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"DEMONIZAR O DIESEL NÃO FAZ SENTIDO", DIZ PEDRO LAZARINO, DIRETOR DA STELLANTIS EM PORTUGAL

Expresso Online

2025-06-06 21:06:21

O gestor nota que a Europa está em guerra aberta contra as emissões poluentes, mas diz que o mercado não compra só carros elétricos. Para muitos clientes, assegura Pedro Lazarino, os veículos a diesel ainda são a alternativa mais viável Numa altura em que se tenta acelerar a transição para a mobilidade elétrica, com a imposição de prazos por Bruxelas e multas para os incumpridores, Pedro Lazarino, diretor do grupo automóvel Stellantis em Portugal, lembra que a produção e comercialização de carros com motores a combustão vai continuar, pela simples razão de que a procura assim o exige. O gestor nota que "a demonização do diesel não faz nenhum sentido", até porque "para distâncias grandes continua a haver clientes para o diesel. Embora possam ser já uma minoria, para eles continua a ser uma opção bastante válida". Em entrevista ao Expresso, o responsável da Stellantis em Portugal assume que no grupo "continuamos com a opção diesel, por exemplo, nas nossas marcas premium, como na DS, ou ainda na Alfa Romeo, para além de outras, como a Peugeot e a Opel, que também continuam a ter ofertas de diesel no mercado", entre outros tipos de motorizações, incluindo os híbridos e os elétricos. Em suma, "ainda estamos presentes aí [no diesel] e queremos continuar a estar", apesar de ser cada vez mais um mercado de nicho, em grande parte condicionado pelo politicamente incorreto que derivou do conhecido caso Dieselgate, em 2015 - quando a Volkswagen foi apanhada a utilizar técnicas então consideradas fraudulentas nos Estados Unidos da América para reduzir as emissões de CO2 nos seus carros a diesel. "Grupos construtores precisam de ter sustentabilidade económica, e ela não é assegurada pela venda de carros elétricos" Daí para cá a classe política dirigente foi sempre apertando o cerco aos carros com motorização a diesel e Bruxelas chegou à conclusão de que teria de proibir a venda de automóveis com qualquer tipo de motor a combustão a partir de 2035 no espaço europeu. Sobre esta decisão administrativa, Pedro Lazarino explica que, "se todos os mercados fora da Europa continuarem a vender alegremente carros de combustão, obviamente que os produtores de automóveis têm de ter isso em conta". E acrescenta que os veículos com motorizações a combustão até podem ser proibidos de vender na Europa, mas "os grupos construtores em geral, para terem sustentabilidade económica, têm de ter mercado, e isso não está a ser assegurado pela venda de carros elétricos, apesar de terem cada vez mais simpatizantes". Marcas investiram milhares de milhões O executivo admite que, na verdade, a transição que as construtoras agora estão a fazer para a mobilidade elétrica está a ser financiada, na prática, pela venda de carros a combustão. É que, nos últimos anos, as grandes marcas europeias investiram dezenas de milhares de milhões de euros na adaptação das suas fábricas - e até na criação de outras de raiz - para a produção de carros elétricos e, naturalmente, o capital veio, em grande parte, do modelo de negócio tradicional, leia-se produção e venda de carros com motores térmicos. Pedro Lazarino sublinha que "não nos podemos esquecer de que um dos principais mercados do mundo é o dos Estados Unidos da América, e ali estão numa postura perfeitamente contrária a tudo o que estamos aqui a falar". Ou seja, por ser assim, "vai continuar a haver, por muitos e bons anos, mercados para carros de combustão. À data de hoje, lamentavelmente não será na Europa, mas quem sabe...". Explica que tudo é muito estranho porque as empresas globais como a Stellantis têm que pensar global, não podem pensar só na Europa. Sobre a decisão de Bruxelas atenuar, ou diluir no tempo, o pagamento de multas junto das construtoras automóveis que a partir de janeiro deste ano não cumprissem com a redução de emissões de CO2, o diretor da Stellantis em Portugal argumenta que se trata de "uma mão cheia de nada". No fundo, é um adiamento do problema, ou, como se costuma dizer em bom português, "é empurrar o problema com a barriga". "Continuará a haver, por muitos e bons anos, mercado para carros de combustão" "Todos os carros que estou a vender hoje e amanhã e depois de amanhã, se houver multas no final de 2027, elas estão a acumular." E, portanto, o que agora foi decidido por Bruxelas "até pode parecer simpático, mas não é, de facto, algo que nos faça aliviar a pressão. E vamos ver se, entretanto, não há nenhuma alteração, porque o que não falta no nosso sector hoje em dia é imprevisibilidade. E é isso que nos assusta mais". Este tema da imprevisibilidade remete, naturalmente, para o que se passa com a incerteza em torno das tarifas aduaneiras, agravadas por Donald Trump. E sobre isto o gestor da Stellantis diz que "é um sinal de alerta enorme para a Europa, pois há dois ou três anos achávamos que vivíamos num mundo completamente global. Hoje percebemos que não podemos contar com os parceiros de sempre e, portanto, mais vale olharmos para a estrutura da construção de automóveis europeia por si só e tentarmos ser o mais independentes possível". Será que os políticos vivem numa bolha, sem conexão com a realidade? Pedro Lazarino remata com outra pergunta: "Se acontecesse um milagre e estivéssemos a vender só carros elétricos, será que algum governante europeu saberia dizer se temos capacidade para os carregar?" Vítor Andrade Coordenador de Economia Vítor Andrade