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"É NECESSÁRIO PASSAR, SEM HESITAÇÕES, A UMA FASE NÃO FÓSSIL DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E ECONÓMICO"

Observador Online

2025-05-27 21:05:20

Maria João Martins Texto As boas práticas ambientais são um dos critérios que definem uma cidade inteligente. Para o investigador Filipe Duarte Santos, a transição energética será determinante para as cidades e para o mundo. 26 mai. 2025, 21:02 Oferecer Maria João Martins Texto 26 mai. 2025, 21:02 Oferecer Até ao dia 27 de maio, data em que o Observador organiza a Cimeira das Cidades, ouvimos alguns especialistas nas áreas de habitação, tecnologia, ambiente e mobilidade, a quem pedimos ideias para as urbes do futuro. A entrada no evento é gratuita, mediante inscrição, que pode ser feita AQUI. Vivemos num mundo cada vez mais urbano. Os dados da OCDE indicam que mais de metade da população mundial vive hoje concentrada em áreas urbanas, percentagem que, em 2050, poderá mesmo chegar aos 70%. Perante essa realidade, com forte impacto na qualidade do ambiente a nível global, várias cidades, dos mais diversos pontos do mundo, têm vindo a adotar medidas que podem fazer a diferença na qualidade de vida das populações. Podemos falar, por exemplo, do Rio de Janeiro, que recentemente implementou um sistema de sarjetas com sensores que transmitem informações sobre o estado do local. Assim, caso surja algum problema, este pode ser resolvido com mais eficiência e celeridade, antes mesmo de se tornar uma crise de higiene, segurança e saúde públicas. Deste lado do Atlântico, Aspern, cidade a 14 quilómetros de Viena, Áustria, tem um dos maiores centros de eficiência energética da Europa , o Aspern Smart City Research. Graças a ele, quer os cidadãos, quer as autoridades locais,podem controlar e adaptar o consumo energético à sua produção, através de fontes sustentáveis, havendo ainda alguns projetos de agricultura urbana. Outro exemplo, mas numa paisagem completamente diferente, é uma smart city construída no meio do deserto: Másdar, no Dubai, perto de Abu Dhabi. Todos os edifícios estão conectados através de IoT (internet das coisas) e foram desenhados para resistir às temperaturas altas, à ausência de água e projetar sombras. Importa acrescentar que foi pensada em 2006 e erguida nos três anos seguintes, não tem emissões de dióxido de carbono e é alimentada através da energia solar. Outro exemplo de eficiência energética é Dongtan, perto de Xangai. A cidade chinesa está no caminho de reciclar a quase totalidade dos seus resíduos e de usar apenas energias renováveis. Especialista em Ciências do Ambiente, Filipe Duarte Santos tem uma longa experiência no estudo das alterações climáticas. Geofísico de formação e professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, instituição onde é membro do Centre for Ecology, Evolution and Environmental Changes - CE3C, foi, em 2017, nomeado presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS). Nessa qualidade tem coordenado diversos projetos de investigação cientifica nacionais e internacionais e, com base nisso, não tem dúvidas em afirmar que a grande melhoria na vida das cidades e seus habitantes passa pela redução drástica do recurso aos combustíveis fósseis. "O planeta Terra sempre teve mudanças climáticas importantes, mas estamos na presença de uma alteração climática muito rápida, provocada por atividades humanas. Carateriza-se por fenómenos extremos, sobretudo ondas de calor mais frequentes, eventos de precipitação muito intensa, que aumentam o risco de inundações, deslizamentos de terra e secas mais prolongadas, com impacto muito significativo na agricultura, riscos de incêndios rurais e florestais e ameaças aos recursos hídricos." Perante isto, o que fazer? "O caminho é reconhecer que os combustíveis fósseis foram muito importantes sobretudo nos últimos 250 anos, mas agora é necessário passar, sem hesitações, a uma fase não fóssil do desenvolvimento social e económico, favorecendo as energias renováveis. Esse processo já começou, embora esteja mais avançado nuns países do que noutros. Mas há obstáculos: os países produtores de combustíveis fósseis são um entrave muito poderoso. Há lugares do mundo em que ainda existem subsídios e apoios estatais à exploração e produção deste tipo de combustíveis." Uma análise às práticas energéticas das maiores potências económicas demonstra, com efeito, que os EUA são o maior produtor de petróleo do mundo e a China é o maior produtor de carvão. O facto de ambos os países terem relações muito tensas decerto não ajuda à tão desejada transição energética. Ora, a vida das cidades continua a ser o maior contributo para este problema global de sustentabilidade: representam 80% das emissões globais de gases com efeito de estufa, realidade a que se soma o facto de consumirem 75% da energia produzida em todo o mundo. Uma geografia que é mais um fator de injustiça, a separar os países industrializados dos outros, com menos mecanismos de defesa. "O impacto das alterações climáticas é particularmente sentido em países mais pobres, que são os que contribuem menos para a emissão de gases com efeitos estufa. É a chamada injustiça climática", diz Filipe Duarte Santos. O cientista está consciente de que estas questões não se resolverão de forma instantânea, ou sequer célere. "Este problema ainda se vai colocar durante muito tempo, certamente até ao fim deste século." À urgência de reduzir a dependência face aos combustíveis fósseis, o cientista acrescenta ainda dois outros "combates": a redução das emissões de dióxido de carbono e o combate à desflorestação. Mas há um terceiro combate a lançar: "Importa reduzir as emissões de metano, que também estão ligadas ao estilo de vida das populações. Neste caso, ao consumo persistente e generalizado de carne de animais ruminantes." Neste panorama, a ferramenta mais eficaz pode ser jurídica: "É possível atingir estes objetivos com importantes contributos do Direito internacional. Este problema já não interessa só a cientistas ligados ao clima, mas também médicos e a juristas. Seria muito interessante que as Nações Unidas considerassem o clima estável como Património Comum da Humanidade. Estou certo de que haveria consequências e que a atuação dos governos e das autoridades seria mais fácil e eficaz." Uma coisa é certa: o futuro do planeta dependerá em grande parte pelas medidas que se adotarem nas cidades. Como, em 2019, escrevia Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, num artigo publicado no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias: "As cidades criam regras próprias para as fontes e recursos naturais de que dependem. Elas concentram a água, a energia, os alimentos, mas também o que na natureza existe em modo disperso: os resíduos e os efluentes de todos os tipos formando a ameaça da poluição e da doença, que constitui um dos testes vitais para a qualificação e a sobrevivência das cidades. Criaturas complexas, requerendo sempre um fortíssimo investimento de imaginação e engenho, as cidades são o orgulho e o elo fraco das civilizações que representam." Mas a justificada preocupação não nos deve fazer perder de vista algumas boas notícias. Apesar de estar mal posicionada no último relatório do Institute for Management Development (IMD) no que toca a classificação de "cidade inteligente" (ocupa o 115º lugar em 146 cidades avaliadas), um outro ranking, o das Cidades Sustentáveis da Arcadis, uma consultora de soluções sustentáveis de design e engenharia para ativos naturais e construídos, coloca Lisboa na 27.ª posição da lista global que compara cem cidades em todo o mundo. Em dois anos (o relatório anterior era de 2022), a capital portuguesa subiu trinta lugares (era 57.ª) e passou a estar muito próxima do primeiro quarto da tabela. Entre as cidades europeias é a 20.ª melhor classificada. Lisboa sobressai, sobretudo, no item "Progresso", ao ocupar a 13ª posição. Neste campo, que analisa o impacto das intervenções de sustentabilidade na última década, apenas três cidades europeias revelaram melhores resultados: Roterdão e Amesterdão, nos Países Baixos, e Atenas, na Grécia. https://observador.pt/especiais/e-necessario-passar-sem-hesitacoes-a-uma-fase-nao-fossil-do-desenvolvimento-social-e-economico/ Maria João Martins