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FRANÇA - O PARTIDO DOS MEDIA JÁ ESTÁ EM CAMPANHA

Monde Diplomatique (Le)

2025-06-06 21:06:40

Também em França, «neutralizar os extremos» O partido dos media já está em campanha Pela primeira vez desde a Libertação do nazismo, o espaço público francês conta com um polo mediático de extrema-direita. Bem financiado, poderoso e diversificado, seduz a comunicação social conservadora e preocupa o labirinto dos media liberais. Estas duas alas do jornalismo dominante trabalham agora, cada uma no seu campo, na reorganização do campo político com vista às eleições presidenciais de 2027, Três semanas antes da primeira volta das eleições presidenciais de 1995, o conselheiro político-patronal Alain Minc lamentava que a votação não opusesse edouard Balladur a Jacques Delors, dois militantes da Europa liberal: «Estávamos a um milímetro de uma campanha de um país muito desenvolvido, muito sofisticado, entre o centro-direita e o centro-esquerda, à alemã, e temos uma campanha muito mais marcada pelo velho tropismo francês do sonho, da ilusão e do sentimento de que a política domina tudo» (LCI, 1 de abril de 1995). Depois de se ter empenhado em desacreditar os candidatos suscetíveis de impedir este duelo de siameses. a elite mediática francesa também remoeu a sua amargura contra um povo demasiado tosco e pervertido pelo «populismo». Muitas vezes afogada nas urnas, a esperança dos liberais renasce sempre. Como um eco de há trinta anos, a revista The Economist comentou a derrota eleitoral sofrida pelos dois grandes partidos britânicos nas eleições locais de abril passado. O semanário lamentou que o paraíso centrista ao alcance da mão esteja a desaparecer também no seu país: «Há apenas um ano, o Reino Unido parecia estar a sair de uma década de loucura pós-Brexit. Uma eleição, refrescante porque apagada, opunha então Rishi Sunak e sir Keir Starmer, dois tecnocratas vestidos de forma absolutamente banal, dois workaholics com ideias económicas muito convencionais Depois de sir Keir [o trabalhista] ter vencido, os ministros gabavam-se de que os investidores iriam acorrer a uma ilha de estabilidade num mar agitado. Mas hoje o populismo regressa de forma esmagadora» (2 de maio de 2025). Em França, os notáveis mediáticos estão a trabalhar arduamente para evitar um desastre semelhante nas eleições presidenciais previstas para daqui a dois anos. «Sair da crise política implica neutralizar os extremos», alerta a editorialista de política do Le Monde, Françoise Fressoz (31 de dezembro de 2024). Mas como fazer isso? Em 1995, a Frente Nacional (FN) atingiu 15%; a Reunião Nacional (Rassemblement National, RN) duplicou desde então esse resultado, e o nacionalismo reacionário está de vento em popa noutras partes do mundo. Há trinta anos atrás, os principais atores da informação política Le Monde, TF1, France Télévisions, Libération, Le Nouvel Observateur, France Inter, etc. concentravam uma temível força de ataque, cuja linha editorial oscilava entre o liberal-conservadorismo e o social-liberalismo; a sua influência limita-se agora aos setores metropolitanos das classes cultas; por fim, a concorrência dos media de extrema-direita desestabiliza-os. Com a ascensão do grupo Bolloré ~ CNews ~ Europe 1, Le Journal du dimanche , O crescente envolvimento mediático do católico tradicionalista Pierre-edouard Stérin, a eficácia de uma galáxia de influenciadores e canais no YouTube, sem esquecer a cumplicidade de títulos como Valeurs actuelles, Frontiéres e Le Figaro Magazine, ou das páginas de «Opinião» do Le Figaro (de onde provém eric Zemmour), o panorama mediático reorganizou-se em torno de dois polos. Um culturalmente liberal, o outro ultraconservador e próximo da extrema-direita, ambos compatíveis com o programa económico dos governos nomeados por Emmanuel Macron. Nestas condições, o equivalente contemporâneo do duelo Delors-Balladur sonhado há trinta anos , idealmente, um confronto entre Raphaêl Glucksmann e edouard Philippe = parece fora de alcance. A presença muito provável da RN na segunda volta das eleições presidenciais obriga a ajustar o cenário habitual[]. a direita da direita, «neutralizar os extremos» consistirá, portanto, em favorecer o ministro do Interior Bruno Retailleau ou Jordan Bardella, em detrimento de Marine Le Pen, considerada menos maleável, demasiado «social», demasiado crítica da União Europeia e demasiado indiferente à nova religião secular desta última, o apoio militar à Ucrânia. Maciçamente mediatizadas nos canais de informação em contínuo que são animados e consumidos pelos jornalistas políticos, as sondagens vêm apoiar esta estratégia. A que foi publicada pelo Le Figaro em 12 de maio passado tinha como título «2027: Le Pen perde terreno a favor de Bardella, Philippe favorito no bloco central», Deste molde sairão certamente centenas de cópias idênticas. Porque a «perda de terreno» salientada não diz respeito às intenções de voto, nem aos desejos de que um(a) candidato(a) se apresente, mas à resposta à pergunta: «Acha que a seguinte personalidade poderá acabar por ser candidata?» No caso de Marine Le Pen, a perda de terreno ultrapassa os vinte pontos entre fevereiro e maio (passando de 74% para 53%). E por uma boa razão: em 31 de março, Le Pen foi condenada a uma pena que a impedirá de se candidatar, a menos que o seu recurso seja bem-sucedido. «De qualquer forma», conclui brilhantemente o autor da sondagem do IFOP, «Jordan Bardella poderá vir a aparecer como o candidato natural de seu campo». Ora, o que pode haver de melhor para favorecer uma «aparição» do que precipitar um desaparecimento , ou alimentar uma rivalidade? Encontramos a mesma mistificação nas sondagens do outro lado do espectro político, geralmente para favorecer Raphaêl Glucksmann, o queridinho dos media no nicho (já lotado) dos candidatos putativos da esquerda não insubmissa, mas a acusação permanente à França Insubmissa (La France insoumise, LFI,) e a Jean-Luc Mélenchon continua a ser o prato principal do menu jornalístico francês. A tal ponto que nos perguntamos quantos postos de trabalho a tempo inteiro emprega a comunicação social parisiense para realizar um tal exercício, tanto mais estranho quanto os seus responsáveis concordam em considerar improvável uma vitória da LFI. Compadrio e união sagrada Duas semanas após a transmissão muito comentada de um programa da televisão pública contra Jean-Luc Mélenchon («Complément denquête», France 2, 24 de abril de 2025), um livro com o mesmo tema beneficiou de uma promoção fora do comum. De 6 a 8 de maio de 2025, enquanto eclodia um conflito armado entre a India e O Paquistão , duas potências nucleares e a fome assolava Gaza, os órgãos de informação Libération, France Inter, RTL, Valeurs actuelles, Le Monde, Le Nouvel Obs, BFM TV, Marianne, LCI e France Culture puseram-se de acordo sobre uma prioridade editorial: informar que o livro La Meute. Enquête sobre La France insoumise de Jean-Luc Mélenchon, acabava de ser publicado[]. O Acrimed, observatório francês dos media, teve de analisar o fenómeno duas vezes para reconstituir este tsunami de pluralismo r]. Num país que se diz fragmentado por todos os lados, a união sagrada dos media contra um partido de esquerda realiza um milagre: em 6 de maio, pode ler-se no sítio Internet do Le Point o elogio a uma investigação realizada por uma jornalista do Libération e por um antigo redator do L Express recém-contratado pelo Le Monde, ouvir a France, Inter mimar os dois autores na sua hora de maior audiência, alguns minutos antes de a France Culture fa7err mesmo; depois á a V7A7 da rewricta Marianne, da RTL e do sítio Mediapart. «Diriam hoje que a máquina insubmissa é uma máquina de produzir antissemitismo? Sim ou não?», pergunta suavemente Sonia Devillers na France Inter, nessa manhã, aos seus convidados, que, um pouco constrangidos por uma pergunta tão pouco subtil, se sentem obrigados a responder negativamente.. Para lá destes delírios partilhados (ou de um simples compadrio), a atual transformação do panorama mediático resume-se simplesmente ao seguinte: na ausência de grandes meios de informação de esquerda, a expansão do polo ultraconservador face a um bloco central sem fôlego provoca uma inflexão geral do discurso para a extrema-direita. Este movimento é frequentemente associado ao poder do grupo controlado por Vincent Bolloré, que está a «virar-se» para a RN ou os seus satélites, incluindo os Republicanos (Les Republicans = LR), a antiga «direita republicana». Esta apresentação é insuficiente. Muitos media não ligados ao multimilionário bretão, mas também intelectuais e responsáveis políticos que outrora «barravam» o partido da família Le Pen, SáO agora seus serviçais. Além disso, o modelo CNews - Europe 1 também seduz porque é simultaneamente barato, lucrativo em termos de audiência e pouco exigente profissionalmente. Porque, aconteça o que acontecer no mundo, o calendário editorial privilegia os três «I» canónicos , insegurança, islamismo, imigração 7, aos quais se acrescentam, desde há dezoito meses, um quarto Israel (defendê-lo) , e mesmo um quinto: Insubmissos (destruí-los). Neste pentágono mental, qualquer algoritmo é suficiente para encadear polémicas. E a câmara de ressonância das redes sociais torna o exercício uma brincadeira de crianças. A receita preferida de Sonia Mabrouk, entrevistadora estrela da CNews = Europe 1 e colunista do Journal du dimanche consiste em identificar uma intervenção estúpida, desajeitada ou distorcida de um militante insubmisso ou ecologista (um tuíte serve); exigir que um responsável do seu partido a desautorize e a sancione (aviso: nunca será suficiente); fazer a ronda dos que falam sobre tudo e todos para recolher a «viva condenação» feita por um deputado da extrema-direita, uma subministra macronista (que assim sairá do anonimato) ou Robert Ménard. Sintetizar tudo na rede x e depois servir tudo no estúdio da CNews, que se tornou o principal canal de notícias do país. Quem não tem cão, caça com gato... Um crime hediondo também serve. «A agressão de uma avó e da sua neta» por um «indivíduo muito conhecido dos serviços policiais» permite a Sonia Mabrouk perguntar a Jordan Bardella: «isto é sintoma de quê?» (20 de junho de 2023). Imaginamos o embaraço do líder da RN... Que responde sem hesitar que «este ataque é o sintoma da selvageria para a qual caminha a sociedade francesa». Três dias após o início da guerra em Gaza, Mabrouk não hesita em perguntar a Marine Le Pen se ela apoiaria a proposta de «levantar a imunidade dos deputados, nomeadamente os insubmissos, que não condenaram estes atos de terrorismo». Por fim, mas isso é quase rotina diária na CNews, quando, no passado dia 24 de março, em Rouen, um rabino foi «espancado, insultado, mordido» por «um menor de 16 anos conhecido por várias identidades marroquinas e palestinianas», Mabrouk sugere a Manuel Valls a explicação para essa agressão: «um antissemitismo ambiente alimentado pela extrema-esquerda e, em particular, pela França Insubmissa». Como que por magia, esta grelha de explicação desapareceu da CNews um mês depois, após o assassinato à facada de um jovem muçulmano numa mesquita do Gard. Nesse caso, a acusação de «islamofobia ambiente» feita por Bruno Retailleau provocou a ira de um jornalista no estúdio: «Acho abjeto colocar um alvo nas costas do ministro do Interior!» (27 de abril). Durante muito tempo confinado a nichos bem identificados, o jornalismo de extrema-direita exerce agora uma poderosa força de atração nas margens do polo liberal. Franz-Olivier Giesbert, que começou carreira no Nouvel Observa-teur, deu a um dos seus editoriais do Le Point o título «Sonia Mabrouk presidente» (3 de outubro de 2024). E o proprietário da BFM TV, Rodolphe Saadé, um multimilionário macronista, propôs a esta jornalista, que milita a favor de uma «união das direitas» que inclua a RN, que moderasse na BFM «um dos debates das eleições presidenciais». Sonia Mabrouk recusou a proposta, agradecendo a Saadé por «ter mimoseado o seu trabalho com tanta atenção. (...) Na minha modesta posição, tento que seja ouvida uma musiquinha por vezes esquecida, que é a das ideias»[ ] Tudo menos a esquerda Mas ela não é a única a interpretar esta partitura. Próximo da extrema-direita, Alexandre Devecchio desempenha o papel de maestro ideológico no Le Figaro e no Le Figaro Magazine, que agora publica as suas crónicas. As páginas de «Debate» do diário, pelas quais é responsável, acolhem principalmente jornalistas, intelectuais e universitários que se manifestaram disponíveis para votar na RN, seja por convicção, seja para barrar o caminho à LFI. Devecchio, que não poupa esforços, também se destaca na CNews, assim como Eugénie Bastié, a sua colega e cúmplice nas páginas de «Ideias» do Le Figaro, enquanto Luc Ferry, colunista do diário do grupo Dassault áS quintas-feiras, tem um programa aos domingos na LCI (grupo TF1). O ex-ministro da Educação de Jacques Chirac já repetiu várias vezes que «a LFI é infinitamente pior do que a Reunião Nacional» (6 de abril de 2025) e que, por conseguinte, votaria em Le Pen contra Mélenchon. Por mais que a hipótese de uma tal segunda volta esteja distante, ela proporciona um tema inesgotável para debates e declarações. A escolha de Luc Ferry não é isolada nas fileiras da direita burguesa: em julho passado, Pascal Perrineau, professor universitário e antigo pilar da Sciences Po, apelou à «barragem da Nova Frente Popular» (Le Figaro, 5 de julho de 2024). As barreiras do passado cederam a tal ponto que Alexandre Devecchio recebeu duas vezes uma proposta do macronista Denis Olivennes, chefe do polo de media do multimilionário Daniel Kretinsky, para dirigir.. a revista Marianne[]. E se duas publicações como o Le Figaro Magazine e o Le Point ainda se distinguem um pouco, é cada vez menos pela sua linha editorial: nenhum dos cinco «I» falta em nenhuma delas; a principal crítica que dirigem à RN prende-se com esta recusar um tratamento de choque neoliberal. é fácil adivinhar que o obstáculo é superável, sobretudo se Jordan Bardella, que o patronato se esforça por seduzir com algum sucesso, se tornar o candidato da RN em 2027. Um olhar superficial atribuiria facilmente a viragem para a extrema-direita da paisagem mediática francesa a um reequilíbrio: por que razão uma ideologia cujos diversos componentes reúnem cerca de 40% dos votos não haveria de beneficiar de meios de informação proporcionais à sua influência eleitoral? Em suma, os media estariam agora a refletir as relações de força política. Na realidade, eles também as moldam, através da «neutralização dos extremos» exigida por Françoise Fressoz e, antes dela, por Alain Minc. Cada um dos dois grandes polos do jornalismo francês está empenhado nisso. o fogo cruzado contra a LFI torna tudo isto evidente à esquerda, mas a saturação do espaço público por temas relacionados com os cinco «I» torna-o menos flagrante à direita. Contudo, o trabalho de recentramento exercido pelos media aparece mais claramente quando nos situamos no terreno económico e social: aí, CNews ~ Europe 1, Le Figaro, Le Journal du dimanche, Vincent Bolloré e as organizações de Pierre-édouard Stérin fazem tudo para trazer a RN de volta à empresa, à liberalização do comércio, à Aliança Atlântica, à Ucrânia. Já observada em Itália com Giorgia Meloni[ ], essa normalização (a união das direitas) ocorrerá tanto mais rapidamente quanto o polo mediático ultraconservador tiver favorecido, dentro da RN, as fações mais compatíveis com Os Republicanos de Bruno Retailleau. Este último, aliás, ajustou a mira a Marine Le Pen, que teria «provado que não era de direita»: «o seu programa económico está muito mais próximo do da secretária-geral da CGT do que do nosso» (Le Figaro, 16 de maio de 2025). Uma luta sem tréguas entre a direita e o centro apenas em questões de sociedade, culturais e de imigração; uma esquerda que só acede aos media para servir de saco de pancada ou para apoiar os liberais no seu duelo contra «os extremos»? Bloquear com sucesso o espaço público com base nestes parâmetros pressupõe uma população apática e amnésica. Trinta anos depois de 1995, os arquitetos de um tal cenário podem vir a ter idêntica deceção.O SERGE HALIMI e PIERRE RIMBERT ALEXANDRE BAPTISTA Can you feel me when / think about you? (2024) - Crédito: Hugo Delgado Cortesia da Zet Gallery, Braga [1] Nas eleições europeias de junho de 2024, a RN obteve 31,3% dos votos expressos, e depois 33,2%, com seus aliados, nas eleições legislativas que se seguiram imediatamente. [2] Charlotte Belaíche e Olivier Pérou, La Meute, Flammarion, Paris, 2025. [3] Maxime Friot, «Mélenchon: les journalistes politiques chassent en meute», e Pauline Perrenot, «Ce que nous dit l acharnement médiatique contre LFI», 6 de maio e 15 de maio de 2025, www. acrimed.org[4] Le Figaro, Paris, 7 de maio de 2025. [5] LeMonde.fr, 19 de dezembro de 2024. [6] Ler Benoít Bréville, «O modelo Meloni», Le Monde diplomatique , edição portuguesa, julho de 2023. SERGE HALIMI; PIERRE RIMBERT