E SE A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA COMEÇASSE NA TUA RUA?*
2025-06-05 21:03:26

Gosto de dados. Mas gosto essencialmente do que os dados permitem fazer quando levam alguém a agir. ê fácil falar de transição energética como um desafio global, mas ela é, na verdade, um puzzle de milhares de pequenas decisões locais. Cada comunidade, cada município, cada empresa, cada cidadão pode fazer a diferença. Desde que saiba por onde começar. AO longo dos últimos anos, tenho trabalhado com colegas que acreditam que parte dessa resposta está nos dados abertos. O portal Open Data da E-REDES nasceu desse impulso: partilhar o que sabemos, não guardar o conhecimento num cofre, mas libertá-lo para que outros o transformem em ações, em particular que acelerem a transição energética. O que me entusiasma, mais do que o número de visualizações ou downloads (que triplicaram em 2024), é ver sinais de que os dados estão a ser usados. Operadores de mobilidade elétrica a planear melhor os carregadores. Municípios a estudar o perfil dos seus consumos e a pensar em comunidades de energia. Investigadores a encontrar padrões que escapam ao olhar comum. Mas os dados não mudam o mundo sozinhos. Se há algo que aprendemos com esta experiência é que a transição energética precisa de capacitação local. De municípios que saibam interpretar dados. De escolas que usem esta informação para ensinar. De pequenas empresas que encontrem aqui oportunidades de negócio. o acesso à informação é condição necessária , mas não é suficiente. Há aqui um risco a endereçar, se não formos sempre mais longe no nosso trabaIho, podemos estar acriar uma forma de desigualdade: os territórios que sabem usar os dados e os que ficam para trás. Por isso, acredito que um dos desafios mais importantes nos próximos anos é garantir que a "democratização dos dados” se traduz também em equidade na ação. Algumas freguesias do nosso País têm mais de 60% do seu consumo elétrico durante as horas solares um potencial imenso para autoconsumo. Mas será que estas comunidades sabem disso? Que ferramentas têm para agir? Já temos municípios com milhares de instalações solares, enquanto outros quase não começaram. O Open Data pode fazer a diferença disponibilizando conhecimento, mas só se for apropriado por quem está no terreno. Em 2025, vamos dar mais um passo: va-mos começar a publicar os dados de produção renovável por município, consumos de mobilidade elétrica por freguesia, e vamos mapear as comunidades de energia já existentes. Serão ferramentas ao serviço de quem quer agir. E com a experiência que temos tido, sabemos hoje que há muitos que querem. Temos é que garantir que têm a capacitação, bons instrumentos, bons dados , que ajudem a construir boas histórias para despoletar evolução. Porque de facto, o que nos move não são apenas gráficos e mapas. São os exemplos. São os vizinhos que decidiram investir juntos. A escola que reduziu a fatura. A câmara municipal que fez diferente. A energia muda-se com pessoas, não apenas com tecnologia. O Open Data E-REDES, em que tenho vindo a trabalhar com muito prazer, é apenas uma das peças. O guião é escrito por todos. E talvez a transição energética não comece em Bruxelas ou Lisboa , talvez comece mesmo na tua rua. * Por Luis Tiago Ferreira, Responsável pela área de Smart Cities da E-REDES Em 202), vamos dar mais um passo: vamos começar a publicar os dados de produção renovável por município, consumos de mobilidade elétrica por freguesia. e vamos mapear as comunidades de energia já existentes. Luis Tiago Ferreira