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O RENASCIMENTO DE MEDELLÍN

Revista Sustentável

2025-05-26 21:04:06

De capital do narcotráfico a exemplo entre as smart cities sul-americanas Durante os anos 80 e 90, Medellin, a segunda maior cidade da Colômbia, era sinónimo de violência extrema e instabilidade social. Conhecida como o berço do cartel de Pablo Escobar, a cidade enfrentou durante anos elevados níveis de criminalidade, exclusão social e fraca presença estatal nas suas comunidades periféricas. Ganhou fama internacional como cidade associada ao narcotráfico e violência. Contudo, nas últimas duas décadas, Medellín tem vindo a protagonizar uma das mais inspiradoras transformações urbanas do mundo, apostando numa estratégia centrada na inovação social, planeamento urbano participativo e desenvolvimento sustentável. De acordo com a definição da União Europeia, uma cidade inteligente é aquela que utiliza tecnologias digitais e práticas inovadoras para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, a eficiência dos serviços públicos, e a sustentabilidade ambiental. A smart city como a entendemos não é apenas uma metrópole hiperdesenvolvida e dependente de tecnologia, mas sim uma urbe moderna e capaz de satisfazer as necessidades de quem a habita. Medellín tem vindo a demonstrar nos últimos anos precisamente este aspeto mais humano , uma espécie de lado b da tecnologia, em que esta é conjugada e posta ao dispor do cidadão. A cidade tem demonstrado que o verdadeiro coração de uma cidade inteligente não está apenas onos sensores ou algoritmos que a gerem, mas nas políticas inclusivas que colocam o ser humano no centro da transformação. A mobilidade como instrumento de inclusão social A mobilidade urbana foi um dos primeiros focos da revolução inteligente em Medellín. Em 2004, a cidade inaugurou o Metrocable, um sistema de teleféricos urbanos pioneiro na América Latina, que permitiu mudar de forma transversal a mobilidade na cidade. Esta solução serviu para conectar bairros marginalizados, localizados em encostas íngremes, como a Comuna 13, ligando-os ao centro da cidade, diminuindo, por consequência, o tempo de deslocação de quem queria mover-se pela cidade, integrando as comunidades e, sobretudo, devolvendo dignidade aos seus moradores. Além disso, ao mesmo tempo, o governo local promoveu a instalação de escadas rolantes públicas em zonas com grandes declives, permitindo desta forma que os membros mais envelhecidos e cidadãos com mobilidade reduzida que habitavam os bairros se deslocassem de forma autónoma. Esta inovação urbanística foi ao mesmo tempo acompanhada pela construção de espaços públicos, bibliotecas, parques e centros culturais, transformando o tecido urbano e promovendo a coesão social, num movimento que tem vindo a transformar as ligações entre os cidadãos, mantendo um sentido de comunidade característico da cidade. A estrada para a economia do conhecimento e o papel da inovação Outro eixo crucial na estratégia de renascimento de Medellín tem sido o investimento em ciência, tecnologia e inovação como motores de desenvolvimento económico, transformando, a pouco e pouco, o pró-l prio tecido humano dentro da cidade. A criação da Ruta N, uma agência de inovação pública, tem permitido apoiar mais de 500 startups, atrair empresas tecnológicas internacionais e desenvolver programas de capacitação em áreas como inteligência artificial, programação e energias renováveis. Mas não só. é que um dos seus principais focos da Ruta N é também a inovação social. Neste centro procura-se conectar diferentes organizações e atrain capital estrangeiro e local para o entregar sob a forma de doação ou como seed capital. A par disto a cidade lançou também o Distrito del Inovação, um ecossistema tecnológico que promove a colaboração entre o sector público, privado e académico, posicionando Medellín como um polo de inovação na América Latina. Situado na zona norte da cidade próximo de ins-tituições como o Parque Explora, Ruta N e a Universidade de Antioquia, este distrito de inovação conta com apoio institucional, nomeadamente da Prefeitura de Medellín, mas também de organizações como a Ruta N, bem como se empenha em desenvolver parcerias nacionais e internacionais. O papel do planeamento participativo e passos para uma democracia digital Um dos diferenciais de Medellín como cidade inteligente é o seu modelo de governança participativa. Através da plataforma digital “Mi Medellín”, os cidadãos podem propor ideias, votar em projetos e participar ativamente no planeamento urbano. Esta plataforma não só promove a transparência, como também fortalece o vínculo entre cidadãos e instituições públicas. Lançada em 2012, esta plataforma de cocriação cidadã lançada em 2013, desenvolvida pela Ruta N, ajuda eeege participação ativa dos cidaassim a promover a dãos na identificação e resolução de desafios urbanos, através da apresentação de ideias e propostas para melhorar a cidade e tem um funcionamento gamificado que incentiva a uma participação constante. Na prática, a administração municipal publica um desafio ou pergunta relacionada a uma problemática urbana. Os cidadãos registam-se e submetem propostas criativas para responder ao desafio ou resolver o problema, sendo que, após este passo, as ideias são votadas pela comunidade, sendo que as mais populares ganham visibilidade. Por fim, as propostas mais votadas são analisadas por especialistas e decisores públicos para possível implementação e os participantes, ao defenderem a sua solução acumulam pontos simbólicos chamados “Medallos”, que incentivam a participação contínua e reconhecem os cidadãos mais ativos Para além deste ponto, a cidade desenvolveu também um orçamento participativo, permitindo este que as comunidades locais decidissem onde aplicar parte do orçamento municipal, reforçando a democracia de proximidade e a coesão territorial. Tal como acontece noutras cidades europeias, como em Lisboa, este é visto como um elemento de ligação direta entre o cidadão e a cidade, sendo utilizado para transformar os espaços públicos em lugares que sirvam as comunidades. Cinturão Verde e estratégias ambientais A sustentabilidade ambiental está igualmente no centro da estratégia de Medellín. O projeto “Cinturón Verde Metropolitano”, também conhecido como Jardín Circunvalar, é uma ambiciosa iniciativa urbana lançada em 2012, que visa limitar a expansão urbana desordenada, proteger zonas de reserva natural e mitigar os riscos associados às alterações climáticas. Estendendo-se por uma faixa verde de 75 km, este jardim incorpora hortas urbanas, trilhos ecológicos e parques comunitários, mas também serve para al promoção de práticas de agricultura urbana sustentável e educação ambiental, com impacto direto na segurança alimentar e bem-estar das comunidades. Um outro pilar do projeto é o programa “Bairros Sustentáveis", que visa realocar famílias que vivem em áreas de risco, oferecendo-lhes habitação segura e acesso a infraestruturas básicas. Esta abordagem não só reduz a vulnerabilidade a desastres naturais, como também melhora a qualidade de vida das comunidades envolvidas. Pela amplitude deste projeto, o “Cinturón Verde Metropolitano” viu ser-lhe reconhecido o seu impacto positivo, com o projeto a ser distinguido com o Prémio Nacional de Ecologia Planeta Azul, atribuído pelo Banco de Occidente, destacando-se como um exemplo de sustentabilidade ambiental e integração social. Porém, e apesar dos avanços significativos, o Cinturão Verde enfrenta desafios, como a necessidade de garantir a continuidade das políticas públicas e a mobilização de recursos para a sua manutenção a longo prazo, isto porque Medellín estabeleceu também metas ambiciosas de redução das emissões de carbono, apostando na mobilidade elétrica, ampliação do metro, e fomento ao uso da bicicleta, todos projetos que carecem de investimento público. Turismo inteligente: tecnologia ao serviço da cultura Procurada por turistas do mundo inteiro, Medellín, em 2022, inaugurou o primeiro Centro de Turismo Inteligente da Colômbia. Este é um espaço que integra tecnologias de realidade aumentada, inteligência artificial e painéis interativos para oferecer aos visitantes uma experiência imersiva e personalizada, tal como feito em diversas partes do mundo. O objetivo central desta aposta era modernizar o turismo local, aumentar a permanência dos turistas e valorizar o património cultural da cidade, fazendol com que o turismo sustentável e ao mesmo tempo apoiado em ferramentas tecnológicas se tornasse, também, um pilar estratégico do desenvolvimento económico de Medellín. Com forte integração com os setores da cultura, gastronomia e inovação digital, esta aposta no turismo para a cidade procura também dar nova força às comunidades locais, permitindo que estas desenvolvam meios de subsistência que até aqui tinha dificuldade em assegurar. Educação e inclusão digital e... mais) reconhecimento A aposta na educação digital tem sido outro ponto de destaque nesta transformação da cidade. Através da rede de centros educativos e tecnológicos, como os “Parques Biblioteca” e as “Unidades de Vida Articulada” (UVAs), jovens e adultos têm hoje acesso a computadores, internet e formação gratuita e dirigida. Estas iniciativas ajudam no combate à exclusão digital e preparam as gerações presentes e futuras para uma economia baseada no conhecimento. Para fomentar toda a transformação digital, Meldellín disponibilizou ainda Wi-Fi gratuito em deze-nas de bairros, assegurando que o acesso à internet não seja um privilégio, mas um direito de todos. Por todos estes esforços, a transformação de Medellín tem sido amplamente reconhecida. Em 2013, foi eleita “Cidade mais Inovadora do Mundo” pelo Wall Street Journal e Citigroup. Mas, mais recentemente, foi também considerada a 4.8 cidade mais inteligente da América Latina pelo índice Cities in Motion da IESE Business School, superando grandes cidades como Lima, Santiago e Quito. Organizações como o Banco Interamericano del Desenvolvimento (BID) e a ONU-Habitat têm destacado Medellín como um exemplo global de urbanismo social, planeamento inclusivo e inovação orientada para o bem comum. Medellín é, por isso, exemplo vivo de que as ci-l dades podem transformar-se radicalmente quando colocam as pessoas no centro das políticas públicas. A combinação de inovação, participação cívica, sustentabilidade e inclusão social fez da antiga capital do narcotráfico e famosa pela violência vivida nas suas ruas uma referência global de urbanismo inteligente e resiliente. Mobilidade urbana como fator de inclusão social: O Metrocable e as escadas rolantes públicas revolucionaram o acesso a zonas marginalizadas como a Comuna 13, promovendo integração, dignidade e acessibilidade para todos os cidadãos. Inovação e participação cidadã como motor de transformação: Iniciativas como a Ruta N ea plataforma “Mi Medellín” mostram como a cidade aposta numa governação participativa e numa economia do conhecimento para promover inclusão social e desenvolvimento sustentável. Sustentabilidade ambiental c om impacto social: o projeto “ Cinturón Verde Metropolitano” alia proteção ambiental à requalificação urbana e à educação ecológica, tornando-se uma referência de urbanismo sustentável na América Latina Sérgio Abrantes