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VICE-PRESIDENTE DO GRUPO THALES: "COMO INDÚSTRIA GLOBAL, NA AVIAÇÃO SOMOS OBRIGADOS A COOPERAR"

Expresso Online

2025-06-06 21:06:03

Yannick Assouad, vice-presidente executiva na área da aviónica da Thales, fala ao Expresso de alguns dos desafios que o sector da aeronáutica e da defesa está a enfrentar, um dos maiores é a falta de resposta da cadeia de distribuição à procura Há 38 anos a trabalhar na aviação, Yannick Assouad admite que a maior dificuldade que o sector enfrenta hoje é a falta de uma resposta eficiente e rápida da cadeia de distribuição, situação que afeta a capacidade de produção de aeronaves mundial. Positiva face ao crescimento da aviação, diz ser preciso esperar para ver os efeitos das tarifas da Administração Trump. Antevê cooperação entre os grandes fabricantes, porque a mudança de fornecedores é lenta e muito cara e o mercado funciona de forma global. Quais os grandes desafios para a aviação? A procura, as alterações climáticas, a incerteza? Apesar da situação geopolítica, a procura existe e continua a ser muito forte, muito dinâmica, e não prevemos que diminua neste contexto. A aviação civil ou a militar... ... civil. A Airbus e a Boeing têm uma carteira de encomendas grande, mas a indústria, coletivamente, tem dificuldade em cumprir. Essa dificuldade não vem das empresas, porque fomos suficientemente cuidadosos durante a covid e mantivemos a investigação, fundamental para continuarmos a desenvolver e a produzir bons produtos. O problema é a cadeia de abastecimento, muito difícil e desafiante. Em 2022 tivemos [na Thales] um problema tremendo com uma empresa eletrónica por causa do fornecimento de componentes. Agora, a dificuldade está mais nas peças mecânicas. Continua a ser muito difícil obter tudo o que precisamos para produzir. Todo o sector o diz. O problema é termos de comprar fora da Europa? Devíamos comprar cá dentro? Na aviação não se pode mudar de fornecedor facilmente. Todos os nossos sistemas, e especialmente os que envolvem segurança de voo, são muito sensíveis, têm de ser fornecedores testados e certificados. Certificar um novo fornecedor leva tempo e é dispendioso e uma alteração pode custar milhões. Só o fazemos quando estamos numa situação de emergência extrema, ou seja, basicamente quando o fornecedor colapsa ou falha. Estamos preparados para responder à procura? Desde a covid, estamos a aumentar a produção menos rapidamente do que esperávamos. A Airbus, por exemplo, admitia, antes da pandemia, que em 2025 estaria a produzir 75 aviões por mês, o que agora só está previsto para daqui a dois anos. Os dois aviões de maior sucesso na aviação civil, o A320 (Airbus) e o 737 (Boeing), foram desenvolvidos há 40 e 50 anos, respetivamente. Houve uma reengenharia há 10 anos, mas sentimos claramente que chegou o momento de lançar uma nova plataforma. Como fornecedor de sistemas desses dois grandes fabricantes, estamos a preparar-nos para isso. A inovação está agora na descarbonização, digitalização e conectividade, porque sabemos que as novas aeronaves vão voar muito para além da segunda metade do século XXI. E, se queremos continuar a crescer, precisamos de funções de pilotagem mais automatizadas, área onde estamos a trabalhar. Haverá novas funcionalidades e uma ligação digital entre o solo e o sistema de bordo. Como reagir às tarifas da Administração Trump? É muito difícil formar uma opinião até a situação ficar estabilizada. A indústria aeroespacial civil é muito interligada. Os europeus compram nos EUA, os EUA compram na Europa e ambos compram na Ásia. Como indústria global, na aviação somos obrigados a cooperar. Quando estamos perante essa incerteza, vai-se investir o dinheiro para mudar completamente a organização logística? Não. A vontade do sector europeu da aviação civil é chegar a um acordo com a Administração Trump e é isso que estamos a discutir com as autoridades europeias. Precisamos de um acordo global que tenha em conta as necessidades de todos: americanos, europeus e, já agora, asiáticos. Depois disto, a Europa pode ser mais forte? Face à aviação civil, não creio que vá mudar alguma coisa, e espero que não. É preciso muito tempo para desenvolver um avião e sabemos que uma frota está a voar 20, 25 anos. Não é algo que se mova como uma agulha, é lento. Já face à Defesa, pelo contrário, penso que pode fortalecer a Europa. Trabalha com empresas chinesas? Ainda não, mas estamos a tentar. Eles estão abertos à indústria e empresas europeias. Precisamos de um terceiro ator, seja ele a [brasileira] Embraer ou a [chinesa] Comac. Prevê fusões na Europa? É um ciclo constante, é algo que não pára. Sente-se que está mais ligado ao ciclo financeiro. Na Europa não gostam tanto de empresas grandes como nos EUA, mas não sei se isso vai mudar, há desemprego e a inovação vem dos grandes grupos. As startups são necessárias para dinamizar o sistema, mas depois precisamos de dinheiro. Se queremos que uma inovação amadureça na aviação civil, precisamos de muito tempo, como acontece, por exemplo, para ter um sistema seguro a bordo de um avião. A aviação precisa de muito investimento e o retorno é longo. Anabela Campos Jornalista Anabela Campos