está a beneficiar com isso. Uma destas empresas está prestes a realocar a sua fábrica no norte de Portugal, de forma a contornar as restrições de exportações impostas pelo governo. A neutralidade tem um preço e a Suíça está a pagá-lo. A lei suíça proíbe os fabricantes de armamento de exportar armamento para zonas de conflito ativo, como é o caso da Ucrânia. Em resposta, muitas das empresas do setor estão a montar operações noutros países europeus para contornar as restrições de exportação. É esse o caso da Systems Assembling, uma empresa especializada na produção de cabos elétricos para veículos blindados e para a aviação militar, que vai transferir a maior parte das suas operações para uma nova fábrica perto do Porto. Esta mudança custou à empresa suíça metade dos postos de emprego na na sua sede em Boudry, em Neuchâtel, mas reflete uma tendência mais ampla. Numa entrevista à Bloomberg, Peter Huber, o presidente da empresa diz que não conhece "uma empresa de defesa suíça que não tenha deslocado produção para fora", sublinhando que os seus clientes só estavam disponíveis para avançar com encomendas caso a empresa "garantisse que os seus produtos não eram fabricados na Suíça". Enquanto a Suíça enfrenta um êxodo industrial, Portugal está a tentar posicionar-se como um destino atraente para a indústria de defesa, um setor altamente especializado com salários que são quase o dobro da média nacional. Portugal já possui uma base sólida com mais de 380 empresas, muitas das quais operam tecnologias conhecidas como duplo uso, que podem ser utilizadas tanto para fins civis como militares. Empresas como o unicórnio português Tekever, líder europeu em drones de vigilância que fazem sucesso no campo de batalha na Ucrânia, e a OGMA, empresa especializada em manutenção aeronáutica, são dois casos de sucesso. Mas se a guerra na Ucrânia acordou o continente europeu para a necessidade de rearmar, foi a ameaça americana de cortar o apoio militar à Ucrânia que abriu os olhos dos europeus para os riscos da dependência do armamento americano. "O mundo mudou", admitiu o ministro da Defesa, que abriu a porta à aquisição de uma alternativa à compra dos caças furtivos F-35, produzidos pela americana Lockheed Martin, que a Força Aérea deseja. Nuno Melo defende que é "preciso reforçar o pilar europeu", o que significa "produzir mais na Europa e comprar mais Europa" e isso aumentou a especulação de que Portugal pudesse adquirir aeronaves europeias. Estes critérios abre a porta a duas aeronaves europeias, o Gripen, dos suecos da Saab, e o Rafale, produzido pela francesa Dassault. Mas o ministro da Defesa português insistiu que o potencial retorno económico para a indústria portuguesa, particularmente o cluster aeronáutico português, será um fator que vai pesar na decisão final, tal como aconteceu com a compra dos aviões da Embraer KC-390 Millennium e do A-29 Super Tucano, que trouxeram transferências de tecnologia e permitiram a empresas nacionais fazer parte do processo de produção e manutenção. Este fator pode jogar a favor da empresa sueca, que nos últimos contratos assinados tem promovido parcerias industriais com os países compradores, oferecendo transferência de tecnologia e envolvimento das empresas locais na cadeia de fornecimento e de produção. Foi o que aconteceu ao Brasil, quando adquiriu 36 Gripens, em 2014. A parceria entre a Saab e a Embraer permitiu a construção de uma linha de montagem no país, com os caças a serem fabricados por engenheiros e técnicos brasileiros. Hoje a aquisição de armamento não é apenas um reforço das capacidades de Defesa, mas também uma política industrial que permite criar empregos com salários elevados que permitem reter trabalhadores com elevadas qualificações e que acabam por ter um impacto real nas regiões e nos países onde se instalam. A instalação da Systems Assembling no Porto é apenas um exemplo de como o país pode beneficiar do aumento do investimento europeu em defesa, estimado em 800 mil milhões de euros até 2029. A "era do rearmamento" chegou e Portugal tem de estar pronto para agarrar as oportunidades que ela traz. A chegada da Systems Assembling ao Porto e o potencial de parcerias industriais, como com os caças Gripen da Saab, sinalizam que o país pode transformar a crise geopolítica numa alavanca para o crescimento económico, numa área que representa mais de 2% das exportações nacionais. Calma, é só um pouco tarde (Stefan Rousseau/Pool Photo via AP) Foi uma semana de acordos importantes. A questão é se foi também prelúdio de outros. No dia em que UE e Reino Unido fecharam o seu primeiro grande acordo formal pós-Brexit, a Comissão Europeia terá enviado a Washington uma proposta de acordo para escapar às tarifas sobre as exportações para os Estados Unidos. Fontes citadas pela Bloomberg dizem que o documento "tem em conta os interesses dos EUA" e delineia propostas de investimentos mútuos e aquisições estratégicas nos setores da energia, inteligência artificial e conectividade digital. Contactada pela Bloomberg, a Comissão Von der Leyen escusou-se a tecer comentários. Já Bernd Lange, que dirige a comissão de comércio internacional do Parlamento Europeu, adiantou que tudo pode passar pela imposição conjunta de tarifas à China se, em troca, Trump aceitar acabar com as taxas às exportações da UE. A China, que ficou no mínimo incomodada com o facto de o novo pacote de sanções da UE à Rússia abranger algumas suas empresas, é há muito acusada de sobreprodução. E o "padrão claro e evidente" disso mesmo deve guiar a futura cooperação UE-EUA, defende o eurodeputado alemão. Só que nem isso parece convencer Trump, que fechou a semana a dizer que as discussões com os europeus "não levam a lado nenhum!" Num momento de persistente ceticismo, com o presidente americano a ameaçar agora impor tarifas de 50% já a partir de 1 de junho, a UE continua a tentar reforçar a sua autonomia e fortalecer as suas relações com outros países. E foi nesse contexto que a Cimeira de Londres marcou, como refere o Financial Times, "um novo começo das relações pós-Brexit". Keir Starmer é acusado pela oposição de se "render" a Bruxelas, por ter concordado manter o espaço marítimo de pesca britânico aberto aos barcos da UE durante mais de 12 anos. Mas cinco anos depois de ter abandonado a UE, foi essa concessão do Reino Unido em matéria de pescas a abrir caminho ao acordo "histórico", nas palavras de Ursula Von der Leyen, com garantias de encaixe de 9 mil milhões de libras na economia britânica, nas palavras do primeiro-ministro. Esse acordo elimina grande parte da burocracia sobre as exportações agrícolas britânicas e o comércio de energia com a UE, mas acima de tudo abre caminho a um antecipado pacto de segurança e defesa, para que empresas britânicas possam beneficiar do fundo de defesa que a ser criado pela UE sob o Livro Branco da Comissão. É motivo para aplaudir, mas como referiram vários especialistas, este foi só mais um capítulo. Um capítulo importante, é certo, mas só mais um capítulo. Como diria o poeta Manuel António Pina: ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde. E isso é verdade sobre Londres e também sobre Washington. - Joana Azevedo Viana Como lidar com Trump? A Polónia dá umas luzes (Omar Marques/Anadolu Agency via Getty Images) Engolida por vizinhos vorazes, desapareceu do mapa duas vezes, antes de emergir da II Guerra como um satélite da União Soviética. Hoje, como ressalta a revista The Economist no seu mais recente número a chegar às bancas, a Polónia é a potência militar e económica mais subvalorizada de toda a União Europeia. Desde 1995, como aponta à CNN Malgorzata Zachara-Szymanska a partir de Cracóvia, o rendimento per capita mais do que triplicou no país. E desde 2004, quando aderiu à UE, "a Polónia não conheceu uma única recessão, à exceção de um breve período" de turbulência nos tempos da Covid-19. "Durante estas duas décadas, o crescimento médio anual da Polónia foi de quase 4%", e a defesa e segurança do país, bem próximo da Rússia, nunca foi descurada. Essa, diz a especialista em Relações Internacionais nesta grande entrevista, é uma das maiores lições que os polacos têm a ensinar ao resto da UE neste novo "mundo pós-americano": que os investimentos em defesa não têm de significar militarização e que essa aposta não tem de ser feita em detrimento de outras. A conversa teve como ponto de partida um artigo recente assinado pela professora da Universidade de Jagiellonian no site The Conversation, que explora precisamente "como a Polónia pró-Europa e pró-EUA oferece à UE um modelo de como lidar com Trump". - Joana Azevedo Viana Quem está a ganhar a guerra? Monumento de homenagem aos soldados soviéticos nos arredores de Avdiivka (André Luis Alves/Anadolu via Getty Images) Ao que parece, começou. Depois de meses de preparação, o exército russo deu início o que parece a sua primeira grande manobra ofensiva deste ano, para tentar cortar a linha da frente no Donbass a meio, entre Pokrovsk e Kostiantynivka. Em três semanas, as forças russas avançaram dez quilómetros e capturaram cinco localidades ucranianas, ultrapassando algumas das linhas fortificadas ucranianas mais importantes deste setor da frente. E não são só os comandantes ucranianos que estão preocupados com estes avanços, a liderança política ucraniana olha com particular atenção para o que está a acontecer, uma vez que a Rússia está prestes a entrar numa região onde ainda não estava: o oblast de Dnipropetrovsk. Angelica Evans, analista do Instituto para os Estudos da Guerra (ISW, em inglês), acredita que a ofensiva russa do verão de 2025 vai acontecer em três pontos da frente. Durante os últimos cinco meses, as forças armadas russas têm destacado unidades reforçadas nas regiões de Pokrovsk-Kostiantynivka, Orikhiv e Velyka Novosilka. O plano principal passa pela tentativa de cerco da cidade de Pokrovsk, que já foi o principal centro logístico ucraniano para a frente de Donetsk. Para a analista, as forças ucranianas devem também estar atentas às movimentações na região russa de Belgorod, onde Moscovo pode tentar atacar para criar uma zona tampão e obrigar as forças ucranianas a dispersar ainda mais as suas unidades. A crença de que a Rússia vai conseguir continuar a avançar no terreno é espelhada pela posição russa na mesa negocial. Na segunda-feira, o presidente americano Donald Trump falou ao telefone durante duas horas com o homólogo russo, Vladimir Putin, numa chamada onde se antecipava o aumento da pressão americana sob Moscovo em forma de novas sanções. Mas, apesar da promessa de que Trump terminaria a guerra em 100 dias, pouco ou nada saiu da conversa. Trump disse que a chamada "correu muito bem", mas Vladimir Putin revelou que a Rússia está apenas "disposta a colaborar" com a Ucrânia para a "elaboração de um memorando relativo a um potencial acordo de paz". Os analistas são praticamente unânimes: Vladimir Putin é o único homem que é verdadeiramente capaz de terminar a guerra e não está interessado em fazê-lo. Para que se chegue a um acordo de paz, é necessário que a Rússia compreenda que a situação no terreno não é favorável o suficiente para que os seus objetivos sejam atingidos.O lançamento de uma nova ofensiva é um claro sinal de que o consenso em Moscovo está longe de ser esse. Para que a Rússia sinta que os seus esforços são em vão, seriam necessárias três coisas que Trump não está disposto a despender com a guerra na Ucrânia: tempo, armamento e atacar o cofre russo com sanções. Enquanto isso, Vladimir Putin continua a insistir que um acordo de cessar-fogo só será assinado quando forem resolvidas as "causas profundas" que estão na origem do conflito. Esta exigência esvazia grande parte da esperança que existe num acordo, mesmo que temporário, para travar os combates. Vladimir Putin não só exige que a Ucrânia não entre na NATO, algo que a liderança política ucraniana vê como fundamental para que uma nova invasão não venha acontecer anos depois de um possível armistício, como não abdica da desmilitarização do país. Estas duas medidas que o Kremlin vê como fundamentais para a paz são vistas por Kiev como uma ameaça existencial à soberania do país, que arrisca ficar completamente vulnerável a um ataque futuro. - João Guerreiro Rodrigues O isolamento de Israel (Jehad Alshrafi/Anadolu via Getty Images) Não se publicam imagens de crianças vítimas de tragédias, de acidentes, fotografias de crianças mortas. Mas eis a exceção a essa regra de ouro do jornalismo: a crise artificial que está a matar bebés e crianças na Faixa de Gaza à fome (e que ameaça matar muitos mais, e também adultos e idosos). Dizemos artificial porque, enquanto Israel avança por ar e terra mais adentro no enclave palestiniano, e o seu primeiro-ministro anuncia à boca cheia que o país ocupante "vai assumir o controlo total" do território quando "a guerra acabar", ONG como os Médicos Sem Fronteiras (MSF) continuam a alertar que a ajuda humanitária está a ser "instrumentalizada" com o "sistema de saúde debaixo de fogo" - "Gaza está a ser deliberadamente asfixiada pelas forças israelitas", adiantou a organização esta semana. Se a semana começou com Israel a pôr um fim parcial ao bloqueio total de toda e qualquer ajuda humanitária, que vigorava desde 2 de março, a mesma semana acabou com o arranque da distribuição a conta-gotas dos mantimentos que já entraram no enclave, uma "gota no oceano" de necessidades da população de Gaza, segundo a ONU e segundo a UE. "Apenas comida suficiente para continuar a bombardear", resume a Breaking the Silence, uma ONG fundada e mantida por veteranos israelitas empenhados em denunciar os crimes da ocupação. Benjamin Netanyahu, o homem que está a jogar tudo o que pode e não pode pela sua própria sobrevivência política, continua a acusar todos os críticos de antissemitismo e apoio ao Hamas - quer eles sejam o presidente de França. um general israelita na reserva ou o americano de 30 anos que, gritando "Palestina livre", matou a tiro dois funcionários da embaixada israelita em Washington na noite de quinta para sexta-feira. Diz Netanyahu que isso aconteceu não pelo que tem ordenado ao exército que faça em Gaza, mas porque há "líderes mundiais" a alimentarem o ódio a judeus com as suas críticas à ofensiva de Israel, uma que, em menos de dois anos, já terá matado pelo menos 53 mil pessoas e ferido mais de 121 mil. Os ataques de 7 de outubro de 2023 perpetrados pelo Hamas - que culminaram na morte de 1.200 pessoas e em cerca de 200 reféns levados para a Faixa de Gaza, a maioria dos quais já libertados sob uma série de acordos entre as partes - não aconteceram no vácuo, dizia o secretário-geral da ONU em outubro do ano passado. Surgiram na esteira de décadas de ocupação e tratamento desumano dos palestinianos sob ocupação, em Gaza como na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Por ter ressaltado esse facto, António Guterres tornou-se persona non grata para o governo de Netanyahu. Agora, e por terem ameaçado Israel com "ações concretas" caso não permita a entrada total de ajuda humanitária em Gaza e caso não ponha fim à ofensiva em curso para o "controlo total" do enclave, os líderes de França, Reino Unido e Canadá são acusados de levarem Elias Rodriguez a pegar numa arma para abater israelitas a sangue frio na capital norte-americana. Ainda antes desse ataque, Londres decidiu suspender um acordo comercial com Israel e a UE anunciou que está a rever o seu Acordo de Associação com o Estado hebraico. Resta aguardar pelo que virá a seguir. Para um comentador da CNN, "Israel já colapsou em termos morais e está a arrastar-nos a todos", europeus e ocidentais. Para Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, a situação em Gaza seria ainda pior sem a intervenção da administração Trump. Até pode ter havido intervenção de bastidores para Israel ceder e entregar "uma quantidade básica" de ajuda humanitária ao enclave, mas o facto é que Trump continua em silêncio, sobre a fome e sobre a tomada de Gaza, mantendo alegadamente os planos para "limpar" o enclave e transferir a sua população para a Líbia. Sobre isto, a Economist faz uma análise lúgubre do futuro próximo: "Talvez venha a existir um compromisso de última hora. Sem ele, as próximas semanas serão sombrias. Netanyahu diz que só terminará a guerra quando tiver uma vitória total. [Mas] a devastação total de Gaza e o isolamento de Israel são mais prováveis." - Joana Azevedo Viana João Guerreiro Rodrigues https://cnnportugal.iol.pt/admiravelmundotrump/empresas-de-defesa-suicas-estao-em-fuga-e-portugal-esta-a-beneficiar-com-isso/2025-05-24/682f2883d34ef72ee44650ff João Guerreiro Rodrigues