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INVESTIR NA DEFESA E DESENVOLVER O PAÍS

Correio da Manhã Online

2025-05-26 21:05:17

O anunciado investimento na defesa constitui uma oportunidade para desenvolver o país com ambição, responsabilidade e sentido de Estado. Para tal, necessita de ser concretizado com uma visão clara, uma abordagem rigorosa e uma execução eficiente. O reforço do orçamento de defesa deve traduzir-se na edificação de capacidades militares credíveis, interoperáveis e tecnologicamente atualizadas, em coerência com o Sistema de Forças Nacional aprovado. Contudo, para que esse aumento seja exequível e, sobretudo, compreendido e aceite pela sociedade, não basta excluí-lo da contabilidade do défice. É essencial que, sem desequilibrar as contas públicas, contribua de forma significativa para o progresso económico, científico, tecnológico e social de Portugal. A experiência demonstra que a simples aquisição de equipamento militar no estrangeiro tem um impacto estrutural muito limitado. O verdadeiro potencial do investimento em defesa reside na capacidade de o transformar num motor do desenvolvimento. Para isso, é necessário romper com o paradigma tradicional e adotar, em alternativa, uma estratégia integrada que articule o rearmamento com as políticas económica, industrial, de inovação, ciência e tecnologia, e de educação. Esta mudança de rumo, orientada para a criação de valor sustentável e duradouro no país, exige uma mobilização coordenada dos Ministérios da Defesa, da Economia e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em articulação com as Forças Armadas, universidades, centros de investigação e empresas. Um bom exemplo, já em curso, é a parceria com a Embraer, no âmbito dos programas de construção das aeronaves KC-390 e A-29 Super Tucano, que demonstram como é possível combinar aquisição militar com capacitação industrial, científica, tecnológica e de recursos humanos, bem como de aumento de exportações e de receitas das indústrias de defesa nacionais. Este modelo deve ser replicado e expandido para outros domínios em que Portugal possui atividade, nomeadamente a construção naval, as viaturas, os sistemas não tripulados, a ciberdefesa, os explosivos, as munições, as comunicações e as baterias. Neste contexto, a criação de um Plano Nacional de Capacitação Militar-Industrial (PNCMI) torna-se indispensável para, na próxima década, orientar investimentos, definir metas claras e promover sinergias entre as entidades acima referidas. O seu objetivo deverá ser transformar a despesa militar em inovação tecnológica, competências humanas e capacidade produtiva e exportadora. Portugal dispõe dos instrumentos institucionais, do conhecimento acumulado e do talento necessário para concretizar esta ambição. O desafio reside em mobilizar as vontades políticas, empresariais, académicas e sociais para que o próximo ciclo de investimento na defesa represente uma verdadeira aposta no futuro do país, e não apenas uma resposta às exigências da NATO ou da UE. Se formos capazes de conceber e operacionalizar o PNCMI, o aumento das despesas de defesa deixará de ser um fardo orçamental porque, ao tornar as Forças Armadas mais aptas para garantir a soberania, proteger os interesses nacionais e contribuir para a segurança coletiva, estará também a reforçar, de forma clara, o desenvolvimento de Portugal. Almirante CEMGFA António Silva Ribeiro