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BANCA CAUTELOSA NO FINANCIAMENTO DA DEFESA. FUNDOS AVANÇAM

Negócios

2025-05-27 06:00:07

Europa abre torneira para duplo uso. Banca cautelosa A Europa promete 800 mil milhões de euros para investimento em defesa, mas o Banco Europeu de Investimento não pode conceder empréstimos para fins puramente militares. A solução está na “dupla utilização”. Em Portugal os bancos já mostraram abertura. hugoneutel@negocios.pt Foiemmarçoque Bruxelas anunciou a resposta às crescentes tensões geopolíticas originadas com a invasão russa da Ucrânia e o afastamento de Donald Trump da Europaed NATO O programa Rearm Europe prevê um pacote de 800 mil milhões de euros para o investimento em defesa. O objetivo é preparar a União para “todos os cenários” na defesa. Entretanto, rebatizada “Prontidão 2030", a iniciativa é apoiada num tripé: um novo instrumento de financiamento à escalaeuropeia; uma flexibilização dos limites de despesa de cada Estado-membro; eempréstimos do Banco Europeu de Investimento (BED). O )novo instrumento , OSAFE, ou “Security Action for Europe” terá 150 mil milhões de euros de empréstimos garantidos pelo orçamento comunitário. O alargamento dos limites da despesa poderá ser invocado de forma individual por cada um dos 27 através da cláusula de escape. A figura permite desvios à despesa prevista nos planos orçamentais de médio prazo. Portugal já o fez: no final de abril O Governo informou que já solicitou a ativação da salvaguarda, o que permite que as despesas relacionadas com o setor até ao limite de 1,5% do produto interno bruto (PIB) não são contabilizadas na avaliação do cumprimento do valor de referência para o défice (3%). Aquele limite de 1,5% é agora a referência europeia para os gastos públicos em defesa. Jáo BEI tem 9 mil milhões de euros prontos a disparar. Masnão para qualquer fim. O braço financeiro da União não pode, pelas suas] próprias regras, conceder empréstimos a projetos com fins militares. Mais: os bancos comerciais também são especialmente cautelosos neste tipo de financiamento. Foi por isso que a instituição aprovou um alargamento do conceito de "dual-use”, ou “dupla utilização”, que se aplica a aplicações simultaneamente civis e militares. A partirde agora, Onos seus critérios de concessão de empréstimos, o BEI deixa cair o requisito de que os projetos “dual-use” têm de termais de 50% das receitas estimadas no lado civil da equação. E é aqui que pode estar parte da solução para a equação do financiamento. “os projetos e as infraestruturas utilizados pelas forças armadas ou pela polícia que também satisfaçam necessidades civis serão agora elegíveis para financiamentodo BEI. Deixará de existir um limite mínimo para as receitas esperadas de aplicações civis”, explicou o braço financeiro de Bruxelas, acrescentando o banco em comunicado, após apresentar a estratégia aos ministros das finanças da União Europeia reunidas no ECOFIN. A iniciativa recebeu “apoio alargado”, garante o BEI. A instituição liderada por Nadia Calviño vai também atualizar as regras parao o financiamento das PME de segurança e defesa. A decisão implica a abertura de linhas de crédito dedicadas, “geridas por bancos nos Estados-membros da UE e outros intermediários,: a iprojetos de dupla utilização por empresas mais pequenas e startups”. Um exemplo de uma aplicação “dual-use” é o dos "drones”, que tanto podem ser usados num conflito enquanto instrumentor de reconhecimento ou mesmo enquanto arma-como têm utilizações pacíficas, casos da agricultura ou da prevenção de fogos florestais. CGD recetiva Em Portugal, alguns bancos estão recetivos ao relaxamento das regras aos empréstimos ao setor da defesa. Estes critérios são definidos porcada instituição financeira, não estandosujeitos a um quadro legal e regulamentar específico. A Caixa Geral de Depósitos (CGD) admite rever as suas regras de financiamento a este setor. “Caso Oi enquadramento legal e regulamentar seja ajustado e haja um desígnio nacional para financiar a indústria de defesa, a Caixa estará em condições de assumir um protagonismo relevante, em linha com a sua missão e orientações estratégicas”, afirmou fonte oficial da CGD à agência Lusa. O BCP esclareceu que a sua política interna proíbe o financiamento à produção de armamento. Apenas podem ser concedidos empréstimos à indústria da defesaemcaso; muito específicos, para financiar compras por parte de governos ou de empresas públicas. Também o BPI tem regras internas que determinam condições específicas para a concessão de crédito a este setor. Preparados para investir na defesa, fundos aguardam alívio nas regras Há capital disponível e apetite por parte dos grandes investidores, mas a regulação impede o investimento em defesa, nomeadamente no que diz respeito ao armamento. Ainda assim, tanto fundos de investimento como capital de risco portugueses querem participar na aposta europeia. Por todo o mundo, os grandes investidores estão a mexer-si se para dar resposta às crescentes necessidades de financiamento da defesana Europa. Fundos de investimento mobiliários e capital de risco estão prontos a avançar nas várias áreas que o setor abrange, mas há uma em específico , o armamento , em que não poderão tocar até que haja um alívio das regras de supervisão. “Há um caminho que tem que ser feito. é ume caminhomeio estranho porque até há muito pouico tempo estávamos completamente focados no ESG [critérios ambientais, sociais e de governance ]. Não significa que não estejamos ainda, mas um dos pontos do ESG era justamente retirar o armamento da política de investimentos dos fundos. E, portanto, neste momento, para que possam investir em algum tipo de armamento, tem de se mudar primeiro as políticas de investimentor dos fundos, mas são novos tempos”, diz ao Negócios João Pratas, presidente da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP). Lá fora, há percurso a ser feito. A gestora de ativos alemã Allianz Global Investors, por exemplo, tornou mais flexíveis as políticas de exclusão de ativos para acomodar os investimentos no setor da defesa. é apenas um caso, sendo que ao nível da gestão passiva as grandes financeiras também tentam aproveitari os recordes que têm sido gerados pelareforçada aposta da Europa. Tanto a Wisdom Tree como a BlackRock lançaram fundos cotados em bolsa ( exchange traded funds” , ETF) com exposição a esta indústria. A nível nacional, João Pratas acredita que os fundos de investimento também terão um papel. “Sem dúvida”, refere. “Sem prejuízo de a resposta ser sim, penso que a0 nível do armamento vamos ter que olhar muito para empresas não cotadas. Se calhar algumas empresas não muito gran-des ainda, e penso que aí a eXpOsição vai ser mais com o capital de risco e o venture capital ”. O presidente da APFIPP antecipa que os fundos mobiliários participem, por exemplo, emaumentos de capital para financiar expansão e que o maior impacto se faça sentir ao nível do capital de risco. “o investimento emdefesa é uma prioridade da União Europeia face aos desenvolvimentos recentes da geopolítica mundial, onde se verifica uma mobilização de recursos substanciais para o financiamento do setor. A associação a este movimento é uma enorme oportunidade para o capital de risco”, concorda Lurdes Gramaxo, presidente da Investors Portugal e “partner” da Bynd Venture Capital, apon-tando para novas oportunidades no desenvolvimento de tecnológicas de setores tão variados como, a inteligência artificial, acibersegurança, o “deeptech” e mesmo as “life sciences” quepossam ter uma aplicação na defesa. A esta lista, Stephan Morais, presidente da Associação Portuguesa de Capital de Risco (APCRI) e administrador-executivo da Indico Capital Partners, acrescenta ainda o potencial de indústrias mais tradicionais, como o têxtil, a maquinaria ou: até os moldes. “Haverá certamente capital para as apoiar”, defende, acrescentando que “há investidores para todos os gostos”, mas há fundos de capital de risco que têm atualmente restrições no uiso do capital. “são as regras que têm deserrevistas pela Comissão Europeia se o objetivo for fomentar o investimento”, aponta. Tendo em conta a prioridade que tem sido dada por Bruxelas, Lurdes Gramaxo antecipa que os “ajustamentos regulatórios” ou a "clarificação” das limitações existentes, especialmente por parte dos fundos de fundos institucionais, sejam rápidos. Sublinha ainda que o lançamento recente de diversas iniciativas e fundos dedicados a tecnologiar de defesa ou tecnologia de duplo propósito (que tenha uma aplicação não somente para defesa, mas também um âmbito mais generalista) demonstra que existe um “apetite crescente” por parte dos investidores privados. LEONOR MATEUS FERREIRA Do aeroespacial à eletrónica, estas são as “magníficas” da defesa A empresa alemã Rheinmetall é vista como uma das mais bem posicionadas para aproveitar o reforço do investimento em defesa e o desempenho em bolsa tem refletido esta confiança. Não é, no entanto, a única a captar o interesse dos investidores, com todo o setor a disparar desde o início do ano. União Europeia como da maior economia da região: a defesa. “Com a Administração de Trump a suspender o apoio militar à Ucrânia, os líderes europeus foram obrigados a resolver o problema pelas suas próprias mãos e formar um acordo de paz. Os governos de todo o continente prometeram aumentar os gastos com defesa, enquanto a Comissão Europeia revelou um plano de rearmamento. Juntamente com as persistentes tensões geopolíticas, estas condições criaram uma tempestade perfeitapara o setor da defesa da Europa, uma vez que a região estará agora mais dependente dos seus próprios contratantes. Os investidores devem estar atentos ao facto de estes planos e promessas se materializarem em financiamentos e despesas concretos nos próximos meses”, diz Lale Akoner, analista de mercado global da eToro. Para reforçar significativamente o investimento público em defesa, a Comissão Europeia propôs em março um Plano de Rearmamento Europeu, de 800 mil milhões de euros a vários anos, a ser financiado sobretudo através dos orçamentos nacionais. Para isso, admite que os países possam furar as regras europeias sem sanções. Além disso, 150 mil milhões de euros serão financiados por um mecanismo comum de empréstimos. Por outro lado, a Alemanha anunciou também a criação leum fundo de até 500 mil milhões de euros para investimentos urgentes em defesa e infraestruturas. Os dois projetos, conhecidos emmarço, levaram as ações dadefesa a máximos históricos. Apesar de o entusiasmo ter desde então arrefecido, o subíndice de aeroespacial e defesa do Stoxx 600 acumula um ganho de 43,2% desde o início do ano , o que compara com 7,8% do total do índice europeu e com-1,12% do norte-americano S&P 500. Olhando para ações individuais, há ganhos ainda mais expressivos. A eToro criou uma lista de “sete magníficas” da defesa, que inclui, à cabeça, a fabricante alemã de veículos e armamento Rheinmetall, a francesa de aeroespacial e defesa especializada em eletrónica Thales, bem como a empresa italiana de aeroespacial, defesa e segurança Leonardo ou a britânica BAE Systems. No segmento da aviação, entram na lista as francesas Dassault Aviation e Safran e a britânica Rolls-Royce. Todas elas estão também no “ranking” elaborado pela Morningstar DBRS, que tem por base a quota de mercado em 2023. A lista (lideradapela BAE Systems) LEONOR MATEUS FERREIRA leonorferreira@negocios.pt Aascensão da inteligência artificial levou as “sete magníficas” da tecnologia norte-americana a liderarem nos mercados nos últimos dois anos. Mas o mundo mudou com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aagitar a geopolítica global , ecom ele o sentimento dos investidores. Cada vez mais voltados para a Europa, olham agora para um setor que vai beneficiar de megaplanos de investimento tanto ao nível da inclui ainda a Airbus, a sueca SAAB, O britânico Babcock, o turcO Asels e o britânico Serco. Há ainda na lista duas empresas não cotadas que espera que beneficiem da crescente aposta no setor: o Naval Group e a Knds, sendo que, segundo a Reuters, esta última está mesmo a preparar uma entrada em bolsa para aproveitar o bom momento que o setor vive nos mercados. Entre as cotadas, o desempenho ao longo deste ano é expressiVO. Todas valorizaram, oito têm ganhos acima dos 50% e três superiores a 100%. A estrela é, no entanto, de longe, aalemã Rheinmetall, que disparou quase 200% em 2025. “Com o aumento das tensões geopolíticas e a recente incerteza quanto ao apoio dos EUA à segurança europeia, esperamos que os países europeus procurem comprar maioritariamente a fornecedores nacionais quando se trata de aumentar os seus objetivos de despesa com a defesa. Em Itália, a Leonardo deverá atrair entre 30% e 50% de quaisquer aquisições adicionais no domínio da defesa nacional, enquanto na Alemanha se prevê que a Rheinmetall absorva entre 30% e 45% de quaisquer novos investimentosno domínio da defesa no seul país de origem”, refere ainda a análise da Morningstar DBRS. Empresas da defesa nacional ganham escala no meio das guerras Além do Estado, há privados a posicionarem-se para esta oportunidade, seja através de produtos finais, como a Tekever, seja trabalhando dentro das cadeias de fornecimento internacional. As empresas que atuam no setor da defesa são ainda um pequeno ponto num universo de mais de um milhão e meio das sociedades que representam o tecido empresarial português. Não chegam ainda às quatro centenas (são cercade 380), embora a tendência seja a de crescimento do número de negócios numa indústria que à luze do contexto geopolítico atual volta a assumir relevância, tanto para o rearmamento de Portugal como da própria Europa. Com maior ou menor investimento, o país sempre teve empresas ligadas a este setor. Através da IdD Portugal Defence, a “holding” que desde 2020 passou a agregar as posições do Estado nesta indústria, contam-se vários exemplos. A começar por aquele que se pode considerar o porta-estandarte, a OGMA Indústria Aeronáutica de Portugal, passando pelo Arsenal do Alfeite, até à indústrianaval (a NavalRocha) ou dos explosivos (a Extra Explosivos da Trafaria). Há, no Estado, um conjunto de empresas que desenvolvem a sua atividade no que sepode classificar como de indústria pesada neste setor, mas há também outras que procuram responder aos desafios das novas guerras. E O casoda EID Empresade Investigação e Desenvolvimento de Eletrónica ou da EDISOFT = Empresa de Serviços e Desenvolvimento de Software, que resulta de uma parceria com a Thales e a NAV, que desenvolvem o seu trabalho para a defesa, mas na base da tecnologia. A defesa precisa de quase todos os setores, desde os mais elementares, como o das rações de combate, atéa ao dovestuário, sem esquecer o da saúde. E muito deste trabalho é feito por várias pequenas e médias empresas, mas o foco da iniciativa privada está no desenvolvimento de tecnologias de elevado valor acrescentado para o mercado global. O país conta com empresas na área de balística, que exportamo e trabalham com os grandes construtores europeus na proteção para veículos blindados, empresas como a Aernnova, que produz estruturas aeronáuticas parao KC390 [da Embraer, utilizado pela Força Aérea Portuguesa] e outras quie estão a “desenvolver uma aeronave numa parceria coma a ForçaAéreapara transporte de carga e de passageiros”, que “jáexportam produtos finais, por exemplo, drones para: a Ucrânia”, ,como a Tekever, elencou José Neves, presidente do AED Cluster Portugal. A Tekever é, de longe, a empresa portuguesa deste setor que mais destaque tem tido, exata-mente pelo papel de relevo que assumiu na guerra que se desenrola na Ucrânia. A fabricante de sistemas autónomos tem conquistado contratos, tem vindo a expandir as suas operações , pretende construir um centro de excelência para “drones” para uso civil e militarna Occitâniae Nova Aquitânia, em França e, com isso, acaptar novos investidores, de tal forma que alcançoujáo estatuto de unicórnio, o sétimo em Portugal. A empresa liderada por Ricardo Mendes está avaliada emmais de mil milhões de euros. Aposta na cadeia de valor Há algumas empresas que podem mostrar os produtos que saem das suas linhas de produção, mash há muitas mais que têm vindo a fazer um trabalho parase posicionarem nas cadeias de valor da indústria, praticamente todas numa lógica de duplo uso, ou seja, tanto civil como militar. “o importanteo é as empresas conseguirem capacitar-se ainda mais, ganharem competências, crescerem e posicionarem-sede uma forma diferente na cadeia de valor”, afirmoue o responsável doAED em entrevista recente ao Negócios e à Antena 1. “N: Vão podemos pensar que vamos desenvolver um navio de fio a fio, ou um novo caça”, atirou. Esta forma de os privados encararem a dinâmica associadaao negócio da defesar estáa atrair um crescente número de empresas, atraídas pela oportunidade, mas também pelos muitos milhares de milhões de euros que a Europair investirnos próximos anos. “Quando vejo toda esta alavancagem dos orçamentos europeus [para a defesa |. penso comoéque Portugal se pode posicionar, não só no fornecimento de produtos finais, mas dentro destas grandes cadeias de fornecimento internacional”, salientou. PM As empresas com atividade parcialmente de defesa serão elegíveis para linhas de crédito apoiadas pelo BEl. Os “drones” são um exemplo de aplicação de “dual-use”: podem servir objetivos civis ou militares. «. os projetos que também satisfaçam necessidades civis serão elegíveis para financiamento. BEI Fonte Oficial &6 As regras têm de ser revistas pela CE se o objetivo for fomentar o investimento. STEPHAN MORAIS Presidente da APCRI &. A associação a este movimento é uma enorme oportunidade para o capital de risco. LURDES GRAMAXO Presidente da Investors Portugal & Para que possam investir em armamento, tem de se mudar primeiro as políticas dos fundos. Joao PRATAS Presidente da APFIPP Grandes investidores criam novos fundos (desde ETF a veículos de capital de risco) para apanhar a onda. Armin Papperger, CEO da Rheinmetall, tocou o sino da bolsa de Frankfurt em 2023, quando a empresa foi admitida no índice Dax. 380 EMPRESAS O setor da defesa conta, atualmente, com um total de 380 entidades. Número tem vindo a crescer. 1.000 UNICoRNIO Entre as empresas do setor, a Tekever destaca-se por ser um unicórnio. Está avaliada em 1.000 milhões de euros. HUGO NEUTEL