A FORTUNA DE MUSK VS. O PODER DE TRUMP: QUEM VAI SAIR MAIS PREJUDICADO DESTA GUERRA?
2025-06-06 21:06:37

A aliança entre Donald Trump e Elon Musk, que prometia ser um dos eixos mais poderosos do novo ciclo político nos EUA, implodiu em público e com estrondo, através dos megafones das redes sociais. Ligações a Jeffrey Epstein, pedidos de impeachment e ameaça de cortes de subsídios elevaram o tom da retórica política. Analistas temem agora que o confronto possa ter efeitos sísmicos - no Partido Republicano, nos mercados, no futuro do Congresso e até nas ambições espaciais dos EUA Há 24 horas, a opinião geral era a de que a confluência de interesses e ambições de Trump e Musk seria suficiente para os manter na mesma equipa, apesar de ocasionais e amargos desacordos. Se Musk se se tornasse "um inimigo político acérrimo do Presidente, teria os recursos e a capacidade para ser um grande problema para a administração", analisava Peter Feaver, professor de Ciência Política e Políticas Públicas na Universidade de Duke. Depois, tudo se precipitou com estrondo. A sucessão de críticas, acusações e ameaças em catadupa levou a que, em poucas horas, a aliança implodisse. Do apelo ao impeachment de Donald Trump à ironia com as suas alegadas ligações ao abusador sexual condenado Jeffrey Epstein (uma espécie de chamariz para apelar à base MAGA - Make America Great Again -, mais conservadora e que repudiaria os abusos sexuais a menores), Elon Musk marcou as últimas horas com comentários cada vez mais escandalosos e amargos nas redes sociais. Um confronto de titãs Os ataques violentos ao Presidente norte-americano foram a mais recente reviravolta no confronto público sobre um projeto de lei orçamental de suporte à agenda de Trump, a que o homem mais rico do mundo (que esteve à frente do DOGE - Departamento de Eficiência Governamental, com a função de esmagar brutalmente a despesa pública) se opunha com veemência. Donald Trump chamou-lhe o "Projeto de Lei Único, Grande e Bonito", mas Elon Musk considerou-o uma "abominação repugnante" que aumentará o défice federal. Vários senadores republicanos, conservadores em termos orçamentais, manifestaram preocupação, aliás, com o custo do projeto de lei, que acrescenta 3,8 biliões de dólares (cerca de três biliões de euros) à dívida de 36,2 biliões de dólares (cerca de 32 biliões de euros) do Governo federal. Donald Trump quer cortar impostos, proporcionando maior poupança aos ricos, e direcionar mais fundos para as Forças Armadas, segurança das fronteiras e controlo da imigração. O diploma reduziria também os programas de saúde, nutrição, educação e energia limpa para cobrir parte dos custos. Terá o "Projeto de Lei Único, Grande e Bonito" levado a uma grande e feia rutura com capacidade para ferir o sistema político, os EUA e a democracia? Aumento da despesa foi questão fraturante "A aliança Musk-Trump sempre foi propensa a tensões devido às suas personalidades e ideologias", refere, em declarações ao Expresso, Adrien Halliez, professor de política americana na Universidade de Drake. O projeto de lei "Big Beautiful Bill" (BBB) está em desacordo com o objetivo de reduzir o défice, como já garantiram vários economistas. Os gastos discricionários teriam de ser cortados ou novas fontes de receita deveriam ser encontradas, para que o projeto de Trump não desfizesse "o pouco progresso que Musk realmente fez durante a sua gestão política", alertou Steven Buckley, professor de Sociologia dos Meios Digitais na Universidade de Londres, ao Expresso, há dois dias. Adrien Halliez concorda, dizendo que algumas medidas de âmbito nacional (especialmente os cortes no Medicaid, ou seja, na cobertura de saúde para pobres e pessoas com deficiência) e no SNAP (vale-alimentação) vão muito além das tentativas anteriores de redução dos gastos com assistência social, mas muitas outras partes do projeto de lei (incluindo os gastos com a defesa) fazem exatamente o oposto. Há também, e como atirou Musk numa das suas publicações no X, "muita carne de porco no projeto de lei, isto é, gastos incluídos para agradar a distritos de certos deputados". "Isto é difícil de conciliar com a agenda do DOGE, para a qual Musk foi contratado; não se pode alcançar o equilíbrio orçamental apenas combatendo a fraude e os abusos", aponta Adrien Halliez. "Ao apresentar o DOGE como o caminho para alcançar a responsabilidade fiscal e, em seguida, pressionar o Congresso a votar um projeto de lei que aumenta o défice federal, Trump está a enviar mensagens confusas." O desentendimento é também a prova de que sempre houve diferenças de cariz ideológico. O empresário de origem sul-africana é defensor de uma agenda que não pertence à direita conservadora tradicional. Representa o transumanismo e uma civilização onde a política tem de ser substituída pela tecnologia. Em contraste, um segmento significativo dos eleitores de Trump é religioso, enquanto Musk promove uma visão secular e prometeica do ser humano, contra o pensamento político da maioria dos intelectuais de orientação republicana que moldam a agenda do partido. Em janeiro, Musk e Trump já se tinham envolvido numa divergência pública, em torno dos vistos H-1B, documento para profissionais com "aplicação teórica e prática de um corpo de conhecimento altamente especializado" e que tenham um diploma ou curso superior na sua área. A indústria de tecnologia americana clamava pela emissão de mais desses vistos, para atrair trabalhadores altamente qualificados. Musk, que já teve visto H-1B e cuja empresa de veículos elétricos Tesla contratou trabalhadores ao abrigo do programa, defendeu aquela necessidade da indústria de tecnologia. "Há escassez permanente de excelentes talentos em engenharia. É o fator limitador fundamental em Silicon Valley", escreveu, a 25 de dezembro, no X. "Se, como Musk - que se inspira nas ideias do tecnofeudalismo -, os apoiantes valorizam o ideal de eficiência nos gastos com um governo federal mais pequeno, é difícil aceitar a premissa do BBB, sobretudo depois de ter feito tanto barulho sobre as poupanças que garantiu com o DOGE", concede Adrien Halliez. O choque entre poder e fortuna que pode virar a política americana do avesso Um dos momentos mais dramáticos da última noite deu-se quando o CEO da Tesla e da SpaceX afirmou, no X, que a razão pela qual a administração Trump não tinha divulgado os ficheiros sobre Epstein era porque implicavam o Presidente. Mais tarde, partilhou uma publicação que pedia um processo de destituição de Trump e disse que as tarifas de Trump causariam uma recessão. "Hora de lançar a bomba a sério: Donald Trump está nos arquivos de Epstein. Essa é a verdadeira razão pela qual não foram tornados públicos. Tem um bom dia, DJT!", escreveu Musk, depois de Donald Trump ter ameaçado cortar os subsídios às empresas de Musk, o que, nas suas palavras, pouparia "biliões". "Não levemos o caso Epstein tão a sério", aconselha o diretor fundador da Escola Carsey de Políticas Públicas, Michael Ettlinger. "Isto é provavelmente apenas provocação juvenil e insulto. O que mais importa no meio de todo este ruído é se Musk usará o seu dinheiro contra o projeto de lei de impostos e despesas. Se os deputados republicanos ficarem com medo dos concorrentes financiados por Musk, poderão não ter votos suficientes para aprovar o projeto". Quanto à conduta dos antigos aliados, Ettlinger diz que não se aplicam as lógicas de um Presidente ou de um empresário comuns: "Duvido que haja racionalidade. Ambos são pessoas narcisistas e instáveis, com egos enormes e um historial de comportamento irracional." Foi dessas personalidades que surgiu o "espetáculo" de quinta-feira à noite, considera Michael Ettlinger. "Tentar explicar isto em termos do comportamento humano normal dos seres humanos sãos é uma perda de tempo." Durante semanas, Musk queixou-se do projeto de lei orçamental, sem obter praticamente respostas do Presidente dos Estados Unidos. Segundo o site "Axios", há mais motivos que levam o multimilionário a indignar-se com o diploma e outras medidas do Governo. A legislação corta o benefício fiscal dos veículos elétricos, que tem ajudado os fabricantes de automóveis como a sua Tesla. Até ao final de abril, a empresa tinha investido pelo menos 240 mil dólares, cerca de 210 mil euros, em lóbi em prol do crédito, e Musk terá defendido que o crédito fiscal constasse da nova medida legislativa. Fim anunciado? Além disso, Musk, que trabalhava para a Casa Branca na qualidade de "funcionário especial do Governo", terá levantado a possibilidade de permanecer nessa função para lá do prazo de 130 dias estabelecido por lei para consultoria não remunerada. Responsáveis da Casa Branca rejeitaram tal hipótese. E o diretor-executivo da SpaceX queria que Administração Federal de Aviação (FAA) utilizasse o seu sistema de satélite, Starlink, para o controlo nacional do tráfego aéreo. O Governo não quis, devido ao aparente conflito de interesses, mas também por razões tecnológicas. "Acredito que Musk está a zelar pelos seus próprios interesses, particularmente pelos seus interesses comerciais", declara, ao Expresso, Patricia Crouse, especialista em políticas públicas da Universidade de New Haven. "Ele começou a perceber o quanto este projeto de lei poderia prejudicar os seus negócios, que já sofreram por causa da sua associação com Trump, e também entendeu que ele e Trump não estavam na mesma página politicamente e decidiu reduzir os seus prejuízos." Na quinta-feira, Trump chegou a cálculos semelhantes: cansou-se das queixas de Musk. Na Sala Oval, enquanto o chanceler alemão, Friedrich Merz, observava, perplexo, Trump troçou do olho negro de Musk (uma lesão recente) e questionou por que é que não o cobria. "Viu-se um homem muito feliz quando estava atrás da mesa da Sala Oval. Mesmo com um olho negro. Perguntei-lhe se queria um pouco de maquilhagem. Ele disse que não, o que é interessante." E foi mais longe: "O Elon e eu tínhamos uma ótima relação. Não sei se continuaremos a ter." Interesses comerciais de Musk em jogo O Presidente norte-americano acusou, então, o seu grande financiador de campanha de virar-se contra o projeto de lei apenas por interesse próprio, uma vez que o projeto não beneficiava a Tesla, a empresa de veículos elétricos de Musk. "Estou muito desapontado com Elon Musk", admitiu Donald Trump. "Ele não tinha qualquer problema com isso. De repente, tinha um problema, e só o desenvolveu quando descobriu que iríamos cortar benefícios aos veículos elétricos." Musk declarou, então, guerra aberta. Em questão de minutos, o multimilionário e barão da tecnologia começou a acusar o Presidente de mentir sobre o projeto de lei e de ser ingrato. "Sem mim, Trump teria perdido as eleições, os democratas controlariam a Câmara e os republicanos estariam a 51-49 no Senado", escreveu numa publicação no X. "Que ingratidão", rematou. "Com toda a honestidade, não consigo imaginar para onde isto vai, dados os dois egos fortes de Trump e Musk", reconhece Adrien Halliez, vendo em cada um deles capacidade de "prejudicar o outro". A pergunta que se impõe é, então: destruir-se-ão um ao outro? Ou alguém sairá por cima? "É verdade que alguns dos empreendimentos comerciais de Musk dependem fortemente, não só do financiamento federal, mas também da falta de supervisão federal", lembra Halliez, dando o exemplo do centro de dados que construiu para o seu modelo de inteligência artificial, Grok, em Memphis, que tem "padrões ambientais muito questionáveis". Perder um grande financiador No caso de Trump, o seu apoio junto da opinião pública depende, em certa medida, da capacidade de "manter unida a sua coligação populista, conservadora, que detém negócios tradicionais, e figuras da tecnologia", destaca o politólogo da Universidade de Drake. "Perder a terceira parte da coligação pode prejudicar Trump nas sondagens, mas ultimamente a popularidade de Musk tem sido inferior à de Trump, e não é claro se Musk conseguirá mobilizar as pessoas em apoio de algum projeto alternativo", explica Halliez, antevendo que o magnata da tecnologia não vá recorrer aos democratas e que um terceiro partido seja "improvável num futuro próximo". "Há entusiastas suficientes para um terceiro partido, interessados na política eleitoral, dispostos a doar e pacientes o suficiente para que uma força alternativa se forme e comece a ganhar disputas locais antes de se tornar competitiva a nível nacional, daqui a 10 a 20 anos, na melhor das hipóteses", questiona o investigador Adrien Halliez. "Musk pode estar a falar a sério, mas ninguém no mundo político parece ser um porta-voz fiável de um terceiro partido", argumenta ainda o professor. Não há, além disso, qualquer impulso para um impeachment neste momento. "A não ser que algo inesperado e inegável venha a público, um processo de destituição no atual Congresso é praticamente impossível", salienta Adrien Halliez, ainda que haja "muitos democratas e republicanos descontentes e infelizes hoje". A destituição colocaria várias questões: com que base argumentativa concordariam? Qual seria o tema de mobilização que defenderiam? Donald Trump fez pontaria aos volumosos negócios de Musk com o Governo federal, que constituem a alma do seu programa SpaceX. "A forma mais fácil de poupar dinheiro no nosso orçamento, milhares de milhões de dólares, é acabar com os subsídios e contratos governamentais de Elon Musk", ameaçou Trump, numa publicação na sua rede social. O preço das ações da Tesla caiu 14% na quinta-feira, o que mostra que, se Trump usar a máquina governamental contra Musk, o multimilionário da tecnologia sofrerá consequências. A resposta do empresário que quer ir a Marte foi ameaçar com o fim da cooperação da sua nave espacial Dragon, da qual os EUA dependem para transportar astronautas norte-americanos e mantimentos para a Estação Espacial Internacional. Horas depois, o multimilionário reagiu, contudo, a uma publicação no X que o incentivava a acalmar-se: "Bom conselho. Ok, não vamos desativar a Dragon." "O portefólio de Elon Musk é bastante diversificado atualmente, por isso pode perder ainda mais quando se trata da Tesla ou da SpaceX e outros negócios continuarão em funcionamento", desvaloriza Adrien Halliez. Patricia Crouse dá força a esta hipótese: "No final de contas, esta divergência pode prejudicar mais Trump e o Partido Republicano do que Musk. Musk é quem tem milhares de milhões de dólares para ajudar a eleger os republicanos. O seu apoio financeiro é uma grande parte do sucesso de Trump." Sem aqueles avultados montantes, os republicanos poderão ter problemas nas eleições intercalares de 2026. Contenção de danos? Para já, talvez Elon Musk já está a ameaçar os republicanos que votarem a favor deste projeto de lei, usando como alavanca as primárias. "E tem os recursos para o fazer, Trump e os republicanos têm de ter cuidado com isso, porque precisam do dinheiro de Musk muito mais do que ele precisa dos benefícios deles", esclarece Crouse. Michael Ettlinger também é defensor da teoria de que Trump tem mais a perder do que o diretor-executivo da Tesla e da SpaceX. "Musk será um homem muito rico no final disto tudo, independentemente do que acontecer com os contratos da sua empresa. Se Musk usar o seu dinheiro para retirar o apoio a Trump, poderá causar muitos danos ao Presidente e ao Partido Republicano. Qualquer ameaça pode plantar medo no coração dos líderes republicanos." É preciso, diz Hank Sheinkopf, responsável por mais de uma dezena de campanhas políticas e especialista em gestão de crise, não subestimar "um Musk furioso", mas "ameaças não valem muito, mesmo vindas de um homem rico". Steve Bannon, aliado de longa data de Trump e crítico de Elon Musk, sugeriu que havia motivos para deportar o multimilionário da tecnologia, que tem cidadania norte-americana. Bannon disse ao "New York Times": "Deviam iniciar uma investigação formal sobre o seu estatuto de imigração, porque tenho a forte convicção de que é um estrangeiro ilegal e deve ser deportado do país imediatamente". Elon Musk "queria ter a certeza de que beneficiaria de uma administração Trump", sublinha Sheinkopf. "Não conseguiu tudo o que queria e pagou um preço elevado para conseguir menos - centenas de milhões. Poderia fazer o mesmo, prejudicando Trump e os Republicanos, mas nunca se descarta a pessoa mais poderosa do universo, que é o Presidente dos Estados Unidos." Os conselheiros da Casa Branca agendaram uma chamada para sexta-feira para que possam negociar com Musk um acordo de paz, adianta o "Politico". Mesmo que a contenção de danos seja para já possível, os analistas têm insistido que a relação entre os dois homens de egos grandes será impossível de manter em bons termos. Em janeiro, o assessor político americano Hank Sheinkopf lembrava ao Expresso o histórico que ajudava a predizer os próximos acontecimentos. "No passado, Trump cansou-se rapidamente de qualquer pessoa suspeita de poder partilhar o centro do palco com ele. Desta vez, não deve ser diferente. Porque pensam as pessoas que há um novo Trump, quando continuamos a ver o Trump que conhecemos, a agir como sabemos que Trump age?". E rematou: "Há um ditado chinês: dois tigres não podem viver no topo de uma montanha." Catarina Maldonado Vasconcelos Jornalista Catarina Maldonado Vasconcelos