PROCURA DE AUTOMÓVEIS ELÉCTRICOS ACELERA NOS AÇORES
2025-06-08 21:06:02

Procura de automóveis eléctricos acelera nos Açores Automóveis movidos a electricidade. O que há um par de décadas era quase que motivo de desdém, hoje é algo que assume contornos de desígnio da humanidade. E isto de automóveis que recorrem à electricidade como meio de locomoção, presentemente há-os das mais diversas tipologias: o carro híbrido que combina electricidade com gasolina ou gasóleo (HEV), o híbrido Plug-in (PHEV), cuja diferença para o HEV reside na presença de uma tomada de carga e de uma bateria de maior capacidade, o híbrido que utiliza uma bateria e um gerador elétrico (MHEV), o elétrico a célula de combustível (PCEV) e, claro, o cada vez mais predominante 100% elétrico e zero poluente, o BEV. Pelo menos nos países ditos desenvolvidos, pois os outros, e não são poucos, têm mais com que se preocupar, têm outras legítimas prioridades, a mobilidade elétrica está na ordem do dia, os Açores não são exeção. Estando nós afectos ao primeiro grupo, a mobilidade eléctrica é pois um tema incontornável para o comum cidadão automobilizado, quer se goste ou não. A isso motivam (e obrigam), por um lado, sensatas preocupações com o meio ambiente e, por outro, a lei. É bem sabido que, no que nos respeita, o Parlamento Europeu aprovou a Lei Europeia do Clima, que estabelece a meta da União Europeia (UE) de redução de emissões de gases com efeito de estufa para se alcançar a neutralidade climática até 2050. Sendo certo que automóveis movidos a electricidade não são novidade (o primeiro veículo elétrico de que há registo data de 1888 (!!!).De seu nome Flocken Elektrowagen, era uma charrete com um motor de 0,7 kW e uma bateria de 100 kg. Atingia a considerável (para a época) velocidade de 15 km/h. Mas o primeiro veículo considerado elétrico foi construído em 1835, pelo francês Thomas Davenport. Antes disso, já o norteamericano Benjamin Franklin (17061790), havia desenvolvido projetos de motores elétricos. No entanto, apesar de um ou outro projecto ter visto a luz do dia, como o caso dos táxis eléctricos, muito populares em Londres e Nova Iorque no início do século XX, só bem mais recentemente a indústria automóvel começou a apostar seriamente na pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização de automóveis movidos a electricidade, total ou parcialmente. Aconteceu nos anos 90 do século passado, sendo que, desde então a mesma tem vindo a crescer consideravelmente. Em 2011 uma viatura com tal propulsão atingiu a cifra de 10 mil unidades vendidas. No caso, o Mitsubishi MiEV (na Europa comercializaram-se como Citroën C-Zero e Peugeot), um recorde que consta do Guiness. A Aliança Renault-Nissan atingiu vendas globais de 100.000 veículos totalmente elétricos em julho de 2013. As vendas globais acumuladas de automóveis de passageiros e utilitários puramente elétricos ultrapassaram o marco de um milhão de unidades em Setembro de 2016. Em 2018, pela primeira vez em qualquer país, um carro totalmente elétrico liderou as vendas anuais do segmento de automóveis de passageiros, o Tesla Model 3.Em 2024, as vendas de automóveis eléctricos ultrapassaram os 17 milhões de unidades em todo o mundo, ultrapassando a fasquia dos 20% no mercado global de automóveis .Em 2025, voltou a ser um eléctrico, o eleito Carro do Ano na Eu-ropa (Renault 5 E-Tech). Em Portugal, o galardão foi para o Citroën C3, que venceu também na classe Citadino do Ano”, com a versão 100% .Em suma, e generalizando, a partir da segunda década do século XXI, a indústria automóvel mundial, salvo raríssimas excepções começou a “direccionar baterias” para o segmento de automóveis híbridos e 100% eléctricos. Os construtores já existentes no mercado redirecionaram as suas prioridades e outros surgiram exactamente pela crescente popularidade do carro eléctrico, em particular, construtores chineses. Repescando uma famosa campanha publicitária dos anos 70 do século passado de um conceituado construtor nipónico, o elétrico “veio para ficar”. Será? Em Portugal Em Portugal, onde nos inserimos, pese a insularidade (que em tudo pesa), a realidade é genericamente semelhante à da que se regista no todo do Velho Continente, com o mercado automóvel a refletir os desafios e mudanças com que se depara a indústria automóvel, balizadas pela sustentabilidade ambiental e evolução tecnológica, traduzida na crescente procura de veículos elétricos e híbridos. Os números assim o comprovam: Em 2024,19,9% dos 249.269 veículos novos comercializados foram elétricos, o que representou um aumento de 5,6 por cento relativamente ao mesmo período do ano anterior. Significativo é também o facto de, em 2024, 57,3 por cento dos veículos ligeiros de passageiros matriculados novos eram movidos a energias que não gasolina e gasóleo. E a tendência é de crescimento, atendendo aos dados de Dezembro do ano passado (do total de vendas, 25,5% foram automóveis elétricos) e, reforçando o pendor, a ver pelos dados já conhecidos de 2025: Desde o início deste ano, no nosso país foram matriculados 17.511 veículos 100% elétricos novos e 7.611 veículos 100% elétricos importados usados, o que representa um crescimento homólogo de 26,24% para os veículos novos e de 90,04% para os veículos importados usados, relativamente ao mesmo período de 2024. Só em abril de 2025 foram matriculados 5.962 veículos 100% elétricos, dos quais 4.094 novos. Um aumento de 40,53% face ao mesmo período do ano passado! Falando apenas de ligeiros de passageiros, de Janeiro a Abril de 2025, a venda de veículos totalmente elétricos cresceu 29,80%, face ao mesmo período de 2024. Ao contrário, o volume de vendas de veículos a combustão interna diminuiu 4,25%, no mesmo período. No total de vendas de automóveis ligeiros de passageiros novos no período compreendido entre Janeiro e Abril do corrente ano, 19,3% foram de 100% elétricos e 21,8% foram híbridos. Ou seja, 41,1% dos automóveis ligeiros de passageiros novos comercializados recorrem à electricidade. À data, existem 52 construtores automóveis com representação em Portugal, numero em constante crescimento, e praticamente todos têm modelos eléctricos/híbridos na gama disponível no país, algumas destas comercializando exclusivamente automóveis eléctricos, nomeadamente marcas de origem chinesa, relativamente recentes e emergentes no mercado, ou a Tesla e a Smart. Das referidas mais de 51 marcas, apenas uma (ainda) só comercializa veículos de combustão interna, a Bentley. As restantes, e não apenas as generalistas, apostam nos elétricos e híbridos. Veja-se os casos das elitistas Lamborghini, Maserati ou Porche, esta última com múltiplas propostas. No que respeita a preços, há-os para (quase) todas as carteiras: em Portugal, o eléctrico mais barato é comercializado por cerca de 16.900 euros (Dacia Spring) e o mais caro ronda os 250.000 euros (Porche Taycan Turbo GT Weissa-ch Pack). No que concerne à capacidade de bateria, isto é, quantos quilómetros se consegue percorrer antes de a recarregar, ou ficar parado, é inegável que os avanços tecnológicos têm permitido que esta mesma autonomia seja cada vez maior, já atingindo valores impensáveis não há muito tempo, como é o caso do Mercedes-Benz EQS 450+ Edition (801 quilómetros!!). Em termos médios, os veículos das gamas baixa e média 100% eléctricos dispõem de uma autonomia que varia entre 100 e os 500 quilómetros. Açores eletrifci am-se Nos Açores, a realidade de oferta é praticamente idêntica ao resto do país, quer em marcas, modelos disponíves e média de preços, sendo evidente a aposta das grandes empresas ligadas ao comércio ao comércio automóvel, quer através da representação de novas marcas de elétricos, seja na redobrada divulgação das propostas eletrificadas dos construtores tradicionais. O aumento da oferta proporciona o aumento da procura, tanto quanto a procura motiva o aumento da oferta. O Grupo ilha Verde (BYD, Nissan, Mazda, Hyundai, Honda, Dacia, Renault, Ford), é disto exemplo. Conforme atesta o empresário Antero Rego, “Em 2025, as vendas de automóveis elétricos nos Açores têm mostrado um crescimento significativo, alinhando-se com as tendências globais de transição para veículos mais sustentáveis e com as metas de redução de emissões de carbono. Um dos fatores mais determinantes é o aumento da diversificação da oferta parte dos fabricantes que têm ampliado a oferta de modelos elétricos, oferecendo opções mais acessíveis e variadas para diferentes perfis de consumidores, o que torna a compra de um veículo elétrico mais apetecível”. Mas, e que peso, face às vendas totais de automóveis ligeiros de passageiros e de ligeiros de mercadorias, terá a venda de eléctricos? O responsável do Grupo Ilha Verde para o setor do comércio automóvel é elucidativo: “Temos vindo a registar ano após ano, novas metas de crescimento do peso de veículos elétricos, relativo ao mercado total de vendas de automóveis, que é transversal à região e ao continente português. Terminamos o ano de 2024 com um peso de venda de veículos elétricos na Região na ordem dos 12% e de cerca de 18% para veículos híbridos. Tendo em conta as vendas registadas até ao momento, prevê-se para 2025 que o peso de veículos 100% elétricos ronde os 20% e 25% para veículos híbridos. No nosso caso pessoal, estamos a conseguir acompanhar esta tendência de crecimento e pela aposta de uma nova marca representada pela Ilha Verde desde 2023, vocacionada para veículos 100% elétricos, conseguimos reforçar esta tendência. Já em 2024 como em 2025 o peso das vendas de automóveis movidos a energias alternativas como os veículos 100% elétricos (BEV), híbridos Plug in (PHEV) e híbridos (HEV) já é maior do que os tradicionais veículos a combustão (gasolina e a gasóleo) e naturalmente que esta tendência tende a aumentar para o futuro, fruto da legislação europeia, que prevê que em 2035 na europa, apenas irá ser permitida a comercialização de veículos ligeiros de passageiros novos 100% elétricos”. Em suma, “as vendas de automóveis elétricos em 2025 nos Açores estão em ascensão, impulsionadas por incentivos, melhoria da infraestrutura e uma crescente conscientização dos consumidores sobre a importância da sustentabilidade e da redução da pegada de carbono, o que tem impulsionado a procura por opções de transporte mais ecológicas. O futuro parece promissor para a mobilidade elétrica na Região”, remata Antero Rego. Vamos então aos números da nossa Região: Em 2015 foram vendidos 13 automóveis 100% elétricos, os ditos BEV. No ano seguinte foram 68 (mais que os híbridos. Em 2017 aplicou-se a máxima da exeção que confirma a regra. Apenas 20 BEV foram adquiridos. Desde então tem sido sempre a subir:53 novos proprietários de elétricos 100% em 2018, 85 em 2019 e 144 em 2020. Na atual década, a subida tem sido sempre mais expressiva: em 2021 foram comprados 260 elétricos novos e em 2023, 528 condutores optaram por BEV. O anos passado foi ambíguo, os as vendas a descerem ligeiramente, não tendo sido ultrapassada a fasquia das 508 unidades comerializadas. Incapacidade das construtoras em assegurar produção por falta de alguma matéria prima, instabilidade financeira e política, muitas são as justificações para o verificado. Mas em 2024 os híbridos prosseguiram incólumes: venderam-se 857! E os números já conhecidos do corrente ano de 2025 não deixam margem para dúvidas que a procura de automóveis eléctricos está a a acelerar nos Açores. Até ao termo do primeiro trimestre já haviam sido comercializados 196 BEV (e 194 híbridos). Incentivos, é aproveitá-los enquanto existem De forma a estimular a procura por veículos movidos a eletricidade, estão em vigor diversos incentivos por parte dose organismos governativos. Se são, ou não, temporários, é esperar para ver. Dois deste incentivos são da iniciativa da Administração central e aplicamse por igual em todo o território luso: a isenção do Imposto Automóvel (IA),o que emagrece de modo simpático fatura de compra, e desobrigação de pagamento do IUC, o malfadado “selo do carro”. Não menos significativo é o apoio à mobilidade elétrica, o que na prática é a atribuição de um montante financeiro para (pós) ajudar a aquisição de um automóvel elétrico novo. Tal medida também se aplica em todo o país, embora nos Açores tenha contornos específicos, mas que pode ser acumulo com o apoio em vigor no continente. Lá, para ter acesso ao incentivo há que entregar um carro para abate, aqui não. Mas até a lei ser afinada (no continente), e agora obrigar a que o veículo para abate esteja na posse do requerente há pelo menos 10 anos, muito boa gente fez bom negócio ao comprar há ultima da hora um chaço por meia dúzia de euros e arrecadar os 4 mil euros previstos no programa de apoio. Nos Açores, no âmbito do Plano para a Mobilidade Elétrica, está em vigor o Decreto Regulamentar Regional n.º 8/2025/A, que é a terceira Terceira alteração ao Decreto Regulamentar Regional n.º 4/2021/A, de 26 de abril, que regulamenta a atribuição de incentivos financeiros para a introdução no consumo de veículos elétricos novos. São elegíveis para a atribuição dos incentivos constantes do presente diploma os veículos elétricos novos, introduzidos no mercado regional por meio de aquisição ou por contrato de locação financeira. O valor do incentivo financeiro para a introdução no mercado de um veículo automóvel ligeiro por pessoas singulares, limitado a uma unidade por candidato, é fixado em 10 % do preço de venda ao público, com IVA incluído, até ao limite máximo de 3000,00 EUR (três mil euros). Este montante pode ser majorado consoante algumas premissas, como a apresentação de comprovativo de abate de uma viatura a combustão interna, entre outras. De acordo com dados fornecidos pela Direção Regional da Energia, sobre o referido apoio, em 2021, quando arrancou o programa, foi alocada uma verba de 300 mil euros e recebidas 243 candidaturas, sendo 96 aprovadas. A dotação paga foi de 304 789,37 EUR . De salientar que nalguns anos o valor executado foi superior ao previsto porque foi efetuado reforço considerando a adesão. Em 2022, a dotação inicial foi aumentada para 326 mil euros e mais uma vez a dotação paga excedeu o inicialmente previsto, devidos às 229 candidaturas aprovadas das 323 submetidas. A dotação paga foi de 509 183,74 EUR . Em 2023, a dotação disponibilizada mereceu um reforço significativo, cifrando-se nos 800 mil euros. Foram apresentadas 546 candidaturas, aprovadas 262 e entregues 426 323,10 EUR Em 2024, a dotação afeta atingiu o milhão de euros (idêntico valor para 2025) No ano passado foram registadas 499 canidaturas, 282 das quais aprovadas. A verba dispendida foi de659814,28 EUR . Mas serão os atuais incentivos existentes para a aquisição de automóveis elétricos eficazes? Ou insuficientes? “Verificamos que os apoios são eficazes, uma vez que regista uma forte adesão por parte dos compradores de veículos 100% elétricos. Atualmente há dois tipos de apoios vocacionados para particulares e empresas. Os particulares podem beneficiar dos apoios da Região e da Républica que somando as partes diria que é um excelente apoio, acontece é que o apoio da Républica esgota com maior facilidade. Para além do veículo, existem também apoios para os carregadores que na sua complementaridade revelam ser benéficos e impulsionadores para quem pretende adquirir um veiculo elétrico. Quanto às empresas são os que mais aproveitam todas as vantagens fiscais e de incentivos disponíveis que em muito estimulam a opção de compra de carros elétricos nas empresas” , é a opinião de Antero Reo. Questionado se tais incentivos tenderão a desaparecer e se tal irá condicionar a procura por elétricos, o administrador do Grupo Ilha Verde diz que “Futurologia é sempre difícil, mas é certo que no presente, se acabassem os incentivos, a procura baixaria de forma vertiginosa. No futuro, com a democratização da tecnologia, com o aparecimento de modelos mais económicos e com a melhoria nas infraestruturas, ou seja, com a mudança de todo este paradigma, poderá não ser um problema a longo prazo”. Uma pequena nota de rodapé: alguns municípos portugueses, como Lisboa, Porto ou Funchal, isentam as viaturas elétricas do pagamento de parqueamento. Por cá, nem por isso... * jornal@diariodosacores.pt RUI LEITE MELO