O QUE FAZ UMA CIDADE FUNCIONAR? A RESPOSTA PODE NÃO ESTAR À VISTA
2025-05-29 21:06:34

Cidades em que a tecnologia é invisível, a habitação acessível não depende só de metros quadrados, mas de minutos entre casa e trabalho e o espaço público volta a ser das pessoas, e não dos carros. O futuro das cidades é o futuro do planeta. Esta constatação percorreu os corredores e os palcos da Cimeira das Cidades organizada pelo Observador - e com razão. Num mundo em que 55% da população já vive em áreas urbanas, é nos territórios densos, multifacetados e desafiadores das cidades que se joga o bem-estar coletivo, a coesão social e a resposta à emergência climática. Contudo, se o discurso dominante continua a centrar-se - com toda a legitimidade - na habitação, na mobilidade, no ambiente e na tecnologia, há uma camada mais profunda, muitas vezes ausente, que precisa urgentemente de ocupar o centro do debate: a inteligência com que pensamos e transformamos os territórios. Não basta falar de cidades inteligentes. É preciso agir com inteligência baseada em dados, com a capacidade de compreender sistemas complexos em mutação constante. O verdadeiro desafio hoje já não é apenas gerir melhor os serviços e infraestruturas. É construir uma nova geração de políticas públicas sustentadas em evidência - não em intuições, ciclos políticos ou modas urbanas passageiras. E isso exige granularidade. Exige a capacidade de recolher dados em tempo real, de múltiplas fontes e formatos, e de os tratar com ferramentas analíticas de ponta - da modelação preditiva à inteligência artificial - para antecipar, testar e otimizar. Só assim poderemos enfrentar, de forma eficaz, fenómenos interdependentes como a crise da habitação, a pressão sobre os transportes ou a degradação ambiental. Durante a cimeira, demonstrámos precisamente como estas ferramentas estão já a ser aplicadas em contextos urbanos concretos. Mas se queremos dar o salto, temos de ir mais além: precisamos de um modelo nacional de planeamento urbano e territorial alimentado por conhecimento factual, interoperável entre todos os níveis da administração pública. Um verdadeiro ecossistema de dados - ético, seguro, transparente - capaz de empoderar não só os decisores, mas também os cidadãos. Nesse sentido, o ano de 2025 representa um marco: é o ano de implementação da Estratégia Nacional para os Territórios Inteligentes. Quase trezentos municípios portugueses têm já aprovadas candidaturas para investir em plataformas de gestão urbana baseadas numa arquitetura comum de dados. Este é o verdadeiro ponto de viragem. Pela primeira vez, o país poderá contar com um sistema de dados nacional onde informação flui dos territórios para o Estado e vice-versa, promovendo decisões informadas, eficazes e adaptadas à realidade local. É este o novo paradigma: uma cidade em que a tecnologia é invisível, porque funciona sem fricções. Onde a política pública se torna acupuntura urbana: cirúrgica, localizada, eficaz. Onde a habitação acessível não depende apenas de metros quadrados, mas de minutos entre casa e trabalho. Onde o espaço público volta a ser das pessoas, e não dos carros. Mas este paradigma não pode ser exclusivo dos grandes centros urbanos. Portugal precisa de territórios inteligentes, onde a digitalização e a inteligência territorial promovam a coesão, reduzam assimetrias e devolvam oportunidades a quem está mais longe dos centros de decisão. Se não queremos continuar a correr atrás dos problemas, temos de começar a ver as cidades como sistemas vivos, que exigem diagnósticos finos e intervenções personalizadas. Na cidade do futuro, invisível será tudo o que funciona bem. Visível, esperamos, será a inteligência com que soubermos construí-la. Miguel de Castro Neto é diretor da NOVA Information Management School (NOVA IMS) da Universidade NOVA de Lisboa e coordenador do NOVA Cidade - Urban Analytics Lab. Foi Secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza. Miguel de Castro Neto Professor Auxiliar da Universidade Nova de Lisboa Miguel de Castro Neto